XIX

D'ahi a dias, com effeito, a estalagem mettia-se em obras. Á desordem do

desentulho do incendio succedia a do trabalho dos pedreiros;

martelava-se ali de pela manhã até á noite, o que aliás não impedia

que as lavadeiras continuassem a bater roupa e as engommadeiras

reunissem ao barulho das ferramentas o choroso falsete das suas eternas

cantigas.

Os que ficaram sem casa foram aboletados a troxe-moxe por todos os

cantos, á espera dos novos commodos. Ninguem se mudou para o Cabeça de

Gato.

As obras principiaram pelo lado esquerdo do cortiço, o lado do Miranda;

os antigos moradores tinham preferencia e vantagens nos preços. Um dos

italianos feridos morreu na Misericordia e o outro, tambem lá,

continuava ainda em risco de vida. Bruno recolhêra-se á Ordem de que

era irmão, e Leocadia, que não quiz attender áquella carta escripta

por Pombinha, resolveu-se a ir visitar o sou homem no hospital. Que

alegrão para o infeliz a volta da mulher, aquella mulher levada dos

diabos, mas de carne dura, a quem elle, apezar de tudo, queria muito.

Com a visita reconciliaram-se, chorando ambos, e Leocadia decidio tornar

para o São Romão e viver de novo com o marido. Agora fazia-se muito

séria e ameaçava com pancada a quem lhe propunha bregeirices.

Piedade, essa é que se levantou das febres completamente transformada.

Não parecia a mesma depois do abandono de Jeronymo; emmagrecêra em

extremo, perdêra as côres do rosto, ficara feia, triste e resmungona;

mas não se queixava, e ninguem lhe ouvia fallar no nome do esposo.

Esses mezes, durante as obras, foram uma época especial para a

estalagem. O cortiço não dava idéa do seu antigo caracter, tão

accentuado e no emtanto tão mixto: aquillo agora parecia uma grande

officina improvisada, um arsenal, em cujo fragor a gente só se entende

por signaes. As lavadeiras fugiram para o capinzal dos fundos, porque o

pó da terra e da madeira sujavam-lhes a roupa lavada. Mas, dentro de

pouco tempo, estava tudo prompto; e, com immenso pasmo, viram que a

venda, a sebosa bodega, onde João Romão se fez gente, ia tambem entrar

em obras. O vendeiro resolvera aproveitar d'ella sómente algumas das

paredes, que eram de um metro de largura, talhadas á portugueza;

abriria as portas em arco, suspenderia o tecto e levantaria um sobrado,

mais alto que o do Miranda e, com toda a certeza, mais vistoso. Prédio

para metter o do outro no chinello; quatro janellas de frente, oito de

lado, com um terraço ao fundo. O logar em que elle dormia com

Bertoleza, a cozinha e a casa de pasto seriam abobadadas, formando, com

a parte da taverna, um grande armazem, em que o seu commercio iria

fortalecer-se e alargar-se.

O Barão e o Botelho appareciam por lá quasi todos os dias, ambos muito

interessados pela prosperidade do visinho; examinavam os materiaes

escolhidos para a construcção, batiam com a biqueira do chapéo de sol

no pinho de Riga destinado ao assoalho, e affectando-se bons

entendedores, tomavam na palma da mão e esfarelavam entre os dedos um

punhado da terra e da cal com que os operarios faziam barro. Ás vezes

chegavam a ralhar com os trabalhadores, quando lhes parecia que não iam

bem no serviço! João Romão, agora sempre de paletó, engravatado,

calças brancas, collete e corrente de relogio, já não parava na

venda, e só acompanhava as obras na folga das occupações da rua.

Principiava a tomar tino no jogo da Bolsa; comia em hoteis caros e bebia

cerveja em larga camaradagem com capitalistas nos cafés do commercio.

E a crioula? Como havia de ser?

Era isto justamente o que, tanto o Barão como o Botelho, morriam porque

lhe dissessem. Sim, porque aquella bôa casa que se estava fazendo, e os

ricos moveis encommendados, e mais as pratas e as porcelanas que haviam

de vir, não seriam de certo para os beiços da negra velha!

Conserval-a-ia como criada? Impossivel! Todo Botafogo sabia que elles

até ahi fizeram vida commum!

Todavia, tanto o Miranda, como o outro, não se animavam a abrir o bico

a esse respeito com o visinho e contentavam-se em boquejar entre si

mysteriosamente, palpitando ambos por ver a sahida que o vendeiro

acharia para semelhante situação.

Maldita preta dos diabos! Era ella o unico defeito, o senão, de um

homem tão importante e tão digno!

Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse

jantar á casa do Miranda. Iam juntos ao theatro. João Romão dava o

braço á Zulmira, e, procurando galanteal-a e mais ao resto da familia,

desfazia-se em obsequios brutaes e dispendiosos, com uma franqueza

exagerada que não olhava gastos. Se tinham de tomar alguma coisa, elle

fazia vir logo tres, quatro garrafas ao mesmo tempo, pedindo sempre o

triplo do necessario e accumulando compras inuteis de doces, flôres e

tudo que apparecia. Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a

sua febre de obsequiar á gente do Miranda, que nunca voltavam para casa

sem um homem atraz, carregado com os mimos que o vendeiro arrematava.

E Bertoleza bem que comprehendia tudo isso e bem que estranhava a

transformação do amigo. Elle ultimamente mal se chegava para ella e,

quando o fazia, era com tal repugnancia, que antes o não fizesse. A

desgraçada muita vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de

cocotes estrangeiras, e chorava em segredo, sem animo de reclamar os

seus direitos. Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não

era amor o que a misera desejava, era sómente confiança no amparo da

sua velhice, quando de todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida.

E contentava-se em suspirar no meio de grandes silencios durante o

serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus paes que a

deixaram nascer e crescer no captiveiro. Escondia-se de todos, mesmo da

gentalha do frege e da estalagem, envergonhada de si propria,

amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-se a mancha negra, a

indecorosa nodoa d'aquella prosperidade brilhante e clara.

E, no emtanto, adorava o amigo; tinha por elle o fanatismo irracional

das caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravisam, d'essas que

morrem de ciumes, mas que tambem são capazes de matar-se para poupar ao

seu idolo a vergonha do seu amor. O que custava áquelle homem consentir

que ella, uma vez por outra, se chegasse para junto d'elle? Todo o dono,

nos momentos de bom humor, affaga o seu cão... Mas qual! o destino de

Bertoleza fazia-se cada vez mais estreito e mais sombrio; pouco a pouco

deixara totalmente de ser a amante do vendeiro, para ficar sendo só uma

sua escrava. Como sempre, era a primeira a erguer-se e a ultima a

deitar-se; de manhã escamando peixe, á noite vendendo-o á porta, para

descançar da trabalheira grossa das horas de sol; sempre sem domingo

nem dia santo, sem tempo para cuidar de si, feia, gasta, immunda,

repugnante, com o coração eternamente emprenhado de desgostos que

nunca vinham á luz. Afinal, convencendo-se de que ella, sem ter ainda

morrido, já não vivia para ninguem, nem tão pouco para si, desabou

n'um fundo entorpecimento apathico, estagnado como um charco podre que

causa nojo. Fizera-se aspera, desconfiada, sobrolho carrancudo, uma

linha dura de um canto ao outro da bocca. E durante dias inteiros, sem

interromper o serviço, que ella fazia agora automaticamente, por um

habito de muitos annos, gesticulava e mexia com os labios, monologando

sem pronunciar as palavras. Parecia indifferente a tudo, a tudo que a

cercava.

Não obstante, certo dia em que João Romão conversou muito com

Botelho, as lagrimas saltaram dos olhos da infeliz, e ella teve de

abandonar a obrigação, porque o pranto e os soluços não lhe deixavam

fazer nada.

Botelho havia dito ao vendeiro:

--Faça o pedido! É occasião.

--Hein?

--Póde pedir a mão da pequena. Está tudo prompto!

--O Barão dá-m'a?

--Dá.

--Tem certeza d'isso?

--Ora! se não tivesse não lh'o diria d'este modo!

--Elle prometteu?

--Fallei-lhe; fiz-lhe o pedido em seu nome. Disse que estava autorisado

por você. Fiz mal?

--Mal? Fez muito bem. Creio até que não é preciso mais nada!

--Não, se o Miranda não vier logo ao seu encontro é bom você lhe

fallar, comprehende?

--Ou escrever.

--Tambem.

--E a menina?

--Respondo por ella. Você não tem continuado a receber as flôres?

--Tenho.

--Pois então não deixe pelo seu lado de ir mandando tambem as suas e

faça o que lhe disse.--Atire-se, seu João, atire-se emquanto o angú

está quente!

Por outro lado, Jeronymo empregára-se na pedreira de São Diogo, onde

trabalhava d'antes, e morava agora com a Rita numa estalagem da Cidade

Nova.

Tiveram de fazer muita despeza para se installarem; foi-lhes preciso

comprar de novo todos os arranjos de casa, porque do São Romão

Jeronymo só levou dinheiro, dinheiro que elle já não sabia poupar.

Com o asseio da mulata a sua casinha ficou, todavia, que era um regalo;

tinham cortinado na cama, lençóes de linho, fronhas de renda, muita

roupa branca, para mudar todos os dias, toalhas de meza, guardanapos;

comiam em pratos de porcelana e uzavam sabonetes finos. Plantaram á

porta uma trepadeira que subia para o telhado, abrindo pela manhã

flôres escarlates, de que as abelhas gostavam muito; penduraram gaiolas

de passarinho na sala de jantar; sortiram a despensa de tudo que mais

gostavam; compraram gallinhas e marrecos e fizeram um banheiro só para

elles, porque o da estalagem repugnou á bahiana que, n'esse ponto, era

muito escrupulosa.

A primeira parte da sua lua de mel foi uma cadeia de delicias continuas;

tanto elle como ella, pouco ou nada trabalharam; a vida dos dois

resumíra-se, quasi que exclusivamente, nos oito palmos de colchão

novo, que nunca chegava a esfriar de todo. Jámais a existencia pareceu

tão boa e corredia para o portuguez; aquelles primeiros dias

fugiram-lhe como estrophes seguidas de uma deliciosa canção de amor,

apenas espacejada pelo estribilho dos beijos em dueto; foi um prazer

prolongado e amplo, bebido sem respirar, sem abrir os olhos, n'aquelle

collo carnudo e doirado da mulata, a que o cavouqueiro se abandonara

como um bebedo que adormece abraçado a um garrafão inesgotavel de

vinho gostoso.

Estava completamente mudado. Rita apagára-lhe a ultima restea das

recordações da patria; seccou, ao calor dos seus labios grossos e

vermelhos, a derradeira lagrima de saudade, que o desterrado lançou do

coração com o extremo arpejo que a sua guitarra suspirou.

A guitarra! substituio-a ella pelo violão bahiano, e deu-lhe a elle uma

rede, um cachimbo, e embebedou-lhe os sonhos de amante prostrado com as

suas cantigas do norte, tristes, deleitosas, em que ha caboclinhos

corropiras que no sertão vêm pitar á beira das estradas em noites de

lua clara, e querem que todo o viajante que vae passando lhes ceda fumo

e cachaça, sem o que, ai d'elles! o corropira transforma-os em bicho do

matto. E deu-lhe do seu de comer da Bahia, temperado como fogoso azeite

de dendem, côr de braza; deu-lhe das suas muquecas escandescentes, de

fazer chorar, e habituou-lhe a carne ao cheiro sensual d'aquelle seu

corpo de cobra, lavado tres vezes ao dia e tres vezes perfumado com

hervas aromaticas.

O portuguez abrasileirou-se para sempre; fez-se preguiçoso, amigo das

extravagancias e dos abusos, luxurioso e ciumento; fôra-se-lhe de vez o

espirito da economia e da ordem; perdeu a esperança de enriquecer, e

deu-se todo, todo inteiro, á felicidade de possuir a mulata e ser

possuido só por ella, só ella, e mais ninguem.

A morte do Firmo não vinha nunca toldar-lhes o goso da vida; quer elle,

quer a amiga, achavam a coisa muito natural. «O facinora matara tanta

gente; fizera tanta maldade; devia pois acabar como acabou! Nada mais

justo! Se não fosse Jeronymo, seria outro! Elle assim o quiz--bem

feito!»

Por esse tempo, Piedade de Jesus, sem se conformar com a ausencia do

marido, chorava o seu abandono e ia tambem agora se transformando de dia

para dia, vencida por um desmazelo de chumbo, uma dura desesperança, a

que nem as lagrimas bastavam para adoçar as agruras. A principio, ainda

a pobre de Christo tentou resistir com coragem áquella viuvez peior que

essa outra, em que ha, para elemento de resignação, a certeza de que a

pessoa amada nunca mais terá olhos para cobiçar mulheres, nem bocca

para pedir amores; mas depois começou a afundar sem resistencia na lama

do seu desgosto, covardemente, sem forças para illudir-se com uma

esperança fatua, abandonando-se ao abandono, desistindo dos seus

principios, do seu proprio caracter, sem se ter já n'este mundo na

conta de alguma coisa e continuando a viver sómente porque a vida era

teimosa e não queria deixal-a ir apodrecer lá em baixo, por uma vez.

Deu para desleixar-se no serviço; as suas freguezas de roupa começaram

a reclamar; foi-lhe fugindo o trabalho pouco a pouco; fez-se madraça e

moleirona, precisando já empregar grande esforço para não bolir nas

economias que Jeronymo lhe deixára, porque isso devia ser para a filha,

aquella probrezita orphanada antes da morte dos paes.

Um dia, Piedade levantou-se queixando-se de dôres de cabeça, zoada nos

ouvidos e o estomago embrulhado; aconselharam-lhe que tomasse um trago

de paraty. Ella aceitou o conselho e passou melhor. No dia seguinte

repetio a doze; deu-se bem com a perturbação em que a punha o alcool,

esquecia-se um pouco durante algum tempo das amofinações da sua vida;

e, gole a gole, habituára-se a beber todos os dias o seu meio martello

de aguardente, para enganar os pezares.

Agora, que o marido já não estava ali para impedir que a filha puzesse

os pés no cortiço, e agora que Piedade precisava de consolo, a pequena

ia passar os domingos com ella. Sahira uma criança forte e bonita;

puxara do pae o vigor physico e da mãe a expressão bondosa da

physionomia. Já tinha nove annos.

Eram esses agora os unicos bons momentos da pobre mulher, esses que ella

passava ao lado da filha. Os antigos moradores da estalagem principiavam

a distinguir a menina com a mesma predilecção com que amavam Pombinha,

porque em toda aquella gente havia uma necessidade moral de eleger para

mimoso da sua ternura um entezinho delicado e superior, a quem elles

privilegiavam respeitosamente, como subditos a um principe.

Chrismaram-na logo com o cognome de «Senhorinha».

Piedade, apezar do procedimento do marido, ainda no intimo se

impressionava com a idéa de que não devia contrarial-o nas suas

disposições de pae. «Mas que mal tinha que a pequena fosse ali?...

Era uma esmola que fazia á mãe! Lá pelo risco de perder-se... Ora

adeus, só se perdia quem mesmo já nascêra para a perdição! A outra

não se conservára sã e pura? não achára noivo? não casára e não

vivia dignamente com o seu marido? Então?!» E Senhorinha continuou a

ir á estalagem, a principio nos domingos pela manhã, para voltar á

tarde, depois já de vespera, nos sabbados, para só tornar ao collegio

na segunda feira.

Jeronymo, ao saber disto, por intermedio da professora, revoltou-se no

primeiro impeto, mas, pensando bem no caso, achou que era justo deixar

á mulher aquelle consolo. «Coitada! devia viver bem aborrecida da

sorte!» Tinha ainda por ella um sentimento compassivo, em que a melhor

parte nascêra com o remorso. «Era justo, era! que a pequena aos

domingos e dias santos lhe fizesse companhia!» E então, para ver a

filha, tinha que ir ao collegio nos dias de semana. Quasi sempre

levava-lhe presentes de doce, fructas, e perguntava-lhe se precisava de

roupa ou de calçado. Mas, um bello dia, apresentou-se tão ebrio, que

a directora lhe negou a entrada. Desde essa occasião, Jeronymo teve

vergonha de lá voltar, e as suas visitas á filha tornaram-se muito

raras.

Tempos depois, Senhorinha entregou á mãe uma conta de seis mezes da

pensão do collegio, com uma carta em que a directora negava-se a

conservar a menina, no caso que não liquidassem promptamente a divida.

Piedade levou as mãos á cabeça: «Pois o homem já nem o ensino da

pequena queria dar?! Que lhe valesse Deus! onde iria ella fazer dinheiro

para educar a filha?!»

Foi á procura do marido; já sabia onde elle morava. Jeronymo

recusou-se, por vexame; mandou dizer que não estava em casa. Ella

insistio; declarou que não arredaria d'alli sem lhe fallar; disse em

voz bem alta que não ia lá por elle, mas pela filha, que estava

arriscada a ser expulsa do collegio; ia para saber que destino lhe havia

de dar, porque agora a pequena estava muito taluda para ser engeitada na

roda!

Jeronymo appareceu afinal, com um ar triste de vicioso envergonhado que

não tem animo de deixar o vicio. A mulher, ao vel-o, perdeu logo toda a

energia com que chegára e com moveu-se tanto, que as lagrimas lhe

saltaram dos olhos ás primeiras palavras que lhe dirigio. E elle

abaixou os seus e fez-se livido defronte d'aquella figura avelhantada,

de pelles vazias, de cabellos sujos e encanecidos. Não lhe parecia a

mesma! Como estava mudada! E tratou-a com brandura, quasi a pedir-lhe

perdão, a voz muito expremida no aperto da garganta.

--Minha pobre velha!... balbuciou, pousando-lhe a mão larga na cabeça.

E os dois emmudeceram um defronte do outro, arquejantes. Piedade sentio

ancias de atirar-se-lhe nos braços, possuida de imprevista ternura com

aquelle simples affago do seu homem. Um subito raio de esperança

illuminou-a toda por dentro, dissolvendo de relance os negrumes

accumulados ultimamente no seu coração. Contava não ouvir ali senão

palavras duras e asperas, ser talvez repellida grosseiramente, insultada

pela outra e coberta de ridiculo pelos novos companheiros do marido;

mas, ao encontral-o tambem triste e desgostoso, sua alma prostrou-se

reconhecida; e, assim que Jeronymo, cujas lagrimas corriam já

silenciosamente, deixou que a sua mão fosse descendo da cabeça ao

hombro e depois á cintura da esposa, ella desabou, escondendo o rosto

contra o peito d'elle, n'uma explosão de soluços que lhe faziam vibrar

o corpo inteiro.

Por algum tempo choraram ambos abraçados.

--Consola-te! que queres tu?... São desgraças!... disse o cavouqueiro

afinal limpando os olhos. Foi como se eu te tivesse morrido ... mas

pódes ficar certa de que te estimo e nunca te quiz mal!... Volta para

casa; eu irei pagar o collegio de nossa filhinha e hei de olhar por ti.

Vae, e pede a Deus Nosso Senhor que me perdôe os desgostos que te tenho

eu dado!

E acompanhou-a até ao portão da estalagem.

Ella, sem poder pronunciar palavra, sahio cabisbaixa, a enxugar os olhos

no chale de lã, sacudida ainda de vez em quando por um soluço

retardado.

Entretanto, Jeronymo não mandou saldar a conta do collegio, no dia

seguinte, nem no outro, nem durante todo o resto do mez; e elle,

coitado! bem que se mortificou por isso; mas onde ir buscar dinheiro

n'aquella occasião? o seu trabalho mal lhe dava agora para viver junto

com a mulata; estava já alcançado nos seus ordenados e devia ao

padeiro e ao homem da venda. Rita era desperdiçada e amiga de gastar á

larga; não podia passar sem uns tantos regalos de barriga e gostava de

fazer presentes. Elle, receioso de contrarial-a e quebrar o ôvo da sua

paz, até ahi tão completo com respeito á bahiana, subordinava-se

calado e affectando até satisfação; no intimo, porém, o infeliz

soffria deveras. A lembrança constante da filha e da mulher

apoquentavam-no com pontas de remorso, que dia a dia alastravam na sua

consciencia, á proporção que esta ia acordando d'aquella cegueira. O

desgraçado sentia e comprehendia perfeitamente todo o mal da sua

conducta; mas só a idéa de separar-se da amante, punha-lhe logo o

sangue doido e apagava-lhe de novo a luz dos raciocinios. «Não! não!

Tudo que quizessem, menos isso!»

E então, para fugir áquella voz irrefutavel, que estava sempre a

serrazinar dentro delle, bebia em camaradagem com os companheiros e

habituára-se, dentro em pouco, á embriaguez. Quando Piedade, quinze

dias depois da sua primeira visita, tornou lá, um domingo, acompanhada

pela filha, encontrou-o bebendo, n'uma roda de amigos.

Jeronymo recebeu-as com grande escarcéo de alegria. Fel-as entrar.

Beijou a pequena repetidas vezes e suspendeu-a pela cintura, soltando

exclamação de enthusiasmo.

Com um milhão de raios! Que linda estava a sua morgadinha!

Obrigou-as logo a tomar alguma coisa e foi chamar a mulata; queria que

as duas mulheres fizessem as pazes no mesmo instante. Era questão

decidida!

Houve uma scena de constrangimentos, quando a portugueza se vio defronte

da bahiana.

--Vamos! vamos! Abracem-se! Acabem com isso por uma vez! bradava

Jeronymo, a empurral-as uma contra a outra. Não quero aqui caras

fechadas!

As duas trocaram um aperto de mão, sem se fitarem. Piedade estava

escarlate de vergonha.

--Ora muito bem! accrescentou o cavouqueiro, agora, para a coisa ser

completa, hão de jantar comnosco!

A portugueza oppoz-se, resmungando desculpas, que o cavouqueiro não

aceitou.

--Não as deixo sahir! É boa! Pois hei de deixar ir minha filha sem

matar as saudades?

Piedade assentou-se a um canto, impaciente pela occasião de entender-se

com o marido sobre o negocio do collegio. Rita, voluvel como toda a

mestiça, não guardava rancores, e, pois, desfez-se em obzequios com a

familia do amigo. As outras visitas sahiram antes do jantar.

Puzeram-se á mesa ás quatro horas e principiaram a comer com boa

disposição, carregando no virgem logo desde a sopa. Senhorinha

destacava-se do grupo; na sua timidez de menina de collegio parecia,

entre aquella gente, triste e assustada ao mesmo tempo. O pae

acabrunhava-a com as suas solicitudes brutaes e com as suas perguntas

sobre os estudos. Á excepção d'ella, todos os outros estavam, antes

da sobremeza, mais ou menos chumbados pelo vinho. Jeronymo, esse estava

de todo. Piedade, instigada por elle, esvasiára frequentes vezes o seu

copo e, ao fim do jantar, déra para queixar-se amargamente da vida; foi

então que ella, já com azedume na voz, fallou na divida do collegio e

nas ameaças da directora.

--Ora, filha! disse-lhe o cavouqueiro. Agora estás tu tambem para ahi

com essa mastigação! Deixa as tristezas para outra vez! Não nos

amargures o jantar!

--Triste sorte a minha!

--Ai, ai! que temos lamuria!

--Como não me hei de queixar, se tudo me corre mal?!

--Sim? Pois se é para isso que aqui vens melhor será não tornares

cá!... resmungou Jeronymo, franzindo o sobrolho. Que diabo! com

choradeiras nada se endireita! Tenho eu culpa de que sejas infeliz?...

Tambem o sou e não me queixo de Deus!

Piedade abrio a soluçar.

--Ahi temos! berrou o marido, erguendo-se e dando uma punhada forte

sobre a meza. E aturem-na! Por mais que um homem se não queira zangar,

ha de estoirar por força! Ora bolas!

Senhorinha correu para junto do pae, procurando contel-o.

--Sebo! berrou elle, desviando-a. Sempre a mesma coisa! Pois não estou

disposto a aturar isto! Arre!

--Eu não vim cá por passeio!... proseguio Piedade entre lagrimas! Vim

cá para saber da conta do collegio!...

--Pague-a você, que tem lá o dinheiro que lhe deixei! Eu é que não

tenho nenhum!

--Ah! então com que não pagas?!

--Não! Com um milhão de raios!

--É que és ainda muito peior do que eu suppunha!

--Sim, hein?! Pois então deixe-me cá com toda a minha ruindade e

despache o becco! Despache-o, antes que eu faça alguma asneira!

--Minha pobre filha! Quem olhará por ella, Senhor dos afflictos?!

--A pequena já não precisa de collegio! deixe-a cá commigo, que nada

lhe faltará!

--Separar-me de minha filha? a unica pessoa que me resta?!

--Ó mulher! você não está separada d'ella a semana inteira?... Pois

a pequena, em vez de ficar no collegio, fica aqui, e aos domingos irá

vel-a! Ora ahi tem!

--Eu quero antes ficar com minha mãe!... balbuciou a menina,

abraçando-se a Piedade.

--Ah! tambem tu, ingrata, já me fazes guerra?! Pois vão com todos os

diabos! e não me tornem cá para me ferver o sangue, que já tenho de

sobra com que arreliar-me!

--Vamos d'aqui! gritou a portugueza, travando da filha pelo braço.

Maldita a hora em que vim cá!

E as duas, mãe e filha, desappareceram; emquanto Jeronymo, passeiando

de um para outro lado, monologava, furioso sob a fermentação do vinho.

Rita não se mettêra na contenda, nem se mostrára a favor de nenhuma

das partes. «O homem, se quizesse voltar para junto da mulher, que

voltasse! Ella não o prenderia, porque amor não era obrigado!»

Depois de fallar só por muito espaço, o cavouqueiro atirou-se a uma

cadeira, despejou sombrio dois dedos de laranginha n'um copo e bebeu-os

de um trago.

--Arre! Assim tambem não!

A mulata então approximou-se d'elle, por detraz; segurou-lhe a cabeça

entre as mãos e beijou-o na bocca, arredando com os labios a espessura

dos bigodes.

Jeronymo voltou-se para a amante, tomou-a pelos quadris e assentou-a em

cheio sobre as suas coxas.

--Não te rales, meu bem! disse ella, affagando-lhe os cabellos. Já

passou!

--Tens razão! besta fui eu em deixal-a pôr pé cá dentro de casa!

E abraçaram-se com impeto, como se o breve tempo roubado pelas visitas

fosse uma interrupção nos seus amores.

Lá fora, junto ao portão da estalagem, Piedade, com o rosto escondido

no hombro da filha, esperava que as lagrimas cedessem um pouco, para as

duas seguirem o seu destino de enxotadas.

O Cortiço · 第 26 / 30 题