SCENA I.

Julia, _e_ Leocadia, _entrando, como fatigadas, sentam-se n'um

sophá._ Julia _tira da cabeça uma grinalda de flôres brancas, que

arremessa com desdem sobre o sophá_.

Julia.--Afflige-me tudo!... Tomára-me eu na minha liberdade, Leocadia!

Não goso nada... Tanta luz parece um insulto á escuridão da minha

alma... Queria-me sosinha...

Leocadia.--Não tens paciencia nenhuma, Julia!... Que é o que te afflige

assim?

Julia.--Que é!... É aquelle homem... Sempre aquelle homem!... não ha

nada que o desengane...

Leocadia.--Nem as palavras?!

Julia.--Eu sei!... nem as palavras, talvez...

Leocadia.--Porque não és franca?! Eu, de mim, na tua posição, tinha-lhe

dito: «não me persiga!» É o que eu já disse a Eduardo...

Julia.--Eu não sei dizer isso... Acho que é aviltar demasiadamente um

homem... Pois tão estupido é elle, que precisa uma franqueza tão

impropria d'uma senhora? Tenho feito tudo que póde desenganar um

homem... Teima, persegue-me, flagella-me... é insupportavel!... Ainda ha

pouco, entre mim e Jorge...

Leocadia (_sobresaltada_).--E Jorge!...

Julia.--Que modo é esse!? Jorge interessa-te!?

Leocadia.--E a ti?

Julia.--A mim?... Pois não sabes...

Leocadia.--O que?... não sabia... Elle ama-te?

Julia.--Tem-m'o dito...

Leocadia.--Elle!... tem t'o dito... Jorge!...

Julia.--E tambem a ti?... Falla depressa...

Leocadia (_contrafeita_).--Não... a mim... não... mas a ti... sim?

Julia.--Penso que sim... mas esse descorar... Leocadia!...

Leocadia.--Fui eu que me enganei... Pensava...

Julia.--Talvez te não enganasses... Que te disse elle?

Leocadia.--Nada... Vamos nós á sala?...

Julia.--Já?!... Eu não vou já... Vai tu, se queres...

Leocadia.--Que é o que me querias dizer?... Disseste que entre ti e

Jorge...

Julia.--Estava uma cadeira de vago... Alvaro vinha occupal-a, e eu

ergui-me de repente, e occupei-a primeiro...

Leocadia.--E Alvaro... nem assim...

Julia.--Me comprehendeu... Sentou-se na immediata, e disse não sei que

frioleira...

Leocadia.--Se tu és tão amavel!...

Julia.--Ai!... tu queres imital-o?! É o que elle me diz cem vezes em

cada baile...

Leocadia.--Uma verdade, por muito repetida, nunca perde o merecimento...

Julia.--Que maneira de fallar!... Quem me dera adivinhar-te! Tu amas

Jorge!...

Leocadia.--Não, menina... Eu não amo ninguem...

Julia.--Ninguem?! nem a tua Julia?

Leocadia.--A minha Julia não póde repartir o seu coração... Não quero

entrar em partilha com Jorge... O peor quinhão seria para mim, porque

não ha nada superior a elle... Ficas?

Julia.--Fico a scismar... Vem cá, Leocadia... sê franca, senão... não

sou tua amiga... Jorge será um impostor?...

Leocadia.--Perguntasm'o a mim!? Eu não sei...

Julia.--Terá tido a mesma linguagem para ambas?

Leocadia.--Disse que te amava?... A mim... não me disse nada...

Julia.--Então és tu que o amas?

Leocadia.--Não... Olha, minha amiga, faz de conta que eu ouvi com

perfeita indifferença a tua revelação... Até logo... Ai!... diz-me cá...

O teu namoro é antigo... ou começou aqui?

Julia.--Com Jorge? É muito moderno... Tem um mez... É uma creança, mas

já foi baptisado com lagrimas...

Leocadia.--Já? Pois afaga-o muito na alma... Sê muito feliz.... que eu,

se te não felicitei mais cedo, é porque o não sabia... Vou lá dentro...

Minha mãi deve reparar n'esta ausencia...

Julia.--Não me deixes agora que ahi vem Alvaro... É insupportavel!

Leocadia.--Ora!... que mal te faz o homem?!... Eu volto já... Olha...

diz-lhe que amas Jorge... é impossivel que elle queira sustentar a

competencia... (_Sahe_).

Scenas Contemporaneas · 第 81 / 121 题