As artes[7] liberaes, & mecanicas, saõ as fontes do bẽ commum, as
bases das Republicas, & as columnas[8] dos Imperios; humas se empenhão
no sustento da vida, como a agricultura; outras se armão contra as
inuasoens dos inimigos, como a milicia; & outras se desuelão para o
descubrimento, & conquista de terras estranhas, como a nautica; de
donde se segue, que florecem as Monarquias com tanto maior gloria,
& felicidade, quãto maior he o numero, & a perfeição das artes; que
nellas se exercitão.
Nas artes mais nobres, sempre floreceo a Lusitania, admirou o Parnasso
a elegãcia dos seus Poetas, estranhou Neptuno a ouzadia dos seus
Argonautas, & Marte enuejou a valentia dos seus Capitaens, mas sempre
se mostrou o pouo de Portugal descuidado das artes inferiores, em
que comummente se occupão os pouos dos outros Reinos; Antipatia deue
ser que o brio da nação tem com acçoens do vulgo, & conhecendo-se
cortada para heroicas emprezas, se enuergonha de se abater a plebeios
exercicios. Nisto saõ os Pouos de Portugal semelhantes aos de que
escreue[9] Xenophonte, que nunca se occupauaõ em Artes mechanicas, para
que naõ degenerasse a nobreza do animo, cõ a humildade do exercicio.
Mas suposto que esta briosa liberdade aceredita a bizarria dos
genios, he muito prejudicial ao bem cõmum dos Estados, porque della
se occasiona hũa perpetua, & quasi natural ociosidade no pouo, & a
ociosidade dos pouos, he causa da pobreza dos Reinos.
As tres materias, sobre que obrão todas as artes, (que genericamẽte
chamão lanificas) saõ laã, linho, & seda, mas deixando as primeiras
duas, que naõ saõ deste lugar, a mais nobre, a mais lucratiua, & a mais
misteriosa, he a arte da seda.
A Nobreza desta arte serue de estimulo à altiua inclinação dos Pouos;
o lucro que della se tira, alẽta as esperanças dos mercadores, & os
misterios que nella se descobrem, despertão a admiração dos Sabios.
Em primeiro lugar, he esta arte tão nobre, que pode seruir de occupação
à mesma nobreza, sem desdouro do seu luzimento, como se experimenta
em quasi todas as Cidades d’Italia, porque nas partes aonde està
introduzida a criação dos bichos da seda, naõ ha caza nobre, em que os
senhores della, naõ se occupem neste apraziuel exercicio, & em muitas
cazas ha teares, em que até as molheres tecem fitas, ou sedas ligeiras
para adorno das suas cazas, & das suas pessoas. A nobreza das sciẽcias,
& das artes, se mede pella calidade dos seus objectos, & que cousa
mais nobre, que a seda, que he o objecto, & a materia, sobre que esta
arte se exericita. A nobreza, serue a seda, nas galas; aos Senadores,
nas Togas; aos Capitaẽs, nos Estãdartes; aos Sacerdotes, nas sagradas
vestiduras; aos Bispos, nas Mitras; aos Cardeaes, nas Purpuras; aos
Monarchas nos Diademas; & aos Pontifices, nas Tiaras.
As Damas, offerece a seda flores, que não murchaõ, nas primaueras;
chamas, que naõ offendem, nos carmezins; no lauor dos bordados,
labirintos sem confusaõ, & nas ondas dos chamalotes, mares sem
tormentas, & sem naufragios. Serue a seda para as pompas funebres, &
para os triumphos, he o enfeite das Cortes, o apparato dos Palacios, o
ornato dos Templos, & dos Altares, & o adorno dos mesmos Sanctuarios,
retratos da gloria, & hospicios da Diuindade.
Em segundo lugar, a vtilidade, que se tira da criação dos bichos da
seda, melhor se conhece pella experiencia, que pello discurso. Duas
amoreiras grandes, ou quatro pequenas, bastão para sustentar meia onça
de bichos, que produzẽ seis arrateis de seda, a qual quãtidade posta
em meadas, val tres mil reis o arratel, de sorte que hum trabalho,
ou huma curiosidade, que naõ custa dous mil reis, no espaço de outo
semanas ao mais, rende dezoito mil reis. Os pobres pois, que naõ tem
campos para cultiuarem amoreiras, nem cazas sufficientes para a criação
dos bichos, se podem occupar em tirar, & dobar a seda, & esta he hũa
occupaçaõ honesta, & vtil, principalmente a muitas mulheres honradas,
que em outros exercicios de maior trabalho, & de menos proueito, gastão
a vista, a saude, & a vida. Nas Prouincias de Flandes,[10] se contaõ
mais de doze mil pessoas, que se sustentão só de dobar a seda, que
lhe vem em rama, nas frotas da companhia das Indias Orientaes. Com
esta mesma occupação, jà se sustentam em Lisboa, mais de trezentas
pessoas, que dobão a seda, que se laura nos cincoenta teares, das nouas
manufacturas, & crecendo (como se espera) o numero das amoreiras, &
teares, até se poder laurar toda a seda, que he precisa, para o Reyno,
& suas Conquistas, serà tam vniuersal a occupação de dobar a seda, que
poucas familias pobres hauerà em Portugal, a que falte o sustento, se
se occuparem neste exercicio.
Além da ganancia, que a criaçam dos bichos, o dobar da seda, & todos
os mais officios dependẽtes das manufacturas, prometem aos pobres,
a cultura das amoreiras promete à Nobreza grandes vtilidades, &
riquezas, porque muito mais facil, & proueitosa he a cultura destas
plantas, que a das oliueiras, & larangeiras, em que muitas cazas
de Portugal, tem hũa considerauel parte das suas rẽdas, porque
as oliueiras naõ dam fruto, se nam depois de muitos annos, & as
larangeiras, nam medram, se nam em terras mimosas, & hũas, & outras
estam tam sogeitas às inclemencias do tempo, que hum vẽto, hũa neuoa,
ou hũa chuua intempestiua, he sufficiente para destruir as nouidades.
Pello contrario, a cultura das amoreiras, he tam facil, & tam breue,
que em tres, ou quatro annos, se poem hũa amoreira, em estado de se
começar com ella, a criaçam de muitos bichos, & a natureza lhe deu a
propriedade, de lhe nam fazer dano, mas antes lhe ser vtil, tirar-lhe
as folhas. A duraçam pois desta aruore he tal, que nas Prouincias
onde se cultiua, nam ha memoria do tempo, em que foram plantadas. As
amoreiras, se crião neste Reyno, em toda a terra, sem ser necessario
occupar a melhor, nos mõtes, & ainda entre as areas; o publico
pôde ordenar, se plantem junto dos caminhos, como se fez em França,
& Italia, & os particulares podem cercar dellas as suas quintas, &
vinhas, considerãdo que as folhas desta aruore, saõ mais proueitosas,
que os frutos das melhores plantas, como se tem experimẽtado, estes
dous vltimos annos, nesta Cidade de Lisboa, & em algũas partes da banda
d’alem, aonde a folha de cada amoreira, rendeo a seus donos, cinco,
seis, & até outo tostoens. Por onde augmentandose a criação dos bichos,
ao mesmo passo que crecerem, & se cobrirem de folhas as amoreiras,
nouamente plantadas, os rendimentos de hum moral de cinco, ou seis mil
amoreiras, seràm muito maiores, & mais certos, que os de hum oliual, ou
laranjal, de outras tantas mil oliueiras, ou laranjeiras, finalmente
com a cultura das amoreiras, & criaçam dos bichos, se farà a Nobreza
mais rica, ficarà a pobreza aliuiada, & a ociosidade desterrada, se
euitarà a sahida do dinheiro do Reyno, se abrirà o caminho ao muito
que entrarà pellas maõs dos Estrãgeiros, a troco da seda em rama, terà
Portugal muitas Prouincias da Europa, tributarias à sua industria, &
todas seraõ admiradoras da sua opulencia.
Nas maõs de Deos, os mais debeis, & despreziueis sogeitos, saõ os
artifices das maiores marauilhas, tambem nas maõs dos Princepes, que
saõ as imagens de Deos na terra, podem as materias mais humildes,
& na aparencia mais inuteis, obrar prodigiosos effeitos; & se Deos
antigamente destruyo ao Egipto com mosquitos, & gafanhotos, pode o
Princepe nosso Senhor enriquecer a Portugal, cõ folhas, & com bichos,
folhas de amoreiras, & bichos de seda.
Os bons Ministros dos Princepes, saõ como as Aguias,[11] que da mais
sublime Regiaõ do ar, vem na terra, os mais pequenos insectos: D. Luis
de Menezes, Conde da Eyriceira, na suprema eleuaçaõ da dignidade, em
que attende desuelado aos interesses da Monarquia Lusitana, vio com
perspicacia de Aguia, aquelle insecto, sutilissimo artifice da seda,
nesta Corte apenas conhecido, & com igual agudeza preuio os grandes
emolumentos, que podia dar à Republica a criaçaõ, & multiplicaçaõ
desta industriosa creatura, para este effeito insistio o Conde, em
que se prantassem amoreiras em todas as Prouincias do Reyno, deu
ordem a que viessem de varias partes da Europa Officiaes para as
manufacturas, & para esta noua introducçaõ, desfez tantas duuidas,
venceo tantas opposiçoens, & se offereceo martyr do bem publico às
penalidades de tantos, tam varios, & taõ impertinentes cuidados, que
pode seruir de exemplar ao zelo, & amor da partia, de admiraçaõ à
constãcia, & de perpetuo assumpto aos encomios da posteridade; jà se
anticipa a fama em applaudir as virtudes militares, & politicas, com
que chegou aos mais sublimes postos, sem mais diligẽcia, que hauelos
merecido, & se a sua penna, he a mina das luzes cõ que se manifestaõ
ao mundo as façanhas dos Heroes de Portugal, algum dia a multidaõ das
suas gloriosas acçoens, serà a muitos volumes de Annaes, illustre, &
ineuitauel embaraço.
Mas porque na gloria das victorias, que de ordinario se attribue
ao valor dos Capitaens, naõ deixa de ter sua parte a valentia dos
soldados; tambẽ na prudente Economia dos Estados, tal vez se acreditaõ
os Ministros inferiores, sem prejuizo da gloria dos supremos Suposto
isto, razam he, que para memoria dos vindouros, se faça aqui mençaõ
do zelo, habilidade, & desuelo, com que Rolando du Clos tẽ proposto,
solicitado, & adiantado esta noua introducçaõ das manufacturas da seda,
com taõ euidentes experiencias, & cõ taõ felice successo, que toda esta
Corte se admirou, de quese fizesse taõ vtil a Portugal, a industria de
hum Estangeiro; mas a verdadeira patria dos sogeitos de talento, he a
terra em que exercitaõ as suas virtudes, & entre as muitas differenças
que ha entre os homens, & os animaes, hũa das principaes, he que os
animaes achaõ a sua patria, & os homens a escolhem; aquelles achão
por patria a terra, em que nacẽ, & estes escolhem por sua patria, a
terra em que pretendem fundar sobre os alicerses da sua virtude, a sua
fortuna; com esta consideraçam escolheo Rolãdo du Clos a Portugal por
sua patria, & està taõ naturalizado, que atreuendo-se a hũa empresa
maior, que as suas forças, parece tem tresladado em si os brios da
nação Portugueza, que sempre fez facil ao seu valor, tudo o que
conheceo superior, ao seu poder.
Cõ generosa, & discreta emulação, quizeram lograr juntamẽte com Rolando
du Clos, a gloria desta empresa, como socios no mesmo negocio, &
companheiros no mesmo trabalho, Francisco Lopes Franco, varaõ de muita
virtude, & prudencia, muy conhecido nesta Corte, como benemerito do
Reyno, & Ioão Soares da Costa, cuja intelligencia, & zelo do augmento
do bem cõmum, promete grandes acertos, para o perfeito estabelecimento
desta fabrica, não reparando ambos em contribuir largamente para ella
com sua fazendas, para que a de S. A. & dos seus vassallos se acrecente.
De maneira que esta artificiosa maquina das sedas, que nos seus
principios, estaua fundada sobre hũa só columna, tem hoje mais pessoas,
que a sustentão, do que teue o fabuloso Ceo dos Poetas, porque descança
nos hombros de tres Atlantes.
As obras da arte, tem como as da natureza, a sua infancia, & por
debeis principios, sobem ao auge do seu augmento. A seda na boca do
bicho, que a forma, he hũ fio; nas anafayas, he tea; nos casulos, he
nouelo; nas dobadouras, he meada, & assim crece a seda em quantidade, &
perfeição, até que nas vestiduras do homem, chega a ser, o ornamento de
hum pequeno mundo.
Do mesmo modo, teue esta fabrica da seda, alicerses tão frageis, como
os da mesma seda, no exordio do seu ser, porque começou por hum tear
de fitas, em menos de hum anno se virão armados cincoenta teares,
em que se fazem tafetàs, gorgoroens, galas, primaueras, cetins, &
telas, breuemente trabalharàõ outros cincoẽta, & se correspõderẽ os
progressos a estes principios, daqui a algũs annos, terà Portugal
mais sedas, que lãas, & os que agora julgaõ esta empresa impossiuel,
ou danosa ao Reino, conheceràõ a sua possibilidade, na euidẽcia do
successo, & a sua vtilidade, na importancia do proueito.
Tenho mostrado como a arte da seda, he tão nobre, que pode seruir de
exercicio à nobreza, & tão lucratiua, que nelle acharà o Reyno hũa
mina de excessiuas riquezas, resta que vejamos como esta mesma arte,
he tão misteriosa, que pode dar perpetuos motiuos de contemplação, &
admiração, à intelligencia dos Sabios.
O nacimento, criaçam, & vida dos bichos da seda, encerrão em si tão
profundos misterios, que não sô por interesse, mas por recreação, & por
curiosidade, podem occupar as pessoas mais virtuosas, as Religiosas, as
Damas, os Philosofos, & mais doutos Theologos do mundo.
Os principaes artigos, & misterios da Fé Catholica, saõ a existẽcia
de hum Deos, a Trindade das pessoas na natureza diuina, a Encarnação
do Verbo, o nacimento de Christo, a adoraçaõ dos Reys Magos, a
transfiguração, a morte, & Resurreiçãõ do Senhor.
Todos estes misterios, no bicho da seda, admirauelmente se representam.
Primeiramẽte aos Atheistas, filhos da incredulidade, & partos da
cegueira, que nam tem olhos para o Deos, que os mesmos cegos adoraõ,
mostra este insecto com palpaueis marauilhas, a existencia do Author
da natureza; que se nam ha no mundo hum artifice supremo, qual he o
Mestre das artes, que este prodigioso artifice, sem mestres exercita?
fia, tece, & edifica, fia sem mãos, sem braços tece, & sem algum
instrumento, edifica o seu domicilio, & se com a efficacia da sua
palaura, Deos fez ao vniuerso, este milagroso Arquitecto, sem voz,
& sem falla, fabrica no seu casulo, hum pequeno mundo. As luzes da
verdade abre os olhos, ô incredulo Atheista, & jà que nas luzes dos
Astros, & nos brilhantes Planetas, nam ves da Diuindade os rutilantes
reflexos, confessa que para proua de que no mundo ha Deos, este
bichinho basta.
Adoramos a Deos, hum na essencia, & trino nas pessoas; & neste insecto
admiramos, tres sogeitos distinctos em hũa sô natureza, porque o
principio do seu ser, he hum pequenino ouo da grossura de hum graõ
de mostarda, do ouo nace hum bicho, & do bicho hũa borboleta; de
maneira que em hũa sô substancia, se acham tres suppositos realmente
distinctos; a substancia destes suppositos se cõmunica, mas não se
cõmunicão os suppositos, & com tudo a substancia, & os suppositos saõ
physicamente a mesma essencia, & esta essencia nos tres suppositos
obra por differentes modos & do mesmo modo, que nas pessoas diuinas,
hũa pessoa nam tem as perfeiçoens relatiuas da outra, suposto que
cada pessoa he igualmente perfeita, mas antes fora imperfeiçaõ que a
propriedade da primeira pessoa, se achasse na segunda, & na terceira,
& assim não tem a pessoa do Pay a propriedade relatiua do Filho, nem
o Filho possue a propriedade relatiua do Pay, nem ao Espirito Santo,
se attribuẽ as perfeiçoens do Pay, em quanto Pay, nem as do Filho, em
quanto Filho; tambem nos tres suppositos da substancia deste prodigioso
insecto, nam tem o ouo as perfeiçoens proprias do bicho, nem o bicho,
as da borboleta, nem a borboleta, as do bicho, nẽ do ouo, porque o
ouo nam anda como o bicho, nem o bicho voa como a borboleta, nem a
borboleta, & o bicho perseueram sem corrupção de hum anno para outro,
como o ouo.
No Verbo encarnado, estam vnidas duas differentes naturezas, a humana,
& a diuina; & no bicho da seda se acham duas diuersas naturezas, porque
como bicho he reptil, como borboleta he volatil; no reptil, se figura
a humildade do ser humano, & no volatil, se simboliza a sublimidade do
diuino.
Por virtude do Espirito Santo, tomou o Verbo Eterno carne nas
entranhas de huma Virgem; & a semente dos bichos se anima, ou com o
calor do Sol, ou com o calor natural, no peito de huma donzella.
Christo entre palhas naceo, & o bicho da seda entre folhas nace; naceo
o Senhor no mais profũdo silencio da noite, & o bicho da seda no
silencio viue, & com os estrondos, morre.
No presepio, os Reys sabios buscaraõ ao Senhor, & saõ sabios os Reys,
que procuraõ no seu Reyno a criaçam deste insecto. No Thabor, Christo
se transfigurou, & ficaraõ suas vestiduras brancas como a neue, tambem
o bicho da seda se transfigura em hũa borboleta, que se iguala á neue
na aluura.
O Senhor que a todos veste, morreo nù em hum madeiro, & o bicho
da seda, que a todos dà de vestir, viue, & morre nù, retratto da
paciencia, & da pobreza. Finalmente resuscitou o Senhor, & no sepulcro,
deixou as mortalhas, & o bicho da seda rompe o casulo, em que estaua
sepultado, & nelle deixa duas pelles, como despojos da morte, & trofeos
da immortalidade. Mas he tempo que acabe, & acabo aduirtindo aos
discretos, que cada acçaõ do bicho da seda, he hum jeroglifico, & em
cada jeroglifico, se significa hũa virtude.
Todos os documentos de bem viuer, se aprendem na contemplaçaõ da vida,
& morte deste Rey dos insectos, a charidade, a prudencia, a penitencia,
& o desengano das vaidades do mundo.
Que charidade mais entranhauel pode hauer, que desentranhar-se para
vestir os nûs; forma o bicho da seda com a substancia das suas
entranhas, os defensiuos com que os homens, se armaõ contra as
injurias do tempo, & para remedear necessidades alheas, conuerte em
preciosas roupas, os seus proprios alimentos.
Que prudencia mais soberana, do que ordir innocentes enredos, para
cõseguir gloriosas victorias; fia o bicho da seda os laço, em que
se prende, & se encarcera a si mesmo, mas quando he tempo, quebra a
prizam, & sahe victorioso. Nos labirintos da Corte, muitos se enredam
no que tecem, mas nam se sabem desembaraçar, do em que se enredão.
Qual dos mais solitarios ermitaens pode competir com o bicho da seda,
nas asperezas da penitencia? & qual contemplatiuo Anacoreta, viueo como
elle em hũa cella sem porta, & sem janella, jejuando com tam grande
rigor, que pello espaço de muitos dias, nam toma hũa folha verde para
seu sustento, & tam apartado deste mundo, que viue retirado em hum
outro mundo, morto na apparencia, & na realidade sepultado.
Em conclusam, este mesmo insecto, que parece nascido para fomento de
pomposas vaidades, he aquelle, que melhor nos desengana da vaidade das
pompas humanas, porque a riqueza das sedas que laura, nam he outra
cousa, que o excremento das folhas, que come, & para nos aduertir,
que a nossa vida depende de hum fio, à tecidura de hum o fio se
reduzem todas as obras da sua vida; cuidemos todos na fragilidade
da vida humana, para nòs assegurarmos hũa morte santa. A arte das
artes he saber morrer, porque o premio desta arte, he o mesmo Deos na
eterna bem-auenturança: Os erros, que nas mais artes se cometem, sam
reparaueis, mas he irreparauel o desacerto de huma mà morte: Esta he a
mais importante aduertẽcia, das que se encerrão nesta introducção, fiz
as duas primeiras como zeloso do bem do Reyno, & remato com esta, como
desejoso do bem das Almas.