O ATHENEU

[Figura 01]

«Vaes encontrar o mundo, disse-me meu pae, á porta do _Atheneu_.

Coragem para a lucta.

Bastante experimentei depois a verdade d'este aviso, que me despia, num

gesto, das illusões de criança educada exoticamente na estufa de

carinho que é o regimen do amor domestico, differente do que se

encontra fóra, tão differente, que parece o poema dos cuidados

maternos um artificio sentimental, com a vantagem unica de fazer mais

sensivel a creatura á impressão rude do primeiro ensinamento, tempera

brusca da vitalidade na influencia de um novo clima rigoroso.

Lembramo-nos, entretanto, com saudade hypocrita, dos felizes tempos;

como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse

perseguido outr'ora e não viesse de longe a enfiada das decepções que

nos ultrajam.

Euphemismo, os felizes tempos, euphemismo apenas, igual aos outros que

nos alimentam, a saudade dos dias que correram como melhores. Bem

considerando, a actualidade é a mesma em todas as datas. Feita a

compensação dos desejos que variam, das aspirações que se

transformam, alentadas perpetuamente do mesmo ardor, sobre a mesma base

phantastica de esperanças, a actualidade é uma. Sob a coloração

cambiante das horas, um pouco de ouro mais pela manhã, um pouco mais de

purpura ao crepusculo--a paysagem é a mesma de cada lado beirando a

estrada da vida.

Eu tinha onze annos.

Frequentara como externo, durante alguns mezes, uma escola familiar do

Caminho Novo, onde algumas senhoras inglezas, sob a direcção do pae,

distribuiam educação á infancia como melhor lhes parecia. Entrava ás

nove horas, timidamente, ignorando as licções com a maior

regularidade, e bocejava até ás duas, torcendo-me de insipidez sobre

os carcomidos bancos que o collegio comprara, de pinho e usados,

lustrosos do contacto da malandragem, de não sei quantas gerações de

pequenos. Ao meio-dia, davam-nos pão com manteiga. Esta recordação

gulosa é o que mais pronunciadamente me ficou dos mezes de externato;

com a lembrança de alguns companheiros--um que gostava de fazer rir á

aula, especie interessante de mono louro, arrepiado, vivendo a morder,

nas costas da mão esquerda, uma protuberancia callosa que tinha; outro,

adamado, elegante, sempre retirado, que vinha á escola de branco,

engommadinho e radioso, fechada a blusa em diagonal do hombro á cinta

por botões de madreperola. Mais ainda: a primeira vez que ouvi certa

injuria crespa, um palavrão cercado de terror no estabelecimento, que

os partistas denunciavam ás mestras por duas iniciaes como em

monogramma.

Leccionou-me depois um professor em domicilio.

Apezar d'este ensaio da vida escolar a que me sujeitou a familia, antes

da verdadeira provação, eu estava perfeitamente virgem para as

sensações novas da nova phase. O internato! Destacada do conchego

placentario da dieta caseira, vinha proximo o momento de se definir a

minha individualidade. Amarguei por antecipação o adeus ás primeiras

alegrias; olhei triste os meus brinquedos, antigos já! os meus queridos

pelotões de chumbo! especie de museu militar de todas as fardas, de

todas as bandeiras, escolhida amostra da força dos estados, em

proporções de microscopio, que eu fazia formar a combate como uma

ameaça tenebrosa ao equilibrio do mundo; que eu fazia guerrear em

desordenado aperto,--massa tempestuosa das antipathias geographicas,

encontro definitivo e ebullição dos seculares odios de fronteira e de

raça, que eu pacificava por fim, com uma facilidade de Providencia

Divina, intervindo sabiamente, resolvendo as pendencias pela concordia

promiscua das caixas de páu. Força era deixar á ferrugem do abandono

o elegante vapor da linha circular do lago, no jardim, onde talvez não

mais tornasse a perturbar com a palpitação das rodas a somnolencia

morosa dos peixinhos rubros, dourados, argentados, pensativos á sombra

dos tinhorões, na transparencia adamantina da agua...

Mas um movimento animou-me, primeiro estimulo sério da vaidade:

distanciava-me da communhão da familia, como um homem! ia por minha

conta empenhar a lucta dos merecimentos; e a confiança nas proprias

forças sobrava. Quando me disseram que estava a escolha feita da casa

de educação que me devia receber, a noticia veio achar-me em armas

para a conquista audaciosa do desconhecido.

Um dia, meu pae tomou-me pela mão, minha mãe beijou-me a testa,

molhando-me de lagrimas os cabellos e eu parti.

Duas vezes fôra visitar o _Atheneu_ antes da minha installação.

_Atheneu_ era o grande collegio da época. Afamado por um systema de

nutrida reclame, mantido por um director que de tempos a tempos

reformava o estabelecimento, pintando-o geitosamente de novidade, como

os negociantes que liquidara para recomeçar com artigos de ultima

remessa; o _Atheneu_ desde muito tinha consolidado credito na

preferencia dos paes, sem levar em conta a sympathia da meninada, a

cercar de acclamações o bombo vistoso dos annuncios.

O Dr. Aristarcho Argollo de Ramos, da conhecida familia do visconde de

Ramos, do Norte, enchia o imperio com o seu renome de pedagogo. Eram

boletins de propaganda pelas provincias, conferencias em diversos pontos

da cidade, a pedidos, á sustancia, atochando a imprensa dos logarejos,

caixões, sobre tudo, de livros elementares, fabricados ás pressas com o

offegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anonymos,

caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as

escolas publicas de toda parte com a sua invasão de capas azues,

roseas, amarellas, em que o nome de Aristarcho, inteiro e sonoro,

offerecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alphabeto dos confins

da patria. Os logares que os não procuravam eram um bello dia

surprehendidos pela enchente, gratuita, espontanea, irresistivel! E não

havia senão acceitar a farinha d'aquella marca para o pão do espirito.

[Figura 02]

E engordavam as letras, á força, d'aquelle pão. Um

benemerito. Não admira que em dias de gala, intima ou nacional, festas

do collegio ou recepções da corôa, o largo peito do grande educador

desaparecesse sob constellações de pedraria, opulentando a nobreza de

todos os honorificos berloques.

Nas occasiões de apparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não

só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de

grillos: _Atheneu_! _Atheneu_! Aristarcho todo era um annuncio. Os

gestos, calmos, soberanos, eram de um rei--o autocrata excelso dos

syllabarios; a pausa hieratica do andar deixava sentir o esforço, a

cada passo, que elle fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso

do ensino publico; o olhar fulgurante, sob a crispação aspera dos

supercilios de monstro japonez, penetrando de luz as almas

circumstantes--era a educação da intelligencia; o queixo, severamente

escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciencias

limpas--era a educação moral. A propria estatura, na immobilidade do

gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia d'elle: aqui está um

grande homem... não vêem os covados de Golias?!... Retorça-se sobre

tudo isto um par de bigodes, volutas massiças de fios alvos, torneadas

a capricho, cobrindo os labios, fecho de prata sobre o silencio de ouro,

que tão bellamente impunha como o retrahimento fecundo do seu

espirito,--teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do

illustre director. Em summa, um personagem que, ao primeiro exame,

produzia-nos a impressão de um enfermo, d'esta enfermidade atroz e

estranha: a obsessão da propria estatua. Como tardasse a estatua,

Aristarcho interinamente satisfazia-se com a affluencia dos estudantes

ricos para o seu instituto. De facto, os educandos do _Atheneu_

significavam a fina flôr da mocidade brasileira.

A irradiação da reclame alongava de tal modo os tentaculos através do

paiz, que não havia familia de dinheiro, enriquecida pela septentrional

borracha ou pela charqueada do sul, que não reputasse um compromisso de

honra com a posteridade domestica mandar d'entre seus jovens, um, dois,

tres representantes abeberar-se á fonte espiritual do _Atheneu_.

Fiados nesta selecção apuradora, que é commum o erro sensato de

julgar melhores familias as mais ricas, succedia que muitas,

indifferentes mesmo e sorrindo do estardalhaço da fama, lá mandavam os

filhos. Assim entrei eu.

A primeira vez que vi o estabelecimento, foi por uma festa de

encerramento de trabalhos.

Transformara-se em amphitheatro uma das grandes salas da frente do

edificio, exactamente a que servia de capella; paredes estucadas de

sumptuosos relevos, e o tecto aprofundado em largo medalhão, de

magistral pintura, onde uma aberta de céu azul despenhava aos cachos

deliciosos anginhos, ostentando atrevimentos roseos de carne, agitando os

minusculos pés e as mãozinhas, desatando fitas de gaze no ar.

Desarmado o oratorio, construiram-se bancadas circulares, que encobriam

o luxo das paredes. Os alumnos occupavam a archibancada. Como a maior

concorrencia preferia sempre a exhibição dos exercicios gymnasticos,

solemnisada dias depois do encerramento das aulas, a accommodação

deixada aos circumstantes era pouco espaçosa; e o publico, paes e

correspondentes em geral, porém mais numeroso do que se esperava, tinha

que transbordar da sala da festa para a immediata. Desta ante-sala,

trepado a uma cadeira, eu espiava. Meu pae ministrava-me informações.

Diante da archibancada, ostentava-se uma mesa de grosso panno verde e

borlas de ouro. Lá estava o director, o ministro do imperio, a

commissão dos premios. Eu via e ouvia. Houve uma allocução commovente

de Aristarcho; houve discursos de alumnos e mestres; houve cantos,

poesias declamadas em diversas linguas. O espectaculo communicava-me

certo prazer respeitoso. O director, ao lado do ministro, de acanhado

physico, fazia-o incivilmente desapparecer na brutalidade de um

contraste escandaloso. Em _grande tenue_ dos dias graves, sentava-se,

elevado no seu orgulho como em um throno. A bella farda negra dos

alumnos, de botões dourados, infundia-me a consideração timida de um

militarismo brilhante, apparelhado para as campanhas da sciencia e do

bem. A letra dos cantos, em côro dos falsetes indisciplinados da

puberdade; os discursos, visados pelo director, pansudos de sisudez, na

bocca irreverente da primeira idade, como um Cendrillon mal feito da

burguezia conservadora, recitados em monotonia de realejo e gestos

rodantes de manivella, ou exaggerados, de voz cava e caretas de tragedia

fora de tempo, eu recebia tudo convictamente, como o texto da biblia do

dever; e as banalidades profundamente lançadas como as sabias maximas

do ensino redemptor. Parecia-me estar vendo a legião dos amigos do

estudo, mestres á frente, na investida heroica do obscurantismo,

agarrando pelos cabellos, derribando, calcando aos pés a Ignorancia e o

Vicio, miserrimos trambolhos, consternados e esperneantes.

Um discurso principalmente impressionou-me. Á direita da commissão dos

premios, ficava a tribuna dos oradores. Galgou-a firme, tezinho, o

Venancio, professor do collegio, a quarenta mil réis por materia, mas

importante, sabendo falar grosso, o timbre de independencia, mestiço de

bronze, pequenino e tenaz, que havia de varar carreira mais tarde. O

discurso foi o confronto chapa dos torneios medievaes com o moderno

certamen das armas da intelligencia; depois, uma prelecção pedagogica,

tacheada de flôres de rhetorica a martello; e a apologia da vida de

collegio, seguindo-se a exaltação do Mestre em geral e a exaltação,

em particular, de Aristarcho e do _Atheneu_. «O mestre perorou

Venancio, é o prolongamento do amor paterno, é o complemento da

ternura das mães, o guia-zeloso dos primeiros passos, na senda

escabrosa que vae ás conquistas do saber e da moralidade. Experimentado

no labutar quotidiano da sagrada profissão, o seu auxilio ampara-nos

como a Providencia na terra; escolta-nos assiduo como um anjo de guarda;

a sua licção prudente esclarece-nos a jornada inteira do futuro.

Devemos ao pae a existencia do corpo; o mestre cria-nos o espirito

(sorites de sensação), e o espirito é a força que impelle, o impulso

que triumpha, o triumpho que nobilita, o ennobrecimento que glorifica,

e a gloria é o ideal da vida, o louro do guerreiro, o carvalho do

artista, a palma do crente! A familia é o amor no lar, o estado é a

segurança civil; o mestre, com o amor forte que ensina e corrige,

prepara-nos para a segurança intima inapreciavel da vontade. Acima de

Aristarcho--Deus! Deus tão sómente; abaixo de Deus--Aristarcho.»

Um ultimo gesto espaçoso, como um jamegão no vacuo, arrematou o rapto

de eloquencia.

Eu me sentia compenetrado d'aquillo tudo; não tanto por entender bem,

como pela facilidade da fé cega a que estava disposto. As paredes

pintadas da ante-sala imitavam porphyro verde; em frente ao portico

aberto para o jardim, graduava-se uma ampla escada, caminho do andar

superior. Flanqueando a majestosa porta d'esta escada, havia dous

quadros de alto relevo: á direita, uma allegoria das artes e do estudo;

á esquerda, as industrias humanas, meninos nús como nos frisos de

Kaulbach, risonhos, com a ferramenta symbolica--psychologia, pura do

trabalho, modelada idealmente na candura do gesso e da innocencia. Eram

meus irmãos! Eu estava a esperar que um d'elles, convidativo, me

estendesse a mão para o bailado feliz que os levava. Oh! que não seria

o collegio, traducção concreta da allegoria, ronda angelica de

corações á porta de um templo, dulia permanente das almas jovens no

ritual austero da virtude!

Por occasião da festa da gymnastica, voltei ao collegio.

O _Atheneu_ estava situado no Rio Comprido, extremo, ao chegar aos

morros.

As eminencias de sombria pedra e a vegetação selvatica debruçavam

sobre o edificio um crepusculo de melancolia, resistente ao proprio sol

a pino dos meios-dias de Novembro. Esta melancolia era um plagio ao

detestavel pavor monacal de outra casa de educação, o negro Caraça de

Minas. Aristarcho dava-se palmas d'esta tristeza aerea--a atmosphera

moral da meditação e do estudo, definia, escolhida a dedo para maior

luxo da casa, como um appendice minimo da architectura.

No dia da _festa da educação physica_, como rezava o programma

(programma de arromba, porque o secretario do director tinha o talento

dos programmas) não percebi a sensação de ermo tão accentuada em

sitios montanhosos, que havia de notar depois. As galas do momento

faziam sorrir a paysagem. O arvoredo do immenso jardim, entretecido a

côres por mil bandeiras, brilhava ao sol vivo com o esplendor de

estranha alegria; os vistosos pannos, em meio da ramagem, fingiam

flôres collossaes, numa caricatura extravagante de primavera; os galhos

fructificavam em lanternas venezianas, pomos de papel enormes, de uma

uberdade carnavalesca. Eu ia carregado, no impulso da multidão. Meu pae

prendia-me solidamente o pulso, que me não extraviasse.

Mergulhado na onda, eu tinha que olhar para cima, para respirar. Adiante

de mim, um sujeito mais proximo fez-me rir; levava de fóra a fralda da

camisa... Mas não era fralda; verifiquei que era o lenço. Do chão

subia um cheiro forte de canella pisada; através das arvores, com

intervallos, passavam rajadas de musica, como uma tempestade de

philarmonicas.

Um ultimo aperto mais rijo, estalando-me as costellas, espremeu-me, por

um estreito córte de muro, para o espaço livre.

Em frente, um gramal vastissimo. Rodeava-o uma ala de galhardetes,

contentes no espaço, com o pittoresco dos tons energicos cantando vivo

sobre a harmoniosa surdina do verde das montanhas. Por todos os lados

apinhava-se o povo. Voltando-me, divisei, ao longo do muro, duas linhas

de estrado com cadeiras quasi exclusivamente occupadas por senhoras,

fulgindo os vestuarios, em violenta confusão de colorido. Algumas

protegiam o olhar com a mão enluvada, com o leque, á altura da fronte,

contra a rutilação do dia, num bloco de nuvens que crescia do céu.

Acima do estrado, balouçavam docemente e sussurravam bosquetes de

bambú, projectando franjas longuissimas de sombra pelo campo de relva.

Algumas damas empunhavam binoculos. Na direcção dos binoculos

distinguia-se um movimento alvejante. Eram os rapazes. «Ahi vêm!

disse-me meu pae; vão desfilar por diante da princeza.» A princeza

imperial, Regente nessa época, achava-se á direita em gracioso

palanque de sarrafos.

Momentos depois adiantavam-se por mim os alumnos do _Atheneu_. Cerca de

trezentos; produziam-me a impressão do innumeravel. Todos de branco,

apertados em larga cinta vermelha, com alças de ferro sobre os quadris

e na cabeça um pequeno gorro cingido por um cadarço de pontas livres.

Ao hombro esquerdo traziam laços distinctivos das turmas. Passaram a

toque de clarim, sopesando os petrechos diversos dos exercicios.

Primeira turma, os _halteres_; segunda, as _massas_; terceira, as

_barras_.

Fechavam a marcha, desarmados, os que figurariam simplesmente nos

exercicios geraes.

Depois de longa volta, a quatro de fundo, dispozeram-se em pelotões,

invadiram o gramal, e, cadenciados pelo rhythmo da banda de collegas,

que os esperava no meio do campo, com a certeza de amestrada disciplina,

produziram as manobras perfeitas de um exercito sob o commando do mais

raro instructor.

Diante das fileiras, Bataillard, o professor de gymnastica, exultava,

envergando a altivez do seu successo na extremada elegancia do talhe,

multiplicando por milagroso desdobramento o compendio inteiro da

capacidade profissional, exhibida em galeria por uma serie infinita de

attitudes. A admiração hesitava a decidir-se pela formosura masculina

e rija da plastica de musculos a estalar o brim do uniforme, que elle

trajava branco como os alumnos, ou pela nervosa celeridade dos

movimentos, effeito electrico de lanterna magica, respeitando-se na

variedade prodigiosa a unidade da correcção suprema.

Ao peito tilintavam-lhe as agulhetas do commando appensas de cordões

vermelhos em trança. Elle dava as ordens fortemente, com uma vibração

penetrante de corneta que dominava á distancia, e sorria á docilidade

mecanica dos rapazes. Como officiaes subalternos, auxiliavam-no os

chefes de turma, postados devidamente com os pelotões, sacudindo á

manga distinctivos de fita verde e canutilho.

Acabadas as evoluções, apresentaram-se os exercicios. Musculos do

braço, musculos do tronco, tendões dos jarretes, a theoria toda do

_corpore sano_ foi praticada valentemente alli, precisamente, com a

simultaneidade exacta das extensas machinas. Houve após, o assalto aos

apparelhos. Os apparelhos alinhavam-se a uma banda do campo, a começar

do palanque da Regente. Não posso dar idéa do deslumbramento que me

ficou d'esta parte. Uma desordem de contorsões, deslocadas e atrevidas;

uma vertigem de volteios á barra fixa, temeridades acrobaticas ao

trapezio, ás perchas, ás cordas, ás escadas; pyramides humanas sobre

as parallelas, deformando-se para os lados em curvas de braços e

ostentações vigorosas de thorax; fórmas de estatuaria viva, tremulas

de esforço, deixando adivinhar de longe o estalido dos ossos

desarticulados; posturas de transfiguração sobre invisivel apoio; aqui

e alli uma cabecinha loura, cabellos em desordem cacheados á testa, um

rosto injectado pela inversão do corpo, labios entre-abertos offegando,

olhos semi-cerrados para escapar á areia dos sapatos, costas de suor,

collando a blusa em pasta, gorros sem dono que caíam do alto e juncavam

a terra; movimento, enthusiasmo por toda a parte e a soalheira, branca

nos uniformes, queimando os ultimos fogos da gloria diurna sobre aquelle

triumpho espectaculoso da saude, da força, da mocidade.

O professor Bataillard, enrubecido de agitação, rouco de commandar,

chorava de prazer. Abraçava os rapazes indistinctamente. Duas bandas

militares, revezavam-se activamente, communicando a animação á massa

dos espectadores. O coração pulava-me no peito com um alvoroço novo,

que me arrastava para o meio dos alumnos, numa leva ardente de

fraternidade. Eu batia palmas; gritos escapavam-me, de que me arrependia

quando alguem me olhava.

Deram fim á festa os saltos, os pareos de carreira, as luctas romanas e

a distribuição dos premios de gymnastica, que a mão egregia da

Serenissima Princeza e a pouco menos do Esposo Augusto alfinetavam

sobre os peitos vencedores. Foi de vêr-se os jovens athletas aos pares

aferrados, empuxando-se, constringindo-se, rodopiando, rolando na relva

com gritos satisfeitos e arquejos de arrancada; os corredores, alguns em

rigor, respiração medida, beiços unidos, punhos cerrados contra o

corpo, passo miudo e vertiginoso; outros, irregulares, bracejantes,

prodigalisando pernadas, rasgando o ar a pontapés, numa precipitação

desengonçada de avestruz, chegando esbofados, com placas de poeira na

cara, ao poste da victoria.

Aristarcho arrebentava de jubilo. Pozera de parte o comedimento soberano

que eu lhe admirara na primeira festa. De ponto em branco, como a

rapaziada, e chapéo de Chile, distribuia-se numa ubiquidade impossivel

de meio ambiente. Viam-no ao mesmo tempo a festejar os principes com o

rizinho nasal, cabritante, entre lisonjeiro e ironico, desfeito em

etiquetas de reverente subdito e cortezão; viam-no bradando ao

professor de gymnastica, a gesticular com o chapéo seguro pela copa;

viam-no formidavel, com o perfil leonino rugir sobre um discipulo que

fugira aos trabalhos, sobre outro que tinha limo nos joelhos, de haver

luctado em logar humido, gastando tal vehemencia no ralho, que chegava a

ser carinhoso.

O figurino campestre rejuvenescera-o. Sentia as pernas leves e percorria

celeripede a frente dos estrados, cheio de comprimentos para os

convidados especiaes e de interjectivos amaveis para todos. Perpassava

como uma visão de brim claro, subito extincta para reapparecer mais

viva noutro ponto. Aquella expansão vencia-nos; elle irradiava de si,

sobre os alumnos, sobre os espectadores, o magnetismo dominador dos

estandartes de batalha. Roubava-nos dous terços da attenção que os

exercicios pediam; indemnisava-nos com o equivalente em surprezas de

vivacidade, que desprendia de si, profusamente, por erupções de jorro

em roda, por ascensões cobrejantes de gyrandola, que iam ás nuvens, que

baixavam depois serenamente, diluidas na viração da tarde, que os

pulmões bebiam. Actor profundo, realisava ao pé da letra, a valer, o

papel diaphano, subtil, metaphysico, de alma da festa e alma do seu

instituto.

Uma cousa o entristeceu, um pequenino escandalo. Seu filho Jorge, na

distribuição dos premios, recusara-se a beijar a mão da princeza,

como faziam todos ao receber a medalha. Era republicano o pirralho!

Tinha já aos quinze annos as convicções ossificadas na espinha

inflexivel do caracter! Ninguem mostrou perceber a bravura. Aristarcho,

porém, chamou o menino á parte. Encarou-o silenciosamente e--nada

mais. E ninguem mais viu o republicano! Consumira-se naturalmente o

infeliz, cremado ao fogo d'aquelle olhar! Nesse momento as bandas

tocavam o hymno da monarchia jurada, ultima verba do programma.

Começava a anoitecer, quando o collegio formou ao toque de recolher.

Desfilaram acclamados, entre alas de povo, e se foram do campo, cantando

alegremente uma canção escolar.

Á noite houve baile nos tres salões inferiores do lance principal do

edificio e illuminação no jardim.

[Figura 03]

Na occasião em que me ia embora, estavam accendendo luzes variadas de

Bengala diante da casa. O _Atheneu_, quarenta janellas, resplendentes do

gaz interior, dava-se ares de encantamento com a illuminação de fóra.

Erigia-se na escuridão da noite, como immensa muralha de coral

flammante, como um scenario animado de saphira com horripilações

errantes de sombra, como um castello phantasma batido de luar verde

emprestado á selva intensa dos romances cavalheirescos, despertado um

momento da legenda morta para uma entrevista de espectros e

recordações. Um jacto de luz electrica, derivado de fóco invisivel,

feria a inscripção dourada em arco sobre as janellas centraes, no alto

do predio. A uma d'ellas, á sacada, Aristarcho mostrava-se. Na

expressão olympica do semblante transpirava a beatitude de um gozo

superior. Gozava a sensação prévia, no banho luminoso, da

immortalidade a que se julgava consagrado. Devia ser assim:--luz benigna

e fria, sobre bustos eternos, o ambiente glorioso do Pantheon. A

contemplação da posteridade em baixo.

Aristarcho tinha momentos d'estes, sinceros. O annuncio confundia-se com

elle, supprimia-o, substituia-o, e elle gozava como um cartaz que

experimentasse o enthusiasmo de ser vermelho. Naquelle momento, não era

simplesmente a alma do seu instituto, era a propria feição palpavel, a

synthese grosseira do titulo, o rosto, a testada, o prestigio material

de seu collegio, identico com as letras que luziam em aureola sobre a

cabeça. As letras, de ouro; elle, immortal: unica differença.

[Figura 04]

Guardei, na imaginação infantil, a gravura d'esta apotheose com o

atordoamento offuscado, mais ou menos de um sujeito partindo á

meia-noite de qualquer theatro, onde, em magica beata, Deus Padre

pessoalmente se houvesse prestado a concorrer para a grandeza

do ultimo quadro. Conheci-o solemne na primeira festa, jovial na

segunda; conheci-o mais tarde em mil situações, de mil modos; mas o

retrato que me ficou para sempre do meu grande director, foi aquelle--o

bello bigode branco, o queixo barbeado, o olhar perdido nas trevas,

photographia estatica, na ventura de um raio electrico.

É facil conceber a attracção que me chamava para aquelle mundo tão

altamente interessante, no conceito das minhas impressões. Avaliem o

prazer que tive, quando me disse meu pae que eu ia ser apresentado ao

director do _Atheneu_ e á matricula. O movimento não era mais a

vaidade, antes o legitimo instincto da responsabilidade altiva; era uma

consequencia apaixonada da seducção do espectaculo, o arroubo de

solidariedade que me parecia prender á communhão fraternal da escola.

Honrado engano, esse ardor franco por uma empreza ideal de energia e de

dedicação premeditada confusamente, no calculo pobre de uma

experiencia de dez annos.

O director recebeu-nos em sua residencia, com manifestações ultra de

affecto. Fez-se captivante, paternal; abriu-nos amostras dos melhores

padrões do seu espirito, evidenciou as facturas do seu coração. O

genero era bom, sem duvida nenhuma; que apezar do paletot de seda e do

calçado raso com que se nos apresentava, apezar da bondosa

familiaridade com que declinava até nós, nem um segundo o destitui da

altitude de divinisação em que o meu criterio embasbacado o acceitara.

Verdade é que não era facil reconhecer alli, tangivel e em carne, uma

entidade outr'ora da mythologia das minhas primeiras concepções

anthropomorphicas; logo após Nosso Senhor, o qual eu imaginara velho,

feiissimo, barbudo, impertinente, corcunda, ralhando por trovões,

carbonisando meninos com o corisco. Eu aprendera a ler pelos livros

elementares de Aristarcho, e o suppunha velho como o primeiro, porém

rapado, de cara chupada, pedagogica, oculos apocalypticos, carapuça

negra de borla, fanhoso, omnipotente e máu, com uma das mãos para traz

escondendo a palmatoria e doutrinando á humanidade o b-a-bá.

As impressões recentes derogavam o meu Aristarcho; mas a hyperbole

essencial do primitivo transmittia-se ao successor por um mysterio de

hereditariedade renitente. Dava-me gosto então a peleja renhida das

duas imagens e aquella complicação immediata do paletot de seda e do

sapato raso, fazendo alliança com Aristarcho II contra Aristarcho I. no

reino da phantasia. Nisto afagaram-me a cabeça. Era Elle! Estremeci.

«Como se chama o amiguinho?» perguntou-me o director.

--Sergio... dei o nome todo, baixando os olhos e sem esquecer o «seu

criado» da estricta cortezia.

--Pois, meu caro Sr. Sergio, o amigo ha de ter a bondade de ir ao

cabelleireiro deitar fóra estes cachinhos...

Eu tinha ainda os cabellos compridos, por um capricho amoroso de rainha

mãe. O conselho era visivelmente salgado de censura. O director,

explicando a meu pae, accrescentou com o rizinho nasal que sabia fazer:

«Sim, senhor, os meninos bonitos não provam bem no meu collegio...»

--Peço licença para defender os meninos bonitos... objectou alguem

entrando.

Surprehendendo-nos com esta phrase, unctuosamente escoada por um

sorriso, chegou a senhora do director, D. Emma. Bella mulher em plena

prosperidade dos trinta annos de Balzac, fórmas alongadas por graciosa

magreza, erigindo, porém, o tronco sobre quadris amplos, fortes como a

maternidade; olhos negros, pupillas retintas, de uma côr só, que

pareciam encher o talho folgado das palpebras; de um moreno rosa que

algumas formosuras possuem, e que seria tambem a côr do jambo, se jambo

fosse rigorosamente o fructo prohibido. Adiantava-se por movimentos

oscillados, cadencia de menuetto harmonioso e molle que o corpo

alternava. Vestia setim preto justo sobre as fórmas, reluzente como

panno molhado; e o setim vivia com ousada transparencia a vida occulta

da carne. Esta apparição maravilhou-me.

Houve as apresentações de ceremonia, e a senhora com um nadinha de

excessivo desembaraço sentou-se no divan perto de mim.

--Quantos annos tem? perguntou-me.

--Onze annos...

--Parece ter seis, com estes lindos cabellos.

Eu não era realmente desenvolvido. A senhora colhia-me o cabello nos

dedos:

--Córte e offereça a mamãe, aconselhou com uma caricia; é a infancia

que ahi fica, nos cabellos louros... Depois, os filhos nada mais têm

para as mães...

O poemeto de amor materno deliciou-me como uma divina musica. Olhei

furtivamente para a senhora. Ella conservava sobre mim as grandes

pupillas negras, lucidas, numa expressão de infinda bondade! Que boa

mãe para os meninos, pensava eu. Depois, voltada para meu pae, formulou

sentidamente observações a respeito da solidão das crianças no

internato.

--Mas o Sergio é dos fortes, disse Aristarcho, apoderando-se da

palavra. Demais, o meu collegio é apenas maior que o lar domestico. O

amor não é precisamente o mesmo, mas os cuidados de vigilancia são

mais activos. São as crianças os meus predilectos. Os meus esforços

mais desvelados são para os pequenos. Se adoecem e a familia está

fóra, não os confio a um correspondente... Trato-os aqui, em minha

casa. Minha senhora é a enfermeira. Queria que o vissem os

detractores...

Enveredando pelo thema querido do elogio proprio e do _Atheneu_, ninguem

mais pôde falar...

Aristarcho, sentado, de pé, cruzando terriveis passadas,

immobilisando-se a repentes inesperados, gesticulando como um tribuno de

_meetings_, clamando como para um auditorio de dez mil pessoas,

majestoso sempre, alçando os padrões admiraveis, como um leiloeiro, e

as opulentas facturas, desenrolou, com a memoria de uma ultima

conferencia, a narrativa dos seus serviços á causa santa da

instrucção. Trinta annos de tentativas e resultados, esclarecendo como

um pharol diversas gerações agora influentes no destino do paiz! E as

reformas futuras? Não bastava a abolição dos castigos corporaes, o

que já dava uma benemerencia passavel. Era preciso a introducção do

methodos novos, suppressão absoluta dos vexames de punição,

modalidades aperfeiçoadas no systema das recompensas, ageitação dos

trabalhos, de maneira que seja a escola um paraiso; adopção de normas

desconhecidas cuja efficacia elle presentia, perspicaz como as aguias.

Elle havia de crear... um horror, a transformação moral da sociedade!

Uma hora trovejou-lhe á bocca, em sanguinea eloquencia, o genio do

annuncio. Mirámol-o na inteira expansão oral, como, por occasião das

festas, na plenitude da sua vivacidade pratica. Contemplavamos (eu com

aterrado espanto) distendido em grandeza épica--o _homem sandwich_ da

educação nacional, lardeado entre dous monstruosos cartazes. Ás

costas, o seu passado incalculavel de trabalhos; sobre o ventre, para a

frente, o seu futuro: a reclame dos immortaes projectos.

O Atheneu (chronica de saudades) · 第 12 / 24 题