VII

Como essas cidras maravilhosas da fabula, que, rudes na fórma e ingratas

ao paladar, em si continham porém tanta formusura, tanta materia de bem

para o mortal feliz a quem dado fosse o abril-as, como ellas é tambem

rude e aspera a agricultura na fórma e pouco promettedora de prodigios.

Mas para quem bem a essencia lhe fôr especular, para quem, com

entranhavel amor, a cultivar, para quem, com mãos prodigas, lhe souber

dar afagos e carinhos, para esse, similhante á cidra fabulosa, tem

ella um seio rico de muito affecto, de muita materia de felicidade e

belleza, para esse, será ella sempre a amante extremosa, a mãe

procreadora de prodigios sem conta.

Qual há, porem, vara magica de fada, que--trocando-a--a chame á vida, a

faça abrir ao sorriso e ao amor, lhe dê que do seio amigo brotem todas

essas flôres de ventura, que lhe sabemos e ella nos promette, mas que

sem estranho auxilio não podem desabrochar nem medrar?

Eis ahi o problema: mas eis tambem no livro a resolução, a vara de mago

condão, a panacêa universal para os males, sob que geme esta boa terra

de Portugal.

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