IV

Mal de nós, que já nos ficam bem atraz esses tempos em que os grandes

homens da maior nação se não envergonhavam de serem encontrados, em

meio do rude trabalho das lides agricolas, por um povo inteiro, que

tambem se não pejava de os ali vir procurar, para os exaltar aos mais

altos cargos da republica; e em que esses heroes, lavradores, depondo a

toga da dictadura, depois da patria salva, se sentiam orgulhosos e

felizes em voltarem cobertos de louros para o trabalho de seus campos,

que em meio haviam deixado!

Já vão longe esses tempos; e todavia a terra, a «Alma mater» dos antigos

não cessa de nos abrir o seu seio carinhoso, de nos chamar, de nos

sorrir, de nos convidar com todos os seus perfumes, com todas as suas

verduras, com todos os seus matizes de mil flores.

Mãe extremosa não conhece filhos ingratos e inconstantes; a todos gerou

e a todos há de involver. Se chora, encobre-nos os prantos; e, em dias

de tribulação, lá a temos sempre, que nos estende os braços com

affecto indizivel, que nos consola, nos acaricia e nos melhora, até que

por fim, orgulhosos da propria grandeza, renegamos a mãe que nos deu o

ser, e nos afastamos d'ella, com desprezo, como se não fosse a ella e só

a ella, que toda essa grandeza se deve attribuir!...

V

Com effeito, só por ignorancia ou por desmedido ou mal fundado orgulho,

se póde conceber tal desprezo e tal ingratidão.

A arte de domar a terra, para d'ella extrairmos aquillo de que mais

carecemos na vida, não pode de certo ser apodada de rude, nem menos de

desprezivel.

Tão velha como o homem, como as suas primeiras necessidades, é-lhe a

sua antiguidade segura garantia de excellencia e de nobreza; desprezivel

ninguem de boa fé lhe poderia chamar, sendo que todas as sciencias a

veneram e cortejam, entre si disputando qual d'ellas lhe prestará

maiores serviços.

As cidades, que assombram os campos com seus templos, columnas, praças,

grandeza e luxo; os exercitos, que os assolam, impellidos pelo genio

destruidor das batalhas; essas cidades ambulantes, que levam d'um mundo

ao outro os productos de todos os climas: todas essas maravilhas de

grandeza e intelligencia humana, tudo isto saiu dos campos, tudo isto

por lá se creou; tudo isto ha de muitas veses, nas longas horas de

atribulação e de angustia, lembrar-se com saudade da humilde mas

pacifica choça, d'onde primeiro desabrochara á luz do sol; tudo isto ha

de deixar de existir, de mover-se, de tumultuar, ha de esquecer por

fim, que elles hão de continuar ainda, por muito tempo, depois do homem

talvez, a vecejar, a florir, a fructificar, sempre bellos e sempre

risonhos, agora e depois, como no primeiro dia da creação!

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