Eis-ahi vai, meu amigo, o romance em que lhe fallei n’uma das minhas
últimas cartas de Portugal. Estava quasi todo copiado; e aqui nem
paciencia nem tempo me chegavam para as muitas correcções e alterações
que elle precisava; por limar lhe vai, e por limar irá para a imprensa:
tanto melhor para quem gostar de dizer mal, que não lhe faltará de quê.
Creio que é ésta a primeira tentativa que ha dous seculos se faz em
Portuguez de escrever poema ou romance, ou coisa assim de maior
extenção, n’este genero de versos pequenos, _octosyllabos_, ou de
redondilha como lhe chamavam d’antes os nossos. No meu resummo da
historia da lingua e da poesia portugueza, que vem no primeiro volume do
_Parnaso-Lusitano_ impresso ultimamente em París,—a so coisa minha que ha
n’aquella collecção, porque assim na escolha das peças, como na ordem e
systema da obra me transtornaram e me inxovalharam tudo com notas pueris,
ridiculas, e até malcreadas algumas,—n’esse resummo toquei de leve, e em
tudo o mais, sôbre a belleza d’estes nossos versos _octosyllabos_, que
nos são proprios a nós hespanhoes, tanto portuguezes como castelhanos, e,
para certos assumptos e certos generos de poesia, mais adequados do que
nenhuma outra especie de rhythmo. Boscan gaba-se de haver introduzido na
Peninsula os metros toscanos: hoje está averiguado com certeza que não
foi comeffeito elle o primeiro que nas duas linguas cultas das Hespanhas
compoz dos taes versos hendecasyllabos; mas é certo e alêm de toda a
dúvida que do tempo de Boscan e de Garcilasso em Castella, e logo de
Sá-de-Miranda e Ferreira em Portugal, começaram aquelles nossos metros
primitivos a cahir em mais desuso, a não se impregarem senão em certo
genero de poesia ligeira ou, segundo lhe os Francezes chamam, _fugitiva_.
Francisco Rodrigues-Lobo e muito depois D. Francisco Manuel-de-Mello
ainda n’elles fizeram romances historicos; Violante do Ceo muitas das
suas lindas e agora tam mal appreciadas poesias; ainda se fizeram
posteriormente eglogas, e o que os poetas da Phenix-renascida e os
campanudos vates das mil e uma academias do seculo XVII e XVIII chamavam
_romances_—que certamente não eram o que hoje strictamente se intende
por este nome. Em tempos mui posteriores felicissimamente os reviveu
o nosso grande e incomparavel Tolentino na satyra, e no tam faceto e
delicadissimo seu proprio e privativo genero da poesia _de sociedade_.
A nossa poesia primitiva e eminentemente nacional, a que do principio
e, para assim dizer, do primeiro balbuciar da nossa lingua, nos foi
commum com todos os outros povos que mais ou menos tiveram communhão
com a lingua provençal, primeira culta da Europa depois da invasão
septentrional, foi seguramente o romance historico e cavalheresco,
ingenua e ruda expressão do enthusiasmo de um povo guerreiro. Logo
vieram esses trovadores de Provença e nos insinaram modos mais cultos
porêm menos originaes e menos cunhados do sêllo popular: era coisa mais
de côrte. E como tal não pôde absorver, senão modificar, o que brotára
spontaneamente do natural da terra. Mas as duas feições ficaram ambas, e
deram assim á poesia portugueza um character talvez unico no mundo,—nas
Hespanhas decerto.
Em geral a poesia da meia-edade, singela, romanesca, apaixonada, de uma
especie lyrica-romantica que não tem typo nos poetas antigos, comquanto
deixou seu cunho impresso no caracter das linguas e poesias modernas de
todo o sul e occidente da Europa, não teve comtudo imitadores nem se
cultivou e apperfeiçoou nunca mais, quasi desde o completo triumpho dos
classicos, senão agora recentemente depois que as balladas de Bürger,
os romances poeticos de Sir W. Scott e alguns outros ensaios inglezes
e allemães, mas principalmente os do famoso escocez, introduziram este
gôsto e o fizeram _da moda_. Fatigados do grego e romano em architecturas
e pinturas, começámos a olhar para as bellezas de Westminster e da
Batalha; e o appetite imbotado da regular formosura dos Pantheons e
Acropolis, começou, por variar, a inclinar-se para as menos classicas
porêm não menos lindas nem menos elegantes fórmas da architectura e da
sculptura gothica.
Succedeu exactamente o mesmo com a poesia: infastiados dos Olympos e
Gnidos, saciados das Venus e Apollos de nossos paes e avós, lembrámo’-nos
de ver com que maravilhoso infeitavam suas ficções e seus quadros
poeticos nossos bis e tres-avós; achámos fadas e genios, incantos e
duendes,—um stylo differente, outra face de coisas, outro modo de ver,
de sentir, de pintar, mais livre, mais excentrico, mais de phantasia,
mais irregular, porêm em muitas coisas mais natural. O antiquado
agradou por novo, o obsoleto entrou em moda: arte mais fina, gôsto
mais delicado e de ingenhos mais cultos o soube impregar habilmente,
‘decalcar n’outra civilização.’ A poesia romantica, a poesia primitiva,
a nossa propria, que não herdámos de Gregos nem Romanos nem imitámos de
ninguem, mas que nós modernos creámos, a abandonada poesia nacional das
nações vivas resuscitou bella e remoçada, com suas antigas galas porêm
melhor talhadas, com suas feições primeiras porêm mais compostas. É a
mesma selvatica, ingenua, caprichosa e aeria virgem das montanhas que se
appraz nas solidões incultas, que vai pelos campos allumiados do pallido
reflexo da lua, involta em veos de transparente alvura, folga no vago
e na incerteza das côres indistinctas que nem occulta nem patenteia o
astro da noite;—a mesma beldade mysteriosa que frequenta as ruinas do
castello abandonado, da tôrre deserta, do claustro coberto de hera e
musgo, e folga de cantar suas endeixas desgarradas á bôcca de cavernas
fadadas—por noite morta e horas aziagas. É a mesma sem dúvida: porêm
o gôsto mais puro e fino de seus adoradores, sem alterar a lithurgia,
modificou os ritos e os accommodou para espiritos e ouvidos costumados
aos hymnos, menos variados porêm mais cadentes, da antiguidade classica.
Não ficou menos natural nem menos nacional, porêm muito mais amavel e
incantadora a nossa poesia primitiva assim resuscitada agora.
Muito antes do nomeado escocez ja tinha havido tentativas para
nacionalizar a poesia moderna e a libertar do jugo da theogonia
d’Hesiodo:—mas a propria e verdadeira restauração da poesia dos
trovadores e menestreis, sem questão nem disputa, só W. Scott a fez
popular e geral na Europa.—Com ella se restauraram tambem os metros
simples e curtos que mais naturaes são ao stylo cantavel, essencial ás
composições d’aquelle genero.
Depois de muitas tentativas, de exame longo e reflectido, eu por mim
convenci-me de que o metro proprio e natural de nossa lingua para
este genero de poesia, e para todos os generos populares, não era o
hendecasyllabo, o que dizemos vulgarmente heroico. Os portuguezes são
uma nação poetica, a sua lingua naturalmente se presta e spontanea se
offerece ás fórmas e cadencias metricas; os nossos mais rudos camponezes
improvisam em seus serões e festas com uma facilidade que deve de
espantar os extrangeiros: mas observe-se que o metro d’estes improvisos é
sempre sem excepção alguma o de redondilha de oito syllabas, rara vez o
da endexa; acaso farão os versos compostos visivelmente de dois metros,
isto é, os alexandrinos ou dittos de arte-maior. A causa é óbvia; aquella
é a medição mais natural que lhes offerece a musica da lingua.
Entre as canções antiquissimas conservadas nos dois cancioneiros, o do
Collegio dos Nobres (impresso por Sir Charles Stuart em París) e o de
Rezende, ha muita variedade de metros; mas outras poesias mais antigas,
os romances populares ou _xácaras_, que por tradição immemorial se
conservam entre o povo, principalmente nas aldeias, todos são no metro
octosyllabo ou em endexas. Logo direi aqui alguma coisa mais de vagar
sôbre éstas curiosissimas, e tam desprezadas mas tam interessantes,
reliquias da nossa archeologia.
O genero romantico não é coisa nova para nós. Não fallo em relação aos
primeiros seculos da monarchia: restam-nos ainda _specimens_ das canções
que não serão talvez de Gonçalo Hermigues, de Egas Moniz, d’elrei D.
Pedro Cru, mas são antiquissimos documentos de certo. As trovas dos
Figueiredos, apezar do tam suspeito testimunho de Fr. Bernardo de Brito,
creio, por convicção intima, que são das mais antigas composições
poeticas da lingua que chegaram até nós. Não alludo porêm a epochas
tam remotas e incultas. Depois de introduzido o gôsto classico por
Sa-Miranda, e Ferreira principalmente, depois de esquecidas as graças
singellas de Bernardim Ribeiro pelos mais ataviados primores de Camões
e Bernardes, ainda então houve quem de vez em quando deixasse a lyra
de Horacio e a frauta de Theocrito para tocar o alahude romantico dos
menestreis. O proprio auctor dos Lusiadas nas canções, que, depois
d’aquella, são sua melhor composição, para meu gôsto, n’essas canções
tam bellas e tam profundamente sentidas, tam repassadas de melancholia
suavissima, em alguns episodios dos mesmos Lusiadas, foi todo romantico,
e felicissimamente o foi. Francisco Rodrigues-Lobo, segundo ja
observei, em muitas das pequenas peças que se incontram dispersas pelo
_Pastor-peregrino_, pela _Primavera_, e nos seus romances moiriscos
e historicos, é eminentemente romantico. Tal é Jeronymo Cortereal no
_Naufragio-de-Sepulveda_, quando o deixam com a natureza e lhe permittem
ter _senso commum_ as loucuras mythologicas com que perdeu tam bem
escolhido assumpto, tam bellas scenas.
Deixando outros muitos, dos quaes o menor exame facilmente mostrará o
mesmo, citarei aquelle romancesinho de Gaia e do rei Ramiro, que V.
descobriu em Londres com o precioso achado dos papeis e livros do nosso
infeliz Oliveira.
Depois que, na extincção dos Jesuitas, e pelos esforços da benemerita
Arcadia se restauraram as bellas-letras e a lingua, e o verdadeiro gôsto
poetico affugentou os _acrostichos_ e os _labyrintos_ seiscentistas, o
genero classico resuscitou mais puro e tam bello nas lyras do elegante
e puro Garção, do altissonante Diniz, do sublime Filinto, do numeroso
Bocage, do classico Ribeiro-dos-Sanctos, do ingenuo Maximiano Tôrres,
do galantissimo Tolentino, do philosopho Caldas; mas o genero romantico
injustamente involvido na proscripção do seiscentismo, esse desprezado
e perseguido, ninguem curou d’elle, julgaram-n’o sem o intender,
condemnaram-n’o sem o ouvir.
No meu poemasinho do Camões aventurei alguns toques, alguns longes de
stylo e pensamentos, annunciei, para assim dizer, a possibilidade da
restauração d’este genero, que tanto tem disputado na Europa litteraria
com aquelloutro, e que hoje coroado dos louros de Scott, de Byron e de
Lamartine vai de-par com elle, e, não direi vencedor, mas tambem não
vencido.
D. Branca, essa mais decididamente entrou na lice, e com o alahude do
trovador desafinou a lyra dos vates; outros dirão, não eu, se com feliz
ou infeliz successo.
Não é portanto, em nenhum sentido, novo hoje para a litteratura
portugueza o genero romantico, nem me appresento agora com este meu
romancesinho ao público portuguez a pedir privilegio de invenção ou
patente de introducção. Se reclamo aqui prioridade é somente em ter
instaurado as antigas e primitivas fórmas metricas da lingua em uma
especie de poesia que tambem foi a primitiva sua, e ao menos a mais
antiga de que tradição nos chegou.
De pequeno me lembra que tinha um prazer extremo de ouvir uma criada
nossa, emtôrno da qual nos reuniamos nós os pequenos todos da casa, nas
longas noites de hinverno, recitar-nos meio cantadas, meio rezadas,
éstas xácaras e romances populares de maravilhas e incantamentos, de
lindas princezas, de galantes e esforçados cavalleiros. A monotonia do
canto, a singelleza da phrase, um não-sei-quê de sentimental e terno e
mavioso, tudo me fazia tam profunda impressão e me inlevava os sentidos
em tal estado de suavidade melancholica, que ainda hoje me lembram como
presentes aquellas horas de gôso innocente, com uma saudade que me dá
pena e prazer ao mesmo tempo[4].
Veio outra edade, outros pensamentos, occupações, estudos, livros,
prazeres, desgostos, afflicções—tudo o que compõe a variada tea da
vida,—e da minha tam trabalhosa e trabalhada vida!—tudo isso passou; e
no meio de tudo isso, lá vinha de vez em quando uma hora de solidão e de
repouso,—e as noites da minha infancia e os romances incultos e populares
da minha terra a lembrarem-me, a lembrarem-me sempre.
Lendo depois os poemas de Walter Scott, ou, mais exactamente, suas
novellas poeticas, as _ballads_ allemans de Bürger, as inglezas de
Burns, comecei a pensar que aquellas rudes e antiquissimas rhapsodias
nossas continham um fundo de excellente e lindissima poesia nacional, e
que podiam e deviam ser aproveitadas.
Em París fui ver o cancioneiro do Collegio dos Nobres na defeituosa
edição de Sir Charles Stuart; depois voltando a Portugal tornei a
percorrer o de Rezende: no primeiro nada, no segundo pouco achei do
romance historico ou narrativo. D’ésta última especie não ha impresso
mais que esses duvidosos fragmentos conservados por Fr. Bernardo de Brito
e por Miguel Leitão.
Recorri á tradição: estava então eu fóra de Portugal; stimulava-me a
leitura dos muitos ensaios extrangeiros que n’esse genero íam apparecendo
todos os dias em Inglaterra e França, mas principalmente em Allemanha.
Uma estimavel e joven senhora de minha particular amizade—a quem por
agradecida retribuição é dirigida a introducção do presente romance—foi
quem se incumbiu de me procurar em Portugal algumas cópias das xácaras e
lendas populares.
Depois de muitos trabalhos e indagações, de conferir e estudar muita
cópia barbara, que a grande custo se arrancou á ignorancia e acanhamento
de _amas-sêccas_ e lavadeiras e saloias velhas, hoje principaes
depositarias d’esta archeologia nacional,—galantes cofres, em que
para descobrir pouco que seja é necessario esgravatar como o _pullus
gallinaceus_ de Phedro,—alguma coisa se pôde obter, informe e mutilada
pela rudeza das mãos e memorias por onde passou; mas emfim era alguma
coisa, e forçoso foi contentar-me com o pouco que me davam e que tanto
custou.
Assim consegui umas quinze rhapsodias ou, mais propriamente, fragmentos
de romances e xácaras que em geral são visivelmente do mesmo stylo,
mas de conhecida differença em antiguidade, todavia remotissima em
todos. Comecei a arranjar e a vestir alguns com que ingracei mais; e
para lhe dar amostra do modo por que o fiz, adeante copio um dos mais
curiosos[5], ainda que não dos menos estropiados, e com elle o restaurado
ou recomposto por mim, o melhor que pude e soube sem alterar o fundo da
historia e conservando, quanto era possivel, o tom e stylo de melancholia
e sensibilidade que faz o principal e peculiar character d’estas peças.
A minha primeira idea foi fazer uma collecção dos romances assim
reconstruidos e ornados com os infeites singelos porêm mais
symetricos da moderna poesia romantica, e publicá-la com o titulo de
_Romanceiro-portuguez_, ou outro que tal, para conservar um monumento
de antiguidade litteraria tam interessante, e de que talvez só a lingua
portugueza, entre as cultas da Europa, careça ainda; porque de quasi
todas sei, e de todas creio, que se não pode dizer tal[6].
Mas sobreveio tanta interrupção, tanta distracção de tam variado genero,
mortificações, cuidados, trabalhos mais serios; emfim desisti da impreza.
Ja tinha decorrido muito tempo, e voltado eu a Portugal, lembrando-me
sempre de vez em quando este impenho tam antigo e tam fixo; e a occasião
a fugir-me. Uma circumstância fatal e terrivel me fez voltar ás minhas
queridas antigualhas. Lançado n’uma prisão pela maior e mais patente
injustiça que jamais se ouviu[7], voltei-me, para occupar minha solidão
e distrahir as amarguras do espirito, aos meus romances populares, que
sempre commigo têem andado, como uma preciosidade, que bem sei não avalia
ninguem mais, de que muita gente rirá, mas que eu apprecio, e me ponho
ás vezes a contemplar, e a estudar como um antiquario fanatico a quem se
vão as horas e os dias deante d’um tronco de estatua, d’um capitel de
columna, d’um pedaço de vaso etrusco, d’um bronze ja carcomido e informe,
desinterrado das ruinas de Pompeia ou de Herculano. Mas quantos Davids
e Canovas não faz, quantos Raphaeis e Miguel-Angelos não fez o estudo
d’esses fragmentos que despreza porque mais não intende o vulgo ignorante!
Assim passei muitas horas de minha longa e amofinada prisão, suavizando
mágoas e distrahindo pensamentos.—Tinha eu começado a ageitar outro
romance que originalmente se intitula _A Silvana_, cujo assumpto notavel
e horroroso exigia summa delicadeza para se tornar capaz de ser lido sem
repugnancia ou indecencia. Era nada menos que uma nova Myrrha, ou antes
o inverso da tragica, interessante, mas abominosa historia da mythologia
grega; é um pae namorado de sua propria filha!—A filha joven, bella,
virtuosa, sancta emfim.—A difficuldade do assumpto irritou o desejo de
luctar com ella e vencê-la se possivel fosse. Dava larga o tempo, pedia
extenção a natureza dos obstaculos; o que fôra começado para uma xácara,
para uma cantiga, ou, como lhe chamam Allemães e Inglezes, para uma
_ballada_, sahiu um poemeto de quatro cantos, pequenos sim, porêm muito
maiores do que eu pensei que fossem, e do que geralmente são taes coisas.
Mudei-lhe o titulo e chamei-lhe _Adozinda_, que soa melhor e é portuguez
mais antigo. O fundo da historia, as circumstâncias do desfecho d’ella
são conservadas do original; o ornato, o mechanismo do maravilhoso é
outro mas accommodado, creio eu, ao genero e á indole do assumpto.
Mando-lhe aqui tambem uma cópia do romance original para ver e combinar.
É dos mais mutilados e desfigurados, mas certamente dos que têem mais
visiveis signaes de vetustade quasi immemorial[8].
Ora eis-aqui, meu amigo, a historia e origem da minha _Adozinda_, gerada
no exilio, nascida entre sustos, criada na miseria e padecimentos de
uma prisão. Entre tudo o que tenha rabiscado de prosas e versos este
romancesinho é a composição minha a que tenho mais amor pelas memorias
que me lembra, pelas affecções que me desperta.—Que de coisas passaram
por mim durante o tempo que o compuz, os intervallos tam longos em que o
deixei!—até o nascimento e a morte de uma filha unica, tam querida e para
sempre chorada!...
Adeus, meu amigo: não sei o que ahi vai escripto, nem como. São ideas
sem nexo, pensamentos desatados, coisas á toa como o espirito de quem
as escreve. Lea-as assim, e assim se imprimam se porventura estão em
termos d’isso,—do que muito duvido, porque eu por mim, nem que me dessem
os louros de Camões, ou me fizessem apotheoses como a Homero, me punha
a corrigir, nem siquer a rever o que ahi vai escripto, quer prosa quer
versos[9].
Londres, 14 d’Agosto de 1828.