Primeiro que as maximas obtivessem despacho, recebi da minha terra uma
carta do muito probo Sr. Silva, cognominado pelo vulgo o _tira pelle_,
negociante com armazem de _seccos e molhados_ na travessa da Forquilha.
Recommendo este estabelecimento aos que procuram do bom e barato.
O vulgo, que sempre ha de mostrar ser vulgo, cousa baixa e vil e mais
baixa e mais vil depois das eleições concluidas, cognominára _tira
pelle_ a esse honrado cavalheiro por um facto, que, em seu nome,
justificarei.
O Sr. Silva nunca tirou nem pretendeu tirar o couro, quanto mais a
pelle, á ninguem.... obrigaram-o a isso.
O meu amigo, actualmente negociante matriculado, começou a vida
refinando assucar. Honra lhe seja feita, antes principiar a vida
refinando assucar do que leval-a ao cabo na qualidade de refinado vadio,
ou refinadissimo velhaco.
Achava-se certa vez na sua labutação, quando apparece na cosinha um
individuo, que entrou pela casa como se fosse o dono.
--Sr. Silva! diz o individuo com má catadura.
--Bom dia, Sr. Alves, acode o laborioso refinador; e foi continuando a
mecher o tacho com a grande escumadeira.
--Não temos cá bons dias! replica Alves. Quero que diga, quantas arrobas
de mascavo-claro mandei refinar.
--Cinco, respondeu o refinador.
--Justas, cinco; e quantas enviou?
--Quatro e meia.
--Justas, quatro e meia. Quatro e meia, sim, quatro e meia.... porém,
duas e meia de assucar e as outras do que, Sr. Silva?
--Tambem de assucar, está claro.
--De assucar.... de assucar, êim, Sr. Silva? Digo-lhe, todavia, que
entendo de refinação....
--Não duvido.
--Duvide ou não duvide, o que digo, digo. E quando digo que cinco
arrobas de assucar são cento e sessenta libras, é porque sei que uma
arroba, seja lá do que fôr, tem trinta e duas libras. Ora, sendo certo,
como é incontestavel, que cada arroba de mascavo-claro perde na
refinação, quando muito cinco libras, é porque tambem sei que em cinco
arrobas perderá vinte e cinco, já que a taboada quer que cinco vezes
cinco sejam vinte e cinco.
--Noves fóra sete, diz rindo-se Silva.
--Não preciso que o senhor me ensine a tirar os _noves fóra_, o que
preciso é saber como é isto....
--O que? pergunta o outro.
--Que devendo eu, por consequencia, receber quatro arrobas e sete libras
de assucar refinado, recebi quatro arrobas e meia?
--Está-se mettendo pelos olhos; é que mandei nove libras de mais,
segundo a sua taboada.
--A taboada não é minha, Sr. Silva! brada Alves, enfurecendo-se mais. A
taboada é de todo o mundo, entendeu?
--Entendi... entendi... responde o meu amigo com santa calma.
--O que é meu é o calculo, e, conforme calculei, entre as quatro e meia
arrobas de assucar, foram duas de arêa, fique sabendo de arêa...
--De arêa? acode o refinador cahindo das estrelas; essa agora é sua...
ou então o portador...
--Não temos aqui portador nem portadores. Os meus caixeiros são homens
de bem, e o senhor devia saber que, sendo meu freguez o presidente da
camara, mais dia menos dia, eu seria multado pela sua... e engulio a
palavra.
--Solte a palavra... brada Silva.
--A palavra é ladroeira, responde Alves.
--Então sou ladrão? Diga, se é capaz, sou ou não sou?
Alves não se intimidou e asseverou;
--É, é, e é ladrão, e ladrão refinado...
O meu amigo não podia ser mais prudente do que o foi até alli. A
prudencia, porém, tem o seu termo. Alves não previu que, obrigando o
honrado refinador a sahir fóra do termo da prudencia uma pollegada,
sugeitava-se a receber, como recebeu, na cara a escumadeira impregnada
de assucar em calda a ferver. Sem esperar repetição da dóse, Alves sahio
vendendo mel ás canadas.
Quinze dias depois tinha a mesma cara, menos a pelle.
Propalado o caso, deu-se ao meu amigo o cognome citado, que nada teve
com a substituição do assucar trocado por arêa, como prova a carta a
qual me repórto.