IX

Passaram-se semanas. Jeronymo tomava agora, todas as manhãs, uma

chicara de café bem grosso, á moda da Ritinha, e tragava dois dedos de

paraty «pr'a cortar a friagem. »

Uma transformação, lenta e profunda, operava-se n'elle, dia a dia,

hora a hora, reviscerando-lhe o corpo e alando-lhe os sentidos, num

trabalho mysterioso e surdo de chryzallida. A sua energia afrouxava

lentamente: fazia-se contemplativo e amoroso. A vida americana e a

natureza do Brazil patenteavam-lhe agora aspectos imprevistos e

seductores que o commoviam; esquecia-se dos seus primitivos sonhos de

ambição, para idealisar felicidades novas, picantes e violentas;

tornava-se liberal, imprevidente e franco, mais amigo de gastar que de

guardar; adquiria desejos, tomava gosto aos prazeres, e volvia-se

preguiçoso, resignando-se, vencido, ás imposições do sol e do calor,

muralha de fogo com que o espirito eternamente revoltado do ultimo

tamoyo entrincheirou a patria contra os conquistadores aventureiros.

E assim, pouco a pouco, se foram reformando todos os seus habitos

singelos de aldeão portuguez: e Jeronymo abrasileirou-se. A sua casa

perdeu aquelle ar sombrio e concentrado que a entristecia; já

appareciam por lá alguns companheiros de estalagem, para dar dois dedos

de palestra nas horas de descanso, e aos domingos reunia-se gente para o

jantar. A revolução afinal foi completa: a aguardente de canna

substituio o vinho; a farinha de mandioca succedeu á brôa; a carne

secca e o feijão preto ao bacalháo com batatas e ceboulas cozidas; a

pimenta malagueta e a pimenta de cheiro invadiram victoriosamente a sua

mesa; o caldo verde, a açorda e o caldo de unto foram repellidos pelos

ruivos e gostosos quitutes bahianos, pela muqueca, pelo vatapá e pelo

carurú; a couve á mineira desthronou a couve á portugueza; o pirão de

fubá ao pão de rala, e, desde que o café encheu a casa com o seu

aroma quente, Jeronymo principiou a achar graça no cheiro do fumo e

não tardou a fumar tambem com os amigos.

E o curioso é que, quanto mais ia elle cahindo nos usos e costumes

brasileiros, tanto mais os seus sentidos se apuravam, posto que em

detrimento das suas forças physicas. Tinha agora o ouvido menos

grosseiro para a musica, comprehendia até as intenções poeticas dos

sertanejos, quando cantam á viola os seus amores infelizes; seus olhos,

d'antes só voltados para a esperança de tornar á terra, agora, como

os olhos de um marujo, que se habituaram aos largos horizontes de céo e

mar, já se não revoltavam com a turbulenta luz, selvagem e alegre, do

Brasil, e abriam-se amplamente defronte dos maravilhosos despenhadeiros

illimitados e das cordilheiras sem fim, donde, de espaço a espaço,

surge um monarcha gigante, que o sol veste de oiro e ricas pedrarias

refulgentes e as nuvens toucam de alvos turbantes de cambraia, n'um luxo

oriental de arabicos principes voluptuosos.

Ao passo que com a mulher, a S'ôra Piedade de Jesus, o caso mudava

muito de figura. Essa, feita de um só bloco, compacta, inteiriça e

tapada, recebia a influencia do meio só por fóra, na maneira de viver,

conservando-se inalteravel quanto ao moral, sem conseguir, á

semelhança do esposo, afinar a sua alma pela alma da nova patria que

adoptaram. Cedia passivamente nos habitos de existencia, mas no intimo

continuava a ser a mesma colona saudosa e desconsolada, tão fiel ás

suas tradições como a seu marido. Agora estava até mais triste;

triste porque o Jeronymo fazia-se outro; triste porque não se passava

um dia que lhe não notasse uma nova transformação; triste, porque

chegava a estranhal-o, a desconhecel-o, afigurando-se-lhe até que

commettia um adulterio, quando á noite acordava assustada ao lado

d'aquelle homem que não parecia o d'ella, aquelle homem que se lavava

todos os dias, aquelle homem que aos domingos punha perfumes na barba e

nos cabellos e tinha a boca cheirando a fumo. Que pesado desgosto não

lhe apertou o coração a primeira vez em que o cavouqueiro, repellindo

o caldo que ella lhe apresentava ao jantar, disse-lhe:

--Ó filha! porque não experimentas tu fazer uns pitéos á moda de

cá?...

--Mas é que não sei ... balbuciou a pobre mulher.

--Pede então á Rita que t'o ensine... Aquillo não terá muito

q'aprender! Vê se me fazes por arranjar uns camarões, como ella

preparou aquelles d'outro dia. Souberam-me tão bem!

Este resvalamento do Jeronymo para as coisas do Brasil, penalisavam

profundamente a infeliz creatura. Era ainda o instincto feminil que lhe

fazia prever que o marido, quando estivesse de todo brasileiro, não a

quereria para mais nada e havia de reformar a cama, assim como reformou

a mesa.

Jeronymo, com effeito, pertencia-lhe muito menos agora do que d'antes.

Mal se chegava para ella; os seus carinhos eram frios e distrahidos,

dados como por condescendencia; já lhe não affagava os rins, quando os

dois ficavam a sós, malucando na sua vida commum; agora nunca era elle

que a procurava para o matrimonio, nunca; se ella sentia necessidade do

marido, tinha de provocal-o. E, uma noite, Piedade ficou com o coração

ainda mais apertado, porque elle, a pretexto de que no quarto fazia

muito calor, abandonou a cama e foi deitar-se no sofá da salinha. Desde

esse dia não dormiram mais ao lado um do outro. O cavouqueiro arranjou

uma rede e armou-a defronte da porta de entrada, tal qual como havia em

casa da Rita.

Uma outra noite a coisa ainda foi peior. Piedade, certa de que o marido

não se chegava, foi ter com elle; Jeronymo fingio-se indisposto,

negou-se, e terminou por dizer-lhe, repellindo-a brandamente:

--Não te queria fallar, mas ... sabes? deves tomar banho todos os dias

e ... mudar de roupa... Isto aqui não é como lá! Isto aqui sua-se

muito! É preciso trazer o corpo sempre lavado, que senão cheira-se

mal!... Tem paciencia!

Ella desatou a soluçar. Foi uma explosão de resentimentos e desgostos

que se tinham accumulado no seu coração. Todas as suas magoas

rebentaram n'aquelle momento.

--Agora estás tu a chorar! Ora, filha, deixa-te disso! Ella continuou a

soluçar, sem folego, dando arfadas com todo o corpo.

O cavouqueiro, acrescentou no fim de um intervallo:

--Então que é isto, mulher? Pôes-te agora a fazer tamanho escarcéo,

nem que se cuidasse de coisa séria!

Piedade desabafou:

--E que já não me queres! Já não és o mesmo homem para mim! D'antes

não me achavas que pôr, e agora até já te cheiro mal!

E os soluços recrudesciam.

--Não digas asnices, filha!

--Ah! eu bem sei o que isto é!...

--É bobagem tua, é o que é!

--Maldita hora em que viemos dar ao raio d'esta estalagem! Antes me

tivéra cahido um calháo na cabeça!

--Estás a queixar-te da sorte sem razão! Que Deus te não castigue!

Esta resinga chamou outras que, com o correr do tempo, se foram

amiudando. Ah! já não havia duvida que mestre Jeronymo andava meio

cahido para o lado da Rita Bahiana; não passava pelo numero 9, sempre

que vinha á estalagem durante o dia, que não parasse á porta um

instante, para perguntar-lhe pela «saúdinha». O facto de haver a

mulata lhe offerecido o remedio, quando elle esteve incommodado, foi

pretexto para lhe fazer presentes amaveis, pôr os seus prestimos á

disposição d'ella e obsequial-a em extremo todas as vezes que a

visitava. Tinha sempre qualquer coisa para saber da sua boca, a respeito

da Leocadia, por exemplo; pois, desde que a Rita se arvorara em

protectora da mulher do ferreiro, Jeronymo affectava grande interesse

pela «pobrezinha de Christo.»

--Fez bem, 'nhá Rita, fez bem!... A se'ora mostrou com isso que tem bom

coração...

--Ah, meu amigo, n'este mundo hoje por mim, amanhã por ti!...

Rita havia aboletado a amiga, a principio em casa de umas engommadeiras

do Catette, muito suas camaradas; depois passou-a para uma familia, a

quem Leocadia se alugou como ama secca; e agora sabia que ella acabava

de descobrir um bom arranjo n'um collegio de meninas.

--Muito bem! muito bem! applaudia Jeronymo.

--Ora, o que! O mundo é largo! sentenciou a Bahiana! Ha logar pr'o

gordo e ha logar pr'o magro! Bem tolo é quem se mata!

Em uma das vezes em que o cavouqueiro perguntou-lhe, como de costume,

pela pobrezinha de Christo, a mulata disse que Leocadia estava gravida.

--Gravida? mas então não é do marido!...

--Póde bem ser que sim. Barriga de quatro mezes...

--Ah! mas ella não foi ha mais tempo do que isso?...

--Não. Vae fazer agora pelo São João quatro mezes justamente.

Jeronymo já nunca pegava na guitarra senão para procurar acertar com

as modinhas que a Rita cantava. Em noites de samba era o primeiro a

chegar-se e o ultimo a ir embora; e durante o pagode ficava de queixo

bambo, a ver dansar a mulata, abstracto, pateta, esquecido de tudo;

babão. E ella, consciente do feitiço que lhe punha, ainda mais se

requebrava e remexia, dando-lhe embigadas ou fingindo que lhe limpava a

baba no queixo com a barra da saia.

E riam-se.

Não! definitivamente estava cahido!

Piedade agarrou-se com a Bruxa para lhe arranjar um remedio que lhe

restituisse o seu homem. A cabocla velha fechou-se com ella no quarto,

accendeu vélas de cêra, queimou hervas aromaticas e tirou a sorte nas

cartas.

E, depois de um jogo complicado de reis, valetes e damas, que ella

dispunha sobre a mesa caprichosamente, a resmungar a cada figura que

sahia do baralho uma phrase cabalistica, declarou convicta, muito calma,

sem tirar os olhos das suas cartas:

--Elle tem a cabeça virada por uma mulher trigueira.

--É o diacho da Rita Bahiana! exclamou a outra. Bem cá me palpitava por

dentro! Ai, o meu rico homem!

E a chorar, limpando, afflicta, as lagrimas no avental de canhamo,

supplicou á Bruxa, pelas alminhas do purgatorio, que lhe remediasse

tamanha desgraça.

--Ai, se perco aquella creatura, S'ôra Paula, lamuriou a infeliz entre

soluços; nem sei que virá a ser de mim n'este mundo de Christo!...

Ensine-me alguma coisa que me puxe o Jeromo!

A cabocla disse-lhe que se banhasse todos os dias e désse a beber ao

seu homem, no café pela manhã, algumas gottas das aguas da lavagem; e,

se no fim de algum tempo, este regimen não produzisse o desejado

effeito, então cortasse um pouco dos cabellos do corpo, torrasse-os

até os reduzir a pó e lh'os ministrasse depois na comida.

Piedade ouvio a receita com um silencio respeitoso e attento, o ar

compungido de quem recebe do medico uma sentença dolorosa para um

doente que estimamos. Em seguida, metteu na mão da feiticeira uma moeda

de prata, promettendo dar-lhe coisa melhor se o remedio tivesse bons

resultados.

Mas não era só a portugueza quem se mordia com o descahimento do

Jeronymo para a mulata, era tambem o Firmo. Havia muito já que este

andava com a pulga atraz da orelha e, quando passava perto do

cavouqueiro, olhava-o atravessado.

O capadocio ia dormir todas as noites com a Rita, mas não morava na

estalagem; tinha o seu commodo na officina em que trabalhava. Só pelos

domingos é que ficavam juntos durante o dia e então não relaxavam o

seu jantar de pandega. Uma vez em que elle gazéara o serviço, o que

não era raro, foi vel-a fóra das horas do costume e encontrou-a a

conversar junto á tina com o portuguez. Passou sem dizer palavra e

recolheu-se ao numero 9, onde ella foi logo ter de carreira. Firmo não

lhe disse nada a respeito das suas apprehensões, mas tambem não

escondeu o seu máo-humor; esteve impertinente e resingueiro toda a

tarde. Jantou de cara amarrada e durante o paraty, depois do café, só

fallou em rôlos, em dar cabeçadas e navalhadas, pintando-se terrivel,

recordando façanhas de capoeiragem, nas quaes sangrára taes e taes

typos de fama; «não contando dois gallegos que mandara pr'ás

minhocas, porque isso para elle não era gente!--Com um par de cocadas

boas ficavam de pés unidos pra sempre!» Rita percebeu os ciumes do

amigo e fez que não dera por coisa alguma.

No dia seguinte, ás seis horas da manhã, quando elle sahia da casa

d'ella, encontrou-se com o portuguez, que ia para o trabalho, e o olhar

que os dois trocaram entre si era já um cartel de desafio. Entretanto,

cada qual seguio em silencio para o seu lado.

Rita deliberou prevenir Jeronymo de que se acautelasse. Conhecia bem o

amante e sabia de quanto era elle capaz sob a influencia dos ciumes;

mas, na occasião em que o cavouqueiro desceu para almoçar, um novo

escandalo acabava de explodir, agora no numero 12, entre a velha

Marcianna e sua filha Florinda.

Marcianna andava já desconfiada com a pequena, porque o fluxo mensal

d'esta se desregrára havia tres mezes, quando, n'esse dia, não tendo

as duas acabado ainda o almoço, Florinda se levantou da meza e foi de

carreira para o quarto. A velha seguio-a. A rapariga fôra vomitar ao

bacio.

--Que é isto?... perguntou-lhe a mãe, apalpando-a toda com um olhar

inquiridor.

--Não sei, mamãe...

--Que sentes tu?...

--Nada...

--Nada, e estás lançando?... Hein?!

--Não sinto nada, não senhora!...

A mulata velha aproximou-se, desatou-lhe violentamente o vestido,

levantou-lhe as saias e examinou-lhe todo o corpo, tacteando-lhe o

ventre, já zangada. Sem obter nenhum resultado das suas diligencias,

correu a chamar a Bruxa, que era mais que entendida no assumpto. A

cabocla, sem se alterar, largou o serviço, enxugou os braços no

avental, e foi ao numero 12; tenteou de novo a mulatinha, fez-lhe varias

perguntas e mais á mãe, e depois disse friamente:

--Está de barriga.

E afastou-se, sem um gesto de surpreza, nem de censura.

Marcianna, tremula de raiva, fechou a porta da casa, guardou a chave no

seio e, furiosa, cahio aos murros em cima da filha. Esta, em balde

tentando escapar-lhe, berrava como uma louca.

Abandonaram-se logo todas as tinas do pateo e algumas das mezas do

frege, e o populacho, curioso e alvoroçado, precipitou-se para o numero

12, batendo na porta e ameaçando entrar pela janella.

Lá dentro, a velha escarranchada sobre a rapariga que se debatia no

chão, perguntava-lhe gritando e repetindo:

--Quem foi?! Quem foi?!

E de cada vez desfechava-lhe um sopapo pelas ventas.

--Quem foi?!

A pequena berrava, mas não respondia.

--Ah! não queres dizer por bem? Ora espera!

E a velha ergueu-se para apanhar a vassoura ao canto da sala.

Florinda, vendo imminente o cacete, levantou-se de um pulo, ganhou a

janella e cahio de um salto lá fóra, entre o povo amotinado. Coisa de

uns nove palmos de altura.

As lavadeiras a apanharam, cuidando em defendel-a da mãe, que surgio

logo á porta, ameaçando para o grupo, terrivel e armada de páo.

Todos procuraram chamal-a á razão:

--Então que é isso, tia Marcianna?! Então que é isso?!

--Que é isto?! É que esta assanhada está de barriga! Está ahi o que

é! Para tanto não lhe faltou geito, nem foi preciso que a gente

andasse atraz d'ella se matando, como succede sempre que ha um pouco

mais de serviço e é necessario puxar pelo corpo! Ora está ahi o que

é!

--Bem, disse a Augusta, mas não lhe bata agora, coitada! Assim você

lhe dá cabo da pelle!

--Não! Eu quero saber quem lhe encheu o bandulho! E ella ha de dizer

quem foi ou quebro-lhe os ossos!

--Então, Florinda, diz logo quem foi... É melhor! aconselhou a das

Dôres.

Fez-se em torno da rapariga um silencio avido, cheio de curiosidade.

--Estão vendo?... exclamou a mãe. Não responde, este diabo! Mas

esperem, que eu lhes mostro se ella falla ou não!

E as lavadeiras tiveram de agarrar-lhe os braços e tirar-lhe o cacete,

porque a velha queria crescer de novo para a filha.

Ao redor d'esta a curiosidade assanhava-se cada vez mais. Estalavam

todos por saber quem a tinha emprenhado «Quem foi?! Quem foi?!» esta

phrase apertava-a num torniquete. Afinal, não houve outro remedio:

--Foi seu Domingos ... disse ella, chorando e cobrindo o rosto com a

fralda do vestido, rasgado na lucta.

--O Domingos!...

--O caixeiro da venda!...

--Ah! foi aquelle cara de nabo? gritou Marcianna. Vem cá!

E, agarrando a filha pela mão, arrastou-a até a venda.

Os circumstantes acompanharam-na ruidosamente e de carreira.

A taverna, como a casa de pasto, ferviam de concurrencia.

Ao balcão d'aquella, o Domingos e o Manoel aviavam os freguezes, numa

roda viva. Havia muitos negros e negras. O barulho era enorme. A Leonor

lá estava, sempre aos pulos, mexendo com um, mexendo com outro,

mostrando a dupla fila de dentes brancos e grandes, e levando apalpões

rudes de mãos de couro nas suas magras e escorridas nadegas de negrinha

virgem. Tres marujos inglezes bebiam gengibirra, cantando, ebrios, na

sua lingua e mascando tabaco.

Marcianna na frente do grande grupo e sem largar o braço da filha, que

a seguia como um animal puxado pela colleira, ao chegar á porta lateral

da venda, berrou:

--Ó seu João Romão!

--Que temos lá? perguntou de dentro o vendeiro, atrapalhado de

serviço.

Bertoleza, com uma grande colher de zinco gottejante de gordura,

appareceu á porta, muito ensebada e suja de tisna; e, ao ver tanta

gente reunida, gritou para seu homem:

--Corre aqui, seu João, que não sei o que houve!

Elle veio afinal.

Que diabo era aquillo?

--Venho entregar-lhe esta perdida! Seu caixeiro a cobrio, deve tomar

conta d'ella!

João Romão ficou perplexo.

--Hein?! Que é lá isso?!

--Foi o Domingos! disseram muitas vozes.

--Ó seu Domingos!

O caixeiro respondeu: «Senhor...» com uma voz de delinquente.

--Chegue cá!

E o criminoso apresentou-se, livido de morte.

--Que fez você com esta pequena?

--Não fiz nada, não senhor!...

--Foi elle, sim! desmentio-o a Florinda.--O caixeiro desviou os olhos,

para a não encarar.--Um dia de manhãzinha, ás quatro horas, no

capinzal, debaixo das mangueiras...

O mulherio em massa recebeu estas palavras com um coro de gargalhadas.

--Então o senhor anda-me aqui a fazer conquistas, hein?!... disse o

patrão, meneando a cabeça. Muito bem! Pois agora é tomar conta da

fazenda e, como não gosto de caixeiros amigados, póde procurar arranjo

n'outra parte!...

Domingos não respondeu patavina; abaixou o rosto e retirou-se

lentamente.

O grupo das lavadeiras e dos curiosos derramou-se então pela venda,

pelo portão da estalagem, pelo frege, por todos os lados, repartindo-se

em pequenos magotes que discutiam o facto. Principiaram os commentarios,

os juizos pró e contra o caixeiro; fizeram-se prophecias.

Entretanto, Marcianna, sem largar a filha, invadira a casa de João

Romão e perseguia o Domingos que preparava já a sua trouxa.

--Então? perguntou-lhe. Que tenciona fazer?

Elle não deu resposta.

--Vamos! vamos! falle! desembuche!

--Ora lixe-se! resmungou o caixeiro; agora muito vermelho de colera.

--Lixe-se, não!... Mais de vagar com o andôr! Você ha de casar: ella

é menor!

Domingos soltou uma palavrada, que enfureceu a velha.

--Ah, sim?! bradou esta. Pois veremos!

E despejou da venda, gritando para todos:

--Sabe? O cara de nabo diz que não casa!

Esta phrase produzio o effeito de um grito de guerra entre as

lavadeiras, que se reuniram de novo, agitadas por uma grande

indignação.

--Como, não casa?!...

--Era só o que faltava!

--Tinha graça!

--Então mais ninguem póde contar com a honra de sua filha?

--Se não queria casar pr'a que fez mal?

--Quem não póde com o tempo não inventa modas!

--Ou elle casa ou sáe d'aqui com os ossos em sôpa!

--Quem não quer ser lobo não lhe vista a pelle!

A mais empenhada n'aquella reparação era a Machona, e a mais indignada

com o facto era Dona Isabel. A primeira corrêra á frente da venda,

disposta a segurar o culpado, se este tentasse fugir. Com o seu exemplo

não tardou que em cada porta, por onde era possivel uma escapula, se

postassem as outras de sentinella, formando grupos de tres e quatro. E,

no meio de crescente algazarra, ouviam-se pragas ferozes e ameaças:

--Das Dôres! toma cuidado, que o patife não espirre por ahi!

--Ó seu João Romão, se o homem não casa, mande nol-o pra cá! Temos

ainda algumas pequenas que lhe convêm!

--Mas onde está esse ordinario?!

--Saia o canalha!

--Está fazendo a trouxa!

--Quer escapar!

--Não deixa sahir!

--Chama a policia!

--Onde está o Alexandre?

E ninguem mais se entendia. Á vista d'aquella agitação, o vendeiro

foi ter com o Domingos.

--Não saia agora, ordenou-lhe. Deixe-se ficar por emquanto. Logo mais

lhe direi o que deve fazer.

E chegando a uma das portas que davam para a estalagem, gritou:

--Vá de rumor! Não quero isto aqui! É safar!

--Pois então o homem que case! responderam.

--Ou dê-nos pr'a cá o patife!

--Fugir é que não!

--Não foge! não deixa fugir!

--Ninguem se arrede!

E, como a Marcianna lhe lançasse uma injuria mais fórte, ameaçando-o

com o punho fechado, o taverneiro jurou que se ella insistisse com

desaforos, a mandaria jogar lá fóra, junto com a filha, por um urbano.

--Vamos! Vamos! Volte cada uma para a sua obrigação, que eu não posso

perder tempo!

--Ponha-nos então pr'a cá o homem! exigio a mulata velha.

--Venha o homem! acompanhou o côro.

--É preciso dar-lhe uma lição!

--O rapaz casa! disse o vendeiro com ar sisudo. Já lhe fallei... Está

perfeitamente disposto! E, se não casar, a pequena terá o seu dote!

Vão descansados; respondo por elle ou pelo dinheiro!

Estas palavras apaziguaram os animos; o grupo das lavadeiras afrouxou;

João Romão recolheu-se: chamou de parte o Domingos e disse-lhe que

não arredasse pé de casa antes de noite fechada.

--No mais ... acrescentou; póde tratar de vida nova! Nada o prende

aqui. Estamos quites.

--Como? se o senhor ainda não me fez as contas?!...

--Contas? Que contas? O seu saldo não chega para pagar o dote da

rapariga!...

--Então eu tenho de pagar um dote?!...

--Ou casar... Ah, meu amigo, este negocio de tres vintens é assim!

Custa dinheiro! Agora, se você quizer, vá queixar-se á policia...

Está no seu direito! Eu me explicarei em juizo!...

--Com que, não recebo nada?...

--E não principie com muita coisa, que lhe fecho a porta e deixo-o

ficar ás turras lá fóra com esses damnados! Você bem vio como estão

todos a seu respeito! E, se ha pouco não lhe arrancaram os figados,

agradeça-o a mim! Foi preciso prometter dinheiro e tenho de cahir com

elle, de certo! mas não é justo, nem eu admitto, que saia da minha

algibeira, porque não estou disposto a pagar os caprichos de ninguem, e

muito menos dos meus caixeiros!

--Mas...

--Basta! Se quizer, por muito favor, ficar aqui até á noite, ha de

ficar calado; ao contrario, rua!

E afastou-se.

Marcianna resolveu não ir ao sub-delegado, sem saber que providencias

tomaria o vendeiro. Esperaria até ao dia seguinte «para ver só!» O

que n'esse ella fez foi dar uma boa lavagem na casa e arrumal-a muitas

vezes, como costumava, sempre que tinha lá as suas zangas.

O escandalo não deixou de ser, durante o dia, discutido um só

instante. Não se fallava n'outra coisa; tanto que, quando, já á

noite, Augusta e Alexandre receberam uma visita da comadre, a Leonie,

era ainda esse o principal assumpto das conversas.

Leonie, com as suas roupas exageradas e barulhentas de cocote á

franceza, levantava rumor quando lá ia e punha expressões de assombro

em todas as caras. O seu vestido de seda côr de aço, enfeitado de

encarnado sangue de boi, curto, petulante, mostrando uns sapatinhos á

moda com um salto de quatro dedos de altura; as suas luvas de vinte

botões que lhe chegavam até aos sovacos; a sua sombrinha vermelha,

sumida n'uma nuvem de rendas côr de rosa e com um grande cabo cheio de

arabescos extravagantes; o seu pantafaçudo chapéo de immensas abas

forradas de veludo escarlate, com um passaro inteiro grudado á copa;

as suas joias caprichosas, scintillantes de pedras finas: os seus labios

pintados de carmim; suas palpebras tingidas de violeta; o seu cabello

artificialmente loiro; tudo isto contrastava tanto com as vestimentas,

os costumes e as maneiras d'aquella pobre gente, que de todos os lados

surgiam olhos curiosos a espreital-a pela porta da casinha do Alexandre;

Augusta, ao ver a sua pequena, a Jujú, como vinha tão embonecada e

catita, ficou com os d'ella arrazados d'agoa.

Leonie trazia sempre muito bem calçada e vestida a afilhada, levando o

capricho ao ponto de lhe mandar talhar a roupa da mesma fazenda com que

fazia as suas e pela mesma costureira; arranjava-lhe chapéos

escandalosos como os d'ella e dava-lhe joias. Mas, n'aquelle dia, a

grande novidade que Jujú apresentava era estar de cabellos loiros,

quando os tinha castanhos por natureza. Foi caso para uma revolução na

estalagem; a noticia correu logo de numero a numero, e muitos moradores

se abalaram do commodo para ver a filhita da Augusta «com cabellos de

franceza.»

Tal successo pôz Leonie radiante de alegria. Aquella afilhada era o seu

luxo, a sua originalidade, a coisa boa da sua vida de cansaços

depravados; era o que aos seus proprios olhos a resgatava das

abjecções do officio. Prostituta de casa aberta, presava todavia com

admiração e respeito a honestidade vulgar da comadre; sentia-se

honrada com a sua estima; cobria-a de obsequios de toda a especie. Nos

instantes que estava ali, entre aquelles seus amigos simplorios, que a

matariam de ridiculo em qualquer outro logar, nem ella parecia a mesma,

pois até os olhos lhe mudavam de expressão. E não queria

preferencias: assentava-se no primeiro banco, bebia agoa pela caneca de

folha, tomava ao collo o pequenito da comadre e, ás vezes, descalçava

os sapatos para enfiar os chinellos velhos que encontrasse debaixo da

cama.

Não obstante, o acatamento que lhe votavam Alexandre e a mulher não

tinha limites; pareciam capazes dos maiores sacrificios por ella.

Adoravam-na. Achavam-na boa de coração como um anjo, e muito linda nas

suas roupas de espavento, com o seu rostinho redondo, malicioso e

petulante, onde reluziam dentes mais alvos que um marfim.

Jujú, com um embrulho de balas em cada mão, era carregada de casa em

casa, passando de braço a braço e levada de bocca em bocca, como um

idolo milagroso, que todos queriam beijar.

E os elogios não cessavam:

--Rica pequena!...

--É um enlevo olhar a gente pr'o demoninho!

--É mesmo uma lindeza de criança!

--Uma criaturinha dos anjos!

--Uma boneca franceza!

--Uma menina Jesus!

O pai acompanhava-a commovido, mas solemne sempre, parando a todo

momento, como em procissão, á espera que cada qual desafogasse por sua

vez o enthusiasmo pela criança. Silenciosamente risonho, com os olhos

humidos, patenteava em todo o seu carão mulato, de bigode que parecia

postiço, um ar condolente e estupido de um profundo reconhecimento por

aquella fortuna, que Deus lhe dera á filha, enviando-lhe dos ceus o

ideal das madrinhas.

E, emquanto Jujú percorria a estalagem, conduzida em triumpho, Leonie

na casa da comadre, cercada por uma roda de lavadeiras e crianças,

discreteava sobre assumptos sérios, fallando compassadamente, cheia de

inflexões de pessoa pratica e ajuisada, condemnando máos actos e

desvarios, applaudindo a moral e a virtude. E aquellas mulheres, aliás

tão alegres e vivazes, não se animavam, defronte d'ella, a rir nem

levantar a voz, e conversavam a medo, cochichando, a tapar a bocca com a

mão, tolhidas de respeito pela cocote, que as dominava na sua

sobranceria de mulher loira vestida de seda e coberta de brilhantes. A

das Dôres sentio-se orgulhosa, quando Leonie lhe pousou no hombro a

mãozinha enluvada e rescendente, para lhe perguntar pelo seu homem.

E não se fartavam de olhar para ella, de admiral-a; chegavam a

examinar-lhe a roupa, revistar-lhe as saias, apalpar-lhe as meias,

levantando-lhe o vestido, com exclamações de assombro á vista de

tanto luxo de rendas e bordados. A visita sorria, por sua vez commovida.

Piedade declarou que a roupa branca da madama era rica nem como a da

Nossa Senhora da Penha. E Nênêm, no seu enthusiasmo, disse que a

invejava do fundo de coração, ao que a mãe lhe observou que não

fosse besta. O Albino contemplava-a em extasis, de mão no queixo, o

cotovelo no ar. A Rita Bahiana levára-lhe um ramalhete de rosas. Esta

não se illudia com a posição da loureira, mas dava-lhe apreço talvez

por isso mesmo e, em parte, porque a achava deveras bonita. «Ora! era

preciso ser bem esperta e valer muito para arrancar assim da pelle dos

homens ricos aquella porção de joias e todo aquelle luxo de roupa por

dentro e por fóra!»

--Não sei, filha! pregava depois a mulata, no pateo, a uma companheira;

seja assim ou assado, a verdade é que ella passa muito bem de bocca e

nada lhe falta: sua boa casa; seu bom carro para passeiar á tarde;

theatro toda a noite; bailes quando quer e, aos domingos, corridas,

regatas, pagodes fóra da cidade e dinheirama grossa para gastar á

farta! Emfim, só o que afianço é que esta não está sujeita, como a

Leocadia e outras, a pontapés e cachações de um bruto de marido! É

dona das suas acções! livre como o lindo amor! Senhora do seu

corpinho, que ella só entrega a quem muito bem lhe der na veneta!

--E Pombinha?... perguntou a visita. Não me appareceu ainda!...

--Ah! esclareceu Augusta. Não está ahi, foi á sociedade de dansa com

a mãe.

E, como a outra mostrasse na cara não ter comprehendido, explicou que a

filha de Dona Isabel ia todas as terças, quintas e sabbados, mediante

dois mil reis por cada noite, servir de dama n'uma sociedade em que os

caixeiros do commercio aprendiam a dansar.

--Foi lá que ella conheceu o Costa... acrescentou.

--Que Costa?

--O noivo! Então a Pombinha já não foi pedida?

--Ah, sei...

E a cocote perguntou depois, abafando a voz:

--E aquillo?... Já veio afinal?...

--Qual! Não é por falta de boa vontade da parte d'ellas, coitadas!

Agora mesmo a velha fez uma nova promessa á Nossa Senhora da

Annunciação ... mas não ha meio!

D'ahi a pouco, Augusta apresentou-lhe uma chicara de café, que Leonie

recusou por não poder beber. «Estava em uso de remedios...» Não

disse porém quaes eram estes, nem para que molestia os tomava.

--Prefiro um copo de cerveja, declarou ella.

E, sem dar tempo a que se oppuzessem, tirou da carteira urna nota de dez

mil reis, que deu a Agostinho para ir buscar tres garrafas de Carls

Berg.

Á vista dos copos, liberalmente cheios, formou-se um silencio

enternecido. A cocote distribuio-os por sua propria mão aos

circumstantes, reservando um para si. Não chegavam. Quiz mandar buscar

mais; não lh'o permittiram, objectando que duas e tres pessoas podiam

beber juntas.

--Para que gastar tanto?... Que alma grande!

O troco ficou esquecido, de proposito, sobre a commoda, entre uma

infinita quinquilharia de coisas velhas e bem tratadas.

--Quando você, comadre, agora me apparece por lá?... quiz saber

Leonie.

--Pr'a semana, sem falta; levo-lhe toda a roupa. Agora, se a comadre tem

precisão de alguma ... póde-se apromptar com mais pressa...

--Então é bom mandar-me toalhas e lençóes... Camisas de dormir, é

verdade! tambem tenho poucas.

--Depois d'amanhã está tudo lá.

E a noite ia se passando. Deram dez horas. Leonie, impaciente já pelo

rapaz que ficára de ir buscal-a, mandou ver se elle por acaso estaria

no portão, á espera.

--E aquelle mesmo que veio da outra vez com a comadre?...

--Não. É um mais alto. De cartola branca.

Correu muita gente até á rua. O rapaz não tinha chegado ainda. Leonie

ficou contrariada.

--Imprestavel!... resmungou. Faz-me ir sozinha por ahi ou incommodar

alguem que me acompanhe!

--Porque a comadre não dorme aqui?... lembrou Augusta. Se quizer,

arranja-se tudo! Não passará bem como em sua casa, mas uma noite corre

depressa!...

Não! não era possivel! Precisava estar em casa essa noite: no dia

seguinte pela manhã iriam procural-a muito cedo.

N'isto chegou Pombinha com Dona Isabel. Disseram-lhes logo á entrada

que Leonie estava em casa do Alexandre, e a menina deixou a mãe um

instante no numero 15 e seguio sozinha para ali, radiante de alegria.

Gostavam-se muito uma da outra. A cocote recebeu-a com exclamações de

agrado e beijou-a nos dentes e nos olhos repetidas vezes.

--Então, minha flôr, como está essa lindeza? perguntou-lhe, mirando-a

toda.

--Saudades suas ... respondeu a moça, rindo bonito na sua bocca ainda

pura.

E uma conversa amiga, cheia de interesse para ambas, estabeleceu-se,

isolando-as de todas as outras. Leonie entregou á Pombinha uma medalha

de prata que lhe trouxéra; uma tetéia que valia só pela exquisitice,

representando uma fatia de queijo com um camondongo em cima. Correu logo

de mão em mão, levantando espantos e gargalhadas.

--Por um pouco que não me apanhas ... continuou a cocote na sua

conversa com a menina. Se a pessoa que me vem buscar tivesse chegado

já, eu estaria longe.--E mudando de tom, a acarinhar-lhe os

cabellos:--Porque não me appareces?... Não tens que receiar: minha

casa é muito socegada... Já lá tem ido familias!...

--Nunca vou á cidade... É raro! suspirou Pombinha.

--Vai amanhã com tua mãe; jantam as duas commigo...

--Se mamãe deixar... Olha! ella ahi vem. Peça.

Dona Isabel prometteu ir, não no dia seguinte, mas no outro immediato,

que era domingo. E a palestra durou animada até que chegou, d'ahi a um

quarto de hora, o rapaz por quem esperava Leonie. Era um moço de vinte

e poucos annos, sem emprego e sem fortuna, mas vestido com esmero e

muito bem apessoado. A cocote, logo que o vio approximar-se, disse

baixinho á menina:

--Não é preciso que elle saiba que vais lá domingo, ouviste?

Jujú dormia. Resolveram não acordal-a; iria no dia seguinte.

Na occasião em que Leonie partia pelo braço do amante, acompanhada

até ao portão por um sequito de lavadeiras, a Rita, no pateo, beliscou

a coxa do Jeronymo e soprou-lhe á meia voz:

--Não lhe cáia o queixo!...

O cavouqueiro teve um desdenhoso sacudir d'hombros.

--Aquella pr'a cá,nem pintada!

E, para deixar bem patente as suas preferencias, virou o pé do lado e

bateu com o tamanco na canella da mulata.

--Olha o bruto!... queixou-se esta, levando a mão ao logar da pancada.

Sempre ha de mostrar que é gallego!

X

No outro dia a casa do Miranda estava em preparos de festa. Lia-se no

«Jornal do Commercio» que S. Ex. fôra agraciado pelo governo

portuguez como titulo de Barão do Freixal; e como os seus amigos se

achassem prevenidos para ir comprimental-o no domingo, o negociante

dispunha-se a recebel-os condignamente.

Do cortiço, onde esta novidade causou sensação, viam-se nas janellas

do sobrado, abertas de par em par, surgir de vez em quando Leonor ou

Izaura, a sacudirem tapetes e capachos, batendo-lhes em cima com um

páo, os olhos fechados, a cabeça torcida para dentro por causa da

poeira que a cada pancada se levantava, como fumaça de um tiro de

peça. Chamaram-se novos criados para aquelles dias. No salão da

frente, pretos lavavam o soalho, e na cozinha havia reboliço. Dona

Estella, de penteador de cambraia enfeitado de laços côr de rosa, era

lobrigada de relance, ora de um lado, ora de outro, a dar as suas

ordens, abanando-se com um grande leque; ou apparecia no patamar da

escada do fundo, preoccupada em soerguer as saias contra as aguas sujas

da lavagem, que escorriam para o quintal. Zulmira tambem ia e vinha, com

a sua pallidez fria e humida de menina sem sangue. Henrique, de paletó

branco, ajudava o Botelho nos arranjos da casa e, de instante a

instante, chegava á janella, para namoriscar Pombinha, que fingia não

dar por isso, toda embebida na sua costura, á porta do numero 15, numa

cadeira de vime, uma perna dobrada sobre a outra, mostrando a meia de

seda azul e um sapatinho preto de entrada baixa; só de longo em longo

espaço, ella desviava os olhos do serviço e erguia-os para o sobrado.

Entretanto, a figura gorda e encanecida do novo Barão, sobrecasacado,

com o chapéo alto derreado para traz na cabeça e sem largar o

guarda-chuva, entrava da rua e atravessava a sala de jantar, seguia até

á despensa, diligente e esbaforido, indagando se já tinha vindo isto e

mais aquillo, provando dos vinhos que chegavam em garrafões, examinando

tudo, voltando-se para a direita e para a esquerda, dando ordens,

ralhando, exigindo actividade, e depois tornava a sahir, sempre

apressado, e mettia-se no carro que o esperava á porta da rua.

--Toca! toca! Vamos ver se o fogueteiro apromptou os fogos!

E viam-se chegar, quasi sem intermittencia, homens carregados de gigos

de champanha, caixas de porto e bordeus, barricas de cerveja, cestos e

cestos de mantimentos, latas e latas de conserva; e outros traziam perus

e leitões, canastras d'óvos, quartos de carneiro e de porco. E as

janellas do sobrado iam-se enchendo de compoteiras de doce ainda quente,

sahido do fogo, e travessões, de barro e de ferro, com grandes peças

de carne em vinha d'alhos, promptos para entrar no forno. Á porta da

cozinha penduraram pelo pescoço um cabrito esfolado, que tinha as

pernas abertas, lembrando sinistramente uma criança a quem enforcassem

depois de tirar-lhe a pelle.

Todavia, cá em baixo, um caso palpitante agitava a estalagem: Domingos,

o seductor da Florinda, desapparecêra durante a noite e um novo

caixeiro o substituia ao balcão.

O vendeiro retorquia atravessado a quem lhe perguntava pelo evadido:

--Sei cá! Creio que não podia trazel-o pendurado ao pescoço!...

--Mas você disse que respondia por elle! repontou Marcianna, que

parecia ter envelhecido dez annos n'aquellas ultimas vinte e quatro

horas.

--De accordo, mas o tratante cegou-me! Que havemos de fazer?... É ter

paciencia!

--Pois então ande com o dote!

--Que dote? Você está bebada?

--Bebada, hein?! Ah, corja! tão bom é um como o outro! Mas eu hei de

mostrar!

--Ora, não me amole!

E João Romão virou-lhe as costas, para fallar á Bertoleza que se

chegára.

--Deixa estar, malvado, que Deus é quem ha de punir por mim e por minha

filha! exclamou a desgraçada.

Mas o vendeiro afastou-se, indifferente ás phrases que uma ou outra

lavadeira imprecava contra elle. Ellas, porém, já se não mostravam

tão indignadas como na vespera; uma só noite rolada por cima do

escandalo bastara para tirar-lhe o merito de novidade.

Marcianna foi com a pequena á procura do sub-delegado e voltou

aborrecida, porque lhe disseram que nada se poderia fazer emquanto não

apparecesse o delinquente. Mãe e filha passaram todo esse sabbado na

rua, n'uma roda viva, da secretaria e das estações de policia para o

escriptorio de advogados que, um por um, lhes perguntavam de quanto

dispunham para gastar com o processo, despachando-as, sem mais

considerações, logo que se inteiravam da escassez de recursos de ambas

as partes.

Quando as duas, prostradas de cansaço, esbrazeadas de calôr, tornaram

á tarde para a estalagem, na hora em que os homens do mercado, que ali

moravam, recolhiam-se já com os balaios vazios ou com o resto da fructa

que não conseguiram vender na cidade, Marcianna vinha tão furiosa que,

sem dar palavra á filha e com os braços moidos de esbordoal-a, abrio

toda a casa e correu a buscar agoa para baldear o chão. Estava

possessa.

--Vê a vassoura! Anda! Lava! lava, que está isto n'uma porcaria!

Parece que nunca se limpa o diabo d'esta casa! É deixal-a fechada uma

hora e morre-se de fedor! Apre! isto faz peste!

E notando que a pequena chorava:--Agora déste para chorar, hein?! mas

na occasião do relaxamento havias de estar bem disposta!

A filha soluçou.

--Cala-te, coisa ruim! Não ouviste?

Florinda soluçou mais forte.

--Ah! choras sem motivo?... Espera, que te faço chorar com razão!

E precipitou-se sobre uma acha de lenha.

Mas a mulatinha, de um salto, pinchou pela porta e atravessou de uma só

carreira o pateo da estalagem, fugindo em desfilada pela rua.

Ninguem teve tempo de apanhal-a, e um clamor de gallinheiro assustado

levantou-se entre as lavadeiras.

Marcianna foi até ao portão, como uma doida e, comprehendendo que a

filha a abandonava, desatou por sua vez a soluçar, de braços abertos,

olhando para o espaço. As lagrimas saltavam-lhe pelas rugas da cara. E

logo, sem transição, disparou da colera, que a convulsionava desde a

manhã da vespera, para cahir n'uma dôr humilde e enternecida de mãe

que perdeu o filho.

--Para onde iria ella, meu pai do ceu?...

--Pois você desd'hontem que bate na rapariga!... disse-lhe a Rita.

Fugio-lhe, é bem feito! Que diabo! ella é de carne, não é de ferro!

--Minha filha!

--É bem feito! Agora chore na cama, que é logar quente!

--Minha filha! Minha filha! Minha filha!

Ninguem quiz tomar o partido da infeliz, á excepção da cabocla velha,

que foi collocar-se perto d'ella, fitando-a, immovel, com o seu

desvairado olhar de bruxa feiticeira.

Marcianna arrancou-se da abstração plangente em que cahira, para

arvorar-se terrivel defronte da venda, apostrophando com a mão no ar e

a carapinha desgrenhada:

--Este gallego é que teve a culpa de tudo! Maldito sejas tu, ladrão!

Se não me déres conta de minha filha, malvado, pego-te fogo na casa!

A bruxa sorrio sinistramente ao ouvir estas ultimas palavras.

O vendeiro chegou á porta e ordenou em tom secco á Marcianna que

despejasse o numero 12.

--É andar! é andar! Não quero esta berraria aqui! Bico, ou chamo um

urbano! Dou-lhe uma noite! amanhã pela manhã, rua!

Ah! elle esse dia estava intolerante com tudo e com todos; por mais de

uma vez mandara Bertoleza á coisa mais immunda, apenas porque esta lhe

fizera algumas perguntas concernentes ao serviço. Nunca o tinham visto

assim, tão fora de si, tão cheio de repellões; nem parecia aquelle

mesmo homem inalteravel, sempre calmo e methodico.

E ninguem seria capaz de acreditar que a causa de tudo isso era o facto

de ter sido o Miranda agraciado com o titulo de Barão.

Sim, senhor! aquelle taverneiro, na apparencia tão humilde e tão

miseravel; aquelle sovina que nunca sahíra dos seus tamancos e da sua

camisa de riscadinho de Angola; aquelle animal que se alimentava peior

que os cães, para pôr de parte tudo, tudo, que ganhava ou extorquia;

aquelle ente atrophiado pela cobiça e que parecia ter abdicado dos seus

privilegios e sentimentos de homem; aquelle desgraçado, que nunca

jamais amára senão ao dinheiro, invejava agora o Miranda, invejava-o

devéras, com dobrada amargura do que soffrera o marido de Dona Estella,

quando, por sua vez, o invejara a elle. Acompanhára-o desde que o

Miranda viera habitar o sobrado com a familia; vira-o nas felizes

occasiões da vida, cheio de importancia, cercado de amigos e rodeado de

aduladores; vira-o dar festas e receber em sua casa as figuras mais

salientes da praça e da politica; vira-o luzir, como um grosso pião de

ouro, girando por entre damas da melhor e mais fina sociedade

fluminense; vira-o metter-se em altas especulações commerciaes e

sahir-se bem; vira seu nome figurar em varias corporações de gente

escolhida e em subscripções, assignando bellas quantias; vira-o fazer

parte de festas de caridade e festas de regosijo nacional; vira-o

elogiado pela imprensa e acclamado como homem de vistas largas e grande

talento financeiro; vira-o enfim em todas as suas prosperidades, e nunca

lhe tivera inveja. Mas agora, estranho deslumbramento! quando

o vendeiro leu no «Jornal do Commercio» que o visinho estava

barão--Barão!--sentio tamanho calafrio em todo o corpo, que a vista

por um instante se lhe apagou dos olhos.

--Barão!

E durante todo o santo dia não pensou n'outra coisa. «Barão!... Com

esta é que elle não contava!...» E, defronte da sua preoccupação,

tudo se convertia em commendas e crachás; até os modestos dois vintens

de manteiga, que media sobre um pedaço de papel de embrulho para dar ao

freguez, transformavam-se, de simples mancha amarella, em opulenta

insígnia de oiro cravejada de brilhantes.

Á noite, quando se estirou na cama, ao lado da Bertoleza, para dormir,

não poude conciliar o somno. Por toda a miseria d'aquelle quarto

sordido; pelas paredes immundas, pelo chão enlameado de poeira e cebo,

nos tectos funebremente velados pelas teias de aranha, estrellavam

pontos luminosos que se iam transformando em gram-cruzes, em habitos e

veneras de toda a ordem e especie. E em volta do seu espirito, pela

primeira vez allucinado, um turbilhão de grandezas, que elle mal

conhecia e mal podia imaginar, perpassou vertiginosamente, em ondas de

seda e rendas, velludo e perolas, collos e braços de mulheres seminuas,

num fremir de risos e espumar aljofrado de vinhos côr de oiro. E nuvens

de caudas de vestido e abas de casaca lá iam, rodando deliciosamente,

ao som de langorosas valsas e á luz de candelabros de mil vélas de

todas as cores. E carruagens desfilavam reluzentes, com uma corôa á

portinhola, o cocheiro tezo, de libré, sopeando parelhas de cavallos

grandes. E interminaveis mezas estendiam-se, serpenteando a perder de

vista, accumuladas de iguarias, n'uma encantadora confusão de flores,

luzes, baixellas e crystaes, cercadas de um e de outro lado por luxuoso

renque de convivas, de taça em punho, brindando o amphitryão.

E, porque nada d'isso o vendeiro conhecia de perto, mas apenas pelo

ruido namorador e fatuo, ficava deslumbrado com o seu proprio sonho.

Tudo aquillo, que agora lhe deparava o delirio, até ahi só lhe passara

pelos olhos ou lhe chegara aos ouvidos como o echo e reflexo de um mundo

inattingivel e longinquo; um mundo habitado por seres superiores; um

paraizo de gozos excellentes e delicados, que os seus grosseiros

sentidos repelliam; um conjuncto harmonioso e discreto de sons e côres

mal definidas e vaporosas; um quadro de manchas pallidas, sussurrantes,

sem firmezas de tintas, nem contornos, em que se não determinava o que

era petala de rosa ou aza de borboleta, murmurio de brisa ou ciciar de

beijos.

Não obstante, ao lado d'elle a crioula roncava, de papo para o ar,

gorda, estrompada de serviço, tresandando a uma mistura de suor com

cebola crua e gordura podre.

Mas João Romão nem dava por ella; só o que elle via e sentia era todo

aquelle voluptuoso mundo inaccessivel vir descendo para a terra,

chegando-se para o seu alcance, lentamente, accentuando-se. E as dubias

sombras tomavam forma, e as vozes duvidosas e confusas transformavam-se

em fallas distinctas, e as linhas desenhavam-se nitidas, e tudo ia se

esclarecendo e tudo se aclarava, n'um reviver de natureza ao raiar do

sol. Os tenues murmurios suspirosos desdobravam-se em orchestras de

baile, onde se distinguiam instrumentos, e os surdos rumores indefinidos

eram já animadas conversas, em que damas e cavalheiros discutiam

politica, artes, litteratura e sciencia. E uma vida inteira, completa,

real, descortinou-se amplamente defronte dos seus olhos fascinados; uma

vida fidalga, de muito luxo, de muito dinheiro; uma vida em palacio,

entre mobilias preciosas e objectos esplendidos, onde elle se via

cercado de titulares millionarios, e homens de farda bordada, a quem

tratava por tu, de igual para igual, pondo-lhes a mão no hombro. E ali

elle não era, nunca fôra, o dono de um cortiço, de tamancos e em

mangas de camisa; ali era o Sr. Barão! O Barão do oiro! o Barão das

grandezas! o Barão dos milhões! Vendeiro? Qual! era o famoso, o enorme

capitalista! o proprietario sem igual! o incomparavel banqueiro, em

cujos capitaes se equilibrava a terra, como immenso globo em cima de

columnas feitas de moedas de oiro. E vio-se logo montado a cavalleiras

sobre o mundo, pretendendo abarcal-o com as suas pernas curtas; na

cabeça uma corôa de rei e na mão um sceptro. E logo, de todos os

cantos do quarto, começaram a jorrar cascatas de libras esterlinas; e a

seus pés principiou a formar-se um formigueiro de pygmeus em grande

movimento commercial; e navios descarregavam pilhas e pilhas de fardos

e caixões marcados com as iniciaes do seu nome; e telegrammas faiscavam

electricamente em volta da sua cabeça; e paquetes de todas as

nacionalidades giravam vertiginosamente em torno do seu corpo de

colosso, arfando e apitando sem tregoa; e rapidos comboios a vapor

atravessavam-no todo, de um lado a outro, como se o cosessem com uma

cadeia de wagons.

Mas, de repente, tudo desappareceu com a seguinte phrase:

--Acorda, seu João, para ir á praia. São horas!

Bertoleza chamava-o aquelle domingo, como todas as manhãs, para ir

buscar o peixe, que ella tinha de preparar para os seus freguezes. João

Romão, com medo de ser illudido, não confiava nunca dos empregados a

menor compra a dinheiro; n'esse dia, porém, não se achou com animo de

deixar a cama e disse á amiga que mandasse o Manoel.

Seriam quatro da madrugada. Elle conseguio então passar pelo somno.

Ás seis estava de pé. Defronte, a casa do Miranda resplandecia já.

Içaram-se bandeiras nas janellas da frente; mudaram-se as cortinas,

armaram-se florões de murta á entrada e recamaram-se de folhas de

mangueira o corredor e a calçada. Dona Estella mandou soltar foguetes e

queimar bombas ao romper da alvorada. Uma banda de musica, em frente á

porta do sobrado, tocava desde essa hora. O Barão madrugara com a

familia; todo de branco, com uma gravata de rendas, brilhantes no peito

da camisa, chegava de vez em quando a uma das janellas, ao lado da

mulher ou da filha, agradecendo para a rua; e limpava a testa com o

lenço; accendia charutos, risonho, feliz, resplandecente.

João Romão via tudo isto com o coração moído. Certas duvidas

aborrecidas entravam-lhe agora a roer por dentro. Qual seria o melhor e

o mais acertado:--ter vivido como elle vivera até ali, curtindo

privações, em tamancos e mangas de camisa; ou ter feito como o

Miranda, comendo boas coisas e gosando á farta?... Estaria elle, João

Romão, habilitado a possuir e desfrutar tratamento igual ao do

visinho?... Dinheiro não lhe faltava para isso... Sim, de accordo! mas

teria animo de gastal-o assim, sem mais nem menos?... sacrificar uma boa

porção de contos de réis, tão penosamente accumulados, em troca de

uma tetéia para o peito?... Teria animo de dividir o que era seu,

tomando esposa, fazendo familia e cercando-se de amigos?... Teria animo

de encher de finas iguarias e vinhos preciosos a barriga dos outros,

quando até ali fôra tão pouco condescendente para com a propria?...

E, caso resolvesse mudar de vida radicalmente, unir-se a uma senhora bem

educada e distincta de maneiras, montar um sobrado como o do Miranda e

volver-se titular, estaria apto para o fazer?... poderia dar conta do

recado?... Dependeria tudo isso sómente da sua vontade?... «Sem nunca

ter vestido um paletó, como vestiria uma casaca?... com aquelles pés,

deformados pelo diabo dos tamancos, criados á solta, sem meias, como

calçaria sapatos de baile?... E suas mãos, callosas e mal tratadas,

duras como as de um cavouqueiro, como se ageitariam com a luva?... E

isso ainda não era tudo! O mais difficil seria o que tivesse de dizer

aos seus convidados!... Como deveria tratar as damas e cavalheiros, em

meio de um grande salão cheio de espelhos e cadeiras doiradas?... Como

se arranjaria para conversar, sem dizer barbaridades?...

E um desgosto negro e profundo assoberbou-lhe o coração, um desejo

forte de querer saltar e um medo invencivel de cahir e quebrar as

pernas. Afinal, a dolorosa desconfiança de si mesmo e a terrivel

convicção da sua impotencia para pretender outra coisa que não fosse

ajuntar dinheiro, e mais dinheiro, e mais ainda, sem saber para que e

com que fim, acabaram azedando-lhe de todo a alma e tingindo de fel a

sua ambição e despolindo o seu oiro. «Fôra urna besta!... pensou de

si proprio, amargurado: uma grande besta!... Pois não! porque em tempo

não tratára de habituar-se logo a certo modo de viver, como faziam

tantos outros seus patricios e collegas de profissão?... Porque, como

elles, não aprendêra a dansar? e não frequentára sociedades

carnavalescas? e não fôra de vez em quando á rua do Ouvidor e aos

theatros, e a bailes, e a corridas e a passeios?... Porque se não

habituara com as roupas finas, e com o calçado justo, e com a bengala,

e com o lenço, e com o charuto, e com o chapéo, e com a cerveja, e com

tudo que os outros usavam naturalmente, sem precisar de privilegio para

isso?... Maldita economia!»

--Teria gasto mais, é verdade?... Não estaria tão bem!... mas, ora

adeus! estaria habilitado a fazer do meu dinheiro o que bem quizesse!...

Seria um homem civilisado!...

--Você deu hoje pr'a conversar com as almas, seu João?...

perguntou-lhe Bertoleza, notando que elle fallava sozinho, distrahido do

serviço.

--Deixe-me! Não me amole você tambem. Não estou bom hoje!

--Ó gentes! não fallei por mal!... Crédo!

--'Stá bem! Basta!

E o seu máo humor aggravou-se pelo correr do dia. Começou a implicar

com tudo. Arranjou logo uma péga, á entrada da venda, com o fiscal da

rua: «Pois elle era lá algum parvo, que tivesse medo de ameaças de

multas?... Se o bolas do fiscal esperava comel-o por uma perna, como

costumava fazer com os outros, que experimentasse, para ver só quanto

lhe custaria a festa!... E que lhe não rosnasse muito, que elle não

gostava de cães á porta!... Era andar!» Pegou-se depois com a

Machona, por causa de um gato d'esta, que, a semana passada, lhe fôra

ao taboleiro do peixe frito. Parava defronte das tinas vazias,

encolerisado, procurando pretextos para ralhar. Mandava, com um berro,

sahirem as crianças do seu caminho: «Que praga de piolhos! Arre,

demonio! Nunca vira gente tão damnada para parir! Pareciam ratas!» Deu

um encontrão no velho Liborio.

--Sai tu tambem do caminho, fona de uma figa! Não sei que diabo fica

fazendo cá no mundo um caco velho como este, que já não presta para

nada!

Protestou contra os gallos de um alfaiate, que se divertia a fazel-os

brigar, no meio de grande roda enthusiasmada e barulhenta. Vituperou os

italianos, porque estes, na alegre independencia do domingo, tinham á

porta da casa uma esterqueira da cascas de melancia e laranja, que elles

comiam tagarelando, assentados sobre a janella e a calçada.

--Quero isto limpo! bramava furioso. Está peior que um chiqueiro de

porcos! Apre! Tomára que a febre amarella os lamba a todos! maldita

raça de carcamanos! Hão de trazer-me isto asseiado ou vai tudo para o

olho da rua! Aqui mando eu!

Com a pobre velha Marcianna, que não tratára de despejar o numero 12,

conforme a intimação da vespera, a sua furia tocou ao delirio. A

infeliz, desde que Florinda lhe fugira, levava a choramingar e

maldizer-se, monologando com persistencia maniaca. Não pregou olho

durante toda a noite; sahíra e entrára na estalagem mais de vinte

vezes, irrequieta, ululando, como uma cadella a quem roubaram o

cachorrinho.

Estava apatetada; não respondia ás perguntas que lhe dirigiam. João

Romão fallou-lhe; ella nem sequer se voltou para ouvir. E o vendeiro,

cada vez mais excitado, foi buscar dois homens e ordenou que esvaziassem

o numero 12.

--Os tarecos fóra! e já! Aqui mandou eu! Aqui sou eu monarcha!

E tinha gestos inflexiveis de despota.

Principiou o despejo.

--Não! aqui dentro não! Tudo lá fóra! na rua! gritou elle, quando os

carregadores quizeram depôr no pateo os trens de Marcianna. Lá fóra

do portão! Lá fóra do portão!

E a misera, sem oppôr uma palavra, assistia ao despejo, acocorada na

rua, com os joelhos juntos, as mãos crusadas sobre as canellas,

resmungando. Transeuntes paravam, a olhal-a. Formava-se já um grupo de

curiosos. Mas ninguem entendia o que ella rosnava; era um rabujar

confuso, interminavel, acompanhado de um unico gesto do cabeça, triste

e automatico. Ali perto, o colchão velho, já rôto e destripado, os

moveis desconjuntados e sem verniz, as trouxas de molambos uteis, as

louças ordinarias e sujas do uso, tinham, tudo amontoado e sem ordem,

um ar indecoroso de interior de quarto de dormir, devassado em flagrante

intimidade. E veio o homem dos cinco instrumentos, que aos domingos

apparecia sempre; e fez-se o entra e sáe dos mercadores; e lavadeiras

ganharam a rua em trajos de passeio, e os taboleiros de roupa engommada,

que sabiam, cruzaram-se com os saccos de roupa suja, que entravam; e

Marcianna não se movia do seu lugar, monologando. João Romão

percorreu o numero 12, escancarando as portas, a dar arres e empurrando

para fóra, com o pé, algum trapo ou algum frasco vazio que lá ficára

abandonado; e a enxotada, indifferente a tudo, continuava a sussurrar

funebremente. Já não chorava, mas os olhos tinha-os ainda relentados

na sua muda fixidez. Algumas mulheres da estalagem iam ter com ella de

vez em quando, agora de novo compungidas, e faziam-lhe offerecimentos;

Marcianna não respondia. Quizeram obrigal-a a comer; não houve meio. A

desgraçada não prestava attenção a coisa alguma; parecia não dar

pela presença de ninguem. Chamaram-na pelo nome repetidas vezes; ella

persistia no seu inintelligivel monologo, sem tirar a vista de um ponto.

--Cruzes! parece que lhe deu alguma!

A Augusta chegára-se tambem.

--Teria ensandecido?... perguntou á Rita, que, a seu lado olhava para a

infeliz, com um prato de comida na mão. Coitada!

--Tia Marcianna! dizia a mulata. Não fique assim! Levante-se! Metta os

seus trens pr'a dentro! Vá lá pr'a casa até encontrar arrumação!...

Nada! O monologo continuava.

--Olhe que vai chover! Não tarda a cahir agoa! Já senti dois pingos na

cara.

Qual!

A Bruxa, a certa distancia, fitava-a com estranheza, igualmente immovel,

como por um effeito de suggestão.

Rita affastou-se, porque acabava de chegar o Firmo, acompanhado pelo

Porfiro, trazendo ambos embrulhos para o jantar. O amigo da das Dôres

tambem veio. Deram tres horas da tarde. A casa do Miranda continuava em

festa animada, cada vez mais cheia de visitas; lá dentro a musica quasi

que não tomava folego, enfiando quadrilhas e valsas; moças e meninas

dansavam na sala da frente, com muito riso; desarrolhavam-se garrafas a

todo o instante; os criados iam e vinham, de carreira, da sala de jantar

á despensa e á cozinha, carregados de copos em salvas; Henrique, suado

e vermelho, apparecia de quando em quando á janella, impaciente por

não ver Pombinha, que estava esse dia de passeio com a mãe em casa de

Leonie.

João Romão, depois de serrazinar na venda com os caixeiros e com a

Bertoleza, tornou ao pateo da estalagem, queixando-se de que tudo ali ia

muito mal. Censurou os trabalhadores da pedreira, nomeando o proprio

Jeronymo, cuja força physica aliás o intimidára sempre. «Era um

relaxamento aquella porcaria de serviço! Havia tres semanas que estavam

com uma broca á tôa, sem atar, nem desatar; afinal ahi chegára o

domingo e não se havia ainda lascado fogo! Uma verdadeira calaçaria! O

tal seu Jeronymo, d'antes tão apurado, era agora o primeiro a dar o

máo exemplo! perdia noites no samba! não largava os rastros da Rita

Bahiana e parecia embeiçado por ella! Não tinha geito!» Piedade,

ouvindo o vendeiro dizer mal do seu homem, saltou em defeza d'este com

duas pedras na mão, e uma contenda travou-se, assanhando todos os

animos. Felizmente, a chuva, cahindo em cheio, veio dispersar o

ajuntamento que se tornava serio. Cada um correu para o seu buraco, n'um

alvoroço exagerado; as crianças despiram-se e vieram cá fóra tomar

banho debaixo das gotteiras, por pagode, gritando, rindo, saltando e

atirando-se ao chão, a espernearem; fingindo que nadavam. E lá

defronte, no sobrado, ferviam brindes, emquanto a agoa jorrava

copiosamente, alagando o pateo.

Quando João Romão entrou na venda, recolhendo-se da chuva, um caixeiro

entregou-lhe um cartão do Miranda. Era um convite para lá ir á noite

tomar uma chavena de chá.

O vendeiro, a principio, ficou lisongeado com o obsequio, primeiro

d'esse genero que em sua vida recebia; mas logo depois voltou-lhe a

colera com maior impeto ainda. Aquelle convite irritava-o como um

ultraje, uma provocação. «Porque o pulha o convidára, devendo saber

que elle de certo lá não ia?... Para que, senão para o enfreneziar

ainda mais do que já estava?!... Seu Miranda que fosse á tabúa com a

sua festa e com os seus titulos!»

--Não preciso d'elle para nada!... exclamou o vendeiro. Não preciso,

nem dependo de nenhum safardana! Se gostasse de festas, dava-as eu!

No emtanto, começou a imaginar como sería, no caso que estivesse

prevenido de roupa e acceitasse o convite; figurou-se bem vestido, de

panno fino, com uma boa cadeia de relogio, uma gravata com alfinete de

brilhante; e vio-se lá em cima, no meio da sala, a sorrir para os

lados, prestando attenção a um, prestando attenção a outro,

discretamente silencioso e affavel, sentindo que o citavam dos lados em

voz mortiça e respeitosa como um homem rico, cheio de independencia. E

adivinhava os olhares approbativos das pessoas sérias; os oculos

curiosos das velhas assestados sobre elle, procurando ver se estaria ali

um bom arranjo para uma das filhas de menor cotação.

N'esse dia servio mal e porcamente aos freguezes; tratou aos repellões

a Bertoleza e, quando, já ás cinco horas, deu com a Marcianna, que,

uns negros por compaixão haviam arrastado para dentro da venda,

disparatou:

--Ora bolas! Pr'a que diabo me mettem em casa este estupor?! Gosto de

ver taes caridades com o que é dos outros! Isto aqui não é acoito de

vagabundos!...

E, como um policia, todo encharcado de chuva, entrasse para beber um

gole de paraty, João Romão voltou-se para elle e disse-lhe:--Camarada,

esta mulher é gira! não tem domicilio, e eu não hei de, quando fechar

a porta, ficar com ella aqui dentro da venda!

O soldado sahio e, d'ahi a coisa de uma hora, Marcianna era carregada

para o xadrez, sem o menor protesto e sem interromper o seu monologo de

demente. Os cacaréos foram recolhidos ao deposito publico por ordem do

inspector do quarteirão. E a Bruxa era a unica que parecia deveras

impressionada com tudo aquillo.

Entretanto, a chuva cessou completamente, o sol reappareceu, como para

despedir-se; andorinhas esgaivolaram no ar; e o cortiço palpitou

inteiro na trefega alegria do domingo. Nas salas do barão a festa

engrossava, cada vez mais estrepitosa; de vez em quando vinha de lá uma

taça quebrar-se no pateo da estalagem, levantando protestos e

surriadas.

A noite chegou muito bonita, com um bello luar de lua cheia, que

começou ainda com o crepusculo; e o samba rompeu mais forte e mais cedo

que de costume, incitado pela grande animação que havia em casa do

Miranda.

Foi um forrobodó valente. A Rita Bahiana essa noite estava de veia para

a coisa; estava inspirada! divina! Nunca dansára com tanta graça e

tamanha lubricidade!

Tambem cantou. E cada verso que vinha da sua bocca de mulata era um

arulhar choroso de pomba no cio. E o Firmo, bebado de volupia,

enroscava-se todo ao violão; e o violão e elle gemiam com o mesmo

gosto, grunhindo, ganindo, miando, com todas as vozes de bichos

sensuaes, n'um desespero de luxuria que penetrava até ao tutano com

lingoas finissimas de cobra.

Jeronymo não poude conter-se: no momento em que a bahiana, offegante de

cansaço, cahio exhausta, assentando-se ao lado d'ella, o portuguez

segredou-lhe com a voz estrangulada de paixão:

--Meu bem! se você quizer estar commigo, dou uma perna ao demo!

O mulato não ouvio, mas notou o cochicho e ficou, de má cara, a rondar

disfarçadamente o rival.

O canto e a dansa continuavam todavia, sem afrouxar. Entrou a das

Dôres. Nênêm, mais uma amiga sua, que fôra passar o dia com ella,

rodavam de mãos nas cadeiras, rebolando em meio de uma volta de palmas

cadenciadas, no acompanhamento do rhythmo requebrado da musica.

Quando o marido de Piedade disse um segundo cochicho á Rita, Firmo

precisou empregar grande esforço para não ir logo ás do cabo.

Mas, lá pelo meio do pagode, a bahiana cahira na imprudencia de

derrear-se toda sobre o portuguez e soprar-lhe um segredo, requebrando

os olhos. Firmo, de um salto, aprumou-se então defronte d'elle,

medindo-o de alto a baixo com um olhar provocador e atrevido. Jeronymo,

tambem posto de pé, respondeu altivo com um gesto igual.

Os instrumentos calaram-se logo. Fez-se um profundo silencio. Ninguem se

mexeu do logar em que estava. E, no meio da grande roda, illuminados

amplamente pelo capitoso luar de Abril, os dois homens, perfilados

defronte um de outro, olhavam-se em desafio.

Jeronymo era alto, espadaúdo, construcção de touro, pescoço de

Hercules, punho de quebrar um côco com um murro: era a força

tranquilla, o pulso de chumbo. O outro--franzino, um palmo mais baixo

que o portuguez, pernas e braços seccos, agilidade de maracajá: era a

força nervosa; era o arrebatamento que tudo desbarata no sobresalto do

primeiro instante. Um, solido e resistente; o outro, ligeiro e

destemido; mas ambos corajosos.

--Senta! Senta!

--Nada de rôlo!

--Segue a dansa! gritaram em volta.

Piedade erguêra-se para arredar o seu homem d'ali.

O cavouqueiro afastou-a com um empurrão, sem tirar a vista de cima do

mulato.

--Deixa-me ver o que quer de mim este cabra!... rosnou elle.

--Dar-te um banho de fumaça, gallego ordinario! respondeu Firmo, frente

a frente; agora avançando e recuando, sempre com um dos pés no ar, e

bamboleando todo o corpo e meneando os braços, como preparado para

agarral-o.

Jeronymo, esbravecido pelo insulto, cresceu para o adversario com um

socco armado; o cabra, porém, deixou-se cahir de costas, rapidamente,

firmando-se nas mãos, o corpo suspenso, a perna direita levantada; e o

sôco passou por cima, varando o espaço, emquanto o portuguez apanhava

no ventre um pontapé inesperado.

--Canalha! berrou possesso; e ia precipitar-se em cheio sobre o mulato,

quando uma cabeçada o atirou no chão.

--Levanta-te, que não dou em defuntos! exclamou o Firmo, de pé,

repetindo a sua dansa de todo o corpo.

O outro erguêra-se logo e, mal se tinha equilibrado, já uma rasteira o

tombava para a direita, emquanto da esquerda elle recebia uma tapona na

orelha. Furioso, desferio novo sôco, mas o capoeira deu para traz um

salto de gato e o portuguez sentio um pontapé nos queixos.

Espirrou-lhe sangue da bocca e das ventas. Então fez-se um clamor

medonho. As mulheres quizeram metter-se de permeio, porém o cabra as

emborcava com rasteiras rapidas, cujo movimento de pernas apenas se

percebia. Um horrivel sarilho se formava. João Romão fechou ás

pressas as portas da venda e trancou o portão da estalagem, correndo

depois para o logar da briga. O Bruno, os mascates, os trabalhadores da

pedreira, e todos os outros que tentaram segurar o mulato, tinham rolado

em torno d'elle, formando-se uma roda limpa, no meio da qual o terrivel

capoeira, fóra de si, doido, reinava, saltando a um tempo para todos os

lados, sem consentir que ninguem se approximasse. O terror arrancava

gritos agudos. Estavam já todos assustados, menos a Rita que, a certa

distancia, via, de braços crusados, aquelles dois homens a se baterem

por causa d'ella; um ligeiro sorriso encrespava-lhe os labios. A lua

escondêra-se; mudara o tempo: o céo, de limpo que estava, fizéra-se

côr de lousa; sentia-se um vento humido de chuva. Piedade berrava,

reclamando policia; tinha levado um troca-queixos do marido, porque

insistia em tiral-o da lucta. As janellas do Miranda accumulavam-se de

gente. Ouviam-se apitos, soprados com desespero.

N'isto, echoou na estalagem um bramido de féra enraivecida: Firmo

acabava de receber, sem esperar, uma formidavel cacetada na cabeça. É

que Jeronymo havia corrido á casa e armára-se com o seu varapáo

minhoto. E então o mulato, com o rosto banhado de sangue, refilando as

prezas e espumando de colera, erguêra o braço direito, onde se vio

scintillar a lamina de uma navalha.

Fez-se uma debandada em volta dos dois adversarios, estrepitosa, cheia

de pavor. Mulheres e homens atropellavam-se, cahindo uns por cima dos

outros. Albino perdera os sentidos; Piedade clamava, estarrecida e em

soluços, que lhe iam matar o homem; a das Dôres soltava censuras e

maldições contra aquella estupidez de se destriparem por causa de

entre-pernas de mulher; a Machona, armada com um ferro de engommar,

jurava abrir as fuças a quem lhe désse um segundo coice como acabava

ella de receber um nas ancas; Augusta enfiára pela porta do fundo da

estalagem, para atravessar o capinzal e ir á rua ver se descobria o

marido, que talvez estivesse de serviço no quarteirão. Por esse lado

acudiam curiosos, e o pateo enchia-se de gente de fóra. Dona Isabel e

Pombinha, de volta da casa de Leonie, tiveram difficuldade em chegar ao

numero 15, onde, mal entraram, fecharam-se por dentro, praguejando a

velha contra a desordem e lamentando-se da sorte que as lançou

n'aquelle inferno. Em tanto, no meio de uma nova roda, encintada pelo

povo, o portuguez e o brasileiro batiam-se.

Agora a lucta era regular: havia igualdade de partidos, porque o

cavouqueiro jogava o páo admiravelmente; jogava-o tão bem quanto o

outro jogava a sua capoeiragem. Embalde Firmo tentava alcançal-o;

Jeronymo, sopesando ao meio a grossa vara na mão direita, girava-a com

tal pericia e ligeireza em torno do corpo, que parecia embastilhado por

uma teia impenetravel e sibilante. Não se lhe via a arma, só se ouvia

um zunido do ar simultaneamente cortado em todas as direcções.

E, ao mesmo tempo que se defendia, atacava. O brasileiro tinha já

recebido páoladas na testa, no pescoço, nos hombros, nos braços, no

peito, nos rins e nas pernas. O sangue inundava-o inteiro; elle rugia e

arfava, iroso e cansado, investindo ora com os pés, ora com a cabeça,

e livrando-se d'aqui, livrando-se d'ali, aos pulos e ás cambalhotas.

A victoria pendia para o lado do portuguez. Os espectadores

acclamavam-no já com enthusiasmo; mas, de subito, o capoeira mergulhou,

n'um relance, até ás canellas do adversario e surgio-lhe rente dos

pés, grudado n'elle, rasgando-lhe o ventre com uma navalhada.

Jeronymo soltou um mugido e cahio de borco, segurando os intestinos.

--Matou! Matou! Matou! exclamaram todos com assombro.

Os apitos esfuziaram mais assanhados.

Firmo varou pelos fundos do cortiço e desappareceu no capinzal.

--Pega! Pega!

--Ai, o meu rico homem! ululou Piedade, atirando-se de joelhos sobre o

corpo ensanguentado do marido. Rita viera tambem de carreira lançar-se

ao chão junto d'elle, para lhe afagar as barbas e os cabellos.

--É preciso o doutor! supplicou aquella, olhando para os lados á

procura de uma alma caridosa que lhe valesse.

Mas n'isto um estardalhaço de formidaveis pranchadas estrugio no

portão da estalagem. O portão abalou com estrondo e gemeu.

--Abre! Abre! reclamavam de fóra.

João Romão atravessou o pateo, como um general em perigo, gritando a

todos:

--Não entra a policia! Não deixa entrar! Aguenta! Aguenta!

--Não entra! Não entra! repercutio a multidão em côro.

E todo o cortiço ferveu que nem uma panella ao fogo.

--Aguenta! Aguenta!

Jeronymo foi carregado para o quarto, a gemer, nos braços da mulher e

da mulata.

--Aguenta! Aguenta!

De cada casulo espipavam homens armados de páo, achas de lenha, varaes

de ferro. Um empenho collectivo os agitava agora, a todos, n'uma

solidariedade briosa, como se ficassem deshonrados para sempre se a

policia entrasse ali pela primeira vez. Emquanto se tratava de uma

simples lucta entre dois rivaes, estava direito! «Jogassem lá as

cristãs, que o mais homem ficaria com a mulher!» mas agora tratava-se

de defender a estalagem, a communa, onde cada um tinha a zelar por

alguem ou alguma coisa querida.

--Não entra! Não entra!

E berros atroadores respondiam ás pranchadas, que lá fóra se repetiam

ferozes.

A policia era o grande terror d'aquella gente, porque, sempre que

penetrava em qualquer estalagem, havia grande estropicio: á capa de

evitar e punir o jogo e a bebedeira, os urbanos invadiam os quartos,

quebravam o que lá estava, punham tudo em polvorosa. Era uma questão

de odio velho.

E, emquanto os homens guardavam a entrada do capinzal e sustentavam de

costas o portão da frente, as mulheres, em desordem, rolavam as tinas,

arrancavam giráos, arrastavam carroças, restos de colchões e saccos

de cal, formando ás pressas uma barricada.

As pranchadas multiplicavam-se. O portão rangia, estalava, começava a

abrir-se; ia ceder. Mas a barricada estava feita e todos entrincheirados

atraz d'ella. Os que entraram de fora por curiosidade não puderam sahir

e viam-se mettidos no surumbamba. As cercas das hortas voaram. A Machona

terrivel fungára as saias e empunhava na mão o seu ferro de engommar.

A das Dôres, que ninguem dava nada por ella, era uma das mais duras e

que parecia mais empenhada na defeza.

Afinal o portão lascou; um grande rombo abrio se logo; cahiram taboas;

e os quatro primeiros urbanos que se precipitaram dentro foram recebidos

a pedradas e garrafas vazias. Seguiram-se outros. Havia uns vinte. Um

sacco de cal, despejado sobre elles, desnorteou-os.

Principiou então o sarilho grosso. Os sabres não podiam alcançar

ninguem por entre a trincheira; ao passo que os projectis, arremeçados

lá de dentro, desbaratavam o inimigo. Já o sargento tinha a cabeça

partida e duas praças abandonavam o campo, á falta de ar.

Era impossivel invadir aquelle baluarte com tão poucos elementos, mas a

policia teimava, não mais por obrigação que por necessidade pessoal

de desforço. Semelhante resistencia os humilhava. Se tivessem

espingardas fariam fogo. O unico d'elles que conseguio trepar á

barricada, rolou de lá abaixo sob uma carga de páo e teve de ser

carregado para a rua pelos companheiros. O Bruno, todo sujo de sangue,

estava agora armado de um refle e o Porfiro, mestre na capoeiragem,

linha na cabeça uma barretina de urbano.

--Fóra os morcegos!

--Fóra! Fóra!

E, a cada exclamação, tome pedra! tome lenha! tome cal! tome fundo de

garrafa!

Os apitos estridulavam mais e mais fortes.

N'essa occasião, porém, Nênêm gritou, correndo na direcção da

barricada.

--Acudam aqui! Acudam aqui! Ha fogo no numero 12. Está sahindo fumaça!

--Fogo!

A este grito um panico geral apoderou-se dos moradores do cortiço. Um

incendio lamberia aquellas cem casinhas emquanto o diabo esfrega um

olho!

Fez-se logo medonha confusão. Cada qual pensou em salvar o que era seu.

E os policias, aproveitando o terror dos adversarios, avançaram com

impeto, levando na frente o que encontravam e penetrando emfim no

infernal reducto, a dar espadeiradas para a direita e para a esquerda,

como quem destroça uma boiada. A multidão atropellava-se,

desembestando n'um alarido. Uns fugiam á prisão; outros cuidavam em

defender a casa. Mas as praças, loucas de colera, mettiam dentro as

portas e iam invadindo e quebrando tudo, sequiosas de vingança.

N'isto, roncou no espaço a trovoada. O vento do norte zunio mais

estridente e um grande pé d'agoa desabou cerrado.

O Cortiço · 第 17 / 30 题