Leocadia _e_ Eduardo.
Leocadia.--V. s.^a tem sempre um humor tão alegre...
Eduardo.--Será isto idiotismo? Já me lembrou se eu seria tão doudo como
por ahi me julgam!
Leocadia.--Quem o julga doudo?!
Eduardo.--É toda essa sociedade...
Leocadia.--Doudo... não!... Dizem que v. s.^a não tem persistencia em
cousa nenhuma; e escarnece tudo...
Eduardo.--Em quanto á persistencia, é falso o que dizem, minha senhora,
e sinto que v. exc.^a, tão distincta do commum, queira ser o ecco das
opiniões vulgares da rançosa sociedade... Não sou inconstante...
Leocadia.--A quem diz isso? Pois não sei eu a sua vida!... Só namoros,
tenho-lhe conhecido cincoenta.
Eduardo.--Serão mais, talvez; mas... que namoros!... V. exc.^a não se
recorda de que foi meu namoro vinte minutos no baile do barão de Valbom?
(_Leocadia abaixa os olhos_). Pois os taes cincoenta namoros foram todos
assim... Não sou constante, porque não encontrei ainda uma mulher, que
possa adorar-se seriamente. Não ha paixão que o ridiculo não mate. As
minhas tem todas soffrido morte de gargalhada.
Leocadia.--Pois não amou nunca seriamente?
Eduardo.--Eu lhe digo, minha senhora... amei... Vou contar-lhe a minha
vida; mas só lhe digo os argumentos dos capitulos que são tres.
_Capitulo_ 1.^o Conta-se que Eduardo Leite amou diabolicamente uma
mulher, aos dezeseis annos, e fez tantas loucuras por ella, que, não
tendo mais que fazer, quiz suicidar-se com pós dos ratos, e foi uma tia
que lhe valeu com um copo de azeite... Pois v. exc.^a ri-se das minhas
desgraças!... E eu suppunha que a fazia chorar!... Estou como certo
dramaturgo que endoudeceu porque a platéa se riu justamente no pedaço
mais triste da tragedia!...
Leocadia.--É que v. s.^a dá um colorido comico ás scenas mais tristes...
Eduardo.--_Capitulo_ 2.^o No qual se diz que o dito Eduardo Leite fez
tristissima figura, vociferando injurias contra as mulheres,
emmagrecendo na razão inversa da hydropesia do scepticismo, e passeando
de noite nas Fontainhas, perguntando ás estrellas pela mulher dos seus
sonhos, e bebendo agua no chafariz para refrigerar o vulcão, que lhe
queimava as entranhas. Dizem-se outras muitas cousas tristes a este
respeito, como por exemplo um duello que elle teve com o seu rival, de
que lhe resultou estar quinze dias de cama, com uma bala mettida n'um
hombro. Que lhe parece o segundo capitulo?
Leocadia (_sorrindo_).--É funebre; mas faz-lhe muita honra...
Eduardo.--Estou por isso... É uma honra muito grande...
Leocadia.--Pois não é? ser ferido em duello por causa d'uma senhora!...
Quem seria a ditosa?
Eduardo.--Era a filha do meu sapateiro, minha senhora...
Leocadia (_com seriedade_).--Não diga tal... V. s.^a não se fascinava
por tal mulher!...
Eduardo.--Pois fascinei-me... Era linda como a edição mais nitida, que
sahiu da typographia celeste. Nos seus olhos espelhava-se a candura, e
dos labios fugiam-lhe espiritos d'azas scintillantes, como não vi em
nenhuns, excepto nos de v. exc.^a...
Leocadia.--Dispenso a comparação...
Eduardo.--E faz bem, minha senhora!... Ella por fim, cahiu do ministerio
a que eu a levantei, e tornou-se uma gorda matrona casada com um gordo
bate-folha, que é a minha vergonha porque teve a petulancia de luctar
comigo, e vencer-me...
Leocadia.--E foi esse que teve o duello com v. s.^a?
Eduardo.--Nada... foi uma segunda victima, que ainda hoje faz quadras a
uma certa visão que lhe appareceu no amanhecer da vida... E esta visão é
a sobredita filha do meu sapateiro...
Leocadia.--A sua vida é um poema epico... E o terceiro capitulo?
Eduardo.--É verdade, o terceiro capitulo... O terceiro capitulo... é
isto... É este riso, esta zombaria, esta conscienciosa abnegação de mim
mesmo... é a resignada docilidade com que me prestei a ser o instrumento
de v. exc.^a para ferir a vaidade de seu marido... Queira
desculpar-me... Entristeci-a? O passado, passado... Quer v. exc.^a que
eu lhe escolha duas conchinhas? (_Procurando na areia_). Aqui está uma
bem bonita... (_Reparando_). Ahi vem a sua amiga Julia...
Leocadia (_sobresaltada_).--Ai!... vem?...
Eduardo.--Como se dá ella com o marido, sabe dizer-me?
Leocadia.--Não sei.. penso que não é feliz...