D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do
desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros;
martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia
que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras
reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas
cantigas.
Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os
cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de
Gato.
As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda;
os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos
italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá,
continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que
era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta
por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que
alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos
diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito.
Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar
para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito
séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices.
Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada.
Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em
extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona;
mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo.
Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a
estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão
accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande
officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende
por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o
pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de
pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a
venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar
em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das
paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza;
abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado,
mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio
para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de
lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com
Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com
a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria
fortalecer-se e alargar-se.
O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito
interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes
escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol
no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons
entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um
punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes
chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam
bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado,
calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na
venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua.
Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia
cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio.
E a crioula? Como havia de ser?
Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque
lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os
ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam
de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha!
Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles
até ahi fizeram vida commum!
Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico
a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si
mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro
acharia para semelhante situação.
Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um
homem tão importante e tão digno!
Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse
jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o
braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia,
desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza
exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle
fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o
triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e
tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a
sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa
sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava.
E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a
transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e,
quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A
desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de
cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os
seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não
era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da
sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida.
E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o
serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a
deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da
gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria,
amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a
indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara.
E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional
das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que
morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao
seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir
que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono,
nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de
Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco
deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma
sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a
deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para
descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo
nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda,
repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que
nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda
morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou
n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que
causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma
linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem
interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um
habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando
sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a
cercava.
Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com
Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de
abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam
fazer nada.
Botelho havia dito ao vendeiro:
--Faça o pedido! É occasião.
--Hein?
--Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto!
--O Barão dá-m'a?
--Dá.
--Tem certeza d'isso?
--Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo!
--Elle prometteu?
--Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorisado
por você. Fiz mal?
--Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!
--Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe
fallar, comprehende?
--Ou escrever.
--Tambem.
--E a menina?
--Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres?
--Tenho.
--Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e
faça o que lhe disse.--Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú
está quente!
Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde
trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade
Nova.
Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso
comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão
Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar.
Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo;
tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita
roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos;
comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á
porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã
flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas
de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais
gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para
elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era
muito escrupulosa.
A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas;
tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois
resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão
novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu
tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias
fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor,
apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer
prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle
collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara
como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de
vinho gostoso.
Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das
recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e
vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do
coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou.
A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma
rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as
suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos
corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de
lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo
e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do
matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite
de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de
fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu
corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com
hervas aromaticas.
O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das
extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o
espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e
deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser
possuido só por ella, só ella, e mais ninguem.
A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle,
quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta
gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais
justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz--bem
feito!»
Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do
marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia
para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a
que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda
a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que
essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a
pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca
para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama
do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma
esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus
principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na
conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era
teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez.
Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram
a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e
moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas
economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha,
aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes.
Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos
ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago
de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte
repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool,
esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida;
e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello
de aguardente, para enganar os pezares.
Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse
os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena
ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita;
puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da
physionomia. Já tinha nove annos.
Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella
passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam
a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha,
porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para
mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles
privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe.
Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha».
Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se
impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas
disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?...
Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora
adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra
não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não
vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a
ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á
tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio
na segunda feira.
Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no
primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar
á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da
sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor
parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos
domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a
filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre
levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de
roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que
a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve
vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito
raras.
Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da
pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a
conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida.
Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da
pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro
para educar a filha?!»
Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo
recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella
insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em
voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava
arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia
de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na
roda!
Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que
não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a
energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe
saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle
abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada,
de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a
mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe
perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta.
--Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça.
E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio
ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com
aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança
illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes
accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão
palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada
pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido;
mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se
reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já
silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao
hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto
contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar
o corpo inteiro.
Por algum tempo choraram ambos abraçados.
--Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro
afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas
pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para
casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti.
Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho
eu dado!
E acompanhou-a até ao portão da estalagem.
Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos
no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço
retardado.
Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia
seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle,
coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro
n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto
com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao
padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á
larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de
fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua
paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se
calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz
soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher
apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua
consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O
desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua
conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o
sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não!
Tudo que quizessem, menos isso!»
E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a
serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e
habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze
dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada
pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos.
Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar.
Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando
exclamação de enthusiasmo.
Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha!
Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que
as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão
decidida!
Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte
da bahiana.
--Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava
Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras
fechadas!
As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava
escarlate de vergonha.
--Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser
completa, hão de jantar comnosco!
A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não
aceitou.
--Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem
matar as saudades?
Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se
com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a
mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a
familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar.
Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa
disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha
destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia,
entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae
acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas
sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes
da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava
de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu
copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi
então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e
nas ameaças da directora.
--Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi
com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos
amargures o jantar!
--Triste sorte a minha!
--Ai, ai! que temos lamuria!
--Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!
--Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares
cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com
choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?...
Tambem o sou e não me queixo de Deus!
Piedade abrio a soluçar.
--Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte
sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar,
ha de estoirar por força! Ora bolas!
Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o.
--Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou
disposto a aturar isto! Arre!
--Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim
cá para saber da conta do collegio!...
--Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não
tenho nenhum!
--Ah! então com que não pagas?!
--Não! Com um milhão de raios!
--É que és ainda muito peior do que eu suppunha!
--Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e
despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!
--Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?!
--A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada
lhe faltará!
--Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?!
--Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois
a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá
vel-a! Ora ahi tem!
--Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina,
abraçando-se a Piedade.
--Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os
diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de
sobra com que arreliar-me!
--Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço.
Maldita a hora em que vim cá!
E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando
de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho.
Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma
das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que
voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!»
Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma
cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os
de um trago.
--Arre! Assim tambem não!
A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça
entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura
dos bigodes.
Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em
cheio sobre as suas coxas.
--Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já
passou!
--Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa!
E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas
fosse uma interrupção nos seus amores.
Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido
no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as
duas seguirem o seu destino de enxotadas.