D. Camilla levantou os hombros.--Acho-lhe o nariz torto, disse.

--Máo! Você está nervosa; fallemos de outra cousa, respondeu o marido.

E, depois, de olhar uns dous minutos para a rua, cantarolando na

garganta, tornou ao Ribeiro, que achava um genro aceitavel, e se lhe

pedisse Ernestina, entendia que deviam ceder-lh'a. Era intelligente e

educado. Era tambem o herdeiro provavel de uma tia de Cantagallo. E

depois tinha um coração de ouro. Contavam-se d'elle cousas muito

bonitas. Na academia, por exemplo... D. Camilla ouviu o resto, batendo

com a ponta do pé no chão e rufando com os dedos a sonata da

impaciencia; mas, quando o marido lhe disse que o Ribeiro esperava um

despacho do ministro de estrangeiros, um logar para os Estados-Unidos,

não poude ter-se e cortou-lhe a palavra.

--O que? separar-me de minha filha. Não, senhor.

Em que dóse entrára n'este grito o amor materno e o sentimento pessoal,

é um problema difficil de resolver, principalmente agora, longe dos

acontecimentos e das pessoas. Supponhamos que em partes eguaes. A

verdade é que o marido não soube que inventar para defender o ministro

de estrangeiros, as necessidades diplomaticas, a fatalidade do

matrimonio, e, não achando que inventar, foi dormir. Dois dias depois

veiu a nomeação. No terceiro dia, a moça declarou ao namorado que não a

pedisse ao pai, porque não queria separar-se da familia. Era o mesmo que

dizer: prefiro a familia ao senhor. É verdade que tinha a voz tremula e

sumida, e um ar de profunda consternação; mas o Ribeiro viu tão sómente

a rejeição, e embarcou. Assim acabou a primeira aventura.

D. Camilla padeceu com o desgosto da filha; mas consolou-se depressa.

Não faltam noivos, reflectiu ella. Para consolar a filha, levou-a a

passeiar a toda parte. Eram ambas bonitas, e Ernestina tinha a frescura

dos annos; mas a belleza da mãi era mais perfeita, e apezar dos annos,

superava a da filha. Não vamos ao ponto de crêr que o sentimento da

superioridade é que animava D. Camilla a prolongar e repetir os

passeios. Não: o amor materno, só por si, explica tudo. Mas concedamos

que animasse um pouco. Que mal ha n'isso? Que mal ha em que um bravo

coronel defenda nobremente a patria, e as suas dragonas? Nem por isso

acaba o amor da patria e o amor das mãis.

Mezes depois despontou a orelha de um segundo namorado. D'esta vez era

um viuvo, advogado, vinte e sete annos. Ernestina não sentiu por elle a

mesma emoção que o outro lhe dera; limitou-se a aceital-o. D. Camilla

farejou depressa a nova candidatura. Não podia allegar nada contra elle;

tinha o nariz recto como a consciencia, e profunda aversão á vida

diplomatica. Mas haveria outros defeitos, devia haver outros. D. Camilla

buscou-os com alma; indagou de suas relações, habitos, passado.

Conseguiu achar umas cousinhas miudas, tão sómente a unha da imperfeição

humana, alternativas de humor, ausencia de graças intellectuaes, e,

finalmente, um grande excesso de amor proprio. Foi n'este ponto que a

bella dama o apanhou. Começou a levantar vagarosamente a muralha do

silencio; lançou primeiro a camada das pausas, mais ou menos longas,

depois as phrases curtas, depois os monosyllabos, as distracções, as

absorpções, os olhares complacentes, os ouvidos resignados, os bocejos

fingidos por traz da ventarola. Elle não entendeu logo; mas, quando

reparou que os enfados da mãi coincidiam com as ausencias da filha,

achou que era alli de mais e retirou-se. Se fosse homem de luta, tinha

saltado a muralha; mas era orgulhoso e fraco. D. Camilla deu graças aos

deuses.

Houve um trimestre de respiro. Depois appareceram alguns namoricos de

uma noite, insectos ephemeros, que não deixaram historia. D. Camilla

comprehendeu que elles tinham de multiplicar-se, até vir algum decisivo

que a obrigasse a ceder; mas ao menos, dizia ella a si mesma, queria um

genro que trouxesse á filha a mesma felicidade que o marido lhe deu. E,

uma vez, ou para robustecer este decreto da vontade, ou por outro

motivo, repetiu o conceito em voz alta, embora só ella pudesse ouvil-o.

Tu, psychologo subtil, pódes imaginar que ella queria convencer-se a si

mesma; eu prefiro contar o que lhe aconteceu em 186....

Era de manhã. D. Camilla estava ao espelho, a janella aberta, a chacara

verde e sonora de cigarras e passarinhos. Ella sentia em si a harmonia

que a ligava ás cousas externas. Só a belleza intellectual é

independente e superior. A belleza physica é irmã da paysagem. D.

Camilla saboreava essa fraternidade intima, secreta, um sentimento de

identidade, uma recordação da vida anterior no mesmo utero divino.

Nenhuma lembrança desagradavel, nenhuma occurrencia vinha turvar essa

expansão mysteriosa. Ao contrario, tudo parecia embebel-a de eternidade,

e os quarenta e dous annos em que ia não lhe pesavam mais do que outras

tantas folhas de rosa. Olhava para fóra, olhava para o espelho. De

repente, como se lhe surdisse uma cobra, recuou atterrada. Tinha visto,

sobre a fonte esquerda, um cabellinho branco. Ainda cuidou que fosse do

marido; mas reconheceu depressa que não, que era d'ella mesma, um

telegramma da velhice, que ahi vinha a marchas forçadas. O primeiro

sentimento foi de prostração. D. Camilla sentiu faltar-lhe tudo, tudo,

viu-se encanecida e acabada no fim de uma semana.

--Mamãi, mamãi, bradou Ernestina, entrando na saleta. Está aqui o

camarote que papai mandou.

D. Camilla teve um sobresalto de pudor, e instinctivamente voltou para a

filha o lado que não tinha o fio branco. Nunca a achou tão graciosa e

lepida. Fitou-a com saudade. Fitou-a tambem com inveja, e, para abafar

este sentimento máu, pegou no bilhete de camarote. Era para aquella

mesma noite. Uma idéa expelle outra; D. Camilla anteviu-se no meio das

luzes e das gentes, e depressa levantou o coração. Ficando só, tornou a

olhar para o espelho, e corajosamente arrancou o cabellinho branco, e

deitou-o á chacara. _Out, damnet spot! Out!_ Mais feliz do que a outra

lady Macbeth, viu assim desapparecer a nodoa no ar, porque no animo

d'ella, a velhice era um remorso, e a fealdade um crime. Sae, maldita

mancha! sae!

Mas, se os remorsos voltam, porque não hão de voltar os cabellos

brancos? Um mez depois, D. Camilla descobriu outro, insinuado na bella e

farta madeixa negra, e amputou-o sem piedade. Cinco ou seis semanas

depois, outro. Este terceiro coincidiu com um terceiro candidato á mão

da filha, e ambos acharam D. Camilla n'uma hora de prostração. A

belleza, que lhe supprira a mocidade, parecia-lhe prestes a ir tambem,

como uma pomba sae em busca da outra. Os dias precipitavam-se. Creanças

que ella vira ao collo, ou de carrinho empuxado pelas amas, dansavam

agora nos bailes. Os que eram homens fumavam; as mulheres cantavam ao

piano. Algumas d'estas apresentavam-lhe os seus _babies_, gorduchos, uma

segunda geração que mamava, á espera de ir bailar tambem, cantar ou

fumar, apresentar outros _babies_ a outras pessoas, e assim por diante.

D. Camilla, apenas tergiversou um pouco, acabou cedendo. Que remedio,

senão aceitar um genro? Mas, como um velho costume não se perde de um

dia para outro, D. Camilla viu parallelamente, n'aquella festa do

coração, um scenario e grande scenario. Preparou-se galhardamente, e o

efeito correspondeu ao esforço. Na egreja, no meio de outras damas; na

sala, sentada no sophá (o estofo que forrava este movel, assim como o

papel da parede foram sempre escuros para fazer sobresahir a tez de D.

Camilla), vestida a capricho, sem o requinte da extrema juventude, mas

tambem sem a rigidez matronal, um meio termo apenas, destinado a pôr em

relevo as suas graças outoniças, risonha, e feliz, emfim, a recente

sogra colheu os melhores suffragios. Era certo que ainda lhe pendia dos

hombros um retalho de purpura.

Purpura suppõe dynastia. Dynastia exige netos. Restava que o Senhor

abençoasse a união, e elle abençoou-a, no anno seguinte. D. Camilla

acostumara-se a idéa; mas era tão penoso abdicar, que ella aguardava o

neto com amor e repugnancia. Esse importuno embryão, curioso da vida e

pretencioso, era necessario na terra? Evidentemente, não; mas appareceu

um dia, com as flores de Setembro. Durante a crise, D. Camilla só teve

de pensar na filha; depois da crise, pensou na filha e no neto. Só dias

depois é que poude pensar em si mesma. Emfim, avó. Não havia duvidar;

era avó. Nem as feições que eram ainda concertadas, nem os cabellos, que

eram pretos (salvo meia duzia de fios escondidos), podiam por si sós

denunciar a realidade; mas a realidade existia; ella era, emfim, avó.

Quiz recolher-se; e para ter o neto mais perto de si, chamou a filha

para casa. Mas a casa não era um mosteiro, e as ruas e os jornaes com os

seus mil rumores acordavam n'ella os echos de outro tempo. D. Camilla

rasgou o acto de abdicação e tornou ao tumulto.

Um dia, encontrei-a ao lado de uma preta, que levava ao collo uma

creança de cinco a seis mezes. D. Camilla segurava na mão o chapellinho

de sol aberto para cobrir a creança. Encontrei-a oito dias depois, com a

mesma creança, a mesma preta e o mesmo chapéu de sol. Vinte dias depois,

e trinta dias mais tarde, tornei a vel-a, entrando para o bond, com a

preta e a creança.--Você já deu de mamar? dizia ella á preta. Olhe o

sol. Não vá cahir. Não aperte muito o menino. Acordou? Não mexa com

elle. Cubra a carinha, etc., etc.

Era o neto. Ella, porém, ia tão apertadinha, tão cuidadosa da creança,

tão a miudo, tão sem outra senhora, que antes parecia mãi do que avó; e

muita gente pensava que era mãi. Que tal fosse a intenção de D. Camilla

não o juro eu. («Não jurarás», MATH. V, 34 ). Tão sómente digo que

nenhuma outra mãi seria mais desvellada do que D. Camilla com o neto;

attribuirem-lhe um simples filho era a cousa mais verosimil do mundo.

Historias Sem Data · 第 50 / 72 题