SCENA I.

Viscondessa de Valbom, D. Julia, Jorge, visconde de Valbom.

_Um creado com uma bandeja, recebe as chavenas do chá; e retira-se_.

Viscondessa (_a Jorge_).--A snr.^a D. Leocadia não virá?

Jorge.--É natural que venha.

Viscondessa.--Com o capellão?

Jorge.--Sim... com o capellão...

Viscondessa (_a Julia_).--O snr. Alvaro que andará a fazer?

Julia.--Naturalmente... das suas...

Visconde.--Das suas... isso que quer dizer?! Alvaro é o exemplo da

honradez personalisada...

Julia.--Agradecida a v. exc.^a, snr. visconde.

Viscondessa.--Não tem de que, menina. Seu marido é um anjo, e a

sociedade faz-lhe justiça. A reputação que elle tem grangeado é a prova

infallivel das suas virtudes. Elle, e aqui o snr. Jorge são os dous

cavalheiros mais queridos da nossa roda. Foram rapazes, sem rapaziadas.

São maridos, sem mancha, e hão-de ser sempre modêlos de probidade a

todos os respeitos.

Jorge.--Muito grato, minha senhora. Tenho empregado todos os esforços

por merecer á sociedade um bom conceito, e creio que o tenho

conseguido...

Viscondessa.--Porque o merece. Se o não merecesse, creia que o não

teria, porque a opinião publica é justiceira, e nunca se engana com os

bons, ou com os maus... Não se lembra da opinião que teve Eduardo?

Jorge.--Uma pessima opinião.

Visconde.--Oh! de certo, aquillo era um homem com uma lingua depravada,

e costumes horriveis...

Viscondessa.--Mas vejam que lhe chegou a sua hora de reflexão.

Retirou-se completamente da sociedade; viveu tres mezes encerrado

comsigo mesmo na solidão, e voltou para o mundo completamente

desfigurado. É outro homem...

Julia.--Totalmente outro.

Visconde.--Faz mesmo espantar a differença que o homem fez!...

Jorge.--É pasmosa!

Viscondessa.--As suas palavras são todas serias, medidas, e reflectidas.

Os seus modos são circumspectos, civis, e insinuantes. O seu vestir é

muito grave, muito decente, e muito sisudo... Dizem-me que dá esmolas...

tenho lido nos jornaes alguns actos de philantropia que o honram

muito... em fim, está um cavalheiro, que não deixa nada a desejar! Vejam

o que são as cousas!... Aqui ha quatro mezes, se elle me olhasse para

uma das minhas creadas, despedil-a-hia immediatamente; e hoje, se eu

tivesse uma filha, dava-lh'a com immensa satisfação...

Jorge.--Muito se lucra, quando se é honrado!...

Visconde.--Pois não! Não ha nada como a honra!

Jorge.--Oh! a honra é a salvaguarda de todas as inquietações!

Viscondessa.--Que precipicios não encontrou Eduardo em quanto se deixou

hir á mercê dos seus extravagantes desejos!...

Visconde.--Oh!... era insoffrivel!... Nunca se viu assim uma

libertinagem!...

Julia.--Ouvi fallar tão mal d'esse homem, e nunca me disseram

distinctamente os seus crimes.

Visconde.--Immensos, immensos...

Viscondessa.--Immensissimos, immensissimos...

Julia.--Mas posso eu saber algum d'elles?

Visconde.--Eu não sei de nenhum; mas dizem por ahi que são muitos...

muitos...

Julia.--E a snr.^a viscondessa sabe quaes são?

Viscondessa.--Tambem não sei; mas, na boa roda, diziam que elle era um

prodigio de immoralidade...

Julia.--E o snr. Jorge? Esse ha-de saber muitas cousas...

Jorge.--Creio que ha muitas scenas horriveis na vida d'esse homem,

todavia, eu não sei nenhuma...

Julia.--Mas vive com elle ha mais de sete annos...

Jorge.--É verdade... mas, como elle me não chamava a testemunhar os seus

desvarios, nada sei...

Julia.--O que se segue é que nenhum de nós sabe dizer em que consistiu a

depravação de Eduardo!...

Viscondessa.--A sociedade não se engana, menina. Ella que o condemnou lá

sabe os motivos porque o fez. A virtude não é nunca infamada. Veja lá se

seu marido, e aqui o snr. Jorge foram victimas da calumnia!...

Julia.--Mas eu queria que me citassem um crime de Eduardo...

Um creado--O snr. Eduardo...

Scenas Contemporaneas · 第 109 / 121 题