Quem disser que em Traz-os-Montes não ha romances, é capaz de dizer que
a lua não tem habitantes, e as alfandegas ratos.
A provincia de Traz-os-Montes é um sertão desconhecido, um retalho de
Portugal segregado da civilisação; mas não deixa por isso de ter uma
chronica de tradições barbaras, que virá archivar-se em folhetins,
quando os caminhos de ferro, construidos pelos capitalistas da
Ovelhinha, aproximarem o contacto das intelligencias com as florestas
virgens d'aquella região polar.
Esse dia amanhecerá bem cedo. A aurora da civilisação madrugou para
todos. A viabilidade discute-se á lareira. Mais d'um juiz das almas se
extasia nas vastas theorias do caminho de ferro. O regedor de parochia
rural, auxiliado pelo cura, apostolisam no adro, aos domingos, a theoria
do augmento do salario pela facilidade dos transportes. Ha lavradores
que addicionaram á leitura do Borda d'Agua as prelecções escriptas de
economia politica do snr. dr. Carneiro. Alguns esperam concorrer ao
mercado de Sevilha com cereaes e repolhos nas proximas colheitas. O
enthusiasmo é universal. A expansão fervente dos interesses materiaes, a
febre eloquente da viabilidade, os traços profundos e rasgados, com que
as intelligencias financeiras fixam cathegoricamente o dia supremo da
nossa prosperidade, não são já um exclusivo da mocidade jornalistica.
O meu collega Ricardo Guimarães, que salta de noite em cuecas, fóra da
cama, sonhando-se impellido por um wagon, doudeja de jubilo ao vêr-se
comprehendido, no seu ardente apostolado, desde Monção até ao Cabo da
Roca. Lateja-lhe o enthusiasmo nas bossas frontaes, cada vez que o
alvião do operario rasga no seio da terra o tumulo do carroção ignobil!
(Isto era escripto em 1853...)
A mocidade é assim. A força creadora do talento ha-de supprir a
debilidade do thesouro. Onde os capitalistas não chegaram, hirá o artigo
de fundo, palpitante de vida, como um ouragan invencivel, desaterrar a
aterrar com as forças magneticas do genio, com a magia imperiosa dos
periodos arredondados artisticamente.
E, por tanto, a provincia de Traz-os-Montes vai ser aquecida pelas
irradiações do foco civilisador. Um dia, os povos do Marão, agrupados
nas cristas das serranias, verão lá em baixo passar o traço negro do
carril; e cuidarão que um demonio, na cauda d'um raio, lhe talou as
campinas, no dia tremendo das vinganças do Senhor!
Mais tarde, os pavidos moradores da Campeam, illustrados pela leitura
repentina, e pelos artigos de fundo, virão, de sócos e coroça, nas azas
do carril, applaudir os cavallinhos, saborear um ponche no Guichard, e
influir seriamente no futuro da empreza lyrica.
Então, sim! Mondroens, Villarinho de Cotas, e Canellas terão uma
associação industrial, uma caixa filial, um gabinete de leitura, e um
centro promotor das classes laboriosas. O cavador, na hora da sesta
lerá, na vinha, de barriga ao ar, o _Tymes_, e Benjamin Constant. O
proprietario, entregue ás subtilezas economicas, que distinguem o
cabedal da renda, andará em guerra littetaria com o seu visinho da
aldeia proxima, por causa d'uma falsa interpretação aos sophismas de
Bastiat. N'esse dia, serão banidos os estupidos da face da terra. O
proletariado, filho da estupidez, não virá coberto de farrapos pedir um
bocado de pão, no banquete social, por conta do futuro fomento. Pouco
ha-de viver quem não vir tudo isto.
Será então chegado o momento solemne de pedir á provincia do norte a
historia do seu passado. Serão exploradas então as minas de poesia,
entulhadas pelo obscurantismo de longos seculos. Acontecerá muitas vezes
encontrar-se um sóco onde se esperava um borzeguim de castellan. O
leitor pedirá uma heroica lucta de dous infanções armados da fidalga
espada, e verá duas fouces roçadouras decidirem um pleito de apaixonado
melindre.
Mas não será em tudo assim a chronica obscura da provincia, onde vivi
alguns annos, e em poucos dias colhi apontamentos para longos trabalhos
de muito proveito esthetico, plastico, artistico, e não sei mesmo se
cubico, anomalo, e hybrido.
A historia, que vou contar, com innocentissima lealdade, póde ser
confirmada ainda por duas ou tres testemunhas, que, pelo menos, viviam,
ha cinco annos. Fallo assim com orgulhosa authoridade, porque tenho
direito a ser acreditado em romances, que tem a honra de assentarem
n'uma sincera base.
A mentira no romance é uma nodoa, que nausêa o publico illustrado.
Alexandre Dumas, escrevendo um romance intitulado _Martim de Freitas_,
obrigou este heroe a desembarcar em Mafra, nomeou-o alcaide do castello
da Horta, e fez nascer D. Sancho II na Palestina, onde foi baptisado por
um tal monsieur d'Evora, arcebispo de Leiria! É uma cornucopia de
asneiras este litterato, fallando de Portugal.
O publico tem direitos sagrados, e é realmente ultrajar-lh'os, querel-o
capacitar de que Mafra é um porto de mar, e Leiria uma cidade
archiepiscopal, e monsieur d'Evora cidadão portuguez.
Comprehenda-se a missão do romancista. O romance, a viabilidade, e o
fluido transmutativo são a tripeça em que está sentada a civilisação.
Quebrar-lhe um dos pés é dar com ella em terra.