--Senhor, disse elle a Ptolomeu, tenho-me limitado até agora a
escalpellar cadaveres. Mas o cadaver dá-me a estructura, não me dá a
vida; dá-me os orgãos, não me dá as funcções. Eu preciso das funcções e
da vida.
--Que me dizes? redarguiu Ptolomeu. Queres estripar os ratos de
Stroibus?
--Não, senhor; não quero estripar os ratos.
--Os cães? os gansos? as lebres?...
--Nada; peço alguns homens vivos.
--Vivos? não é possivel...
--Vou demonstrar que não só é possivel, mas até legitimo e necessario.
As prisões egypicias estão cheias de criminosos, e os criminosos
occupam, na escala humana, um grau muito inferior. Já não são cidadãos,
nem mesmo se podem dizer homens, porque a razão e a virtude, que são os
dois principaes caracteristicos humanos, elles os perderam, infringindo
a lei e a moral. Além d'isso, uma vez que têm de expiar com a morte os
seus crimes, não é justo que prestem algum serviço á verdade e a
sciencia? A verdade é immortal; ella vale não só todos os ratos, como
todos os delinquentes do universo.
Ptolomeu achou o raciocinio exacto, e ordenou que os criminosos fossem
entregues a Herophilo e seus discipulos. O grande anatomista agradeceu
tão insigne obsequio, e começou a escalpellar os réus. Grande foi o
assombro do povo; mas, salvo alguns pedidos verbaes, não houve nenhuma
manifestação contra a medida. Herophilo repetia o que dissera a
Ptolomeu, acrescentando que a sujeição dos réus á experiencia anatomica
era até um modo indirecto de servir á moral, visto que o terror de
escalpello impediria a pratica de muitos crimes.
Nenhum dos criminosos, ao deixar a prisão, suspeitava o destino
scientifico que o esperava. Sahiam um por um; ás vezes dous a dous, ou
tres a tres. Muitos d'elles, estendidos e atados á mesa da operação, não
chegavam a desconfiar nada; imaginavam que era um novo genero de
execução summaria. Só quando os anatomistas definiam o objecto do estudo
do dia, alçavam os ferros e davam os primeiros talhos, é que os
desgraçados adquiriam a consciencia da situação. Os que se lembravam de
ter visto as experiencias dos ratos, padeciam em dobro, porque a
imaginação juntava á dôr presente o expectaculo passado.
Para conciliar os interesses da sciencia com os impulsos da piedade, os
réos não eram escalpellados á vista uns dos outros, mas successivamente.
Quando vinham aos dois ou aos tres, não ficavam em logar d'onde os que
esperavam pudessem ouvir os gritos do paciente, embora os gritos fossem
muitas vezes abafados por meio de apparelhos; mas se eram abafados, não
eram supprimidos, e em certos casos, o proprio objecto da experiencia
exigia que a emissão da voz fosse franca. Ás vezes as operações eram
simultaneas; mas então faziam-se em logares distanciados.
Tinham sido escalpellados cerca de cincoenta réus, quando chegou a vez
de Stroibus e Pythias. Vieram buscal-os; elles suppuzeram que era para a
morte judiciaria, e encommendaram-se aos deuses. De caminho, furtaram
uns figos, e explicaram o caso allegando que era um impulso da fome,
adiante, porém, subtrahiram uma flauta, e essa outra acção não a puderam
explicar satisfactoriamente. Todavia, a astucia do larapio é infinita, e
Stroibus, para justificar a acção, tentou extrahir algumas notas do
instrumento, enchendo de compaixão as pessoas que os viam passar, e não
ignoravam a sorte que iam ter. A noticia d'esses dous novos delictos foi
narrada por Herophilo, e abalou a todos os seus discipulos.
Realmente, disse o mestre, é um caso extraordinario, um caso lindissimo.
Antes do principal, examinemos aqui o outro ponto...
O ponto era saber se o nervo do latrocionio residia na palma da mão ou
na extremidade dos dedos; problema esse suggerido por um dos discipulos.
Stroibus foi o primeiro sujeito á operação. Comprehendeu tudo, desde que
entrou na sala; e, como a natureza humana tem uma parte infima,
pediu-lhes humildemente que poupassem a vida a um philosopho. Mas
Herophilo, com um grande poder de dialectica, disse-lhe mais ou menos
isto:--Ou és um aventureiro ou o verdadeiro Stroibus; no primeiro caso,
tens aqui o unico meio para resgatar o crime de illudir a um principe
esclarecido, presta-te ao escalpello; no segundo caso, não deves ignorar
que a obrigação do philosopho é servir á philosophia, e que o corpo é
nada em comparação com o entendimento.
Dito isto, começaram pela experiencia das mãos, que produziu optimos
resultados, colligidos em livros, que se perderam com a queda dos
Ptolomeus. Tambem as mãos de Pythias foram rasgadas e minuciosamente
examinadas. Os infelizes berravam, choravam, supplicavam; mas Herophilo
dizia-lhes pacificamente que a obrigação do philosopho era servir á
philosophia, e que para os fins da sciencia, elles valiam ainda mais que
os ratos, pois era melhor concluir do homem para o homem, e não do rato
para o homem. E continuou a rasgal-os fibra por fibra, durante oito
dias. No terceiro dia arrancaram-lhes os olhos, para desmentir
praticamente uma theoria sobre a conformação interior do orgão. Não
fallo da extracção do estomago de ambos, por se tratar de problemas
relativamente secundarios, e em todo caso estudados e resolvidos em
cinco ou seis individuos escalpellados antes d'elles.
Diziam os alexandrinos que os ratos celebraram esse caso afflictivo e
doloroso com dansas e festas, a que convidaram alguns cães, rolas,
pavões e outros animaes ameaçados de egual destino, e outrosim, que
nenhum dos convidados acceitou o convite, por suggestão de um cachorro,
que lhes disse melancolicamente:--«Seculo virá em que a mesma cousa nos
aconteça.» Ao que retorquiu um rato: «Mas até lá, riamos!»