Almoçamos.
D. Amelia esteve comnosco alguns minutos, ouvindo não sei que palavras a
meia voz, do meu amigo, inintelligiveis para mim, supposto que ahi se
fallasse duas ou tres vezes n'uma D. Miquelina. Tudo mysterios!
O padre foi dizer missa. D. Amelia foi com elle. Fiquei com Valladares,
tremendo de frio, ao pé d'uma bacia de brazas. O attencioso levita teve
a delicadeza de nos não convidar a participarmos da sua missa, que
n'aquelle dia, com tal frio, faria hereges espiritos devotos.
--Ahi vai agora a continuação da historia--disse o academico, engulindo
o fumo de quatro cigarros successivos--A familia d'esta senhora é muito
realista, muito fanatica, arde em odio contra os impios, que são todos,
menos os sectarios de D. Miguel, e alguns, senão todos, de D. Sebastião.
A familia de Côrte-Real é ultra-liberal, odeia os realistas com aquelle
odio saturado na emigração, e não admitte honra, intelligencia, nem
merecimento em homem que não fosse capaz de cortar as orelhas a um
miguelista, se elle estiver por isso. Já vê que as duas familias
detestam-se. De parte a parte no momento em que as relações de Amelia
com Côrte-Real fossem percebidas, imagine o meu amigo que não hiria!
--Então elles namoravam-se?
--Pois eu não lhe disse já que sim?
--Não, senhor: disse-me que Amelia passeava repetidas vezes no cemiterio
para vêl-o, mas que não o via muitas vezes. Eu queria saber como se
encontraram... porque... desejo saber como é que a gente póde sahir d'um
encontro d'esses!... Não ha muito que me vi entalado com um d'esses
encontros... Eu tinha o recado na ponta da lingua, e, quando vi a
mocetona, que não era cousa de atarantar um estudante de logica,
pegou-se-me a lingua ao céo da bocca, como diz não sei que poeta... _vox
faucibus hoesit_... Que lhe disse elle quando a viu?
--Isso é que eu não sei, porque não ouvi. O que sei é que se fallavam
por cartas, e entretiveram assim relações seis mezes. Por fim,
descobre-se o namoro. Côrte-Real fallava da rua para a janella com
Amelia: um tio d'ella é avisado; espera-o no pateo, com a porta fechada,
e, quando elle principia a dizer bellas cousas, o tal bruto abre a
porta, e descarrega-lhe quatro bordoadas, que o pozeram fóra do combate.
No dia seguinte, mandou-lhe a casa a capa, o chapéo, e uma clavina, que
fôra tres vezes batida á queima roupa do tal varredor de feiras.
--E depois?
--D. Amelia, duas horas depois, foi mandada entrar n'uma liteira, e
conduzida a casa d'este padre.
--Para que?
--Para ninguem saber o seu destino, em quanto vinha de Lisboa, onde ella
tinha o conselho de familia, uma ordem para ser recolhida a um convento.
--E Côrte-Real que fez?
--Curou as feridas da cabeça, e indagou o destino de Amelia. Como o não
soube, cahiu n'uma melancolia profunda, teve accessos de loucura, e,
pelo que o senhor me disse, está hoje no hospital de Rilhafolles.
--E Amelia casou-se?
--Pois no casamento é que está o interessante da historia.
Quinze dias depois da sua vinda para aqui, chegou de Coimbra o irmão do
padre. Parece que sentiu por Amelia o que era muito natural que
sentisse. Amou-a, mas não ousou declarar-se, porque sabia os
precedentes, que a trouxeram a esta casa. Ella, por si, tractava-o com a
fria delicadeza da indifferença, até ao momento, em que recebeu de uma
sua tia a noticia de que viera ordem do conselho de familia para ser
conduzida a Lisboa, e lá recolhida em um convento.
Lida a carta, Amelia offereceu-se como esposa do bacharel. O imprudente
sem mais nem menos, aceitou a offerta. Alcançou do arcebispo dispensa de
banhos e consentimento do tutor: o irmão, sem consultar a philosophia, a
religião, e a consciencia, casou-os. Na tarde do dia das bodas, chegou a
liteira que devia levar a orphã a Lisboa. Amelia apresentou-se a seu tio
com um desdenhoso sorriso, e disse: «Não tenho duvida nenhuma em hir
para Lisboa, e para um convento, mas é necessario que meu marido vá
comigo.»
--Seu marido!--exclamou o tio estupefacto.
--Meu marido... aqui lh'o apresento.