Entretanto o telescopio das montanhas Penhascosas, antes de servir ao

Gun-Club, prestou immensos serviços á astronomia.

Graças ao poder de penetração de tal instrumento, sondaram-se até aos

ultimos limites as profundezas do céu, poderam medir-se com rigor os

diametros apparentes de muitas estrellas, e até M. Clarke, membro do

pessoal technico de Cambridge, decompoz a _crab nebula_[93] de Taurus,

que o reflector de lord Rosse não lográra reduzir.

CAPITULO XXV

ULTIMOS PORMENORES

Contava já vinte e dois dias o mez de novembro, e a partida suprema

devia realisar-se dez dias depois. Faltava ainda conseguir feliz exito

n'uma unica operação, mas delicada, perigosa, que demandava infinitas

precauções, e contra o bom resultado da qual ajustára o capitão Nicholl

a sua terceira aposta.

Era o caso, carregar a Columbiada introduzindo-lhe as quatrocentas mil

libras de algodão-polvora. Pensára Nicholl, e com justo fundamento

talvez, que da manipulação de tão formidavel quantidade de pyroxylo

haviam de provir graves catastrophes, e que, quando peior não

succedesse, aquella massa eminentemente explosiva havia de inflammar-se

por si mesma sob a pressão do projectil.

Havia n'isto serios perigos, que maiores se tornavam pela negligencia e

leviandade habitual dos americanos. Haja vista o que succedeu durante a

guerra federal: ninguem se incommodava a tirar o charuto da bôca para

carregar uma bomba. Mas lá estava Barbicane, que tinha a peito chegar a

bom resultado e não naufragar já dentro do porto; que escolheu por

consequencia os melhores operarios, e que os fez trabalhar debaixo das

suas proprias vistas, não os largando de olho um só momento, conseguindo

assim á força de prudencia e de precaução, pôr a seu favor todas as

probabilidades de bom exito.

Antes de tudo, teve Barbicane o maior cuidado em não mandar a carga

inteira de uma vez para o recinto de Stone's-Hill, senão a pouco e pouco

e em caixotes perfeitamente fechados. As quatrocentas mil libras de

pyroxylo foram depositadas em pacotes de quinhentas libras, dando assim

para oitocentos grandes cartuchos fabricados com o maior esmero pelos

mais habeis pyrotechnicos de Pensacola. Cada caixão tinha capacidade

para dez cartuchos, e os caixões íam chegando uns após outros pela via

ferrea de Tampa-Town; por esta fórma nunca havia a um tempo mais de

cinco mil libras de pyroxylo dentro do recinto. Caixão que chegava era

logo descarregado por operarios descalços, e cada cartucho transportado

para o orificio da Columbiada para dentro da qual descia por meio de

guindastes manobrados a braço.

Tinham-se posto de parte todas as machinas que trabalhavam a vapor, e

apagado todos os fogos n'um circuito de duas milhas de raio. Já era mais

que bastante ter que preservar dos ardores do sol, mesmo em novembro,

aquellas massas de algodão-polvora.

O trabalho, por este motivo, era de preferencia feito de noite ao clarão

de uma luz produzida no vacuo por meio dos apparelhos de Ruhmkorff, que

ministrava uma illuminação artificial que chegava ao fundo da

Columbiada. Dentro do canhão ficavam os cartuchos arrumados com perfeita

regularidade e ligados uns aos outros por meio de um fio metallico

destinado a conduzir instantaneamente ao centro de cada um d'elles a

faisca electrica.

E effectivamente por meio da pilha, é que se havia de dar fogo aquella

massa de algodão-polvora.

Os fios metallicos todos envolvidos em capas de substancia isoladora,

iam reunir-se em um só n'um estreito orificio aberto na altura em que o

projectil havia de ficar; n'esse ponto atravessavam a espessa parede de

ferro fundido, subindo depois até ao solo por um dos respiradouros do

revestimento de pedra, especialmente reservado para este fim.

A partir do vertice de Stone's-Hill corria o fio por sobre postes pelo

espaço de duas milhas, terminando n'uma pilha de Bunsen munida do

competente apparelho de interrupção. Por consequencia logoque que se

carregasse no botão do apparelho a corrente electrica restabelecia-se

instantaneamente e ía dar fogo ás quatrocentas mil libras de

algodão-polvora. Claro está que a pilha só tinha de funccionar no ultimo

momento.

A 28 de novembro, já os oitocentos cartuchos estavam arrumados no fundo

da Columbiada. Lográra bom exito esta parte da operação.

Mas quantos incommodos, quantas inquietações, quantas luctas tinha

soffrido ou sustentado o presidente Barbicane? Debalde prohibíra a todos

a entrada de Stone's-Hill; todos os dias um ou outro curioso subia por

escalada as palissadas, e alguns houve que, levando a imprudencia até á

loucura, foram pôr-se a fumar mesmo no meio dos fardos de

algodão-polvora. Barbicane tinha ataques de furor todos os dias. J.-T.

Maston fazia quanto em si cabia para o auxiliar, dando caça aos intrusos

com grande vigor, e apanhando as pontas de charuto ainda a arder que os

yankees deitavam para toda a parte. E a tarefa era de estafar, que mais

de 300:000 pessoas faziam cêrco em volta das palissadas. Verdade é que

Miguel Ardan tambem se offerecêra para escoltar os caixões até á bôca da

Columbiada; mas o presidente do Gun-Club, que o apanhou em propria

pessoa com um enorme charuto na bôca, ao tempo que ia perseguindo alguns

imprudentes a quem dava assim tão funesto exemplo, logo percebeu que não

podia contar com tão intrepido fumista, e viu-se obrigado a faze-lo

vigiar a elle, e com muita especialidade.

Emfim, como é certo que ha um Deus especial para os artilheiros, não

houve a menor explosão, e conseguiu-se a final pôr a carga inteira a são

e salvo. Muito duvidosa estava portanto a terceira aposta do capitão

Nicholl. Faltava só introduzir o projectil na Columbiada e collocá-lo em

cima da espessa camada de algodão-polvora.

Antes porém de se dar começo a esta ultima operação, foram collocados e

arrumados no wagon-projectil todos os objectos necessarios aos

viajantes, que eram bastante numerosos e que, se tivessem deixado fazer

a Miguel Ardan a sua vontade, dentro em pouco teriam enchido todo o

espaço reservado para as pessoas. Ninguem imagina que cousas o amavel

francez queria levar para a Lua. Uma verdadeira carregação de

inutilidades. Interveio porém Barbicane, e não houve mais remedio de que

reduzir-se ao estrictamente necessario. Na caixa dos instrumentos ía

grande numero de barometros, thermometros e de oculos de alcance.

Os viajantes estavam com curiosidade de examinar a Lua no decurso da

viagem, e levavam, para facilitar o reconhecimento d'aquelle novo mundo,

um excellente mappa de Beer e Moedler, o _Mappa selenographico_,

publicado em quatro folhas, e que, com justo fundamento, tem fama de

verdadeira obra prima de observação e paciencia. Reproduz este mappa com

escrupulosa exactidão os mais insignificantes pormenores da face do

astro que olha para a Terra; montanhas, valles, circos, crateras, picos,

ranhuras, tudo ali se encontra com exactidão nas dimensões e fidelidade

na orientação e denominações, desde os montes Doerfel e Leibnitz, cujas

altas cumiadas se erguem no extremo oriental do disco até ao _Mare

Frigoris_, que se estende pelas regiões circumpolares do norte.

Era portanto este mappa, para os viajantes, um guia precioso, porque

lhes tornava possivel o estudo do paiz, antes de lá porem os pés.

Levavam tambem os viajantes tres _riffles_ e tres carabinas de caça do

systema de bala explosiva, e alem d'isto grande quantidade de chumbo e

polvora.

Dizia a este respeito Miguel Ardan: «Nós não sabemos com quem vamos lá

haver-nos; sejam homens ou sejam animaes podem levar a mal que lhes

vamos fazer uma visita! Por consequencia convem que cada qual tome as

suas precauções».

Acrescentaremos, que as armas de defeza pessoal iam acompanhadas de

picaretas, alviões, serras de mão e a mais ferramenta indispensavel, sem

fallar dos vestuarios adequados para todas as temperaturas, desde o frio

das regiões polares até aos calores da zona torrida.

Miguel Ardan desejava levar na expedição certo numero de animaes, que se

não chegava a ser um casal de cada uma das especies conhecidas, é porque

Ardan não reputava cousa necessaria acclimar na Lua nem serpentes, nem

tigres, nem crocodilos, nem quaesquer outros animalejos damninhos.

«Tanto não, dizia elle a Barbicane, mas alguns animaes de carga, por

exemplo bois, vaccas, burros ou cavallos, não só haviam de fazer bello

effeito na paizagem, como nos haviam de servir de grande utilidade.

«Estou de accordo, meu caro Ardan, respondia o presidente do Gun-Club,

mas o nosso wagon-projectil é que não é nenhuma arca de Nóe. Nem tem

capacidade que chegue, nem para isso foi destinado; por consequencia

fiquemo-nos nos limites do possivel.»

Finalmente, depois de longa discussão, concordou-se em que os viajantes

tinham de se contentar em levar uma excellente cadella de caça que

pertencia a Nicholl, e um vigoroso Terra-Nova de força prodigiosa.

Entraram tambem no numero dos objectos uteis muitas caixas de sementes

das mais usuaes. Miguel Ardan, por sua vontade levaria tambem alguns

sacos de terra para as semear. Em todo o caso, sempre foi mettendo a um

canto do projectil uma duzia de arbustos embrulhados em bainhas de

palha.

Restava ainda a questão de viveres, porque necessario era ir prevenido

para o caso de arribar a alguma região da Lua completamente esteril.

Barbicane tanto fez, que conseguiu metter no projectil provisões para um

anno. É necessario acrescentar, para que ninguem d'isto se admire, que

estes viveres consistiam em conservas de carnes e legumes, reduzidas ao

minimo volume pela acção da prensa hydraulica, que todavia continham

grande abundancia de elementos nutritivos; a variedade é que não era

grande; mas tambem n'uma expedição d'aquellas não era occasião propria

para alguem se mostrar niquento. Levavam tambem os viajantes uma reserva

de aguardente, que montaria a uns cincoenta gallões[94], e agua para

dois mezes apenas, porque, na verdade, em consequencia das ultimas

observações astronomicas, já ninguem punha em duvida a existencia de

certa quantidade de agua á superficie da Lua. Quanto a viveres,

reputar-se-ía até insensato quem suppozesse que habitantes da Terra não

haviam de lá encontrar farto alimento.

Miguel Ardan não conservava sombra de duvida a tal respeito. Se a

conservára por certo não estaria decidido a partir.

«E demais, disse elle um dia aos amigos, os camaradas cá da Terra de

certo nos não hão de abandonar completamente, antes terão todo o cuidado

em nos não esquecer.

[Figura: Desde pela manhã uma multidão... (pag. 236).]

--Certamente, respondeu J.-T. Maston.

--Como se entende isso? perguntou Nicholl.

[Figura: Fogo! (pag. 241).]

--Muito simplesmente, respondeu Ardan. Porventura não continua a

Columbiada a estar no mesmo logar? Pois então! não poderão mandar-nos

obuzes carregados de viveres que nós esperaremos em dias prefixos, por

exemplo, todas as vezes que a Lua se apresentar em condições favoraves

de zenith, senão de perigeo, isto é, quasi uma vez por anno?

--Hurrah! hurrah! clamou J.-T. Maston como quem lá tinha a sua idéa;

isso é que é bem dito! De certo, estimaveis amigos, de certo que vos não

havemos de esquecer!

--Conto com isso!

«E assim teremos, como acabaes de ver, e com toda a regularidade

novidades do globo, e pela nossa parte tambem, só se formos muito pouco

habilidosos é que não havemos de conseguir pôr-nos em communicação com

os nossos bons amigos da Terra!»

Respirava n'estas palavras tão grande confiança, que Miguel Ardan com o

seu ar resoluto e soberbo denodo teria levado atrás de si o Gun-Club

inteiro. Tudo quanto Ardan dizia parecia simples, elementar, facil, de

bom exito seguro; era preciso que alguem estivesse na realidade agarrado

com muito apoucamento a este miseravel globo terraqueo, para que

ouvindo-o se não promptificasse a ser companheiro dos tres viajantes na

sua expedição lunar.

Logoque ficaram collocados e arrumados no projectil os diversos

objectos, introduziu-se entre os respectivos tabiques a agua destinada a

amortecer a repercussão, e no recipiente proprio o gaz de illuminação.

De chlorato de potassa e de potassa caustica mettêra Barbicane, que se

arreceiava das demoras imprevistas no caminho, no projectil, quantidade

tal d'estas substancias que chegava para renovar o oxygenio e absorver o

acido carbonico por espaço de dois mezes. A restituição ao ar das suas

qualidades vivificadoras e a purificação completa d'elle, estavam a

cargo de um apparelho extremamente engenhoso, que funccionava

automaticamente. Conseguintemente estava prompto o projectil, e nada

mais restava a fazer senão po-lo no fundo da Columbiada, operação aliás

cheia de difficuldades e de perigos.

Conduziram o enorme obuz ao cume de Stone's-Hill, onde ficou seguro e

suspenso de possantes guindastes por cima do poço de metal.

Aquelle momento foi palpitante! Se succedesse quebrarem-se as cadeias

com o enorme peso, a quéda de similhante massa seguramente teria

produzido instantanea inflammação do algodão polvora. Felizmente não

succedeu assim, e algumas horas depois, o wagon-projectil que descêra

lentamente pela alma do canhão, descansava em cima da sua cama de

pyroxylo, verdadeiro _édredon_ fulminante. O unico resultado que veio da

pressão do projectil foi ficar mais atacada a carga da Columbiada.

«Perdi», disse o capitão, entregando ao presidente Barbicane a quantia

de tres mil dollars.

Barbicane não queria receber dinheiro de um companheiro de viagem; teve

porém que ceder perante a obstinação de Nicholl, que tinha empenho em

satisfazer quantos compromissos contrahíra, antes de deixar a Terra.

«Á vista d'isso, disse Miguel Ardan, só uma cousa tenho a desejar-vos,

meu estimavel capitão.

--Qual? perguntou Nicholl.

--Que vos dêem igual proveito as outras duas apostas. Se assim succeder,

estaremos seguros de não nos ficarmos no caminho.

CAPITULO XXVI

FOGO!

Chegára o primeiro dia de dezembro, dia fatal, porque se a partida do

projectil se não effeituasse n'aquella mesma noite ás dez horas quarenta

e seis minutos e quarenta segundos da tarde, mais de dezoito annos

haviam de decorrer antes que a Lua volvesse a apresentar-se nas mesmas

condições simultaneas de zenith e perigeo.

O tempo estava magnifico; apesar da proximidade do inverno, o sol

resplandecia e banhava com seus radiantes effluvios aquella mesma Terra

que tres dos habitantes d'ella íam abandonar em troca de um mundo novo.

Quanta gente mal dormiu durante a noite que precedeu aquelle dia com

tanta impaciencia desejado! Quantos peitos opprimidos pelo pesado fardo

da anciedade! Todos os corações palpitaram de inquietação, excepto o

coração de Miguel Ardan. Este personagem impassivel andava de cá para lá

com o seu ar habitual de quem tem muitos affazeres, mas nada denunciava

n'elle preoccupação insolita. Dormira a somno solto, como dormia Turenne

antes da batalha, encostado ao reparo de um canhão. Desde pela manhã

innumeravel multidão cobria as planicies que se estendem a perder de

vista em torno de Stone's-Hill.

De quarto em quarto de hora chegava pela via ferrea de Tampa-Town um

comboio carregado de novos curiosos; em breve espaço assumiu aquella

emigração proporções fabulosas; segundo a estatistica do _Tampa-Town

Observer_, pisaram, n'aquelle dia memoravel, o solo da Florida cinco

milhões de espectadores.

Havia já um mez que a maior parte d'aquella multidão acampava em volta

do recinto, dando começo á fundação de uma cidade que depois se chamou

Ardan's-Town. A planicie estava coberta de abarracamentos, cabanas,

choupanas e tendas, habitações ephemeras que davam guarida a uma

população bastantemente numerosa para causar inveja ás maiores cidades

da Europa.

Ali tinham representantes todos os povos da Terra, fallavam-se ali a um

tempo todos os dialectos do mundo. Dir-se-ía que reinava lá a confusão

das linguas como nos tempos biblicos da torre de Babel. Ali se

confundiam em absoluta igualdade as diversas classes da sociedade

americana. Banqueiros, lavradores, maritimos, moços de recados,

corretores, cultivadores de algodão, negociantes, barqueiros,

magistrados, tudo ali se acotovelava com sem cerimonia primitiva.

Fraternisavam os creoulos da Luiziania com os fazendeiros da Indiana; os

_gentlemen_ do Kentucky e do Tenessee, os virginienses elegantes e

altivos mettiam conversa com os caçadores semi-selvagens dos Lagos, e

com os contratadores de gado de Cincinnati. Usavam na cabeça chapéu de

castor branco de aba larga ou o classico panamá, vestiam calça de

guinguamp azul, das fabricas de Opelousas, envolviam o corpo nas dobras

de elegantes blusas de cotim cru, e os pés em botins de cores

brilhantes, trazendo em exposição extravagantes bofes de fina cambraia,

e fazendo scintillar nos peitos das camisas, nos punhos, nas gravatas,

nos dez dedos, e até nas orelhas, um sortimento completo de anneis,

cadeias, argolas e _breloques_, cujo mau gosto corria parelhas com o

subido preço. Outras tantas mulheres, creanças e creados, em trajes não

menos opulentos acompanhavam, seguiam, precediam ou rodeiavam aquelles

maridos, paes ou amos, que mais pareciam chefes de tribu cercados das

innumeraveis familias. Era cousa digna de ver-se aquella gente toda ás

horas de refeição deitar-se ás iguarias peculiares dos Estados Unidos e

devorar, com appetite ameaçador para o abastecimento de viveres da

Florida, alimentos que causariam repugnância a qualquer estomago

europeu, taes como rãs de fricassé, macacos estufados, fish-chowder[95],

sariguêa assada, opossum ainda em sangue, ou racoon na grelha.

Mas em compensação tambem, que variada serie de licores e de bebidas

para facilitar a digestão d'aquelles indigestos alimentos! Que gritos

excitantes, que vociferações convidativas echoavam nos _bar-rooms_ ou

nas casas de pasto profusamente adornadas de copos, cangirões, frascos,

garrafas brancas e pretas de fórmas inverosimeis, de almofarizes para

pisar o assucar, e de mólhos de palha!

«Aqui ha o julepe de hortelã!» gritava o dono de um estabelecimento em

tom retumbante.

--Prompta! a _sangaree_ de vinho de Bordéus! replicava outro em voz de

pipia.

--E o _gin-sling_, repetia o segundo.

--E o _cocktail_! e _brandy-smash_! gritava o primeiro.

--«Quem quer provar do verdadeiro _mint-julep_, á ultima moda?» gritavam

alguns destros vendedores, fazendo passar com rapidez de um para outro

copo, como qualquer prestidigitador faria a uma noz muscada, o assucar,

o limão, a hortelã verde, o gêlo partido, a agua, o cognac e o ananás de

que se compõe aquelle refresco.

Habitualmente, repetiam-se e cruzavam-se no ar, produzindo infernal

barulho, aquelles incitamentos dirigidos ás guellas seccas pela acção

abrasadora das especiarias. Mas n'aquelle dia, no primeiro de dezembro,

eram raros os gritos. Tambem bem poderiam os vendedores enrouquecer a

provocar os freguezes, que todos os seus esforços seriam baldados.

Ninguem pensava em comer nem beber; quantos espectadores circulavam por

entre a multidão, que ás quatro horas da tarde ainda nem tinham comido o

seu _lunch_ do costume! Symptoma ainda mais significativo, a paixão

violenta dos americanos pelo jogo fôra vencida pela emoção. Quem visse

os paulitos do _tempins_ deitados no chão, os dados do _creps_ a dormir

nos copos, a _roleta_ immovel, o _cribbage_ abandonado, as cartas do

_whist_, do vinte e um, do _rouge et noire_, do _monte_ e do _faro_

socegadamente fechadas em seus envolucros intactos, logo comprehendia

que o acontecimento do dia absorvêra qualquer outra necessidade, e não

deixára logar para distracções.

Até á noite correu pela multidão anhelante uma agitação surda, sem

clamores, como a que precede as grandes catastrophes. Dominava os

espiritos uma ancia indescriptivel, um torpor pesado, um sentimento

indefinivel que opprimia o coração. O que todos desejavam era que «já

estivesse tudo acabado».

Entretanto, por volta das sete horas, dissipou-se repentinamente aquelle

pesado silencio. Nascia então a Lua no horisonte, e muitos milhões de

_hurrahs_ lhe saudaram a apparição. Era exacta ao _rendez-vous_.

Subiram os clamores até aos céus, rebentaram applausos de todos os

lados, e a loura Phoebéa brilhava serena no céu admiravel acariciando

com os mais affectuosos de seus raios a multidão innebriada.

N'aquelle momento appareceram os tres intrepidos viajantes. Ao vê-los,

redobraram em intensidade os clamores. Unanimemente, instantaneamente,

soltou-se de todos aquelles peitos anhelantes a canção nacional dos

Estados Unidos, e o _Yankee doodle_, repetido em côro por cinco milhões

de cantores, ergueu-se como uma tempestade sonora até ao extremo limite

da atmosphera.

Depois, passado aquelle primeiro e irresistivel arranco de enthusiasmo,

emmudeceu o hymno, extinguiram-se pouco e pouco as derradeiras

harmonias, os echos perderam-se no espaço, e vagueou por sobre a

multidão tão fundamente impressionada um rumorejar silencioso. No

entretanto, o francez e os dois companheiros tinham transposto o recinto

reservado em torno do qual se apertava a multidão immensa.

Acompanhavam-nos os socios do Gun-Club e as deputações enviadas pelos

differentes observatorios europeus.

Barbicane ia frio e sereno e dava tranquillamente as ultimas ordens.

Nicholl, de beiços apertados e mãos encruzadas atrás das costas,

caminhava com passo firme e pausado.

Miguel Ardan, sempre despreoccupado, em traje de perfeito viajante,

polainas de coiro nos pés, bolsa de viagem a tiracolo, mochilla ás

costas, a nadar dentro do amplo fato de velludo castanho, de charuto na

bôca, distribuia na passagem cordeaes apertos de mão com prodigalidade

de principe. Prosa e alegria nunca lhe faltavam; ria, chalaceava e fazia

ao digno J.-T. Maston partidas de garoto, n'uma palavra mostrava-se

«francez», e, o que peior é, «parisiense» até ao ultimo segundo.

Soaram dez horas. Era chegado o momento de tomar logar dentro do

projectil, porque a manobra necessaria para descer, o aparafusar da

chapa-tampa, e a safa dos guindastes e andaimes que pendiam dentro das

fauces da Columbiada, sempre haviam de levar ainda algum tempo.

Barbicane regulára o seu chronometro, com erro inferior a um decimo de

segundo, pelo do engenheiro Murchison, encarregado de dar fogo á

polvora, por meio da faísca electrica; d'esta maneira os viajantes

podiam, encerrados dentro do projectil, seguir com os olhos o ponteiro

impassivel que havia de marcar o instante exacto da partida.

Chegára o momento das despedidas. Foi uma scena tocante. Miguel Ardan,

apesar de toda a sua febril alegria, sentiu-se commovido. J.-T. Maston

lográra encontrar sob as aridas palpebras uma velha lagrima que estava

como de reserva para aquella occasião, e que o bom do secretario verteu

na fronte do seu caro e estimavel presidente.

«E se eu tambem fosse? disse elle, ainda estâmos a tempo!

--É impossível, meu velho Maston», respondeu Barbicane.

Poucos instantes depois, estavam os três companheiros de viagem

installados no projectil, cuja chapa-porta tinham aparafusado pela parte

de dentro, e abria-se livremente para o céu, inteiramente desembaraçada

a bôca da Columbiada.

Nicholl, Barbicane e Miguel Ardan estavam definitivamente entaipados no

wagon de metal.

Quem poderia pintar a anciedade universal, que então attingíra ao seu

paroxysmo?

A Lua ía caminhando n'um firmamento de limpida pureza, e apagando na

passagem os lumes scintillantes das estrellas; percorriam aquelle

momento a constellação dos Gemeos e estava a igual distancia do

horisonte e do zenith. Para todos era facil de comprehender que a

pontaria era feita adiante do alvo, como a faz o caçador que aponta

adiante da lebre que quer ferir.

Pesava por sobre aquella scena toda um silencio atterrador. Nem um sopro

de vento na terra! Nem um suspiro de tanto peito. Nem os corações

ousavam palpitar. Os olhos fixavam-se todos como que assustados nas

fauces abertas da Columbiada. Murchison seguia com os olhos o ponteiro

do chronometro. Faltavam apenas quarenta segundos para soar o instante

da partida. Cada segundo parecia um seculo.

Da terra à lua, viagem directa em 97 horas e 20 minutos · 第 13 / 15 段