A expedição tinha por mobil o affirmar a soberania de Portug

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BIBLIOTHECA HISTORICA

(POPULAR E ILLUSTRADA)

III

A Revolução

Portugueza

O 31 DE JANEIRO

*(Porto 1891)*

POR

JORGE D'ABREU

[Ilustração da capa: bandeira do Centro Democratico Federal]

1912

EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID

ENCADERNADOR

_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_

LISBOA

BIBLIOTHECA HISTORICA

(POPULAR E ILLUSTRADA)

III

A Revolução Portugueza

O 31 DE JANEIRO

VOLUMES PUBLICADOS

I--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, por _F. Mignet_, 1.º volume.

II--HISTORIA DA REVOLUÇÃO FRANCEZA, 2.º volume.

III--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 31 DE JANEIRO (PORTO 1891), por _Jorge

d'Abreu_.

NO PRÉLO

IV--A REVOLUÇÃO PORTUGUEZA--O 5 DE OUTUBRO

(LISBOA 1910), por _Jorge d'Abreu_.

V--A REVOLUÇÃO E A REPUBLICA HESPANHOLA (1868 A 1874), por _Victor

Ribeiro_.

BIBLIOTHECA HISTORICA

(POPULAR E ILLUSTRADA)

A Revolução

Portugueza

O 31 DE JANEIRO

(Porto 1891)

POR

JORGE D'ABREU

Logotipo do editor

1912

EDIÇÃO DA CASA ALFREDO DAVID

ENCADERNADOR

_30-32, Rua Serpa Pinto, 34-36_

LISBOA

Composto e Impresso na Imprensa Libanio da Silva==Travessa do Falla-Só,

24--Lisboa

PALAVRAS DE UM SOLDADO

*ao presidente do tribunal de guerra, no acto do julgamento:*

... _Eu, meu senhor, não sei o que é a Republica, mas não póde deixar de

ser uma cousa santa. Nunca na egreja sentí um calafrio assim. Perdí a

cabeça então, como os outros todos. Todos a perdemos. Atirámos então as

barretinas ao ar. Gritámos então todos:--Viva! viva, viva a Republica!_...

Do «Manifesto dos Emigrados da Revolução

do Porto de 31 de Janeiro de 1891.»

O 31 DE JANEIRO

(Porto 1891)

CAPITULO I

O movimento de 31 de janeiro filia-se no "ultimatum" de 1890

A revolta militar de 31 de janeiro de 1891 caracterisou-se pela

precipitação com que foi decidida e a pouca ou nenhuma reserva com que

foi organisada. Durante mezes uma parte do paiz teve conhecimento quasi

minucioso de que se conspirava contra a monarchia e que na conspiração

entravam elementos de importancia recrutados na officialidade dos

regimentos que a guarneciam. No emtanto a explosão patriotica, que na

madrugada de 31 fez triumphar por algumas horas a bandeira verde e

vermelha, surprehendeu muita gente porque apenas uma insignificante

minoria não julgava extemporaneo o _rebentar da bomba_.

A causa unica do movimento podemol-a filiar no _ultimatum_ de 1890. Por

espaço d'um anno, a agitação popular, que essa chicotada diplomatica

provocara nos primeiros instantes--agitação que, no dizer de João

Chagas, trouxera pela primeira vez para a rua, a manifestarem-se,

«homens graves e de chapeu alto»--por espaço d'um anno, repetimos,

essa agitação minou profundamente diversas camadas sociaes e fez

augmentar por uma forma extraordinaria o descontentamento da nação, a

sua hostilidade contra o regimen monarchico e o soberano. Viu-se

claramente, n'esse momento grave da vida portugueza, que, ao

substituir-se o ministerio abatido pelo _ultimatum_, o novo governo

procurara antes de mais nada deitar uma escóra ao throno, desprezando em

absoluto as reclamações do povo, a sua grita sedenta de justiça.

Calcára-se a patria para sustentar no poder o monarcha brigantino. A

dignidade da nação, o seu anceio fervoroso de que o _ultimatum_

obrigasse a politica governativa a mudar de processos, a trabalhar com

seriedade, uma e outro foram espesinhados pelo empenho dos aulicos da

monarchia em precavel-a da marcha progressiva das ideias democraticas.

D'ahi o exodo para o partido republicano de muitos dos homens que até

então tinham tentado servir os partidos monarchicos com boa fé e dedicação.

Mais adeante desenvolveremos, na medida do possivel, esse periodo da

historia contemporanea, cujos incidentes, voltamos a affirmal-o, fizeram

germinar o pensamento da revolta e contribuiram directamente para que

ella rebentasse no Porto no dia 31 de janeiro de 1891. Por agora

limitaremos o nosso papel de modesto e desataviado chronista da

Revolução Portugueza a descrever o que occorreu em Lisboa mal se soube

da momentanea victoria das armas republicanas. É interessante recordar

as horas de mortifera espectativa que a capital soffreu, emquanto a

varias leguas de distancia um troço de valentes se fazia massacrar pela

chamada _guarda pretoriana_.

Nas vesperas da revolta, os jornaes de Lisboa ainda reflectiam quasi

toda a indignação e a celeuma causadas pelo _ultimatum_. A poucas horas

de ser iniciado o movimento, os _Pontos nos ii_ inseriam uma pagina

faiscante de Bordallo Pinheiro, intitulada _A maldita questão ingleza_.

As perseguições a differentes officiaes do exercito succediam-se com uma

pertinacia feroz. No dia 30 de janeiro, um jornal, alludindo á que fôra

movida ao alferes de caçadores 9 (aquartelado no Porto) Simões Trindade,

salientava o facto curioso d'esse official ter sido, em 27 d'aquelle

mez, mandado apresentar _immediatamente_ no quartel general da

respectiva divisão; depois, d'ahi, mandado seguir, _immediatamente_,

para o ministerio da guerra; d'aqui apresentado _immediatamente_ no

quartel general da 1.ª divisão, onde tinham acabado por lhe dar uma guia

afim de se apresentar, _immediatamente_ tambem, no regimento de

infantaria 24, aquartelado em Pinhel. Os jornaes do Porto, confirmando

esse furor persecutorio, accrescentavam que a violencia das auctoridades

militares incidia especialmente sobre os officiaes inferiores.

Surgiu a manhã de 31 e com ella principiaram a circular em Lisboa os

boatos alarmantes. Um d'elles, talvez o primeiro e o que mais

consistencia adquiriu desde logo no espirito do publico, dizia:

_No Porto, ás seis horas, os regimentos de caçadores 9 e infantaria 10 e

parte de infantaria 18, sahindo dos quarteis, dirigiram-se á praça da

Regeneração, soltando vivas á Republica. O movimento tende a

alastrar-se. A guarda municipal quiz oppôr-se-lhe; mas, depois d'uma

descarga dada por caçadores 9, e da qual morreram 12 soldados d'aquella

guarda, os outros adheriram aos revoltosos._

A seguir, correu que a primeira auctoridade militar do Porto pedira de

madrugada reforço á _guarda pretoriana_, mas que ella se recusara

peremptoriamente a combater as tropas sublevadas. Dizia-se tambem que

toda a guarnição se solidarisara com os insurrectos.

Estas e outras noticias, como é de comprehender, lançaram na capital uma

agitação indescriptivel. Os primeiros momentos foram, sem duvida, de

confusão e de panico. Ás 7 da manhã, o ministerio já estava reunido e

procurava, não sem difficuldade, tomar contacto com a situação. Ás 8,

eram chamados ao paço da Ajuda o presidente do conselho e o general

Moreira, commandante das guardas municipaes. D'um extremo ao outro da

cidade, desfilavam vertiginosamente as ordenanças, os correios, e a

população, despertada pelo annuncio retumbante d'esse golpe de audacia

republicana, espreitava curiosa a sequencia e o desfecho dos

acontecimentos.

Pouco depois das 8 horas, correu em Lisboa que um telegramma recebido no

jornal o _Seculo_ affirmava estarem occupados pelos insurrectos todos os

edificios publicos e que a população da capital do norte adherira em

massa á obra iniciada pelo exercito. Era o triumpho completo da

Revolução, o alvorecer radioso d'um novo regimen politico, interrompendo

na nossa historia o desenrolar corrosivo da tyrannia monarchica. O

governo, reunido, tentava com medidas successivas suffocar o incendio

que lavrava no Porto. Os regimentos de infantaria recebiam ordem de

partir para ali. O sr. Antonio Ennes, ministro da marinha, fazia-se

conduzir ao Arsenal e ahi, em conferencia com o commandante geral da

armada, exigia que os navios de guerra disponiveis seguissem sem demora

a investir a cidade revoltada. O ministerio fremia de impaciencia e de

terror. A familia real inquiria constantemente das diversas phases da

insurreição. Os elementos avançados principiavam a respirar a atmosphera

de liberdade trazida do Porto na lufada dos telegrammas optimistas.

A alegria desenhava-se em quasi todos os rostos.

Longas horas se passaram assim--horas de esperança, horas de espectativa

anciosa--durante as quaes os boatos nunca cessaram de fervilhar. Contava

no dia seguinte um jornalista que a confusão de momento era tal que os

mesmos alviçareiros que espalhavam a noticia da victoria decisiva dos

sublevados não tardavam d'ahi a instantes a divulgar o contrario. Para o

paço de Belem havia desde manhã cedo enorme affluencia de personagens

officiaes. «Desde os ministros, affirmou mais tarde um _reporter_, até

os simples fidalgos cavalleiros, dos quaes vimos dois, fardados, irem em

trem pôr-se ás ordens de D. Carlos, todos á porfia accorreram á regia

morada.» A guarda do paço era n'esse dia de infantaria 2. Mas, apesar do

reboliço que ia dentro do edificio, os soldados mostravam-se

despreoccupados e no local--cá fóra--pouco se sabia da revolução. Os

politicos, frequentadores da Arcada, andavam desvairados. Uns

asseguravam que a população portuense, dirigida por officiaes de

caçadores 9, arvorara a bandeira republicana no palacio da Bolsa; outros

que infantaria 8, de Braga, e o 14, de Vizeu, tinham adherido ao

movimento; outros ainda que a guarda municipal, fraternisando com os

revoltosos, se apressara a soltar João Chagas, que então expiava na

cadeia da Relação a condemnação imposta por um delicto de imprensa. Os

que pareciam melhor informados accrescentavam a tudo isto que na

madrugada de 30 de janeiro varios telegrammas cifrados haviam annunciado

aos dirigentes da politica democratica o _estalar da bomba_. De Lisboa,

por exemplo, tinham perguntado para o Porto: _Como vae o doente?_ Do

Porto tinham respondido: _Deve morrer ámanhã_...

Mas, ao começo da tarde, o optimismo cedeu o passo ao desalento. As

agencias officiosas principiaram a falar em suffocação da revolta e em

rendição de revoltados. Mudára a face das cousas. O paço animava-se, o

governo cobrava sangue frio. O commandante da divisão militar com séde

na capital do norte--o general Scarnichia--que na occasião se encontrava

em Lisboa, tratando junto do ministerio da guerra das transferencias dos

seus subordinados suspeitos de republicanismo, seguia ás 2 e 30 para o

Porto n'um comboio especial. Uma parte das tropas que, tendo recebido

ordem de marchar em soccorro da monarchia, já se agglomeravam nas

estações de caminho de ferro, regressava a quarteis. Suspendiam-se por

um mez as garantias em todo o districto do Porto e auctorisava-se a

suspensão dos _jornaes perigosos_ ali e no resto do paiz. Evidentemente,

a sublevação não lograra exito e o sangue derramado na manhã de 31

servira apenas a registar uma infructifera tentativa de reacção contra a

dynastia oppressora. A democracia fôra vencida pouco depois de ter

vencido. A atmosphera voltava a carregar-se de violencia, de jugo

tyrannico, e no horisonte já se descortinava que as represalias iam ser

ferozes. Uma gazeta das mais populares da epoca, reconhecendo que, uma

vez dominada a _sargentada_, o governo se apressaria sem duvida a

esmagar a mais insignificante velleidade de resistencia, escrevia vinte

e quatro horas apoz a derrota:

«Á mercê do arbitrio é difficil poder-se viver; aguardemos melhores dias

de liberdade e... calemo-nos.»

Extincto o clarão redemptor, a imprensa--salvo raras excepções--ou

vociferava tonitruante, enraivecida, contra os revoltosos, pedindo para

os vencidos o maximo do castigo--até a pena de morte--ou se curvava

resignada sob a ameaça do triumphador, disposta a supportar em silencio

a desforra cruel que os vencedores procurariam abertamente tirar dos

derrotados. O nucleo dirigente do partido republicano escrevia a poucas

semanas dos acontecimentos:

«O directorio cumpriu o seu dever, synthetisando as aspirações d'um

partido; em vez de appellar para aventuras anarchicas, recommendou á

imprensa republicana, aos conferentes e propagandistas a demonstração

calma e justificada d'esses principios. (Alludia aos que tinham sido

consignados no seu manifesto de 11 de janeiro de 1891).

«Acceitando o mandato de acção, conferido pelo ultimo congresso, o

directorio entendeu que consistia essa acção em repellir a mesquinha

subserviencia que envolvia o partido em accordos com os grupos

monarchicos e em conter as individualidades sem mandato, que,

trabalhando sem disciplina, compromettiam o partido, como em seguida os

acontecimentos o provaram.

«As revoluções são factos inherentes ao organismo social; não é um grupo

de homens que as fazem, como ou quando querem; mas compete a esse grupo

dar-lhes pensamento e direcção quando sobrevenham.»

Resumindo: o directorio entendia de boa politica não se responsabilisar

pela tentativa mallograda e condemnava-a pelo que ella se lhe affigurava

de desordenada e inopportuna. N'outra passagem do documento a que nos

referimos affirmava que «a nação inteira julgara immediatamente o

movimento de 31 de janeiro pela sua _inopportunidade_.» E no emtanto, a

poucos dias da revolta, o mesmo directorio tinha espalhado profusamente

esta opinião nitida e vigorosa:

«No momento que atravessamos não ha logar para demonstrações theoricas

nem para argumentar com os pedantocratas do constitucionalismo. Elles já

deram as suas provas. Para a crise extrema um supremo remedio».

Supremo remedio!... Que outro poderia ser, afinal, senão o iniciado na

manhã de 31?

CAPITULO II

O primeiro rebate do conflicto diplomatico anglo-portuguez

Precisemos os factos:

O _ultimatum_ de 11 de janeiro de 1890 teve como pretexto a expedição do

major Serpa Pinto na Africa Oriental. Antes d'ella já se falava

vagamente na possibilidade d'um conflicto anglo-portuguez e porque em

1889, nos fins do reinado de D. Luiz, tudo o que dependia da influencia

ou da acção ministerial se inclinava a hostilisar--ainda que mais ou

menos disfarçadamente--a Inglaterra e as cousas inglezas.

Parece assente que aquelle soberano, levado talvez por considerações de

ordem familiar, projectava lançar-se e lançar ostensivamente o paiz nos

braços do imperio allemão, quebrando todos os laços intimos que, desde

seculos, uniam a nacionalidade portugueza á Grã-Bretanha. D. Luiz e os

seus ministros queriam mais: queriam amarrar á Allemanha o destino do

nosso commercio vinicola e das nossas colonias--o primeiro ligado á

França e as segundas relacionadas quasi todas com o dominio inglez.

Tentou-se mesmo fazer derivar da França para a Allemanha a exportação

dos vinhos nacionaes, com a organisação em Berlim d'um certamen,

que, no fim de contas, nada deu de productivo.

[Ilustração: Quartel de infantaria 18, e campo da Regeneração, onde se

reuniram as tropas sublevadas na madrugada de 31 de janeiro]

Mas o primeiro rebate d'essa hostilidade appareceu de fórma inilludivel

em julho de 1889, quando o governo então no poder rescindiu o contracto

de 14 de dezembro de 1883 (o contracto para a construcção do caminho de

ferro de Lourenço Marques). Não diremos em absoluto que essa rescisão

fosse apenas inspirada no desejo de ferir homens e interesses da

Grã-Bretanha. A verdade, porém, é que muita gente quiz vêr logo no facto

o ensejo propicio para o trespasse da mencionada concessão a um grupo de

capitalistas allemães e essa suspeita surgiu clara e precisa na imprensa

a mais ponderada e suave de termos. A Inglaterra, pela bocca dos seus

orgãos jornalisticos, sentiu-se fundamente attingida com a medida tomada

pelo governo portuguez e não tardou que désse largas a uma celeuma até

certo ponto exagerada, mas comprehensivel em face das nossas manobras

secretas com a chancellaria germanica.

Os periodicos londrinos aconselharam acto continuo o governo inglez a

enviar a Lourenço Marques uma esquadra, com o fim, diziam ironicamente,

de «proteger os seus subditos ali ameaçados pela valentia de Portugal»,

e embora um ou outro d'esses mesmos periodicos indicasse vagamente a

arbitragem como um meio decente de liquidar o assumpto, o conjuncto

d'elles não desafinava na sua exigencia de que deviamos soffrer uma

punição significativa. Por alguns dias receiou-se, effectivamente, que o

governo inglez seguisse o conselho da imprensa exaltada. Mas, como ainda

não soara a hora para a diplomacia britannica nos mostrar que andavamos

por caminho errado, pretendendo, nos pactos de alliança internacional,

substituil-a pela Allemanha, as cousas foram atamancadas sem grande

dispendio de dignidade e as nuvens negras, que já carregavam e

entenebreciam o horisonte, perderam um pouco do seu aspecto ameaçador.

O partido republicano, tendo seguido com interesse patriotico a marcha

dos incidentes, não duvidou estigmatisar publicamente o projecto

desvairado da monarchia ao procurar enredar a nacionalidade na teia

emmaranhada d'um conflicto diplomatico. Os jornaes da epoca falam

pormenorisadamente da campanha que esse partido então fez não só contra

a projectada alliança luso-germanica mas, principalmente, contra a

entrega do caminho de ferro de Lourenço Marques a um grupo allemão.

Quando surdiu o _ultimatum_, ninguem hesitou em reconhecer que, se a

patada do colosso de além Mancha era brutal, mesmo brutalissima, á

monarchia e aos seus governos cabiam, entretanto, uma boa parte das

culpas. Opinião identica expressou-a mais tarde João Chagas ao tratar do

assumpto, de collaboração com o ex-tenente Coelho:

«Estava-se em principios de janeiro sob uma situação presidida pelo

sr. José Luciano de Castro e na qual detinha a pasta dos estrangeiros o

sr. Henrique de Barros Gomes, quando os jornaes começaram referindo-se

com insistencia á possibilidade d'um conflicto com a Inglaterra, a

proposito das pretenções d'esta nação sobre os territorios do Nyassa,

onde algumas expedições portuguezas de caracter scientifico operavam ao

tempo. O facto pareceu novo e surprehendeu, se bem que tivesse origem

antiga no plano de absorpção da Africa Austral e dos territorios

sertanejos de Moçambique, principiado a executar-se em 1888, pelo

tratado feito entre a Inglaterra e o potentado Lobengula no qual era

comprehendido o territorio dos Mashonas, reivindicado por Portugal; e

levado a cabo pelo tratado de 18 de maio de 1891, extorquido pelo

governo britannico á invalidez portugueza.

«O litigio, que veiu a liquidar-se desastrosamente pelo _ultimatum_ de

11 de junho de 1890, pode dizer-se, começou então. Durante dois

annos--forçoso é reconhecer para esclarecimento da historia e apuramento

de responsabilidades--a Inglaterra oppôz ás pretenções de Portugal o

_veto_ mais formal. Já em 1887, o marquez de Salisbury protestava contra

os tratados, assignados e publicados, de Portugal com a Allemanha e a

França, declarando não nos reconhecer o direito, que aquellas nações nos

attribuiam, de exercermos jurisdicção em territorios d'Africa, onde não

tinhamos occupação effectiva, e invocava, para justificar o seu

protesto, as decisões da conferencia de Berlim.

«Mais tarde, em 1888, sir James Fergusson pronunciava na Camara dos

Communs um discurso que fez impressão em Portugal, mas nem por isso

deixou de constituir uma negação severa, que o governo britannico

officialmente apoiou, dos direitos de soberania, invocados pelo governo

portuguez, sobre o sertão da Africa Oriental. Quando, apoz o tratado

feito pela Inglaterra com o regulo Lobengulo, o governo portuguez quiz

definir, por uma delimitação, a posse dos territorios da Africa Oriental

(outubro de 1888) o governo britannico, presentindo que não chegaria a

uma rapida conciliação, fez-lhe sentir, pelo ministro em Lisboa, sir

George Petre, que o estado das relações entre os dois governos, no que

se referia ás questões africanas, «estava longe de ser satisfatorio, e

que uma prolongação d'esse estado podia conduzir a uma seria quebra de

amizade entre os dois paizes.»

Em janeiro de 1889, o marquez de Salisbury queixava-se ao representante

de Portugal em Londres de que o governo lusitano tivesse feito partir

para a Africa e com _destino mysterioso_ (aos territorios do Nyassa) a

expedição do capitão tenente Antonio Maria Cardoso e avisava o diplomata

portuguez «de que as boas relações dos dois paizes não podiam por muito

tempo resistir ao perigo a que estavam sendo expostas». Essa expedição,

á data da queixa do marquez de Salisbury, acampava no Monte Melange e

luctava não só com as febres mas tambem com a falta de carregadores,

parte dos quaes havia fugido. E facto curioso: emquanto o ministro

inglez mostrava ao representante de Portugal apprehensões sobre o

objectivo principal da expedição, «que lhe parecia ser o territorio

occupado pelas missões e estações commerciaes inglezas», os indigenas da

região atravessada por Antonio Maria Cardoso desfaziam-se em queixas

contra os subditos britannicos, considerando-os d'uma tyrannia excepcional.

Em resumo: os inglezes, antes mesmo de occorrer o facto que mais tarde

invocaram como a causa directa do rompimento de relações com o nosso

paiz, já preparavam o golpe, aproveitando todos os ensejos de insinuar

na diplomacia portugueza a ideia de que cedo ou tarde rebentaria o

conflicto e de que este seria motivado essencialmente pela nossa

politica e a nossa acção na Africa Oriental. O _ultimatum_ de 1890

surprehendeu até certo ponto a população portugueza. O mesmo não

succedeu, por certo, aos governantes, que estavam fartos de saber que a

Grã-Bretanha só espreitava o momento favoravel de nos enviar essa ameaça

humilhadora.

[Ilustração: Elias Garcia]

Ha quem attribua ao ministro do gabinete progressista que mais de perto

lidou com a diplomacia ingleza intenções criminosas. Cremos, porém, que

isso é exagerado. O ministro em questão, o sr. Barros Gomes, deve antes

talvez ser accusado de incompetencia e inhabilidade. As cousas

ter-se-hiam naturalmente passado de modo diverso se, quando appareceu na

tela da discussão diplomatica a contestação da Inglaterra aos direitos

que Portugal affirmava ter em varios territorios da Africa Oriental, o

ministro, longe de empregar processos dilatorios, houvesse sem perda de

tempo sujeitado o litigio ao exame e decisão d'uma conferencia das

potencias signatarias do Acto Geral de Berlim. Por outro lado, como a

Inglaterra fundamentava a sua contestação em que esses territorios nunca

tinham sido occupados d'um modo effectivo por Portugal nem soffrido a

menor influencia civilisadora, ao governo da epoca incumbia

logicamente desmentir com actos, e não com palavras, os argumentos

utilisados pela poderosa Albion.

Mas o ministro culpado entendeu dever manter até quasi ás vesperas do

_ultimatum_ uma attitude de indecisão e de pusillanimidade e assim,

quando se iniciou a occupação definitiva dos territorios contestados,

lançando-se atravez d'Africa algumas expedições, todas ellas chocaram

innumeros obstaculos que precipitaram logicamente o desfecho da questão.

O ministro n'essa altura ainda quiz emendar a mão; era tarde, porém, e

os erros diplomaticos por elle commettidos não permittiam já que se

recorresse á arbitragem internacional. Portugal tinha que aguentar a pé

firme e sem esquiva tudo o que a Grã-Bretanha sobre elle fizesse desabar.

CAPITULO III

Serpa Pinto, á frente de 6000 homens, derrota os makololos revoltados

A expedição Serpa Pinto, já o dissemos, foi o rastilho que faz detonar a

ameaça contida no _ultimatum_. Contemos como o caso se deu:

A expedição tinha por mobil o affirmar a soberania de Portugal nos

territorios do Nyassa, que o nosso paiz reivindicava. Commandava-a

aquelle major do exercito e compunham-na varios funccionarios e

technicos. O engenheiro chefe da missão de estudo era o sr. Pereira

Ferraz. Em fins de 1899, Serpa Pinto, sahindo de Messanje em direcção a

Quelimane, entregou-lhe o commando da expedição, emquanto outro

funccionario, o sr. Themudo, seguia para Mupasso com parte da gente e as

embarcações transportando bagagens e mantimentos. O sr. Pereira Ferraz

acompanhado d'uns duzentos homens dirigiu-se para ali a encontrar o

seu collega de missão--disposto a acampar defronte de Mupasso para

seguir á risca as instrucções do commandante em chefe. Tratava-se, não é

mau repetir, de pacificar a região, que alguns pretos insubordinados

«animados por uma influencia estranha, tentavam revoltar contra nós».

Os effeitos d'essa attitude hostil não se fizeram esperar. Logo que a

expedição chegou em frente da aldeia dos makololos, viu-se fóra do

recinto da povoação varios homens armados e «dentro appareceram por cima

da palissada muitas cabeças, ao todo talvez uns duzentos negros promptos

a entrar em combate». O sr. Pereira Ferraz fez signaes para parlamentar

com o que parecia ser o chefe dos pretos, o qual lhe correspondeu

fazendo signal para que se approximasse. O sr. Ferraz queria dizer-lhe

que não ia disposto á guerra, portanto que deixassem passar a sua gente

e cargas e que lhe daria um presente.

«Não me deixou, porém--informa o mesmo engenheiro--o negro dizer nada

d'isso, pois logo que nos viu ao alcance das espingardas de pederneira

com que elle e os outros estavam armados, disparou sobre nós, fugindo

para dentro do recinto, pelo que, chamando alguns dos nossos, que eu

posso affirmar não passavam de 40, fizemos fogo sobre a povoação, que

elles abandonaram com perda de 6 homens e umas 12 barricas de polvora,

que explodiram no incendio que os landins lançaram ás palhotas da aldeia».

Por aqui se vê que os pretos tinham o firme proposito de aggredir a

expedição. Esta pouco depois era avisada de que os regulos Massêa,

Catanga, Molidima, Caberenguene e os filhos do Chipitura haviam reunido

e armado a sua gente e se tinham juntado a Melaure para baterem os

nossos. Estas informações aterradoras, note-se, foram ministradas á

expedição pelos inglezes Harry e George Petit, accrescentando-lhes que o

Melaure tinha comsigo muita gente, muita polvora e 6:000 espingardas. Um

e outro d'esses agentes britannicos correspondiam-se com aquelle regulo

e, tendo o sr. Pereira Ferraz convidado ambos, para maior segurança das

suas fazendas e vidas, a retirarem-se para a povoação portugueza de

Natumbe, a dois dias de viagem ao sul de Mupasso, pondo ás suas ordens,

para isso, as necessarias embarcações, responderam-lhe que preferiam

antes ir _to up_, sahindo logo no dia immediato em direcção ao norte,

tentando ainda assim e infructiferamente lançar o panico entre os

auxiliares portuguezes.

Os makololos, refeitos do primeiro embate, saltaram sobre a povoação

portugueza de Samoane e, em territorio nosso, destruiram o caminho

collimado e atravessaram n'elle espinheiros, dizendo que até ali tudo

lhes pertencia e que matariam quem se atrevesse a collimar um palmo de

terra d'ali para cima. Os indigenas de Samoane fugiram aterrados a

acolher-se á protecção do sr. Pereira Ferraz e este engenheiro julgou

mais prudente collocar-se em guarda e esperar reforços que pediu ao

governador de Quelimane.

[Ilustração: Encontro dos revoltosos com as tropas fieis ao Governo]

Foi depois d'sto que o major Serpa Pinto, accudindo com mais gente á

expedição e elevando o seu contigente a uns 6.000 homens armados,

marchou sobre os negros revoltados e travou com elles em Mupasso

sangrento combate. Os makololos deixaram mortos no campo uns 72 homens e

muitos prisioneiros importantes. A expedição poz-se novamente em marcha

apoz a victoria, que, diga-se desde já, teve no estrangeiro uma

extraordinaria resonancia. Na Africa Oriental e principalmente na região

sublevada o effeito não foi menor. O sultão Macanjira estabelecido nas

margens do Nyassa prestou vassalagem a Portugal. O chefe M'ponda

apressou-se tambem a imital-o; o regulo Malipuiri e outro visinho dos

makololos foram a Quelimane receber a bandeira portugueza. Mas,

emquanto isto succedia, o _Times_, dando conta do combate, fazia

affirmações d'este theor: que o major Serpa Pinto enganara o consul

inglez na região onde elle se travara, affirmando intenções pacificas,

mas que, decorrido algum tempo, levantara conflicto com os makololos,

fazendo n'elles grande morticinio e tomando-lhes duas bandeiras

britannicas recentemente dadas por aquelle consul. Os makololos,

julgando-se abandonados pelos inglezes, tinham então reconhecido a

dominação portugueza. O major Serpa Pinto, accrescentava o _Times_,

annunciara a intenção de conquistar o Chire até o lago Nyassa e

convidara os residentes inglezes a collocarem-se debaixo da protecção de

Portugal, tornando-os responsaveis pelas consequencias no caso de

recusa. A imprensa franceza, por seu lado, occupando-se da victoria

alcançada por Serpa Pinto, falava pouco mais ou menos n'estes termos: «a

acção do major portuguez poz termo á comedia que a Inglaterra andava

representando em Moçambique. Felicitamol-o por isso. Portugal deu um

excellente exemplo. Esperamos que outras nações o saberão seguir na

occasião opportuna para fazerem respeitar as espheras de influencia de

cada um, e não permittirem as continuas invasões da Inglaterra no

terreno alheio».

A informação relativa ao combate transmittida pelo consul britannico em

Zanzibar ao marquez de Salisbury, que se encontrava ao tempo em

Hatfield, foi logo noticiada na imprensa londrina com o commentario de

que lord Salisbury certamente não procederia com rapidez emquanto não

recebesse pormenores do facto; que pediria primeiro explicações a

Lisboa, e, se o governo portuguez lh'as não desse, chamaria a Londres o

diplomata sr. Petre. D'ahi a dias surgiu, com effeito, a primeira

reclamação da Inglaterra sobre a expedição Serpa Pinto. O marquez de

Salisbury dirigiu ao governo portuguez uma nota que foi entregue ao sr.

Barros Gomes pelo sr. Glynn Petre, ministro britannico em Lisboa. A

nota, diziam n'essa occasião os telegrammas de Londres, tinha a forma de

uma representação sobre a acção de Portugal na Africa do Sul e Oriental

e pedia que o nosso governo repudiasse os actos do agente portuguez no

districto da Zambezia. O marquez de Salisbury, affirmava-se, não usava

de ameaças; a nota continha uma exposição de varios factos que

asseverava terem occorrido e pedia a restauração do anterior _statu quo_

na região em litigio; o governo inglez não podia permittir que fosse

arriada a bandeira ingleza depois de arvorada por um representante

responsavel. Outras informações diziam que a nota vinha redigida em

termos correctos, embora o gabinete de Londres registasse,

impressionado, as noticias recebidas pelo bispo Smythies, ácêrca de

hostilidades a estabelecimentos inglezes por parte do major Serpa Pinto,

acontecimentos que, afinal, não constavam no nosso paiz. Serpa Pinto, na

verdade, objectava-se em Portugal, limitara-se a desembaraçar o caminho

á expedição Ferraz perturbada pelos makololos e mais nada.

Isto passava-se em 18 de dezembro de 1889. A nota do marquez de

Salisbury referindo-se exclusivamente ao supposto ataque da expedição

portugueza contra os makololos, e não fazendo menção alguma dos outros

assumptos pendentes entre a Inglaterra e Portugal sobre as suas

respectivas espheras de influencia na Africa do Sul e Oriental e pedindo

ao sr. Barros Gomes uma resposta prompta, o mais rapida possivel, e, no

caso do ataque se confirmar, a chamada a Lisboa do major Serpa Pinto; o

ministro portuguez dos negocios estrangeiros replicou que as informações

até á data recebidas não confirmavam as interpretações dadas pelo

gabinete inglez aos actos do major, que «repellira sómente o ataque

d'uma tribu hostil na bagagem da qual encontrara tres bandeiras

inglezas». O sr. Barros Gomes terminava por pedir uma demora afim de

poder communicar com o major Serpa Pinto. Entretanto, «para estar

preparado para qualquer contingencia», o governo britannico decidia

collocar as suas forças navaes proximo de Portugal. Persuadido de que «a

reunião de barcos de guerra inglezes no Tejo augmentaria

indefectivelmente a irritação dos portuguezes e entorpeceria a acção do

governo lusitano nas suas negociações para o arranjo da questão relativa

ao paiz do Nyassa», os couraçados britannicos receberam ordem de

reunir-se em Gibraltar e de ahi se manterem «em expectativa dos

acontecimentos futuros». Os navios destinados a essa empreza foram

escolhidos entre os que formavam a esquadra do Mediterraneo. Os

couraçados _Bendvor_ e _Colossus_, a 27 de dezembro, levantavam ferro de

Malta com destino a Gibraltar. Em Malta tambem se encontravam as

fragatas couraçadas _Agammenon_ e _Dreadnought_; em Edimburgo egualmente

se preparavam outros navios.

Em Portugal, no emtanto, percebiam-se os primeiros symptomas d'uma

reacção forte contra o regimen. A imprensa democratica clamava

altisonante que se a Revolução ainda se não tinha feito não era porque

«o terreno fosse safaro, ou porque as vozes republicanas não

encontrassem echo, mas apenas por motivos de ordem secundaria», que não

cabiam ao momento discutir. «Comtudo estava provado que a realeza

perdera o prestigio, que a dynastia de Bragança alienara todas as

sympathias, que as instituições tinham cahido no descredito e que, por

conseguinte, o povo desejava vida nova». E perguntava-se: «O que devemos

á dynastia? Que principio superior anda ligado á existencia d'essa

anachronica forma de governo? A Patria?... Oh! nós bem sabemos que,

quando Portugal se quiz emancipar do jugo da monarchia hespanhola, quem

mais conspirou contra a Patria foi o Bragança idiota, por quem os

ingenuos combatentes de 1640 andavam expondo a vida; sabemos como esta

funesta dynastia tem, pouco a pouco, em presentes de noivado e como

premio de serviços contra a nação, entregado as nossas colonias aos

inglezes; sabemos como, na hora do perigo para a nossa independencia,

para a nossa honra nacional, o sr. D. João VI fugiu covardemente para o

Brazil; sabemos como o pae do actual reinante (D. Luiz) escreveu umas

cartas criminosas a Napoleão III, no intuito de se formar em seu

proveito e da sua raça a união iberica. A Liberdade?... Não a suffocam,

porque não podem. O Bragança, que aqui implantou o systema

constitucional, fôra um despota no Brazil. Escorraçado de lá, como não

podia apresentar-se em frente da monarchia tradiccional representada por

seu irmão, em nome de outro principio deu-nos a constituição que, mais

tarde, seu filho rasgou á vontade, abafando os clamores angustiosos da

nação, com a intervenção das armas estrangeiras...»

CAPITULO IV

O governo progressista cede ante as exigencias da Grã-Bretanha

Os primeiros dias de janeiro de 1890 ainda reflectiram as benignas

razões dadas pelo sr. Barros Gomes ao governo inglez. Não se podia

exauctorar Pereira Ferraz e Serpa Pinto--dizia o ministro e diziam

alguns jornaes de Lisboa--prestando apenas credito ás informações dos

funccionarios britannicos. Era necessario ouvir os dois

expedicionarios e ouvir-lhes as allegações que, decerto, produziriam

sobre a sua attitude em tão melindroso assumpto. Uma parte da imprensa

acreditava até ingenuamente que a Inglaterra não tardaria a modificar o

tom aggressivo das suas notas diplomaticas, substituindo-o por outro de

feição conciliadora: «em primeiro logar, porque assim o quer o respeito

devido por cada nação a todas as outras; em segundo logar, porque, se

procurasse entregar á violencia a decisão d'um pleito em que devem ser

ouvidos e escutados os argumentos de parte a parte e em que a justiça ou

a equidade deve proferir sentença em unica instancia, não só concitaria

a nossa resistencia mas, porventura, tambem provocaria a indignação do

mundo». E essa parte da imprensa ia mesmo mais longe na sua ingenuidade:

«A Grã-Bretanha sabe que, embora sejam enormes as suas forças comparadas

com as nossas, poderia arriscar-se a revezes se desrasoadamente

accendesse a guerra na Africa...»

Ao abrir-se o parlamento, o rei D. Carlos, que, pela primeira vez, se

apresentava a desempenhar o seu papel constitucional de «chave de todos

os poderes», lendo o classico discurso da côroa, sublinhou estas

passagens, que a assembleia dos representantes da nação escutou com rara

e justificada avidez:

«Recentemente as patrioticas aspirações da nação ingleza e do governo de

sua magestade britannica, a dilatarem as suas vastas possessões na

Africa, encontraram-se em mais d'um ponto d'esse continente, com o firme

proposito de Portugal de conservar sob o seu dominio e de utilisar para

a civilisação os territorios africanos que primeiro foram descobertos e

trilhados pelos portuguezes, por elles foram revelados e abertos ás

missões do christianismo e ás operações do commercio e nos quaes as

auctoridades portuguezas teem praticado os actos de jurisdicção e

influencia consentaneos ao estado social dos seus habitantes, actos que

sempre bastaram para significar dominio incontestavel.

«Este encontro poz em relevo desaccordos de opinião entre o meu governo

e o de sua magestade britannica ácêrca das condições a que devem

satisfazer e dos titulos que teem de adduzir as soberanias europeias em

Africa, para serem reconhecidas pelas potencias, e d'esses desaccordos

resultou uma correspondencia diplomatica que ainda os não poude sanar e

que tambem houve de occupar-se de outras divergencias, posteriormente

suscitadas, sobre o modo de apreciar um conflicto, occorrido nas margens

do Chire, entre uma tribu indigena e uma expedição scientifica

portugueza. O meu governo, inspirando-se no sentimento nacional e

conformando-se com o voto unanime das duas casas do parlamento, tem

diligenciado convencer o de sua magestade britannica do direito que

assiste a Portugal de reger os territorios ao sul e norte do Zambeze

sobre que versa a mencionada correspondencia, limitando-se, durante o

incidente e em todos os seus termos, a manter dominios que sempre

reivindicou, e reiterar declarações que sempre fez. E n'esta attitude

persistirá com o apoio, que decerto lhe não ha de faltar, dos

representantes da nação, esperando conseguir uma equitativa conciliação

de todos os legitimos interesses, que promptamente restabeleça, como eu

desejo, o perfeito accordo entre os governos de duas nações ligadas por

vinculos de amizade e tradicções seculares».

Pura illusão! No dia 5 de janeiro, o ministro inglez em Lisboa,

rebatendo a asseveração do sr. Barros Gomes de que Serpa Pinto, travando

combate com os makololos, se limitara a «repellir o ataque d'uma

tribu hostil» escrevia-lhe notando que «essa asseveração não parecia ao

seu governo de muito peso, pois que a acção dos makololos, quer tivessem

ou não tomado a offensiva, fôra unicamente determinada pelo desejo de

proteger o seu territorio contra a invasão dos portuguezes». A questão

attingia, evidentemente, a sua phase aguda. O _Times_, referindo-se-lhe,

dizia que, se a Inglaterra não tomasse promptas providencias «para

apagar a impressão causada pelas incursões do major Serpa Pinto, toda a

região dos Lagos Africanos se incendiaria; os makololos tinham visto a

Inglaterra grosseiramente ultrajada; era necessario que a vissem

reivindicar claramente a sua honra». Por outro lado, o governo

portuguez, desejoso, sem duvida, de attenuar um pouco a irritação que o

da Grã-Bretanha denunciara na nota de 5 de janeiro, havia ordenado a

Serpa Pinto que recolhesse á metropole. Mas nem com isso o colosso

amorteceu a pancada.

O sr. Barros Gomes tentou então propôr a suspensão temporaria de

qualquer procedimento e submetter o litigio ao exame e decisão d'uma

conferencia internacional. Trabalho inutil. Á nota do dia 8 d'aquelle

mez, em que o sr. Barros Gomes lamentava que a Inglaterra nunca tivesse

reconhecido o direito historico constantemente affirmado por Portugal

aos territorios do Chire e do Nyassa, a essa nota, o ministro Petre

respondeu no dia 10 com um _memorandum_--guarda avançada da exigencia

formal. «O governo britannico, frisava esse documento, precisa saber se

foram ou não enviadas instrucções rigorosas ás auctoridades portuguezas

em Moçambique com referencia aos actos de força e ao exercicio de

jurisdicção que ali subsistem actualmente». E, quasi sem dar tempo a que

a sr. Barros Gomes digerisse o tom comminatorio do _memorandum_, o

ministro Petre entregou-lhe o famoso _ultimatum_ concebido n'estes termos:

_O governo de sua magestade britannica não pode acceitar como

satisfatorias ou sufficientes as seguranças dadas pelo governo

portuguez, taes como as interpreta. O consul interino de sua magestade

em Moçambique telegraphou, citando o proprio major Serpa Pinto, que a

expedição estava ainda occupando o Chire e que Kalunga e outros logares

mais no territorio dos makololos iam ser fortificados e receberiam

guarnições. O que o governo de sua magestade deseja e em que insiste é

no seguinte:_

[Ilustração: Alves da Veiga (1891)]

_Que se enviem ao governador de Moçambique instrucções telegraphicas

immediatas para que todas e quaesquer forças militares actualmente no

Chire e nos paizes dos makololos e mashonas se retirem. O governo de sua

magestade entende que sem isto as seguranças dadas pelo governo

portuguez são illusorias._

_Mr. Petre ver-se-ha obrigado, á vista das suas instrucções, a deixar

immediatamente Lisboa com todos os membros da sua legação, se uma

resposta satisfatoria á precedente intimação não fôr por elle recebida

esta tarde; o navio de sua magestade «Enchantress» está em Vigo

esperando as suas ordens._

O _ultimatum_ tinha a data de 11 de janeiro. No mesmo dia o sr. Barros

Gomes entregava ao ministro inglez a resposta. Não a transcrevemos na

integra, dada a sua extensão. Registem-se comtudo os seus pontos

essenciaes. Abria pela declaração infantil de que o governo portuguez

julgava ter, com a sua nota do dia 8, satisfeito «por inteiro quanto

d'elle reclamava o de sua magestade britannica; antecipando-se á

segurança d'uma justa reciprocidade, que devia constituir o natural

preliminar das suas resoluções, apressara-se a enviar para Moçambique as

ordens mais terminantes no sentido de fazer respeitar desde logo, em

toda a provincia, o compromisso tomado, no intuito de facilitar a

realisação d'um accordo com a Grã-Bretanha, pelo qual o governo

portuguez sempre pugnara». A resposta do sr. Barros Gomes fechava assim:

_Na presença d'uma ruptura imminente de relações com a Grã-Bretanha e de

todas as consequencias que d'ella poderiam talvez derivar-se, o governo

de sua magestade resolveu ceder ás exigencias recentemente formuladas e,

resalvando por todas as formas os direitos da corôa de Portugal nas

regiões africanas de que se trata, protestando bem assim pelo direito

que lhe confere o artigo 12.º do Acto Geral de Berlim, de ver resolvido

definitivamente o assumpto em litigio por uma mediação ou pela

arbitragem, o governo de sua magestade vae expedir para o governador

geral de Moçambique as ordens exigidas pela Grã-Bretanha. Aproveito a

occasião para renovar a v. ex.ª as seguranças da minha alta

consideração._

Resumindo: se a intimação era cathegorica, e a ameaça do governo inglez

resumava inilludivelmente o proposito de vexar, de humilhar o pequeno

paiz ao qual ella se dirigia, a resposta não podia ser mais

subserviente, apesar do fraco esboço de protesto com apoio no direito

internacional consignado nas ultimas linhas do documento. Ao pontapé

vibrado impiedosamente pela Inglaterra, Portugal offerecia uma curvatura

de espinha só propria d'um lacaio... Custa dizel-o sem disfarce, mas é a

verdade.

A noticia do _ultimatum_ foi divulgada em Lisboa poucas horas depois do

sr. Barros Gomes a ter recebido. No dia 12 de manhã, um jornal dos de

maior circulação exclamava, em typo graúdo, no logar mais saliente da

sua primeira pagina:

«O governo inglez, o philantropico e honesto governo inglez, recorreu,

emfim, ao argumento que lhe é usual nas discordias com os povos

pequenos. Recorreu ao argumento da força! O governo portuguez recebeu

uma intimação formal: ou dá promptas satisfações, n'um curto praso, que

deveria ter terminado ás 2 horas da manhã de hoje, ou marcha sobre

Lisboa a poderosa esquadra que está reunida em Gibraltar, com ordem de

bombardear a capital de Portugal! Lisboa, a nossa querida e formosissima

Lisboa, bombardeada pelos canhões da Inglaterra! A cidade de onde

partiram os descobridores audazes que deram ao mundo--e no mundo mais

que a nenhum outro povo, ao povo britannico--a America prodigiosa, e

essa Asia, onde a Inglaterra tem o seu grande imperio, e essa Africa,

por um ponto insignificante da qual se levanta o presente conflicto--a

cidade dos navegadores heroicos e generosos, destruida a tiros de peça

pelos couraçados da nação colonial por excellencia! É phantasticamente

horrivel!

«Que respondeu o governo? Salvou a sua honra, ou salvou a historia

d'esta immensa vergonha, e Lisboa d'esta immensa catastrophe? Nada

podemos averiguar. O ministerio esteve reunido até alta noite e do que

decidiu só hoje, provavelmente, haverá conhecimento. A hora não é de

recriminações. Aguardemos com serenidade e com firmeza o que o destino,

a imprevidencia dos homens e a rapacidade d'uma nação egoista e

desalmada nos preparam n'este momento solemne da nossa historia!»

Estava lançado o rebate. O povo, a genuina massa do povo, não tardaria a

entrar em scena, manifestando-se por uma fórma até então desconhecida

pelos serventuarios da monarchia--explodindo indignação e sincero

patriotismo. O partido republicano, firmando-se n'esse impulso da

opinião, adquiria novo alento e preparava-se para ulteriores trabalhos

de propaganda, mais forte, melhor orientada e, sobretudo, de maior

efficacia.

CAPITULO V

O protesto contra o "ultimatum" echoa de norte a sul do paiz

O domingo 12, isto é, o dia immediato ao da recepção do _ultimatum_,

consagrou-o a população lisboeta a commentar o acontecimento. Uma parte

da imprensa, fazendo o resumo do conflicto diplomatico que desfechara na

affronta despedida pela Grã-Bretanha, accrescentava que, emquanto o

ministro inglez sr. Petre entregava a intimação formal ao sr. Barros

Gomes, este recebia do governador de Cabo Verde um telegramma

communicando-lhe que entrara no porto de S. Vicente com carta de prego

um cruzador britannico; o nosso consul em Gibraltar avisava-o, por

seu turno, de que a esquadra do Canal lá estava concentrada, prompta ao

primeiro aviso; o consul em Zanzibar tambem telegraphava participando a

sahida para as costas de Moçambique de dez navios de guerra inglezes,

acompanhados de um transporte com carvão e mantimentos. Perante esta

situação, o governo consultara o conselho de Estado, que reunira sob a

presidencia do rei D. Carlos. No conselho tinham votado pela satisfação

ás exigencias da Inglaterra os srs. Barjona de Freitas, José Luciano de

Castro, conde de S. Lourenço, Barros Gomes e João Chrysostomo. O sr.

Antonio de Serpa manifestára-se pela arbitragem e por que só fossem

mandadas retirar as forças portuguezas do Chire depois da Inglaterra a

acceitar.

Á tarde, apesar da excitação popular já ser bem visivel, o rei D. Carlos

exhibiu-se em passeio na Avenida da Liberdade e seu irmão o infante D.

Affonso percorreu á desfilada varios pontos da cidade, mostrando-se um e

outro completamente alheiados do facto que enlutára a nação. Ao começo

da noite formaram-se grupos numerosos no Rocio e como do Colyseu da rua

da Palma sahisse, em certa altura, um cortejo de patriotas que soltavam

calorosos vivas á nação, ao exercito e á imprensa e morras ao governo e

á Inglaterra, os grupos addicionaram-se-lhes e uma enorme multidão

dirigiu os passos para a Sociedade de Geographia. Ahi, d'uma das

varandas, falou o sr. Luciano Cordeiro:

--A Inglaterra, trovejou, pode expulsar-nos pela força, mas o direito

subsiste! Precisamos protestar contra a pirataria britannica!...

Mas, da multidão, elevaram-se outras vozes:

--E contra o governo que nos atraiçoou! E contra os Braganças que nos

jungiram á Inglaterra!...

A Revolução Portugueza: O 31 de Janeiro (Porto 1891) · 第 1 / 11 段