Como essas cidras maravilhosas da fabula, que, rudes na fórma e ingratas
ao paladar, em si continham porém tanta formusura, tanta materia de bem
para o mortal feliz a quem dado fosse o abril-as, como ellas é tambem
rude e aspera a agricultura na fórma e pouco promettedora de prodigios.
Mas para quem bem a essencia lhe fôr especular, para quem, com
entranhavel amor, a cultivar, para quem, com mãos prodigas, lhe souber
dar afagos e carinhos, para esse, similhante á cidra fabulosa, tem
ella um seio rico de muito affecto, de muita materia de felicidade e
belleza, para esse, será ella sempre a amante extremosa, a mãe
procreadora de prodigios sem conta.
Qual há, porem, vara magica de fada, que--trocando-a--a chame á vida, a
faça abrir ao sorriso e ao amor, lhe dê que do seio amigo brotem todas
essas flôres de ventura, que lhe sabemos e ella nos promette, mas que
sem estranho auxilio não podem desabrochar nem medrar?
Eis ahi o problema: mas eis tambem no livro a resolução, a vara de mago
condão, a panacêa universal para os males, sob que geme esta boa terra
de Portugal.