quando se abre a porta, apagando a luz._--«Fechem a porta!» _ouve-se
dizer no escuro. A porta fecha-se com mão misteriosa... Tinha sido o
vento. TÓNIO, dentro, ás apalpadelas, procura a candeia, que
acende ao fogo duma acha, no lume da lareira, soprando-lhe para a
atiçar. A scena é lugubre. MARIA JOANA é uma rodilha, a um canto, a
soluçar._
TÓNIO
Vá, rapariga! Cobra ânimo! Estas um engrimanço, uma dama...
_MARIA JOANA parece reanimar-se. Limpa as lágrimas ás pontas do
lenço da cabeça. Vai ao vasal, tira uma tijela, e enche-a de água.
MANOEL nem palavra: fuma._
TÓNIO
Para onde vai isso?
MARIA JOANA
É para o pai; não leva nada desde ontem... Pediu-me água, que dizes?
(_Tónio encolhe os ombros_) Soube-lhe tão bem a outra... Tinha-me dito:
«filha, dá-me de beber; tenho um fogo aqui dentro...». E eu dei-lhe de
beber. Parece que aliviou. O médico disse-me que lhe désse o que êle
pedisse. Dou?
TÓNIO
Se êle o disse...
MANOEL, _de troça_:
Dá-lhe vinho, dá-lhe vinho...
TÓNIO, _furioso, agarra num banco e avança para o irmão_:
Esmago-te como a um sapo, maldito, se te não calas! (_Os seus olhos
chispam lume_).
MANOEL, _erguendo-se_:
Experimenta e verás o trôco... (_Diante dêle_): Sim! sim!
MARIA JOANA, _suplicante, entre os dois_:
Tónio! «Manel»! Nosso-Senhor castiga-vos!... Por Deus! Ai, Jesus!
TÓNIO, _cedendo_:
O que te vale...
_Sentam-se ambos, calados, tacitumos, a distância. MARIA JOANA fita
um momento o grupo. Respira profundamente, desolada. Entra depois no
quarto do doente, cabisbaixa, cambaliante._
_Grande silêncio!_
_Súbito, um grito, depois outro,--lancinantes, desesperados, dentro
do quarto. Os dois irmãos levantam-se apavorados._
MARIA JOANA, _à porta, num paroxismo_:
O pai! o pai!... Morto! (_volta como louca à cabeceira do cadaver_).
_TÓNIO precipita-se tambem desvairado no quarto do pai, atrás da
irmã. Continuam os gritos. MANOEL tem uns segundos de perplexidade,
olha em redor, hesita, vai, corre para o arcaz; abre-o, mergulha o
braço nervosamente no fundo; tira tudo,--roupas, farrapos, misérias,
remeche,--procura, encontra emfim o que ambiciona: a bolsa com as
vinte moedas!_
TÓNIO, _que entra desgrenhado, percebe tudo, exclama_:
Ah, tratante! ah, ladrão!... Agora é que tu queres roubar a tua irmã!
_Atira-se a êle. Trava-se uma luta entre os dois, encarniçada: qual
de baixo, qual de cima, com as garras, com os dentes--como dois liões!_
MARIA JOANA, _sòzinha, brada, abrindo a porta, para a solidão dos campos
ermos, na chuva e na ventania_:
Acudam! aqui d'el-rei!... Acudam!
_Ninguem! Tudo se passa como num deserto, a milhões de léguas da
outra gente, no isolamento daquela casa maldita! MANOEL, rôto,
alucinado, escorrendo sangue, consegue erguer-se do chão, aonde por
duas veses o prostrára o pulso férreo de TÓNIO; apanha emfim a
espingarda e alveja-o._
MARIA JOANA, _interpondo-se, num salto ágil_:
Ai, que te desgraças! ai que te desgraças, «Manel»!
MANOEL
Larguêza! larguêza senão arrebento-te tambem...
_Ela resiste, debate-se, diante da arma. Esta, num repelão,
dispára-se, indo a carga alojar-se no peito da rapariga._
TÓNIO, _vendo a irmã caída num lago de sangue_:
Mataste-a!
MANOEL, _poisando a espingarda e com um sorriso cínico_:
Matei?... Pois tira-lhe a pele, que é d'estimação...
_Recomeçam a luta._
[1] O autor não quis nesta novela, a que deu indiferentemente a
forma dialogada, tentar um género de literatura dramática como
êsse que há tempos aí se exibiu em palcos Portugueses (não sabe
se com grande ou pequeno exito) com o titulo de _Grand-Guignol_,
importado directamente de França. Género macabro, terrorista,
insalubre, visando a provocar no público as fortes comoções nervosas
pelo espectáculo de scenas lúgubres, sanguinárias ou simplesmente
extravagantes.--Esta _tragédia rústica_ é um ligeiro estudo do
caracter supersticioso, bestial, por vêzes quase feroz, da pobre,
inculta, miserável gente das aldeias beirôas, em cujo seio os
instintos, bons ou maus, falam ainda a linguagem espontânea e
bárbara das primitivas idades.
* * * * *
O pai da criança
(Conto carnavalesco)
O pai da criança
(Canto carnavalesco)
Êste padre Borregana, cónego da Sé, tem uma história.
Toda a gente tem uma história, é claro; mas a do padre Borregana é uma
história singular, digna de contar-se e de ser ouvida.
Padre Borregana nasceu padre como outros nascem militares, ou poetas, ou
oradores, ou assim... Nasceu padre. Desde muito novo revelou uma grande
_queda_ para aquele mister. Compleição debil, espírito supersticioso e
timorato, era êle quem acendia as velas do altar-mór nos dias de missa
cantada; quem ajudava a dobrar o sino dos entêrros; quem levava a
caldeirinha e o hissope entoando o _Bemdito_ com o Senhor; quem dizia
_ora pro nobis_ atrás do pálio nas procissões; quem informava as beatas
dos ataques hemorroidários do sr. arcebispo no tempo do arroz de tomate...
--Podia ter nascido corcunda, podia ter nascido zanaga, dizia o pai, a
justificá-lo; ninguêm se faz...
E não.
Velhos condiscipulos dêle no liceu e depois no seminário, ainda hoje
diziam que o padre Borregana fôra a mais decidida vocação que tinham
conhecido para o sacerdócio--para a castidade sobretudo,--o que aos seus
olhos de peccadores inconfessáveis o tornára particularmente famoso,
votado sem esfôrço ao sacrifício duma existência de renúncia, frouxo de
vontade como era, e então com um apelido que lhe assentava como uma luva...
Quando,--já depois de ordenado--desceu o estribo do comboio na estação
do Rocio, uma tarde, padre Borregana ficou atarantado, hesitante,
como uma criança que perde a ama, no meio da barafunda, do vozear
confuso da multidão que se acotovelava a saír da _gare_.
--Ó padre Borregana! ó padre Borregana!...
Voltou-se. Quem o chamava? Que lhe queriam?... Diante dêle um sujeito
alto, encorpado, abria-lhe uns grandes braços, oferecia-lhe o peito
largo para o receber. Padre Borregana trepidou.
--Não me reconheces, homem? Sou eu!... Olha bem p'ra mim: o Ataíde!
O Ataíde! Quem havia dizer! Com aquelas barbas, aquele todo distinto,
aquele ar de pessoa importante e abastada!...
--Tu! Pois tu!...--murmurou o padre.
E abraçaram-se enternecidamente.
Emquanto iam saíndo da estação, o outro explicava-lhe: tinha subido,
tinha trepado, formára-se... arranjára um casamento rico e uma boa
colocação...
--Sim?!
--É verdade.
Padre Borregana estacou, admirado.
--Mas ouve cá, disse, como demónio conseguiste tudo isso? Tu, demais a
mais,--desculpa que te diga--mas nem eras dos mais atilados...
O outro sorriu, superiormente:
--Dos mais atilados! Pobre rapaz! Consegui isto como se consegue tudo na
vida... como se consegue ser homem, ser gente, ser alguêm neste mundo: á
custa de muito ponta-pé!...
E separaram-se.
Mais adiante, Borregana, que caminhava apreensivo, scismático, no
encalço do moço de fretes, em demanda dum albergue pacato, sentiu a
ponta duma bengala tocar-lhe discretamente no ombro:
--Psst!... Borregana!
Voltou-se de novo, e deu de cara com outro velho conhecimento, a quem a
sua presença inesperada causou igualmente grande surpresa e alegria.
Repetiu-se, _mutatis mutandis_, a mesma scena: tambêm êste
trepára, tambêm êste vencera, tambêm tinha uma linda posição...
--É boa! E tudo isso...--balbuciou.
--Á custa de muito ponta-pé!
--!!
Ao desandar da rua do Carmo para o Chiado maior espanto o aguardava.
Desta vez o velho amigo era um ministro--e ministro da Justiça!--que lhe
abriu os braços como os outros (o que fez juntar gente...) e como os
outros lhe confessou que tinha subido, trepado--á custa de muito
ponta-pé!...
Dias passaram. Padre Borregana regressou a penates. Um domingo, logo
depois da missa, chamando de parte o sacristão, lial companheiro e
confidente, segredou-lhe:
--Cristóvam! vais-me aqui prestar hoje um grande serviço...
O sacristão, um diab'alma alentado e grosso, bruto como umas casas,
muito respeitador das qualidades e ornamentos do cura, murmurou,
comovido e modesto:
--Um serviço? Oh! sr. prior!... Queira vossa reverendissima ordenar...
Cá por mim só se não pudér...
--Um grande serviço, Cristóvam, um grande serviço...
Botou uma olhadela á igreja, outra ao S. Jerónimo do altar, outra a
bandeira das almas, e erguendo por fim as abas da batina ensebada,
revirou-lhe o nédio cêsso, exclamando:
--Férras-me aí um ponta-pé!...
--Quem, eu?
--Já disse, Cristóvam: um ponta-pé.
O sacristão presumiu-o doido. Hesitou, mas por último, vendo o ar
decidido do presbítero, para o não irritar, fez-lhe a vontade,
encostando-lhe a biqueira ferrada ao hemisfério sul, devagarinho...
--Força, homem! isso não é nada, suplicou o padre, cuja estranha
flagelação parecia dever enchê-lo de infinito gôso--isso não é nada!
--Ó sr. prior, mas eu...--tartamudiou o Cristóvam, condoído.
E o padre Borregana, num palpite, de mãos postas:
--Depressa! depressa!... Pelas cinco chagas! pelas cinco chagas, Cristóvam!
--Êle é isso?, rosnou o sacristão com os seus botões; e despresando
escrúpulos, atirou-lhe um coice, com tal violência, que o fez baquear e
gemer:
--Ui!
--Ah, já?...--e atirou-lhe segundo.
Nisto um matraquear de tamancos no lagedo da igreja.
--Quem é? quem vem aí?, bradou o padre aflito, cheio de dôres,
estorcendo-se.
--É para o sr. prior, esta carta...
--Para mim?!
Era um telegrama.
O prior precipitou-se, rasgou todo trémulo a obreia do sobrescrito: «Por
ordem de S. Ex.ª...» (turvou-se-lhe a vista)... «nomeado cónego.»
Caiu sôbre um banco que para ali estava a um canto, aniquilado, morto de
comoção. Quando despertou daquela espécie de síncope o prior
estava triste... Em volta houve um alarido, um espanto, mal constou o
milagre... Porque fôra um milagre! Tudo quis ver e visitar o sr. padre
Borregana, feito cónego--a ponta-pé. Não recebia? Porquê?... Talvez
dorido, coitadinho, talvez de ferido no poisadoiro com a brutalidade da
operação. E invectivava-se o Cristóvam--bruto! verdugo!--que se
desculpava, dizendo:
--Pois sim, pois sim, mas se não fôsse eu...
Tinha rasão.
A roda das beatas da terra toda se desfazia em favores e conselhos de
arnica, de unto de cobra e semi-cúpios de malvas, para aliviar as dores
e a tristeza do prior, cujos nadegueiros--já agora uns nadegueiros de
cónego--entumesciam e grelavam...
Dizia-lhe a criada:
--Parece que ficou a modos triste, sr. cónego?...
--E fiquei, pudéra, se não tenho de quê, cachopa!--queixava-se.
--De quê?! Hom'essa! Depois duma nova assim!...
--Depois duma nova assim; admiras-te? Com dois ponta-pés arranjei a ser
cónego, mas se aquele alarve se não demora e me préga logo uma dúzia
deles, quando eu dizia, estava a estas horas bispo! Bispo, imagina!...
Se não hei-de estar aborrecido...
O milagre não obstante ficou de pé, íntegro, documental, palpável, a
atestar o dedo da Providência na ferradura do Cristóvam. A religião,
vigilante, viu logo na pessoa do padre virtudes canonisáveis...
Apenas o Sequeira, funcionário de finanças, livre pensador e ateu--um
doido!--zombava, fazia menos daquilo, afirmando em toda a parte que o
padre Borregana tinha tido um cónego pelo traseiro, e que o pai da
criança era o sacristão!
* * * * *
Índice
Índice
Aquela família 5
A bôca do sapo 17
Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1906)--I 37
Sr. Anselmo (Perfil grotesco dum provinciano ilustre)--(1912)--II 85
Candidinha Cerdeira (Novela romantica) 89
Eureka! 113
O crime 123
Casa maldita (Tragedia rústica) 133
O pai da criança (Conto carnavalesco) 165