I
O nocturno ulular do negro inverno solta no pinheiral espectros
clamorosos. Abrigam-se refugiados nos casais, em volta da viva chama que
os aquece, os tímidos foragidos da tormenta e os colos que acalentam
criancinhas.
E, heroicamente, afrontando a rudeza da inclemência, despontam nas
campinas os trigais. E, alegremente, esvoaçam na levada alvas farinhas,
bailando o seu delírio sob os colmos que protegem a azenha sonorosa. E,
ardentemente, o brazido dos fornos vigilantes fabrica no seu fogo o doce
pão que, quando alvorecer, nos reanime para seguirmos na terra essa
jornada da via dolorosa, via ingrata.
São os mistérios de Ceres que do seu seio destila o abençoado leite que
amamenta os infinitos bandos dos seus filhos.
A terra, o fogo, a água e o nosso braço, quanto a criação sonhou de
grande e belo e santo e generoso, desde a fecundidade casta duma leiva
até ao nosso alento, consumido pela consciência do dever
cumprido,--todos Ceres arrastou em seu mistério, todos são seus
escravos, obreiros dóceis, servos diligentes da sua caridade. E a sua
esmola, o pão, que por igual aviventa nos berços a inocência, renova a
energia ao cavador, e piedosamente desce às geenas túrbidas dos míseros
proscritos que em desgraça e no crime resvalaram--o pão gerado para
criar o sangue é também sacramento que une a alma a todas as divinas
forças que o geraram, partícula de insondáveis mundos e infinitos de
poder e de amor.
O inspirado rude plebeu que, se o pão caiu no chão, o ergue e o beija,
consagrou na candura religiosa esse mistério que une a nossa alma à
terra e aos céus e só a religião suspeita e adora.