Os garotos alexandrinos não trataram os dous sabios com o escarneo dos
garotos cypriotas. A terra era grave como a ibis pousada n'uma só pata,
pensativa como a sphynge, circumspecta como as mumias, dura como as
pyramides; não tinha tempo nem maneira de rir. Cidade e côrte, que desde
muito tinham noticia dos nossos dous amigos, fizeram-lhes um recebimento
regio, mostraram conhecer seus escriptos, discutiram as suas idéas,
mandaram-lhes muitos presentes, papyros, crocodilos, zebras, purpuras.
Elles porém, recusaram tudo, com simplicidade, dizendo que a philosophia
bastava ao philosopho, e que o superfluo era um dissolvente. Tão nobre
resposta encheu de admiração tanto aos sabios como aos principaes e á
mesma plebe. E aliás, diziam os mais sagazes, que outra cousa se podia
esperar de dous homens tão sublimes, que em seus magnificos tratados...
--Temos cousa melhor do que esses tratados, interrompia Stroibus. Trago
uma doutrina, que, em pouco, vai dominar o universo; cuido nada menos
que em reconstituir os homens e os Estados, distribuindo os talentos e
as virtudes.
--Não é esse o officio dos deuses? objectava um.
--Eu violei o segredo dos deuses, acudia Stroibus. O homem é a syntaxe
da natureza, eu descobri as leis da grammatica divina...
--Explica-te.
--Mais tarde; deixa-me experimentar primeiro. Quando a minha doutrina
estiver completa, divulgal-a-hei como a maior riqueza que os homens
jámais poderão receber de um homem.
Imaginem a expectação publica e a curiosidade dos outros philosophos,
embora incredulos de que a verdade recente viesse aposentar as que elles
mesmos possuiam. Entretanto, esperavam todos. Os dous hospedes eram
apontados na rua até pelas crianças. Um filho meditava trocar a avareza
do pai, um pai a prodigalidade do filho, uma dama a frieza de um varão,
um varão os desvarios de uma dama, porque o Egypto, desde os Pharaós até
aos Lagides, era a terra de Putiphar, da mulher de Putiphar, da capa de
José, e do resto. Stroibus tornou-se a esperança da cidade e do mundo.
Pythias, tendo estudado a doutrina, foi ter com Stroibus, e disse-lhe:
--Methaphysicamente, a tua doutrina é um desproposito; mas estou prompto
a admittir uma experiencia, comtanto que seja decisiva. Para isto, meu
caro Stroibus, ha só um meio. Tu e eu, tanto pelo cultivo da razão como
pela rigidez do caracter, somos o que ha mais opposto ao vicio do furto.
Pois bem, se conseguires incutir-nos esse vicio, não será preciso mais;
se não conseguires nada, (e pódes crel-o, porque é um absurdo) recuarás
de semelhante doutrina, e tornarás ás nossas velhas meditações.
Stroibus acceitou a proposta.
--O meu sacrifio é o mais penoso, disse elle, pois estou certo do
resultado; mas que não merece a verdade? A verdade é immortal; o homem é
um breve momento...
Os ratos egypcios, se pudessem saber de um tal accordo, teriam imitado
os primitivos hebreus, acceitando a fuga para o deserto, antes do que a
nova philosophia. E podemos crer que seria um desastre. A sciencia, como
a guerra, tem necessidades imperiosas; e desde que a ignorancia dos
ratos, a sua fraqueza, a superioridade mental e physica dos dois
philosophos eram outras tantas vantagens na experiencia que ia começar,
cumpria não perder tão boa occasião de saber se efectivamente o
principio das paixões e das virtudes humanas estavam distribuidos pelas
varias especies de animaes, e se era possivel transmittil-o.
Stroibus engaiolava os ratos; depois, um a um, ia-os sujeitando ao
ferro. Primeiro, atava uma tira de panno no focinho do paciente; em
seguida, os pés, finalmente, cingia com um cordel as pernas e o pescoço
do animal á taboa da operação. Isto feito, dava o primeiro talho no
peito, com vagar, e com vagar ia enterrando o ferro até tocar o coração,
porque era opinião d'elle que a morte instantanea corrompia o sangue e
retirava-lhe o principio. Habil anatomista, operava com uma firmeza
digna do proposito scientifico. Outro, menos destro, interromperia muita
vez a tarefa, porque as contorsões de dôr e de agonia tornavam difficil
o meneio do escalpello; mas essa era justamente a superioridade de
Stroibus: tinha o pulso magistral e pratico.
Ao lado d'elle, Pythias aparava o sangue e ajudava a obra, já contendo
os movimentos convulsivos do paciente, já espiando-lhe nos olhos o
progresso da agonia. As observações que ambos faziam eram notadas em
folhas de papyro; e assim ganhava a sciencia de duas maneiras. Ás vezes,
por divergencia de apreciação, eram obrigados a escalpellar maior numero
de ratos do que o necessario; mas não perdiam com isso, porque o sangue
dos excedentes era conservado e ingerido depois. Um só d'esses casos
mostrará a consciencia com que elles procediam. Pythias observára que a
retina do rato agonisante mudava de côr até chegar ao azul claro, ao
passo que a observação de Stroibus dava a côr de canella como o tom
final da morte. Estavam na ultima operação do dia; mas o ponto valia a
pena, e, não obstante o cansaço, fizeram successivamente desenove
experiencias sem resultado definitivo; Pythias insistia pela côr azul, e
Stroibus pela côr de canella. O vigesimo rato esteve prestes a pôl-os de
accordo, mas Stroibus advertiu, com muita sagacidade, que a sua posição
era agora differente, rectificou-a e escalpellaram mais vinte e cinco.
D'estes, o primeiro ainda os deixou em duvida; mas os outros vinte e
quatro provaram-lhes que a côr final não era canella nem azul, mas um
lyrio roxo, tirando a claro.
A descripção exagerada das experimentações deu rebate á porção
sentimental da cidade, e excitou a loquella de alguns sophistas; mas o
grave Stroibus (com brandura, para não aggravar uma disposição propria
da alma humana) respondeu que a verdade valia todos os ratos do
universo, e não só os ratos, como os pavões, as cabras, os cães, os
rouxinoes, etc.; que, em relação aos ratos, além de ganhar a sciencia,
ganhava a cidade, vendo diminuida a praga de um animal tão damninho; e,
se a mesma consideração não se dava com outros animaes, como, por
exemplo, as rolas e os cães, que elles iam escalpellar d'ahi a tempos,
nem por isso os direitos da verdade eram menos imprescriptiveis. A
natureza não ha de ser só a mesa de jantar, concluia em fórma de
aphorismo, mas tambem a mesa de sciencia.
E continuavam a extrahir o sangue e a bebel-o. Não o bebiam puro, mas
diluido em um cosimento de cinamomo, succo de acacia e balsamo, que lhe
tirava todo o sabor primitivo. As doses eram diarias e diminutas;
tinham, portanto, de aguardar um longo praso antes de produzido o
effeito. Pythias, impaciente e incredulo, mofava do amigo.
--Então? nada?
--Espera, dizia o outro, espera. Não se incute um vicio como se cose um
par de sandalias.