_Como se deuem escolher os casulos, & vnir as borboletas paraque
ponham a semente._
Escolheraõ os casulos mais tesos, & mais corados, porque as borboletas,
que delles sahem poem a melhor semente; naõ importa, de que cor sejaõ
os casulos, com tanto que a cor seja viua & sobida, porem os de cor de
verdemar saõ os melhores.
Para fazer huma onça de semẽte, ha mister cem pares de casulos, cem
casulos de borboletas machos, & outros cem de borboletas femeas.
Quando apartarem os casulos para a semente aduirtiraõ, que em cada
casulo o bicho se moua, solto, & desapegado, o que conheceraõ sacudindo
brandamente o casulo, junto dos ouuidos, porque se o bicho naõ bolir,
serà sinal, que està podre, & pegado à seda, & neste estado naõ serue
para o nosso intento.
Os casulos dos machos, naõ tẽ a seda taõ liza, como a das femeas, saõ
cumpridinhos, & agudos por ambas as extremidades do ouado.
Os casulos das femeas tem a seda mais lisa, & saõ mais redondos por
huma parte, que por outra, como hum ouo de galinha, & a maior parte são
rombos por ambas as partes.
Por estes sinaes, differenciarão os casulos huns dos outros, & porão de
parte os dos machos, & das femeas em igual cantidade; & se acontecer,
que sahião mais femeas que machos, naõ serà taõ grande a perda, como
se succedérà o contrario, porque huma borboleta macho, pode seruir para
duas borboletas femeas, suposto que não serà tão boa a semente, como a
do que sò se vnir com huma.
Enfiaraõ todos os casulos com huma agulha, & não furarão de todo a
seda, mas sò a superficie della, & farão como contas ou coroas de cem
casulos cada huma, & as pendurarão, sem bolir mais nellas, esperãdo que
os bichos sahião trãsformados em borboletas.
As femeas seram muito mais aluas, que os machos, & terão o ventre tres
vezes maior.
Os machos se darão a conhecer logo em rompendo do casulo, porque
baterào as azas, cõ muita pressa, & esperteza, o que as femeas não
fazem.
Tomarão as borboletas pellas azas, ou pello corpo com os dedos cõ
delicadeza, sem os apertar, & os porão sobre folhas de papel, ou
sobre estamenhas velhas & outros panos, que não tem pelo, & talvez
serâ necessario chegar as borboletas humas âs outras, & como as
virem vnidas, as deixarão assim desde a manhaã, a té a noite, depois
apartaram os machos, & os deitarão, & as femeas porão a semente.
Esta vnião das borboletas ha de durar noue ou dez horas, quer de dia,
quer de noite, & não mais, porque a demaziada dilação desta vnião,
prejudicaria à perfeição, & multiplicação da semente.
Farão muita diligencia, por não fazer arrebentar os grãos, quãdo os
tirarem do pano, ou papel, em que as borboletas os lançarão, & para
os tirar nam se valeram de ferros, ou outros instrumẽtos, que cortão,
mas sò vzarão de alguns pedacinhos de ouro, ou prata adelgaçados, &
sem talho, & se os vintens del Rey D. Manoel forão hum pouco mayores,
seriaõ muito bonspara este effeito.
Quando os grãos sahẽ da borboleta, são brancos, no mesmo dia se fazem
como verdes, & depois vermelhos, & pouco a pouco vão tomando huma cor
de pardo escuro, que sempre conseruão, & esta vltima cor he o sinal da
mais perfeita semente; alguns grãos se achão, que sempre ficão brancos,
& estes não prestão para nada.
De ordinario cada borboleta femea lança trezentos grãos, hũas lanção
mais, & outros menos, porque muitas não podem lancar todos os que tem
dentro de si, & com elles morrem.
Guardaraõ os graõs de todo o genero de bichos, ratos, formigas,
grillos, & osteraõ em lugares, a que naõ possaõ chegar galinhas, nem
aues, porque saõ mais golosas dos grãos dos bichos da seda, do que dos
mesmos bichos viuos.
Porão os graõs dentro de hũa arca ou contador, em caxas bem fechadas, &
enuoluidas em panos de lãa ou linho, que naõ tenhaõ humidade, alguma; &
as teraõ em lugares izẽtos dos rigores do calor, & do frio.
Por esta razão, não os guardaràm junto das cheminés, em que de
ordinario se acende o lume, nem junto das janellas expostas âs
inclemencias dos ares, nem em outros lugares frios, & humidos, mas
temperados, porque o calor faz nacer os bichos antes do tẽpo, o frio
congela os grãos, & a humidade os corrompe.
Com estas precauçoẽs nacerão os bichos a seu tempo, & se conseruarão os
grãos de ãno em ãno, seraõ mais copiosas as nouidades, & se perpetuarà
em huma casa esta rica semente.
Mas he precioso renouar a semente de tres em tres annos, misturandoa
com outros graõs vindos de fora, ou com os que se colherem de huma
vitella morta, na forma, que fica declarado no _Capitulo 6. da
2. parte_ porque a semente renouada torna a cobrar a virtude, &
actiuidade, que se lhe vai diminuindo com o tẽpo, que tudo gasta, &
tudo acaba.