CAPITULO XVII.

Cahia a noite e a chuva.

Não se me dava a queda da noite, importava-me a queda da agua.

Eu não tinha guarda-chuva.

Identificando o corpo com as paredes das casas, cheguei ao _Restaurant_

do Mangini ensopado como uma garoupa de escabeche, pois que fallei em

restaurant.

Por felicidade das tres quatro partes do genero humano, se a agua da

chuva tem a propriedade de ensopar o facto, este tem a de enxugar

passado o preciso tempo. Panno para mangas tinha eu aqui, se quizesse

mostrar até onde chego em physica.

Assentei-me junto a uma meza, onde não dava em cheio a luz.

Nenhum dos caixeiros do estabelecimento fez conta da minha

_humida-individualidade_.

Cheguei no momento em que um sujeito, galhardamente vestido á moderna,

travava razões com um dos caixeiros. Dizia elle, calçando as luvas e

olhando de travez para a nota da despeza, que fizera:

--Oh! senhor! esta conta está exacta? em que despendi essa enorme somma?

nem no hotel da Europa.

--V. S. veja a lista, acodia o caixeiro.

--Vêr o que, homem? pois eu quando como, olho lá o preço das iguarias?

peço o que quero, porque não venho a estas casas comer de graça, fique

sabendo, mas isto é um roubo.

--Confira pela lista e verá que lhe não levamos um vintem de mais...

--Não sou conferente de casas de pasto, ouvio? bradou o homem com nobre

altivez. Confira vossê.

O proprietario do estabelecimento que se achava ao balcão, dirige-se ao

cavalheiro, e com bons modos, lhe disse que se não amofinasse, que a

conta estava exacta, mas se não queria pagar--seria o mesmo.

--Tenho muito dinheiro, alardeou o freguez; não preciso do seu jantar.

Nem ando comendo nos _botequins_; se entrei neste, antes foi para

esperar que passasse a chuva do que para outro fim. Almoço, janto e ceio

no hotel da Europa, porém, não quero ser roubado, não estamos na

Siberia.

Ein, Siberia?

--Pois, senhor, a chuva já passou, V. S. não deve nada, respondeu o

proprietario.

--Então, não reforma a conta?

--Está exacta.

--Ah! está exacta! pois sim, já disse que não estamos na Siberia, adeus.

E partio.

O dono da casa aproximou-se-me dizendo;

--Veja isto; um homem, que calça luvas de pellica, almoça, janta e ceia

no hotel da Europa, sahe d'aqui deixando o debito de dous mil setecentos

e sessenta réis. Ha de vêr que é sustentado por alguma...

Não o-deixei acabar, todo o corpo se me arrepiou...

--Um calix de cognac!

Memorias de um pobre diabo · 第 74 / 83 题