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Notas de transcrição:
Pg 26: aspas abertas antes de "a terra achada"; original não tinha
aspas.
Pg 28: em "carta regia de D. João I" trata-se, na verdade, do rei D.
João II (não corrigido).
Pg 37: substituido "em 1742, vinte annos antes de Colombo" por "em 1472,
..."; havia sido corrigido à mão na cópia digitalizada que serviu de
base a esta transcrição.
GARCIA REDONDO
(DA ACADEMIA BRASILEIRA)
O DESCOBRIMENTO
DO
BRAZIL
PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA
Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
SÃO PAULO
CASA VANORDEN
1911
GARCIA REDONDO
(DA ACADEMIA BRASILEIRA)
O DESCOBRIMENTO
DO
BRAZIL
PRIORIDADE DOS PORTUGUEZES NO DESCOBRIMENTO DA AMERICA
Primeira conferencia da serie organisada pelo Centro Republicano
Portuguez de São Paulo, realizada no Instituto Historico e Geographico
de S. Paulo, na noite de 3 de Junho de 1911
SÃO PAULO
CASA VANORDEN
1911
Assistiram a esta conferencia, além do ministro de Portugal, Snr. Dr.
Antonio Luiz Gomes, e do seu secretario, Dr. Bartholomeu Ferreira, que
do Rio de Janeiro vieram especialmente para esse fim, o consul da
França, Snr. Jacques Dupas e sua familia, os consules de Portugal em S.
Paulo e Santos, os consules do Paraguay e da Guatemala, os
representantes do Governo do Estado e do Governo Federal, a directoria e
membros do Centro Republicano Portuguez de S. Paulo, o director e muitos
lentes da Escola Polytechnica, uma parte da directoria e muitos socios
do Instituto Historico e a fina flor da sociedade culta e da colonia
portugueza de S. Paulo.
Esta conferencia é impressa no formato do livro _Conferencias_ do
auctor para que possa ser annexada a esse livro.
O DESCOBRIMENTO DO BRAZIL
Prioridade dos portugueses no descobrimento da America
_O orador, depois de agradecer a presença do numeroso e luzido
auditorio, que affluiu ao salão do Instituto Historico para ouvir a
sua palavra rude e, depois de varias explicações que deu sobre o
grande mappa que organisou para illustrar e esclarecer a sua
conferencia, diz:_
_Minhas senhoras, meus senhores:_
Na minha ultima viagem ao Velho Mundo, em 1906, achando-me na Suissa e
querendo visitar a exposição internacional de Milão, em vez de fazer a
viagem directa e curta, indo de Genebra, onde estava, a Montreux e de
Montreux a Milão, preferi fazer uma grande volta, indo de Genebra a Lyon
e a Marselha e percorrendo depois toda essa extensa e deliciosa costa do
Mediterraneo que se chama Côte d'Azur.
Para que? Para entrar na Italia por Genova e prestar, antes de tudo, a
minha homenagem de americano á memoria de Christovam Colombo, visitando
a casa onde elle nasceu.
Alli fui, pois, e alli estive no vetusto predio, onde, em 1450, viu a
luz do dia o audacioso genovez, conforme reza a placa commemorativa
collocada entre duas janellas antigas desastradamente vestidas á moderna
com venezianas verdes.
Até então, eu suppunha, pelo que sabia, pelo que havia lido, que
Christovam Colombo era o descobridor da America, assim como suppunha
tambem que Pedro Alvares Cabral era o descobridor do Brazil.
Mas, veio-me depois ás mãos um livro--_A descoberta do Brazil_--do sr.
Faustino da Fonseca, e esse livro precioso, feito com o nobilissimo
intuito de reivindicar para Portugal a gloria completa do descobrimento
do Novo Mundo, livro que, em abono da civilização portugueza, que, em
abono dos nossos maiores, deveria ser traduzido em todas as linguas
vivas para ser distribuido em todas as escolas do universo, veio
mostrar-me, á luz de documentos authenticos e irrefutaveis, que nem o
navegante genovez foi o primeiro a chegar ao Novo Mundo, nem Cabral o
primeiro a achar essa parte do Novo Mundo que se chama o Brazil.
Colombo e Cabral--o primeiro ao aportar, em 1492, ás Antilhas, e o
segundo, em 1500, á costa brazileira, não fizeram mais do que
_reconhecer e tomar posse_ officialmente de terras que muitos annos
antes já haviam sido descobertas por navegantes portuguezes.
Baseia-se o precioso livro do sr. Faustino da Fonseca em doações feitas
pelos reis portuguezes aos primeiros navegantes que sulcaram o
Atlantico, em tratados de limites, em correspondencias officiaes,
roteiros, mappas, relações, cartas de testemunhas dos acontecimentos e
outros documentos que o autor, no seu louvavel ardor patriotico, foi
descobrir e copiar com uma paciencia de benedictino nos archivos
hespanhóes e açorianos e na Torre do Tombo.
É com esse fanal em punho, que dá por terra com todas as lendas, todos
os erros e embustes dos historiadores que precederam o sr. Fonseca, que
eu venho, hoje, na medida das minhas fracas forças, ajudal-o a
reivindicar para Portugal, não a gloria de haver descoberto o Brazil
sómente, mas tambem a gloria de haver descoberto a America.
Oxalá seja esse meu auxilio efficaz, oxalá possa elle levar a convicção
ao animo dos que me ouvem e dos que me lerem, para que possamos dizer
todos, _una voce_, e fazendo a justiça tardia a que tem direito a velha
civilização portugueza: Gloria a Portugal, descobridor do Novo Mundo!
* * * * *
Os conhecimentos geographicos dos antigos eram limitadissimos, não
conhecendo os europeus mais do que duas terças partes do seu continente,
o norte da Africa e o sudoeste da Asia, acreditando Ptolomeu que a
Africa se estendia até ao polo antarctico, reduzindo assim o Oceano
Indico a um simples lago ou pequeno mar interior. Nessa época, o que se
chama India comprehendia a Indo-China, o Indostão, as ilhas e regiões do
extremo Oriente. Era a India considerada como um paiz de fabulosas
riquezas e nella dizia-se que habitava o Prestes João, soberano
Christão, que reunia o poder temporal ao espiritual e era o summo
pontifice do Oriente.
O Oceano Atlantico era tratado por mar tenebroso e considerado
innavegavel, povoado por monstros, coalhado de escolhos, coberto de
nevoa densa. Era um mar onde, para uns, reinava a eterna calmaria podre,
para outros, era constantemente açoutado por violentos tufões, de sorte
que era uma barreira á communicação entre os dois hemispherios.
Não contentes de limitar a tão pouco os seus conhecimentos geographicos,
os antigos inventavam lendas, semeavam o oceano de ilhas imaginarias, de
estatuas e de columnas, que impediam os navegantes de marchar.
As columnas de Hercules fechavam o caminho do Atlantico, outras duas
columnas erguiam-se num estreito, impedindo a entrada do mar da India. A
phantasia não tinha diques e os mappas, principalmente o de Marco Polo,
marcavam milhares de ilhas em algumas das quaes se localizava o paraiso,
o purgatorio e o inferno! Na ilha de Salomão, onde se dizia estar o
cadaver desse rei mulherengo, num maravilhoso palacio, tres estatuas
faziam retroceder o navegante sob pena de morte. O cabo Bojador era um
ninho de serpentes e na ilha de Ceylão estava o tumulo de Adão!
Ainda em 1375 a costa africana só era conhecida de Ceuta até ao Cabo
Bojador, e ainda em 1436, já em pleno seculo XV, o mappa de André
Bianco, um mixto de christianismo e de paganismo, reproduz as lendas e
figuras da edade média, collocando Jerusalém no centro do mundo e
determinando o local do paraiso terrestre!... Toda a terra conhecida
resumia-se num unico continente. Tudo mais eram ilhas entre as quaes
estava a de Cypango, onde Colombo julgou ter chegado em 1492, quando
aportou ás Antilhas.
Lendas de origem portugueza só havia duas--a do gigante Adamastor, no
Cabo das Tormentas, que o grande épico dos Lusiadas tão lindamente
narrou em verso sonoroso, e a do cavalleiro de pedra, na ilha do
Corvo--mas este, ao contrario dos outros que intimavam o navegante a
retroceder, mandava-o avançar, apontava-lhe o caminho a seguir,
demandando novas regiões.
Taes eram os conhecimentos geographicos até ao primeiro terço do seculo
XV.
Foi então que appareceu o famoso projecto do infante d. Henrique,
projecto que revolucionou o systema do mundo.
Até ahi só se conheciam dois caminhos para chegar ao Oriente, ambos por
terra, ambos partindo do Mediterraneo. Conhecida a India como um paiz de
riquezas fabulosas e tendo cessado para os portuguezes, com a tomada de
Ceuta, o trafico dos generos do sertão pelo Mediterraneo, cogitou o
infante d. Henrique em chegar á India por um outro caminho--a via
maritima, pelo occidente. Mas, para isso, tinha de affrontar o Mar
Tenebroso, esse oceano inçado de escolhos e de monstros, impenetravel e
mysterioso. Como o seu intuito era explorar as riquezas indianas e levar
a fé aos musulmanos, com os quaes esperava combater, elle sentiu a
necessidade de um alliado e o alliado natural era o Prestes João, o
summo pontifice da christianidade indiana.
Era preciso, pois, procural-o, mas seguindo pela via maritima.
«Provêm desta origem, diz o sr. Faustino da Fonseca na sua obra
admiravel, as explorações para o sul e para o occidente; as grandes
viagens do occidente e do oriente; o encontro de duas passagens a leste
e a oéste,--o Cabo da Boa Esperança e o estreito de Magalhães; as
descobertas da costa da Africa e das ilhas do Atlantico, da America do
Norte e do Brazil.»
«Obedece tudo a este proposito, subordina-se tudo a este projecto, são
tudo soluções ao problema: os conselhos de Toscanelli e de Monetario, o
erro de Colombo, a audacia de Magalhães.»
* * * * *
Não é difficil provar que Colombo não descobriu a America e que quando
chegou ás Antilhas, em 1492, já a America havia sido descoberta pelos
portuguezes, muitos annos antes. O difficil seria provar hoje, em face
dos documentos encontrados pelo sr. Faustino da Fonseca e dos quaes me
vou soccorrer nesta conferencia, que o ousado genovez fez tal
descoberta.
Esmiucemos o interessante assumpto.
Quando o infante d. Henrique fundou a escola de Sagres com observatorio
astronomico, para o qual fez vir cosmographos e mathematicos
estrangeiros, e mandou construir nos seus estaleiros as primeiras
caravelas e ordenou que ellas sahissem, para o mar tenebroso e pelo
occidente, dizendo aos capitães que avançassem sem receio, fazendo-se ao
largo, já Gonçalves Zarco havia descoberto a ilha da Madeira e já o
infante conhecia o livro de Marco Polo, que existia em Portugal desde
1418, trazido pelo infante d. Pedro, que o recebera como dadiva do
senado de Veneza, assim como conhecia tambem o mappa do mesmo Marco Polo
onde se veem as regiões do oriente muito proximas das do occidente. No
seu livro, Marco Polo assegurava que Catay estava no Atlantico (que elle
chama o mar de Cyn) a pequena distancia da Europa e que, no Atlantico,
estavam tambem Cypango e outras ilhas de especiarias.
As primeiras caravelas, construidas e equipadas pelo infante em 1431,
começam a perscrutar o mar vasto e, um dia, de uma dellas, Gonçalo Velho
Cabral descobre as _Formigas_. Um anno depois, em 1432, descobre ainda
_Santa Maria_. As expedições maritimas portuguezas, desde então,
succedem-se ininterruptamente e, annos depois, é descoberta grande parte
das ilhas do archipelago dos Açores pelo mesmo Gonçalo Velho e depois as
do Cabo Verde (1460) por Antonio Gomes e Diogo de Nola.
Em 1435, já o mappa-mundi de Bechario representa a Antilia e outras
ilhas, a oéste dos Açores, acompanhadas da seguinte legenda:--_Insule de
novo reperte_ (ilhas recentemente descobertas.)
Em 1436, um anno após, apparecem o mappa-mundi de André Bianco e o seu
portulano cujas cartas já representam o mar de Baga, o mar dos Sargaços,
as Antilhas e o Brazil, figurando este como se fosse uma grande ilha. Em
1447, uma nau parte do Porto e descobre a Groelandia aonde os
marinheiros desembarcaram.
No entretanto, do celebre promontorio de Sagres, o infante d. Henrique
vê sumirem-se no mar intermino as caravelas, que successivamente iam
partindo á descoberta, e já em 1448, numa carta do portulano de André
Bianco, tratando dos descobrimentos dos portuguezes, se regista o Brazil
de uma forma precisa, na parte oéste e sul do Cabo de S. Roque, ao sul
das ilhas do Fogo e Brava de Cabo Verde, na sua verdadeira posição, em
frente á costa africana, sendo designado por _ilha authentica_ e
assignalada a sua distancia exacta de 1500 milhas do archipelago de Cabo
Verde.
Esta carta do portulano de Bianco, bem como os anteriores de 1436
mostram, pois, meus senhores, que o Brazil foi descoberto em 1435, ou
antes, por navegantes portuguezes e que até das Antilhas já havia
noticia nessa época.
Mas, não fica nisto. As caravelas portuguezas continuam a singrar o mar
tenebroso e, em 1452, Diogo de Teive e seu filho João de Teive descobrem
as ilhas Corvo e das Flores e chegam á latitude da terra que se chamou
mais tarde «do Lavrador» (porque a descobriu um portuguez deste nome)
não desembarcando nella com receio do inverno.
Em 1460 morre o infante d. Henrique, deixando reconhecida toda a costa
africana até Serra Leôa e legando ainda á sua patria os descobrimentos
dos archipelagos dos Açores, de Cabo Verde e do Brazil.
A morte do infante não faz, porém, arrefecer o enthusiasmo lusitano
pelos descobrimentos e já dois annos depois, em 1462, d. Affonso V, por
carta regia de 29 de outubro, faz doação a seu irmão o infante d.
Fernando, filho adoptivo de d. Henrique e seu herdeiro universal, de uma
terra achada no mar alto, a noroeste das ilhas Canarias e da Madeira,
que Gonçalo Fernandes havia descoberto. Essa terra não podia ser outra
senão a America.
Mezes antes, por carta régia de 19 de fevereiro, esse mesmo Affonso V
havia feito doação a João Vogado de duas ilhas por elle descobertas no
_mar oceano_, ás quaes dera os nomes de Lono e Capraria. Nos documentos
da época, a expressão _mar oceano_ era usada para designar o mar que
banhava a America, que então ainda não tinha esse nome. Esta doação a
João Vogado prova que as duas ilhas Lono e Capraria eram ilhas ou pontos
da costa americana.
Onze annos depois, em 1473, d. Affonso V, por carta régia de 12 de
janeiro, faz doação á sua sobrinha d. Beatriz, filha do infante d.
Fernando, de uma ilha que apparecera, em 1468, através da ilha de
Santiago, e que era uma das Antilhas, aonde só 24 annos depois aportou
Colombo. Convém notar que esta descoberta é feita por navegadores
portuguezes 5 annos antes da chegada de Colombo a Lisboa.
Do exposto se conclue que as proprias Antilhas já tinham sido
descobertas pelos portuguezes muitos annos antes de Colombo lá ir tomar
dellas posse para a corôa da Hespanha.
Todas estas consecutivas viagens para o occidente formam uma série que
já constitue uma brilhante e indiscutivel documentação da prioridade dos
portuguezes na descoberta da America.
Mas ha ainda outros e valiosos documentos que melhor provam esta
asserção áquelles a quem ella possa parecer um pouco vaga.
Vejamos quaes são.
Em 1472, tendo vagado a capitania da Ilha Terceira por fallecimento de
Jacome de Bruges, a infanta d. Beatriz fez doação a João Vaz Côrte Real
da capitania dessa ilha, na parte de Angra, doando a parte da Praia a
Alvaro Martins.
Na carta de doação, encontram-se as seguintes palavras: «havendo eu, por
informação, estar ora vaga a capitania da ilha Terceira de Jesus
Christo... por se affirmar ser morto Jacome de Bruges... houve por bem
de a partir entre o dito João Vaz e o dito Alvaro Martins, mandei ao
dito João Vaz que escolhesse e elle escolheu a parte de Angra... E
considerando eu, de outra parte, _os muitos e grandes serviços_ que o
dito João Vaz Côrte Real, fidalgo da casa do dito senhor meu filho, tem
feito ao infante meu senhor e seu padre que Deus haja (é o infante d.
Fernando), e depois a mim e a elle, _em galardão_ dos ditos serviços,
lhe fiz mercê da dita capitania da ilha Terceira.»
Annos após, em 1488, confirmando essa doação, o duque de Vizeu, filho de
d. Beatriz, alludiu aos _grandes serviços_ de João Vaz Côrte Real a seus
paes, dizendo: «querendo lhe fazer graça e mercê pelos _muitos serviços_
que tem feito ao infante meu senhor e padre, que Deus haja, e a mim,
espero que ao deante fará.»
Quem era esse João Vaz Côrte Real, que assim era galardoado e que
serviços relevantes eram esses que havia prestado para receber tal
galardão?
Era um homem que, nesse mesmo anno de 1472, vinha de chegar da _Terra
Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_, trazendo essa nova descoberta americana
para a corôa portugueza, vinte annos antes de Colombo aportar ás
Antilhas.
As provas desta descoberta de João Vaz não escasseiam e encontram-se:
1.º--Na carta relativa á America do Norte do Atlas de Fernão Vaz
Dourado, existente na Torre do Tombo, onde se lê, na parte referente á
Terra Nova, a seguinte designação: _B. de João, Terra de João Vaz_.
2.º--No mappa-mundi do Atlas de Jomard, feito em pergaminho por ordem de
Henrique II da França (1547-1559), onde a mesma designação para a Terra
Nova se encontra.
3.º--No mappa-mundi de Mercator, do mesmo Atlas de Jomard, onde vem por
extenso, designando a Terra Nova--_Terra de Joam Vaz_, _Rio de Joam
Vaz_.
4.º--Num manuscripto feito entre 1672 e 1711 nos Açores, onde melhor se
conheciam os descobrimentos de João Vaz, no qual é encontrada a seguinte
referencia á doação de d. Beatriz a João Vaz: «Estando as cousas nesta
forma, morreu o capitão Bruges, não deixando herdeiros. Chegaram então á
ilha dois fidalgos que vinham de descobrir a _Terra do Bacalhau_; estes
pediram a ilha a d. Beatriz, mulher do infante d. Fernando, por serviços
que lhe tinham feito, lhes fizesse mercê da capitania da ilha Terceira,
a qual ella lhe concedeu. A João Vaz Côrte Real, que era um destes
fidalgos, ficou a de Angra.»
5.º--Finalmente, nestes trechos das _Saudades da Terra_, de Gaspar
Fructuoso, nascido nos Açores em 1522: «João Vaz Côrte Real, primeiro
capitão da ilha Terceira da parte de Angra, por serviços que fez a
el-rei de Portugal nas guerras contra Castella, andando por _capitão de
grossa armada_; do qual dizem que foi _tão grande aventureiro no mar que
neste Reino não tem segundo_; e alguns querem dizer que descobriu a
mesma ilha Terceira e _algumas partes do ponente e do Brazil, Cabo
Verde_, onde foi o primeiro que houve vista da _ilha do Fogo_... e
vindo, como atrás tenho dito, João Vaz Côrte Real do _descobrimento da
Terra dos Bacalhaus que, por mandado de el-rei foi fazer_, lhe foi dada
a capitania de Angra, da Ilha Terceira e da ilha de S. Jorge... Dizem
alguns que Jacome de Bruges, primeiro capitão da ilha Terceira de Jesus
Christo, era flamengo... e, estando-a povoando veio ter ahi João Vaz
Côrte Real... e vinha do _descobrimento da Terra Nova do Bacalhau_ e o
Jacome de Bruges o recolheu e lhe disse que lhe largaria metade da ilha,
a qual acceitou, e depois Jacome de Bruges se foi para sua terra e
desappareceu, de maneira que não tornou mais, e a infanta d. Beatriz,
por vaga, deu a ilha ao dito João Vaz Côrte Real.»
Não ha nada de mais positivo, de mais claro e comprovante, do que estes
cinco documentos, que venho de citar, no ultimo dos quaes se allude,
nada menos de trez vezes, ao descobrimento feito por João Vaz Côrte Real
da _Terra Nova_ ou _Terra do Bacalhau_, na America do Norte, em 1472,
vinte annos antes de Colombo aportar ás Antilhas.
Mas, não foram sómente João Vaz e outros navegadores portuguezes, já
citados, os precursores de Colombo na descoberta da America.
João Vaz Côrte Real tinha tres filhos--Vasco Annes, Miguel e Gaspar
Côrte Real--os quaes, como o pae, foram ousados navegantes,
principalmente o ultimo, Gaspar, que ficou captivo dos indigenas numa
das suas viagens á America. A carta regia de 12 de maio de 1500, fazendo
doação a Gaspar Côrte Real de terras que vae descobrir (carta passada
poucos dias após a chegada de Cabral ao Brazil, chegada essa de que
ainda não havia noticia em Portugal) regista importantes trabalhos do
mesmo Gaspar, anteriores ás duas viagens suas de que ha noticia e
refere-se _ás suas explorações maritimas feitas com muito trabalho,
despeza e perigos, realizadas por Gaspar á sua custa com seus navios e
homens_. Diz ainda essa carta de doação que _elle vae continuar a
descobrir_ ou reconhecer _ilhas e terra firme_ das quaes lhe são
outorgadas as capitanias.
A expressão vae _continuar a descobrir_, empregada na carta regia,
significa que Gaspar já havia anteriormente feito descobertas.
Infelizmente, Gaspar Côrte Real, partindo de Lisboa em 1501 para uma
nova exploração na America, por lá ficou captivo dos naturaes, voltando
todavia ao reino os dois navios que o haviam acompanhado. Em 1502, seu
irmão Miguel sahiu com outros dois navios no intuito de o procurar e
remir, mas tambem não regressou. Vasco Annes quiz ainda ir em busca dos
dois irmãos, mas D. Manoel não lh'o consentiu.
Documentos posteriores ao desapparecimento dos dois irmãos, Gaspar e
Miguel Côrte Real, registam os seus feitos e os de seu pae João Vaz.
Taes são: a carta régia de 17 de setembro de 1506 e principalmente a 4
de maio de 1567, de doação a Manoel Côrte Real, filho de Vasco Annes e
neto de João Vaz, na qual se encontra a seguinte phrase: «seu pae e tios
mandaram descobrir a Terra Nova».
Mas, anteriormente, a carta régia de 4 de novembro de 1501, de d.
Manoel--o venturoso--filho do duque de Vizeu e de d. Beatriz, concedendo
a tença de 30.000 cruzados a Miguel Côrte Real por serviços feitos a d.
João II, que falleceu em 1495, fixa ás viagens maritimas dos Côrtes
Reaes uma data anterior a 1495.
Ora, a sete de junho de 1494, d. João II assignou com a Hespanha o
tratado de Tordesillas, abrangendo na demarcação portugueza não só a
costa do Brazil (aonde Pedro Alvares Cabral só aportou _6 annos depois_)
como a terra dos Côrtes Reaes, isto é, a _Terra Nova_ ou _dos
Bacalhaus_, o que prova que a descoberta dessa terra é anterior ainda a
1494. Por ultimo, Bartholomeu las Casas, amigo de Colombo e companheiro
do genovez numa das suas viagens ás Antilhas, na sua _Historia das
Indias_, apontando ingenua e sinceramente as indicações que Colombo teve
para ir ás Antilhas, indicações, aliás, confessadas pelo proprio
Colombo, cita, entre outras, as viagens dos Côrtes Reaes, empregando
estas expressões: «Os Côrte Reaes que foram em diversos tempos buscar
_aquella terra_.»
E isto prova ainda que o descobrimento da _Terra Nova_ ou _dos
Bacalhaus_ e, portanto, da America, é anterior á primeira viagem de
Colombo ás Antilhas, isto é, anterior a 1492 e mesmo anterior a 1484,
porque foi em 1484 que Colombo sahiu de Portugal, onde obteve taes
indicações e onde viu e conheceu Miguel e Gaspar Côrte Real, filhos de
João Vaz Côrte Real, e Affonso Sanches, que descobriu as Antilhas de
1473 a 1484. As expressões que Las Casas emprega, referindo-se ás
confissões feitas pelo seu amigo Colombo são as seguintes, que reproduzo
textualmente: «_Disse_, pois, Christovam Colombo entre outras cousas
_que poz em seus livros por escripto_... e accrescentou mais que tinha
visto dois filhos do capitão que descobriu a ilha Terceira, que se
chamavam Miguel e Gaspar Côrte Real, _ir em diversos tempos a buscar
aquella terra_.»
_Aquella terra_ era a _Terra Nova_ ou _Terra dos Bacalhaus_.
Ainda relatando Las Casas as indicações e informações que conduziram
Colombo ás Antilhas, cita a viagem de Vicente Dias e mais uma outra a
respeito da qual assim se exprime: «uma caravela ou navio que tinha
sahido de um porto de Hespanha (não me recordo ter ouvido indicar qual
fosse, ainda que creio que do reino de Portugal, se dizia)... veio...
parar a estas Antilhas e que esta caravela foi a primeira que as
descobriu. Que isto assim acontecesse alguns argumentos ha para
demonstral-o.»
E ajunta que o piloto dessa caravela, «que alguns escriptores hespanhóes
chamam Affonso Sanches e dão como natural de Cascaes, recolhido por
Colombo em sua residencia na ilha da Madeira, ao sentir perto a morte
lhe revelara o segredo e lhe dera por escripto os rumos e caminhos que
tinham levado e trazido por carta de marear e pelas alturas e paragem
aonde estava a ilha.»
Esta confissão de Las Casas, amigo e companheiro de viagem de Colombo, é
importantissima.
Diz ainda Las Casas que, quando foi com Colombo ao primeiro
descobrimento de Cuba, «os indios vizinhos daquella déram noticia de
terem chegado a esta ilha Hespanhola outros homens brancos e barbados,
como nós outros, _antes que nós outros não muitos annos_.»
Mas, não fica nisto.
Em 1501, Pietro Pasqualigo, referindo ao senado de Veneza a segunda
viagem de Gaspar Côrte Real á America, disse que Gaspar e seus
companheiros acreditavam que «a terra achada era firme e estava ligada
com a outra (Terra dos Papagaios ou Brazil) que o anno passado (1500)
foi descoberta por outras caravelas de S. Magestade, acreditando estar
ligada com as Antilhas.»
Humboldt confirma este conceito, quando diz «que antes mesmo das
viagens de Colombo a Honduras e Veragua, em outubro de 1501, já se sabia
em Portugal que as terras do norte eram cobertas de neve e gelo,
contiguas ás Antilhas e á terra dos Papagaios _novamente_ achada.»
E admiradissimo, Humboldt accrescenta: «esta _adivinhação_ que proclama,
apesar da ausencia de tantos élos intermediarios, uma ligação
continental entre o Brazil e as terras geladas do Lavrador _é muito
surprehendente_.»
Nem foi _adivinhação_ nem _cousa para surprehender_; os élos
intermediarios, estabelecendo a ligação continental entre o Brazil e as
terras geladas do Lavrador, existiam e eram conhecidos dos portuguezes
pelas viagens e descobrimentos que haviam feito na sua pertinancia de
procurar o caminho para a India, navegando constantemente para o
occidente e para o sul, desde 1431. Ora, todos os documentos que citamos
demonstram de um modo cabal e decisivo que os descobridores da Terra
Nova e portanto da America do Norte foram João Vaz Côrte Real e seus
filhos e que este descobrimento foi feito muitos annos antes que Colombo
aportasse ás Antilhas.
Mas o estudo dos documentos portuguezes e castelhanos que o sr. Faustino
da Fonseca exhumou da Torre do Tombo, dos archivos açorianos e
hespanhóes e a que deu publicidade no seu luminoso livro, referentes ás
viagens maritimas dos seus antepassados, provam de um modo
incontestavel que desde 1435, ou antes havia em Portugal conhecimento
perfeito de terras americanas (o Brazil ou terra dos Papagaios com a sua
posição determinada no mappa de Bianco e a sua distancia de 1500 milhas
entre as ilhas de Cabo Verde e o Cabo de S. Roque precisamente marcada
no mesmo mappa) e tambem que, desde 1475, as viagens dos portuguezes
para o occidente já se realizavam, não tanto no empenho de procurar por
ahi o caminho para chegar á India, como no de «colonizar, de aproveitar
as terras americanas e nellas commerciar, como se commerciava na costa
africana e nas ilhas dos seus mares.»
Era pelo sul da costa da Africa que os navios da corôa portugueza
procuravam o caminho do oriente e as viagens á Guiné eram então
privativas dos navios reaes, não podendo os particulares emprehendel-as.
Já para o occidente a navegação era francamente aberta ás naus dos
particulares, dando-lhes ensejo ás descobertas e explorações
commerciaes.
A carta de doação a Fernão Dulmo, em 1486 e a confirmação do seu
contracto com João Affonso Estreito, feita pela carta regia de D. João
I, vem demonstrar de um modo cabal, como muito bem diz o sr. Faustino da
Fonseca, «a existencia de trabalhos de mór importancia relativos á
America em que se não trata já da descoberta, mas da posse effectiva,
da conquista, da occupação.»
Nessa carta de doação diz o rei que Fernão Dulmo, capitão da ilha
Terceira, «lhe queria dar achada ao occidente uma grande ilha, ou ilhas,
ou terra firme por costa», ilha essa que se presumia ser a das Sete
Cidades, e isto prova «que não se julgava ser a India, como pensava
Colombo, nem Catay, nem Cypango, terras do oriente, que o genovez
procurava e que até morrer julgou ter descoberto.»
Era uma outra terra a que se dava o nome de Sete Cidades por causa de
uma velha lenda. Effectivamente, o que Fernão Dulmo queria dar ao rei
_achada_ era, não uma ilha, mas terra firme, isto é, um continente.
Dava-lhe a carta regia poder e autoridade para tomar posse real e autual
de todas ilhas e terra firme que descobrisse, «podendo enforcar, matar e
applicar toda outra pena criminal» e accrescentava que, «se as ilhas e
terra firme não quizessem sujeitar-se, elle rei mandaria com Fernão
Dulmo gentes e armadas de navios para as sujeitar.»
Tão amplas eram as autorizações e poderes conferidos a Fernão Dulmo,
contrastando com as restricções feitas nas doações anteriores, nas quaes
a corôa reservava para si «a alçada de morte ou talhamento de membro,»
que taes concessões levam a crer, com relativa segurança, que na terra,
que Dulmo queria dar _achada_ ao seu rei, já elle havia estado, havendo
encontrado resistencia á occupação por parte da população indigena.
Nessa terra do occidente, ou America, que Dulmo queria dar _achada_ á
corôa portugueza, já elle estivera, portanto, em 1486, ou antes. Que
tinha havido luctas na America entre os donatarios e os indigenas
prova-o ainda a carta de doação a Vasco Annes Côrte Real na qual se
refere que Miguel Côrte Real (irmão de Vasco Annes), ao partir, em busca
de seu irmão Gaspar, que ficara captivo das tribus americanas na terra
onde aportara, ia «buscar, achar e remir o dito seu irmão.» Que Fernão
Dulmo estivera na America em 1486, ou antes, prova-o ainda o contracto
por elle feito com João Affonso Estreito pelo qual este fazia todas as
despesas da expedição, e ainda o prazo marcado para irem e voltarem,
ficando Dulmo com o commando da frota durante os primeiros 40 dias e
assumindo-o João Affonso após esse tempo, o que significa que Fernão
Dulmo estava seguro de attingir a terra achada em 40 dias e que João
Affonso não receiava empregar o seu capital numa empresa temeraria,
seguindo com o seu socio para o desconhecido.
Estabelecia o contracto que as caravelas seriam abastecidas para 6 mezes
ou 180 dias approximadamente. E dahi se deduz que, sendo precisos 80
dias para a viagem de ida e de volta, ficavam 100 dias para a
permanencia na America, para a exploração, marcação e divisão das
capitanias de que eram donatarios os dois associados e, finalmente, para
a sujeição dos indigenas.
A confiança de João Affonso Estreito na expedição era tal que, além de
todas as despesas com o abastecimento das caravelas e sua equipagem,
ainda deu 6.000 reaes brancos a Fernão Dulmo.
Ora, o conhecimento que temos de Colombo ter gasto, posteriormente, 48
dias na sua primeira viagem de regresso das Antilhas, com atrasos
devidos a temporaes e a uma arribada á ilha de Santa Maria, e ainda o
facto de Pedro Alvares Cabral ter gasto 43 dias na sua viagem ao Brazil,
_apesar da calmaria que encontrou_, e ainda a circumstancia de ter gasto
Colombo, exactamente, 40 dias na sua viagem de Cadiz á Dominica, prova
que 40 dias era o tempo, em média, preciso para ir da Europa á America e
que, portanto, o facto de tal prazo ter sido fixado no contracto de
Dulmo com João Affonso Estreito mostra que Dulmo tinha perfeito
conhecimento do tempo que era preciso para chegar á terra _achada_ por
elle em 1486, ou antes, e que essa terra era positivamente a America.
Desta expedição de Dulmo fazia parte um allemão chamado Martim Behaim,
que o Dr. Monetario, ou Montaro, na sua carta a d. João II, chama
Martinho Bohemio. Ora, este allemão, que, de 1484 a 1486, acompanhou
Diogo Cão, como cosmographo, rezidindo nos Açores de 1486 até 1490,
seguia a opinião dos antigos de que o caminho para a India era pelo
occidente. Foi, pois, nesta viagem de Dulmo que Behaim obteve o
conhecimento da costa Americana, o qual registou depois no globo que
construiu ao regressar á Europa e que tambem representou no mappa, que
existia no erario do rei de Portugal e ao qual allude Pigaffeta. Nesse
globo terraqueo de Behaim foram representados a peninsula da Florida, o
golfo do Mexico e as Antilhas, embora sem estas denominações. Estes
trabalhos geographicos de Behaim confirmam que Dulmo estivera na America
do Norte e estabelecem de um modo preciso que as terras achadas por elle
eram a Florida, as Antilhas e o golfo do Mexico.
Em 1499 fez d. Manuel doação a João Fernandes Lavrador da capitania da
ilha ou ilhas que elle _descobrir ou achar novamente_. Não tendo meios
para custear a expedição, João Fernandes Lavrador associou-se a
Francisco Fernandes e João Gonçalves, escudeiros, naturaes dos Açores, e
com tres negociantes inglezes de Bristol, os quaes, provavelmente,
forneceram o capital preciso, e com elles obteve do rei Henrique VII da
Inglaterra nova carta de doação das terras que descobrisse.
A expedição seguiu a sua rota e conseguiu descobrir a terra avistada em
1452 por Diogo de Teive e seu filho João de Teive, á qual foi dada o
nome de Terra do Lavrador, que era o do seu novo descobridor e
donatario.
Ora, João Fernandes Lavrador, quando organizou a expedição, já sabia da
existencia da terra que _ia achar_ porque nella estivera com Pedro de
Barcellos de janeiro a abril de 1492, e o fim de sua expedição com os
negociantes de Bristol não era outro senão tomar posse da terra
anteriormente achada.
Portanto, ainda alguns mezes antes de Colombo, que só a 8 de agosto de
1492 partiu para as Antilhas, dois navegantes portuguezes, João
Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos haviam estado na America.
Assim, synthetizando esta série de provas de ida e estada de navegantes
portuguezes na America, anteriormente a Colombo, encontra-se o seguinte
quadro chronologico registador dessas viagens e descobrimentos:
1436--Regista André Bianco nas suas cartas e no seu portulano as
descobertas do Brazil ou Antilia, Mar de Baga e Mar de Sargaços.
1447--Um navio parte do Porto e vae á Groelandia onde os marinheiros
desembarcam.
1448--Regista André Bianco nas suas cartas a existencia do Brazil á
distancia precisa de 1500 milhas comprehendidas entre as ilhas do Cabo
Verde e o Cabo de S. Roque.
1452--Diogo de Teive e seu filho João descobrem a ilha das Flores e
chegam á latitude da terra do Lavrador.
1472--Descobre João Vaz Corte Real a Terra de João Vaz, ou Terra Nova,
ou Terra dos Bacalhaus, na America do Norte.
1473-1484--Affonso Sanches descobre as Antilhas.
1487--Viagem á America de Fernão Dulmo e João Affonso Estreito,
acompanhados de Martim Behaim, que registou, depois, no globo terraqueo
que construiu e no mappa do erario real portuguez, a existencia da
peninsula da Florida, das Antilhas e do golfo do Mexico.
1492--Descoberta, entre 30 de Janeiro e 14 de abril, da terra do
Lavrador, por João Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos.
Todas estas viagens, todos estes descobrimentos são anteriores á
primeira viagem de Colombo, realizada a 8 de Agosto de 1492 e
estabelecem a prioridade dos navegantes portuguezes no descobrimento da
America.
A carta do dr. Jeronymo Montaro, ou Monetario, de Nuremberg, a d. João
II, em 1493, quando ainda ignorava a primeira viagem de Colombo ás
Antilhas, aconselhando o monarcha lusitano a que demandasse a India pelo
caminho do occidente, confirma o conhecimento que tinham os portuguezes
das terras americanas.
Ignorando, como Colombo (que até morrer suppoz sempre que chegando ás
Antilhas havia chegado á India) que as terras do occidente constituiam
um novo continente, formando a parte quarta do universo até então
conhecido, o dr. Montaro elogia na sua carta o saber dos mareantes
portuguezes, usando das seguintes expressões: «sabios que navegaram a
_largura do mar_, que tomaram o caminho dos Açores por quadrantes
chilindricos e astrolabio e outros engenhos, onde _nem frio nem calma os
anojara_ e mais navegaram a _praia oriental_ sob uma temperança
(temperatura) muito temperada do ar e do mar.»
Nestas expressões--_navegaram a largura do mar, tomando o caminho dos
Açores_--(que era o ponto de partida dos navegantes que iam ao novo
continente) põe Montaro em evidencia as viagens dos portuguezes á
America, muito embora ignorasse que essa terra era o Novo Mundo.
Empregou a expressão _praia oriental_ suppondo sempre que era a India
cujo caminho pelo oriente já havia sido descoberto, cinco annos antes,
por Bartholomeu Dias, quando em 1487 dobrara o cabo da Boa Esperança,
indo em busca do reino do Prestes João.
Não admira que o dr. Montaro estivesse nessa ignorancia quando Colombo
permanecia nella e insistia em acreditar que a America era a Asia e que,
atravez della, havia um caminho por agua, que abreviava a viagem pelo
occidente para a India.
Esse caminho, que o audaz e astuto genovez embalde procurou até morrer,
existia de facto, mas, em vez de abreviar, alongava a viagem para a
India. Esse caminho, que elle nunca conseguiu achar, descobriu-o ainda
um portuguez, Fernão de Magalhães, quando, a soldo da Hespanha, mas com
marinheiros portuguezes e com o cosmographo portuguez Ruy Faleiro,
transpoz o estreito a que ligou o seu nome, no extremo sul da America, e
fez a primeira viagem de circumnavegação, dando a volta ao mundo e
confirmando a doutrina da espheroicidade da terra.
De tudo o que fica exposto resulta, meus senhores, de um modo
indiscutivel, com uma veracidade esmagadora, que não foi Colombo quem
teve a prioridade na descoberta da America e que essa grande gloria cabe
de direito e de facto aos destemidos e desinteressados navegantes
portuguezes do seculo XV, que á America foram e que na America estiveram
muito antes do genovez.
Qual delles, qual desses ousados lusos, precursores de Colombo, foi o
primeiro a pôr o pé no solo americano?
Evidentemente, aquelle que, em 1435, ou antes, segundo o registo de
André Bianco, descobriu o Brazil. Desse, infelizmente, a historia não
guardou o nome. Mas, daquelles que foram á parte norte da America e que
lá estiveram, dando-lhe o seu nome, ha noticia; e o que firmou o direito
á prioridade na descoberta foi evidentemente João Vaz Corte Real que, em
1472, vinte annos antes de Colombo, descobriu a _Terra Nova_, que os
mappas, portulanos e manuscriptos da época designaram por essa
denominação, pela de _Terra dos Bacalhaus_, pela de _Terra de João Vaz_
e ainda de _Terra dos Corte Reaes_, em homenagem ao grande navegante
luso e a seus filhos, que á mesma terra foram, no mesmo ardor empenhados
de engrandecerem a sua patria.
* * * * *
Mas, vejamos agora quem era Colombo e o que fez elle, não para
_descobrir_, mas para _chegar_ á America e de uma parte della tomar
posse official para a corôa de Hespanha.
Por uma ironia da sorte, Colombo, nascido em Genova em 1450, veio ao
mundo dois annos depois daquelle (1448) em que André Bianco registou no
seu mappa a existencia do Brazil a 1.500 milhas das ilhas de Cabo Verde,
tres annos depois que um navio portuguez foi á Groenlandia, e apenas
dois annos antes daquelle em que o navegante portuguez Diogo de Teive
chegou á latitude da Terra do Lavrador, terra americana que João
Fernandes Lavrador e Pedro de Barcellos ainda descobriram e della
tomaram posse em 1492, mezes antes de Colombo chegar pela primeira vez
ás Antilhas.
Filho de uma familia de operarios, era Colombo um tecelão, que apenas
apprendera a ler e a escrever e que, até aos 23 annos de edade, se
conservara sem fazer estudos universitarios, sem seguir a carreira
maritima, sem nada saber de cosmographia nem de pilotagem. Indo para
Savone, em 1470, ahi estabeleceu uma taverna e ahi se conservou durante
dois annos. Não lhe sorrindo a fortuna como taverneiro, foi, em 1473,
para Portugal, e fixou-se na ilha da Madeira, onde abriu uma casa de
pasto, e onde casou com uma rapariga portugueza, filha de um tal
Bartholomeu Perestrello, mareante, já então fallecido. Na Madeira
nasceu-lhe o primeiro filho e na Madeira começou elle a apprender
nautica nos documentos, instrumentos e mappas de Perestrello, que a
sogra lhe forneceu. Mais tarde, ficou sabedor da exacta situação das
Antilhas pelos papeis de Affonso Sanches[1], que as descobriu, que em
sua casa de pasto se hospedou e que ahi falleceu. Creio que ainda existe
na Madeira essa casa que Colombo habitou. É Bartholomeu de las Casas, o
amigo e companheiro de Colombo numa das suas viagens, quem, na sua
_Historia das Indias_, nos dá conta desse episodio da vida do genovez em
Portugal. Referindo-se aos objectos de Perestrello, que a sogra dera a
Colombo, diz: «eram instrumentos e escriptos e pinturas (cartas e
mappas), convenientes á navegação, os quaes deu a sogra ao dito Colombo,
que com a vista delles muito se alegrou.» E accrescenta: «_com estes se
crê haver sido instigada a sua natural inclinação_.»
[Nota de rodapé 1: Affonso Sanches descobriu as Antilhas de 1473 a
1484.]
Quando Colombo chegou a Portugal já ahi eram conhecidas as cartas
hydrographicas planas inventadas pelo infante d. Henrique, e foi durante
a sua permanencia no reino que o portuguez Fernando construiu a primeira
bussola completa com a rosa dos ventos e que a junta dos cosmographos do
rei aperfeiçou o astrolabio, assim como as taboas astronomicas
applicadas á navegação.
Vivendo no meio de uma grande familia de navegadores, sabios, como o
testemunhou mais tarde o sabio dr. Montaro, de Nuremberg, conhecedor das
viagens e descobertas dos portuguezes, é natural que Colombo, instigado
pela mulher e pela sogra, fascinado pelos instrumentos e documentos que
recebeu e por outros que manuseou e consultou depois, estimulado pelas
audacias felizes dos mareantes lusos, quizesse tentar fortuna pelo mar e
procurasse obter a pratica da navegação que de todo lhe faltava. Para
isso conseguir, embarcou em navios portuguezes e com pilotos
portuguezes apprendeu a navegar.
É ainda Las Casas quem nol-o affirma, quando diz, na sua já citada
_Historia das Indias_: «resolveu ter por experiencia o que então do
mundo pela de Ethiopia se andava e praticava pelo mar e assim navegou
algumas vezes aquelle caminho em companhia de portuguezes, como pessoa
já residente e quasi natural de Portugal.»
Foi, portanto, em Portugal que Colombo apprendeu a navegar e foi ainda
em Portugal que teve conhecimento exacto de terras ao occidente, terras
que, obcecado pelas theorias de Toscanelli, Marco Polo e outros
geographos e cosmographos antigos, elle suppoz sempre que fossem
asiaticas.
Foi então, depois de adquirida esta instrucção theorica e pratica,
ministrada pelos portuguezes, que o genovez affagou a idéa de descobrir
o caminho da India pelo occidente, indo á terra onde já havia chegado
Affonso Sanches.
Para conseguir os seus fins, procurou desde logo fazer relações com d.
João II, rei de Portugal, o qual, longe de esconder delle as provas que
possuia da existencia de terras ao occidente e ao sul, lh'as mostrou,
como o proprio Colombo confessa, indicando-lhe nos mappas a situação da
Terra Nova ou de João Vaz e a do Brazil ou Terra dos Papagaios.
Ora, aconteceu, segundo informa Las Casas, que um dia, «soprando fortes
ventos do poente, o mar trouxe ás costas das ilhas do Fayal e da
Graciosa alguns troncos de pinheiros e ás da ilha das Flores dois
cadaveres de caras mui largas e de feições differentes das dos
christãos.»
Guiado por estes indicios, e tendo conhecimento, como ainda informa Las
Casas, da viagem do navio portuense que em 1447 tinha ido á Groelandia,
da ida de Diogo de Teive em 1452 á latitude da Terra do Lavrador, das
viagens de Vicente Dias, de Antonio Teive e de Affonso Sanches, de 1473
a 1484, da concessão a Fernão Domingues do Arco, em 1484, e das viagens
de João Vaz Côrte Real e seus filhos, começadas em 1472, resolveu
Colombo, certo da existencia de terras ao occidente, procurar um
principe christão que o ajudasse e protegesse na empresa do
descobrimento da India pelo poente.
Foi então a Castella offerecer os seus serviços á corôa hespanhola.
Diz Las Casas que, guiado pelas informações que possuia, «_Colombo tinha
a certeza que havia de descobrir terras e gentes nellas, como si nellas
pessoalmente tivesse estado_.»
E foi isso, provavelmente, o que Colombo, munido de copias dos mappas
que viu em Portugal, e conhecedor das viagens e das doações alli feitas,
affirmou aos reis de Castella, assegurando-lhes, não que ia achar ou
descobrir, mas tomar posse para a Hespanha de terras anteriormente
descobertas pelos portuguezes, dessas Antilhas que Affonso Sanches
descobrira, cuja situação os seus mappas e papeis lhe revelaram.
Tal offerta elle não podia fazel-a ao rei de Portugal, porque tinha a
certeza de que seria recusada. Que poderia elle offerecer á corôa
portugueza, que esta já não conhecesse?
Accresce que, achando-se individado e sendo perseguido pelos credores,
elle sentia necessidade urgente de sahir de Portugal e procurar no
estrangeiro os meios de solver os seus compromissos.
Eis ahi as razões pelas quaes deixou Portugal e foi á Hespanha, não no
nobre intuito de descobrir terras e de praticar feitos que lhe dessem
renome, mas no de ganhar dinheiro.
Os que, como Humbolt, affirmam que Colombo foi, _por inveja_, maltratado
em Portugal e, por isso, de lá sahiu, fugindo, faltam á verdade.
Inveja de que? Que feitos, que emprehendimentos, que descobertas havia
elle feito, quando deixou o reino portuguez, onde tudo foi apprender,
para que delle alli tivessem inveja? Inveja poderia elle ter, e
certamente tinha, daquelles que, arriscando a vida e a fortuna, já
haviam dilatado o mundo, quando elle nada tinha feito até então.
Mas, é elle proprio quem desmente os que affirmam que foi a inveja que o
fez sahir de Portugal, quando, em uma carta ao rei de Castella, diz:
«fui aportar a Portugal cujo rei entendia de descobrimentos mais do que
nenhum outro.» E, em outra carta, accrescenta: «o grande coração dos
principes de Portugal que ha tanto tempo proseguem na empresa de Guiné e
tambem na de Africa onde gastaram metade da gente do reino...»
Não teria elle feito taes elogios aos reis portuguezes se, _por inveja_,
tivesse sido maltratado em Portugal. Que a causa principal da sua
precipitada sahida de Portugal foram as dividas, deprehende-se
claramente dos seguintes trechos da amistosa e protectora carta que d.
João II, em 1488, lhe dirigiu: «E porque por ventura tereis algum receio
das nossas justiças _por razão de algumas cousas a que sejaes obrigado_,
nós por esta carta vos asseguramos pela vinda, estada e tornada, que não
sejaes preso, retido, accusado, citado nem demandado por nenhuma cousa
ou seja civil ou criminal de qualquer penalidade. E por ella mesmo
mandamos as nossas justiças que a cumpram assim.»
Eis ahi como cáe por terra a invencionice da inveja e como fica patente
que as dividas foram a causa principal da fuga do genovez.
Munido dessa generosa carta de D. João II, que é um salvo conducto,
Colombo volta a Portugal e vae então offerecer ao rei os seus serviços
na empresa dos descobrimentos e o rei os acceita, não para aproveitar-se
delles, mas para reter Colombo junto a si, evitando que, por meio delle,
Castella se apropriasse de terras que a Portugal já pertenciam.
Mas, o astuto genovez, nem pelo facto de ficar ao serviço do rei de
Portugal, deixa de conservar-se ao serviço da Hespanha de cujo thesouro
havia recebido 14.000 maravedis[2] em 1487, mais 3.000 pouco depois e
ainda 3.000 em junho de 1488, isto é, mezes depois de receber a carta de
d. João II que lhe dava o salvo conducto para voltar ao reino!!...
[Nota de rodapé 2: O maravedi valia cerca de 25 réis fortes.]
Eis ahi patente a dualidade ambiciosa de Colombo, que fica ao serviço de
Portugal e ao da Hespanha, simultaneamente, explorando a ambos sem
escrupulos!...
Essa dualidade elle a revelou ainda no proprio nome, pois assignava-se
_Colon_ na Hespanha e _Colombo_ na Italia e em Portugal!!!...
Ao fim de quatro annos dessa dupla exploração, consegue Colombo assignar
um tratado com a corôa de Hespanha, obtendo della as tres caravelas de
que carecia para ir á India pelo occidente e _achar_ terras que já
tinham sido achadas pelos navegantes portuguezes. Por esse tratado, elle
obteve as seguintes vantagens: «o grau de cavalleiro da espada dourada,
os cargos de almirante mór do mar oceano, de vice-rei e governador
perpetuo das terras que descobrisse, a decima de todas as rendas, e o
direito de poder concorrer com o oitavo das despesas de todas as
frotas, recebendo o oitavo dos lucros.»