DE ABYSMO EM ABYSMO.

Eu é que não podia satisfazer a minha curiosidade com a descosida

revelação de Valladares.

Muitas vezes acalorei a questão do cynismo, applicando-a a Miquelina;

mas este nome enfurecia-o de tal modo, que as nossas relações estiveram

a romper-se, e reataram-se com a condição de eu nunca lhe tocar

ligeiramente em semelhante assumpto.

Sujeitei-me; mas, na primeira occasião prosperada pelo acaso, alcancei

esclarecimentos, que illucidam a degradação da pobre mulher.

Em 1848, Miquelina vivia ainda no Porto. A sua vida já a sabem. Como

veio ella tão abaixo?

Foi assim:

Alguns dias depois da fuga vergonhosa com o defunto lacaio, Miquelina

foi conduzida a Lisboa. A avó, que pôde sobreviver ao golpe, quiz salvar

a neta da colera do filho. Este ausentára-se para Chaves, no momento em

que a filha entrára em casa. De lá, escrevendo á mãi, dizia-lhe que

désse á infame algum destino, porque, em quanto a sua presença

envergonhasse aquella casa, nunca elle tornaria alli.

D'aquella familia estava em Lisboa um magistrado, tio materno de

Miquelina. Foi este o encarregado de recebêl-a durante alguns mezes na

sua casa.

Não se passaram muitos dias, sem que Miquelina revelasse os seus

instinctos. Namorava escandalosamente um homem, sem nome, que

frequentava as janellas d'um alfaiate, que morava em frente.

O magistrado suspeitou, e prohibiu-lhe o uso das janellas. O homem, que,

por força, havia de ter um nome, e poderia muito bem chamar-se José

Maria, não era tão escasso de meios que não comprasse um creado da casa.

O creado era o intermedio da correspondencia, menos da ultima carta,

surprehendida pelo magistrado. Esta carta authorisava José Maria a

empregar a força judicial para tirar de casa Miquelina. N'esse mesmo

dia, a perigosa «donzella» foi mudada para casa de um general, cunhado

de seu tio.

O general era solteiro, homem de cincoenta e tantos annos bem

conservados, admirador das boas mulheres, e vigoroso ainda para não

desmentir o culto, quando se lhe pedissem provas praticas das theorias

um pouco irrisorias na sua idade.

Tinha comsigo duas irmãs, mais novas, que, _mutatis mutandis_,

professavam as idêas do irmão.

Dito isto, vê-se que a casa, onde Miquelina foi reclusa, era um viveiro

de moral.

Foi bem recebida, e até muito bem aconselhada. As irmãs do general

fallavam muito da virtude, e da honra. Quem as não conhecesse,

acrescentaria duas martyres ineditas ás onze mil virgens conhecidas, de

que Byron duvidou, e eu não me sinto muito propenso a acreditar, nem o

meu amigo Valladares.

O José Maria não sei que fim levou. Seria algum d'esses quatro que em

1845 se precipitaram dos «Arcos das Aguas-livres!?» Se foi, não andou

bem, porque fez as cousas de modo que ninguem falla d'elle. Os

_Werthers_ sabem escolher as occasiões, senão... é melhor deixarem-se

morrer de tedio, que é a morte que me espera a mim, e a ti, leitor, no

fim d'este livro, se não morreres no meio.

O general namorou Miquelina. Namorando-a, seduziu-a. Seduzindo-a,

abriu-lhe a outra meia porta da corrupção.

Porque foi assim que as cousas se passaram:

Miquelina affeiçoou-se ao general, como se affeiçoára a Valladares, ao

lacaio, e ao José Maria. Trazia o cunho da perdição! Era uma d'estas

desgraçadas que a gente vê cahir, cahir, cahir a despeito de todos os

estorvos! Que Deus, ou que demonio imprime o movimento n'estas machinas,

sem coração nem cabeça? Não se sabe! A verdade é que eu sinto vontade de

chorar essas victimas cegas d'um destino barbaro, e tenho furias de

blasphemo quando me dizem que Deus se entremette nas cousas d'este

mundo... Vamos adiante, senão atiro a penna fóra, e rasgo o papel...

Ora já vedes que o general era um devasso, e a pobre menina deve

merecer-vos uma pouca de compaixão, se eu vos afianço que o amou, até ao

ciume.

Disseram-lhe um dia que uma mulher de capote e lenço entrára no quarto

do general, que era ao rez da rua. Miquelina estava doente de cama.

Ergueu-se com febre, vestiu-se precipitadamente, desceu as escadas

cambaleando de fraqueza, escutou á porta do traidor, e ouviu risadas, e

palavras obscenas.

Era noite, quando isto se passava.

As irmãs do general deram pela falta da hospeda, e desceram a procurar o

irmão. Miquelina, quando as sentiu, na incerteza do que devia

responder-lhes, fugiu. Fugindo, achou-se n'uma rua que não conhecia,

atravessou umas poucas, chegou a uma praça onde encontrou umas mulheres

esfarrapadas que a tractaram por tu, e fugiu até deparar as escadas

d'uma igreja, onde um soldado lhe veio dizer palavras desconhecidas.

Fugiu ainda; mas a desgraça corria a par d'ella.

O frio da noite, e a febre do coração aniquilaram-na. Sentou-se n'um

portal, e desmaiou. Uma patrulha deu-lhe com a ponta do pé, e a

desgraçada não respondeu. Tomaram-na como bebeda, e foram seu caminho.

Outra patrulha sacudiu-lhe a cabeça pelos cabellos. Miquelina gemeu,

abriu os olhos, e pediu erguendo as mãos que a deixassem morrer. Estava

perto do hospital de S. José. Os soldados pediram soccorro ao proximo

corpo da guarda, e mandaram-na para lá.

No hospital, deram-lhe uma cama na enfermaria... não sabemos que

enfermaria; mas parece que o facultativo, na visita de manhã, mandou

retirar a mulher para um quarto particular, pago á sua custa.

Que foi o que ella disse ao medico? Nada. Seria n'elle um arrojo de

caridade? Não. «Pois não tens uma palavra boa para explicar uma acção

nobre?» Nobilissimos leitores, deixai-me suppôr que sois melhores

pessoas que o medico. O que elle queria era uma creada, com as feições

de Miquelina. As despezas da cura, além de ficarem encontradas no seu

ordenado, seriam pequenas. Uma febre benigna não resistiria ao

tratamento de oito dias.

Mas, ao setimo, Miquelina fugiu do hospital, favorecida pela enfermeira,

em cuja casa foi residir.

Desde esse dia, chamou-se Rosa.

...........................................................................

...........................................................................

--Que bonita rapariga é aquella que está em casa da A * * * na calçada

do Duque?

--É uma rapariga da provincia, pela pronuncia: chama-se Rosa, mas não

diz d'onde é, nem quem a trouxe alli.

--Parece bem educada!

--Parece... e não é desbocada... Não tem ainda a consciencia do seu

officio... É necessario que perverta a linguagem, se quizer

celebrisar-se...

--De quem fallam vossês?--disse um terceiro, que, na Praça do Rocio,

veio associar-se ao grupo.

--D'aquella Rosa, que tu denominaste um _cherubim precipitado_ na tua

poesia.

--E é...

--É!... pois tu sabes a vida d'ella?

--Sei...

--Contas?

--Não...

Este terceiro era Valladares.

Teve elle coragem de vêl-a face a face?

Não teve: entrou alli com uma mascara na terça feira de Entrudo.

Conheceu-o ella? Conheceu: porque no dia immediato desappareceu de

Lisboa.

É por isso que eu a vi no Porto em 1848...

...........................................................................

O general é hoje conde. O menos torpe dos florões da sua corôa é este...

Foi _honrado e hospitaleiro_!...

Valladares embriaga-se todos os dias, e não póde assim viver muitos

mais, porque já não sente no paladar o acido do cognac.

E Miquelina?

Ha mais de seis annos que os estudantes da escóla medico-cirurgica do

Porto a retalharam fibra a fibra com os seus escalpellos observadores.

Já vêdes que morreu no hospital, e foi em pedaços atirada ao monturo da

santa casa, depois de se prestar, como cadaver, ás lucubrações da

anatomia.

Podeis não acreditar tudo, ou parte d'isto... Olhai, porém, que vos não

dei aqui a verdade descarnada como ella é no conto melindroso, que vos

contei. Escondi-vos metade.

Scenas Contemporaneas · 第 22 / 121 题