Cahia a noite e a chuva.
Não se me dava a queda da noite, importava-me a queda da agua.
Eu não tinha guarda-chuva.
Identificando o corpo com as paredes das casas, cheguei ao _Restaurant_
do Mangini ensopado como uma garoupa de escabeche, pois que fallei em
restaurant.
Por felicidade das tres quatro partes do genero humano, se a agua da
chuva tem a propriedade de ensopar o facto, este tem a de enxugar
passado o preciso tempo. Panno para mangas tinha eu aqui, se quizesse
mostrar até onde chego em physica.
Assentei-me junto a uma meza, onde não dava em cheio a luz.
Nenhum dos caixeiros do estabelecimento fez conta da minha
_humida-individualidade_.
Cheguei no momento em que um sujeito, galhardamente vestido á moderna,
travava razões com um dos caixeiros. Dizia elle, calçando as luvas e
olhando de travez para a nota da despeza, que fizera:
--Oh! senhor! esta conta está exacta? em que despendi essa enorme somma?
nem no hotel da Europa.
--V. S. veja a lista, acodia o caixeiro.
--Vêr o que, homem? pois eu quando como, olho lá o preço das iguarias?
peço o que quero, porque não venho a estas casas comer de graça, fique
sabendo, mas isto é um roubo.
--Confira pela lista e verá que lhe não levamos um vintem de mais...
--Não sou conferente de casas de pasto, ouvio? bradou o homem com nobre
altivez. Confira vossê.
O proprietario do estabelecimento que se achava ao balcão, dirige-se ao
cavalheiro, e com bons modos, lhe disse que se não amofinasse, que a
conta estava exacta, mas se não queria pagar--seria o mesmo.
--Tenho muito dinheiro, alardeou o freguez; não preciso do seu jantar.
Nem ando comendo nos _botequins_; se entrei neste, antes foi para
esperar que passasse a chuva do que para outro fim. Almoço, janto e ceio
no hotel da Europa, porém, não quero ser roubado, não estamos na
Siberia.
Ein, Siberia?
--Pois, senhor, a chuva já passou, V. S. não deve nada, respondeu o
proprietario.
--Então, não reforma a conta?
--Está exacta.
--Ah! está exacta! pois sim, já disse que não estamos na Siberia, adeus.
E partio.
O dono da casa aproximou-se-me dizendo;
--Veja isto; um homem, que calça luvas de pellica, almoça, janta e ceia
no hotel da Europa, sahe d'aqui deixando o debito de dous mil setecentos
e sessenta réis. Ha de vêr que é sustentado por alguma...
Não o-deixei acabar, todo o corpo se me arrepiou...
--Um calix de cognac!