Economista profundo, é um poeta e pensador; o illustre democrata, á
maneira que nos apresenta uma das suas muitas, mas bonissimas reformas,
não póde, precipitando o tempo pela imaginação, deixar de nos entoar um
de seus hymnos tão enthusiastas, tão intimamente consoladores de
esperança no futuro para o pobre, o desvalido proletario.
A inspiração é tanta, a crença é tão forte, a fé é tão viva, que bastas
vezes o tomarieis por um d'esses prophetas que nos pinta a antiguidade,
a anathematisar os maus, de sobre esboroadas minas, a aviventar no
coração dos bons a emmurchecida esperança em melhores tempos e mais
christãos.
Ao ver tantas promessas de ventura, muitos, de incredulos, se negarão a
dar-lhes fé; muitos lhe chamarão sonhos febris d'um sentido scismar de
poeta; mas nenhum se atreverá a apodal-os de veneno ou de maldade.
Muitos dirão com o poeta:
Vãos desejos, talvez: mas bons de certo.
Mas nenhum terá força de lhes lançar o anathema terrivel, com que,
verdade é, o seculo sóe pagar as ideias boas e nobres.
Quiçá cedo é, para diffundir a vontade de reformas: seja; que o não é:
quem acampa nos arraiaes longinquos e desertos do futuro, e o aguarda
sereno e firme na sua fé, tem uma nobre missão:--a de abrir e
esclarecer, sentinella do porvir, a estrada da nova era; que outros,
vagarosos, de prudentes, só mais tarde pisarão.
Não é tarde; que o mundo foge no infinito do espaço e caminha direito ás
regiões encobertas do futuro; e, quando o seculo aperta o passo, não ha
face de verdadeiro democrata, que deva pejar-se de o acompanhar n'este
caminhar providencial.
Se é sonho, a sonhar por sonhar mais val, como diz Pelletan, o sonho
que diz a tudo quanto soffre cá na terra:
--Levanta-te, e espera! do que o que lhe repete:--Soffre, que para o teu
mal não ha salvação nem lenitivo!