Mal de nós, que já nos ficam bem atraz esses tempos em que os grandes
homens da maior nação se não envergonhavam de serem encontrados, em
meio do rude trabalho das lides agricolas, por um povo inteiro, que
tambem se não pejava de os ali vir procurar, para os exaltar aos mais
altos cargos da republica; e em que esses heroes, lavradores, depondo a
toga da dictadura, depois da patria salva, se sentiam orgulhosos e
felizes em voltarem cobertos de louros para o trabalho de seus campos,
que em meio haviam deixado!
Já vão longe esses tempos; e todavia a terra, a «Alma mater» dos antigos
não cessa de nos abrir o seu seio carinhoso, de nos chamar, de nos
sorrir, de nos convidar com todos os seus perfumes, com todas as suas
verduras, com todos os seus matizes de mil flores.
Mãe extremosa não conhece filhos ingratos e inconstantes; a todos gerou
e a todos há de involver. Se chora, encobre-nos os prantos; e, em dias
de tribulação, lá a temos sempre, que nos estende os braços com
affecto indizivel, que nos consola, nos acaricia e nos melhora, até que
por fim, orgulhosos da propria grandeza, renegamos a mãe que nos deu o
ser, e nos afastamos d'ella, com desprezo, como se não fosse a ella e só
a ella, que toda essa grandeza se deve attribuir!...
V
Com effeito, só por ignorancia ou por desmedido ou mal fundado orgulho,
se póde conceber tal desprezo e tal ingratidão.
A arte de domar a terra, para d'ella extrairmos aquillo de que mais
carecemos na vida, não pode de certo ser apodada de rude, nem menos de
desprezivel.
Tão velha como o homem, como as suas primeiras necessidades, é-lhe a
sua antiguidade segura garantia de excellencia e de nobreza; desprezivel
ninguem de boa fé lhe poderia chamar, sendo que todas as sciencias a
veneram e cortejam, entre si disputando qual d'ellas lhe prestará
maiores serviços.
As cidades, que assombram os campos com seus templos, columnas, praças,
grandeza e luxo; os exercitos, que os assolam, impellidos pelo genio
destruidor das batalhas; essas cidades ambulantes, que levam d'um mundo
ao outro os productos de todos os climas: todas essas maravilhas de
grandeza e intelligencia humana, tudo isto saiu dos campos, tudo isto
por lá se creou; tudo isto ha de muitas veses, nas longas horas de
atribulação e de angustia, lembrar-se com saudade da humilde mas
pacifica choça, d'onde primeiro desabrochara á luz do sol; tudo isto ha
de deixar de existir, de mover-se, de tumultuar, ha de esquecer por
fim, que elles hão de continuar ainda, por muito tempo, depois do homem
talvez, a vecejar, a florir, a fructificar, sempre bellos e sempre
risonhos, agora e depois, como no primeiro dia da creação!