_Segredo para fazer nascer muitos bichos da seda, sem semente, que
daràm excellẽtes graõs com abũdancia._
Nas terràs, em que nam ha semente algũa dos bichos da seda, suprirà a
Arte esta falta, com hũa prodigiosa metamorphosi, de que fallão muitos
Authores, & que de ordinario se experimenta em muitas partes do Oriente.
No tempo da Primauera, quinze dias depois de começar a sahir a folha
das amoreiras, tomaràm hũa vacca prenhe, & antes d’ella parir, vinte
dias arreo, a sustentaràm com folhas de amoreira, nam lhe dando erua,
nem feno, nem algum outro genero de alimento, nem tam pouco lhe daràm
de beber, & depois de nascida a vitella, continuaràm outros outo dias,
dar à vacca folhas de amoreira.
Depois disto, mataràm a vitella no tempo em que estiuer farta do leite
da mãy, & a cortaràm em pedaços, até as patas dos pés, & das mãos,
que deitaràm fora, & não tiraràm nada das mais partes do corpo, mas
ajuntaràm tudo, a carne, o sangue, os ossos, a pelle; & as tripas, em
hũa gamela de pao, & a porâm no mais alto sobrado da caza, para se nam
sinta o fedor.
Toda esta mestura de carnes, ossos, & sangue, se corromperà, & desta
corrupção naceràm hũs bichinhos, que se recolheràm com folhas de
amoreira, em que naturalmente se pegão, & passados aos taboleiros, se
criaràm na mesma forma, que os outros, até fazerem os seus casulos, dos
quaes sahirâm borboletas, que ajuntandose, poràm graõs muito melhores,
que os dos outros bichos.
Mas porque esta semente perde com o tẽpo a sua virtude, he opinião de
alguns, que só pose seruir outo, ou dez annos, no cabo dos quaes, serà
preciso renouar esta mesma producção, ou transformação cõ o sangue,
carne, & ossos da vitella, como fica declarado.
Esta experiencia se pode fazer com muita facilidade, & cõ pouca
despeza, & serà de grànde vtilidade, para os que a fizerem.
O insigne Poeta Ieronimo Vida, Cremonẽse, Bispo de Alba descreue esta
marauilhosa obra da arte, & da natureza, no seu segundo Liuro de
_Bombice_.
Eis aqui os versos do Author,[13] para satisfação dos curiosos.