«Para realisar a nossa obra não queremos que todos sejam republicanos; o

que queremos apenas é que ninguem se esqueça que a patria está acima das

paixões de cada um. (Muito bem).

E eu estou convencido de que esse tempo vae chegar rapidamente.

A Republica vae, dentro de pouco tempo, ter a sua constituinte, a sua

constituição.

Nas ultimas eleições, que foram feitas em condições excepcionaes, depois

de uma revolução, depois de boatos aterradores, a Republica já teve a

sua consagração.

Nunca as urnas portuguezas foram tão concorridas como neste momento: 80

por cento do corpo eleitoral de Lisboa foi votar.

O Porto, considerado como reaccionario, não para nós republicanos,

porque foi precisamente lá que tiveram inicio todos os grandes

movimentos de Portugal, no proprio Porto, a votação foi maior do que em

qualquer outro ponto.

Portanto, todos vêm a situação definida e clara em que se encontra hoje

Portugal.

Vindo a S. Paulo, eu dirijo as minhas saudações mais affectuosas não só

ao povo de S. Paulo, mas tambem á auctoridades do Estado, que nos deram

a alta honra de se fazer representar nesta conferencia, e remato por

agradecer a todas as senhoras, a todos os cidadãos que aqui vieram e,

finalmente de novo, dirijo os meus agradecimentos mais sinceros e

profundos ao dr. Garcia Redondo, não só em meu nome, como no de

Portugal, que tenho a honra de representar.»

As ultimas palavras do dr. Antonio Luiz Gomes foram abafadas com uma

estrepitosa e prolongada salva de palmas da grande assistencia.

(_Noticia do_ ESTADO DE S. PAULO _de 4 de Junho de 1911_).

Conferencias portuguezas

Em carro reservado ligado ao nocturno de luxo, chegou hontem a esta

capital, conforme era esperado, o dr. Antonio Luiz Gomes, ministro de

Portugal junto ao nosso governo, acompanhado de seu secretario, sr. dr.

Bartholomeu Ferreira.

Á noite s. exc. assistiu á conferencia que o sr. dr. Garcia Redondo, com

grande successo e brilhantismo, realizou no salão nobre do Instituto

Historico e Geographico, tendo por thema: «O descobrimento do Brazil e a

prioridade dos portuguezes no descobrimento da America».

Publicaremos amanhã, na integra, esse importante trabalho do distincto

membro da Academia Brazileira de Letras, que foi, pelo successo que

alcançou, vivamente applaudido e felicitado.

Depois da conferencia do dr. Garcia Redondo, o dr. Antonio Luiz Gomes,

usou da palavra, produzindo bellissima allocução, durante a qual era

constantemente interrompido por estrepitosa salva de palmas.

(_Noticia do_ SÃO PAULO _de 4 de Junho de 1911_).

Conferencias portuguezas

No salão nobre do Instituto Historico e Geographico de S. Paulo,

realizou-se hontem á noite, conforme se annunciára, a primeira

conferencia da série promovida pelo Centro Republicano Portuguez, desta

capital.

Coube o inicio das conferencias ao dr. Garcia Redondo, que tomou por

thema de sua oração--«O descobrimento do Brazil» «Prioridade dos

portuguezes, no descobrimento da America».

Precisamente ás 8 horas e meia, constituida a mesa da presidencia pelo

sr. Joaquim Dias da Cunha Barbosa, tendo a seu lado o ministro

plenipotenciario de Portugal no Rio de Janeiro, sr. Dr. Antonio Luiz

Gomes, que para tal fim veio a esta capital; dr. Bitencourt Rodrigues, e

membros da directoria do Centro Republicano Portuguez, era o

conferencista introduzido no salão, que já regorgitava de numerosos

cavalheiros e gentilissimas senhoras e senhoritas.

Pudemos mesmo notar entre os assistentes, os seguintes:

Commendador Tiburtino Mondim Pestana, segundo-tenente Carlos Rocha,

representando o general Ferreira de Abreu, inspector da 10.ª região

militar, com séde nesta capital; major Arthur da Graça Martins,

secretario do commando geral, da Força Publica; Jacques Dupas, consul da

França, e sua familia; commendador Daniel Monteiro de Abreu, consul do

Paraguay e encarregado do consulado de Portugal; dr. Eugenio Egas,

Arthur Vautier, Nestor Rangel Pestana, Gelasio Pimenta, José Vicente

Sobrinho, dr. Antonio Francisco de Paula Sousa, director da Escola

Polytechnica; dr. Rodolpho S. Thiago, lente da mesma escola; dr. Ricardo

Severo, dr. Leopoldo de Freitas, consul de Guatemala, dr. Alfredo

Redondo, dr. Manoel Redondo, Jayme Redondo e sua familia.

Abriu a sessão o sr. Cunha Barbosa.

Referiu-se s. s. com palavras elogiosas ao dr. Bettencourt Rodrigues, de

quem partira a idéa das conferencias, cujo grande valor salientou, pois

ellas viriam cada vez mais estreitar os vinculos que unem os dois povos

portuguez e brazileiro.

Saudava a patria portugueza, alli directamente representada na pessoa do

seu ministro plenipotenciario, cuja presença, agradecia.

Á directoria do Instituto Historico e Geographico agradecia tambem,

penhorada, a gentileza de haver cedido o salão da sua séde, para a

realização da conferencia.

Isto dito, e como não desejava prender por mais tempo a attenção do

auditorio, naturalmente ancioso, dava a palavra ao dr. Garcia Redondo,

cuja apresentação julgava desnecessario fazer, pois tinha absoluta

certeza de que nem uma só pessoa alli presente, desconhecia, quer

através da imprensa ou da literatura, os altos meritos do conferencista.

Uma prolongada salva de palmas ecôa pela sala.

Levanta-se então o dr. Garcia Redondo que começa agradecendo aos

circumstantes a sua temeridade em affrontar os rigores daquella noite

humida e fria, não para ouvir a sua modesta palavra, pois não tinha

sobre isso illusão alguma, mas para corresponder ao appello que lhes

dirigiram os promotores daquella conferencia.

Sobretudo, era-lhe grato constatar alli a presença das representantes do

sexo gentil, que á festa emprestavam a nota brilhante.

Diz que o thema da sua conferencia havia sido para elle objecto de

longos e profundos estudos. Poderia por isso dissertar sobre elle sem

ter necessidade de ler, nem mesmo simples annotações.

Mas, importando o que tinha de dizer responsabilidades que queria

assumir e receiando que a memoria o trahisse, considerava mais prudente

ler a sua conferencia.

Em seguida, offerece alguns esclarecimentos sobre um grande mappa que

está ao seu lado, e que elle organizou para illustrar a conferencia, e

entra finalmente no assumpto.

Ás ultimas palavras da brilhante oração do dr. Garcia Redondo, uma

calorosa e prolongada salva de palmas se fez ouvir no salão.

S. s. foi distinguido com a offerta de um lindo «bouquet» de flôres

naturaes.

Levantou-se então o ministro plenipotenciario da Republica de Portugal,

sr. Antonio Luiz Gomes.

Recáe sobre a sala um profundo silencio.

O illustrado diplomata começa affirmando que não comparecera áquella

reunião com o intuito de falar.

Mas, cumpria-lhe o dever de agradecer em nome de Portugal, que tinha a

honra de representar, o bello trabalho do dr. Garcia Redondo.

Tratando da moderna phase da sua patria, fala sobre o Portugal antigo,

cujos feitos enchem as paginas da historia universal.

Refere-se á Monarchia, dizendo que ella teve tempo mais que sufficiente

para demonstrar a capacidade dos seus homens.

Por occasião do assassinato de d. Carlos, levaram os republicanos a sua

generosidade ao ponto de prestigiar--sem o sacrificio, porém, das suas

convicções politicas--as instituições então vigentes, desde que isso

concorresse para o bem do paiz.

Entretanto a Monarchia mostrou-se impotente; nada fez porque nada poude

fazer para manter o prestigio de Portugal.

As crises ministeriaes succediam-se de um modo assustador e a situação

chegou a tal ponto que só a Republica poderia salvar as gloriosas

tradições do paiz.

E a Republica veio, não a Republica do terror, das perseguições, como

apraz aos boateiros vulgares, mas a Republica que tem por lemma o

levantamento moral do tradicional paiz das quinas.

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