Na aurora da vida, ao alvorecer do amor, a primeira mulher que amei
chamava-se--Aurora!
Como é poetica esta coincidencia, e como ficou bem phraseada! Quando eu
for homem celebre ahi fica o thema para uma Epopéa.
Aurora morava no becco!
Relatei-lhe a occurrencia, guardando reserva ácerca da tapona.
Para ganhar mais no seu coração, fallei nos oitenta e cinco mil e
quinhentos réis, acrescentando, se eu tal adivinhára houvera empenhado
na loja do Sr. Moreira todos os teres e haveres de meu tio.
O galanteio influe naturalmente no coração da mulher, soube aos 16
annos, antes de saber latim, e, conseguintemente, antes de lêr Ovidio.
O numero do _Camarão_ onde vinha inserto o meu artigo _O homem deve ser
sceptico_, e o do _Lagarto_ onde vinha a _Ella_, andavam comigo como
talismans. Tirei do bolso o _Lagarto_ e dei a Aurora para lêr os versos,
declarando serem feitos quando pensava n'ella.
A rapariga ainda ignorava mais essa prova de amor, (que tão cara me
sahira quando a dei á visinha).
A ultima quadra commoveu-a de uma vez: tambem era o _sentimentalismo_
metrificado.
Que peito de mulher não commoverá esta quadra:
«Sê minha? Serei teu.... abre-me os braços....
Voemos deste mundo.... Sacuras
Fujamos do paul.... vamos, querida,
Fazer o nosso ninho nas alturas?!
Aurora lia soletrando palavra por palavra. Quando acabou de lêr eu
estava com fome. Davam tres horas da tarde: