Conclusão

--Então ainda duvida? Somos livres. Não lhe dizia eu que estavamos nas

mãos de Deus?!..

--Ainda bem que acabou assim, sr. bispo, ainda bem! Mas sou teimoso. Os

inglezes portaram-se mal. Não os defenda. Dão ao céu o que o demonio não

quiz...

--Valham-me os Santos Martyres de Marrocos, sr. Paulo de Azevedo! Nada o

contenta. Nem este dia de gloria e de jubilo, em que todos parecemos

loucos!?...

--Olhe! Quem vai de certo contente é o Junot. Leva ao seu imperador um

exercito que devia ficar prisioneiro...

--Se o derrotassemos!...

--Derrotavamos de certo. Não tinha retirada. E o traficante de Lagarde,

que sae a barra cheio, como um ovo, de tudo o que roubou com as garras

da policia. A proposito, viu d'Aubry? Como supportou elle a noticia?...

--Da capitulação? Como um homem de brios e de grandes espiritos.

--E conta partir, e deixar-nos? Que remedio! Sabe que ha de fazer-me

falta. Estava costumado aos seus ditos joviaes, e agora!...

--Sente a separação? Tambem eu e elle a não sentimos pouco. Lassagne foi

com Manuel Coutinho ao quartel general inglez apresentar-se, e tirar

guia para o enbarque. Está muito pallido, mas fica-lhe bem. Excellente

rapaz!

--Vamos nós dar tambem uma volta pela cidade. Apezar de tudo...

accrescentou sorrindo, a alegria do povo, mais ou menos, sobe sempre á

cabeça dos que não se illudem com as apparencias. O dia 15 de setembro

será por muito tempo um dia memoravel nas recordações da patria.

--Ora ainda bem que o ouço falar assim. Vamos.

E os dois saíram pela porta do jardim.

D'Aubry ao mesmo tempo achava-se no vão de uma janella da sala, onde

víra Leonor pela primeira vez. Mais desmaiado e mais consumido de

physionomia, do que antes dos ferimentos, os olhos conservavam, todavia,

o antigo brilho, offuscado n'este momento por um véu de contemplativa

melancholia.

Tinha na mão um volume aberto, estava de pé, e julgando-se só fugia-lhe

a vista com o pensamento das paginas mortas do livro para as paginas

vivas das ultimas semanas da existencia. Duas lagrimas furtivas, e a

magoada expressão do rosto, revelavam, que, se o corpo convalescia da

molestia, a alma traspassada de occultos espinhos ainda continuava

enferma.

De repente uns dedos melindrosos, tocando-lhe no hombro ao de leve,

fizeram-o estremecer. Sem ver adivinhou que era Leonor. A côr

afogueou-lhe as faces subitamente, e um sorriso contrafeito passou-lhe

pelos labios, mais triste, do que a propria dor immobil.

--Que é isto?! accudiu a donzella, fitando-o compassiva e carinhosa. O

meu doente aqui, e só, com os olhos no céu, e, Deus me perdoe (!) ainda

humidos de pranto!? O que teve Armand? Que mal lhe fizemos para estar

assim magoado? Offendi-o sem saber, offendeu-o alguem d'esta casa

innocentemente?!...

--Offender-me, sr.^a D. Leonor! Os anjos deixam saudades e não aggravos!

Estava-me lembrando dos ditosos dias que passei aqui...

--Ditosos?! Entre dôres, e moribundo?!

--Ditosos sim. Que eram as dôres para mim, quando a tinha a meu lado,

imagem suave da consolação e do affecto? O corpo parecia morto, estava

quasi morto, mas se soubesse o que o espirito vivia e sonhava então!...

Delirios de enfermo! Illusões que a realidade cura... cruelmente, é

verdade, ou que só o tumulo acaba muitas vezes!...

--Não diga isso. O que chama illusões são realidades, todos aqui

dariamos a vida, que lhe devemos, para o vermos salvo e satisfeito.

Creio que apesar de se ver entre estranhos...

--Estranhos?! Não me faça ingrato, que não lh'o mereço. Nunca houve mais

extremosos amigos! Deus, compadecido da minha solidão, quiz dar-me antes

de morrer, porque me diz o coração que o primeiro campo de batalha será

a minha sepultura, a alegria de possuir no seu affecto o que a morte de

meus paes me roubou na infancia desamparada. Leonor! Consinta que repita

assim o seu doce nome. Disse-me um dia que era minha irmã!...

--Acha que o não fui, que o não sou já?! atalhou ella com um sorriso

meigo.

--Não! Porque me salvou da morte, quando a eu buscava e ella vinha?

Minha irmã! Que distancias, que inimigos, e que esquecimento dentro em

dias a vão apartar para sempre do triste ferido! É noiva, ámanhã será

esposa! Póde caber no seu peito com o amor... de outro, a memoria do

estrangeiro, que lhe passou deante apenas como sombra, que lhe deu

occasião de provar os thesouros admiraveis da mais piedosa

compaixão?!...

E, proferindo estas vozes apaixonadas, o mancebo, pallido, e quasi

desvairado, suffocava-se em cada phrase, porque a dôr lhe cortava o

peito. Leonor entristecia-se de o ouvir. Aquelles gemidos eram mais do

que amisade, eram gritos de uma ternura delirante, que a vontade em vão

luctava por conter. Em cada suspiro, em cada palavra gottejava o sangue

da alma.

A donzella commovida fez-se de repente pallida, como elle; e afogando em

um sorriso superficial os sentimentos, que principiavam a combatel-a,

respondeu, affectando a serena innocencia da ignorancia:

--Somos irmãos, não o disse já? Devo-lhe tanto, que nas orações, nas

supplicas, que elevo ao céu, não posso, não sei, separar do nome de meu

pae, do nome e do extremo... do que ha de ser meu marido, o nome

estimado de Armand d'Aubry! A minha alma é maior do que suppõe. Cabem

n'ella amor de mulher, affecto de filha, e amisade de irmã!...

--Leonor! Se eu ousasse!... Se quizesse adivinhar? atalhou o sobrinho de

Lagarde, em cujas pupillas faiscou momentaneamente um clarão de

esperança. É um segredo, que o meu coração calla e recolhe em si, mas

que o devora como alguns venenos corroem o vaso que os encerra...

--E envergonha-se de o confessar? accudiu ella tremula do estado, em que

o via, e receiosa da palavra imprudente, proxima a saltar dos labios do

mancebo. Cuida que não adivinho o motivo da sua tristeza, a razão das

lagrimas, que esconde, e que são o orgulho da nossa amisade?!...

--Ah! Calle-se, Leonor. Calle-se! Não vê que se me espedaça o coração de

ouvil-a falar assim!...

--Das saudades, que leva d'aqui, e que nos deixa?! proseguiu a filha de

Paulo de Azevedo no mesmo tom, mas fria e tremula por dentro da dôr e

anciedade comprimida de Aubry. Não se envergonhe d'ellas! Tambem eu as

sinto como irmã...

--É tão pouco! mumurou Armand quasi desfallecido e a meia voz.

Depois, cobrindo o rosto com as mãos, e suspirando, conservou-se por

algum tempo mudo. Quando ergueu por fim a fronte, a vista era já mais

firme e socegada, e o sorriso doloroso menos cortante.

--Perdoe-me, Leonor, affligi-a, bem sei. Somos irmãos, só irmãos, nada

mais! Não podemos ser senão irmãos!... O que disse--o que pensei um

momento--foram sonhos, foram delirios. Esqueçamol-os. Não conheci minha

mãe. Apenas se inclinou sobre o meu berço para se despedir de mim com um

beijo e voar ao seio dos anjos. Nunca amei do coração senão agora! É

falso! Nem agora! A minha paixão, a minha esposa, foi sempre a gloria,

não quero, não devo ter outra, e ha de ser. O tumulo é o leito nupcial

que ella abre aos que a adoram. Se lhe disserem breve, que este amor, o

da gloria, me custou a vida, dê-me uma lagrima e uma memoria! Manuel

Coutinho não o póde estranhar. Os mortos não causam ciume aos vivos!...

--Jesus! Aubry! Que tristes idéas! Magoam-n'o os festejos populares? Se

quer vamos para outra casa, aonde se ouçam menos!

--Não! Não! A maior dor passou. Veja! Quero outra vez ser o estouvado,

que a obrigava a rir-se de suas eternas distracções! Sae? Mal conto por

minutos as horas que tenho de a ver ainda! Não vê que roubar-m'os é

quasi um delicto? Recaí nos galanteios francezes, pasto usual de suas

ironias. D'esta doença é que me não curo!...

Leonor meneou a cabeça. A voz e o gesto desmentiam as palavras. Armand

amava-a, e fiel á lealdade jurada e á amisade de Manuel Coutinho,

arguia-se do sentimento invencivel como de um crime.

A entrada de Lassague, do seu amante, e do cavalheiro de Mafra trouxe

diversão salutar á violenta coacção dos dois.

Nem um, nem outro podiam já dissimular.

--Bravo! gritou da porta Paulo de Azevedo. Não sabes Leonor? A bandeira

branca, a bandeira sem mancha, já tremula no castello e nas fortalezas!

Os vivas nas ruas da baixa atrôam tudo. Os foguetes em girandolas sobem

e estalam nos ares. Os repiques dos sinos, as salvas de artilheria no

rio, coalhado de navios e botes, e nas torres, ensurdecem. Os montes da

cidade estão negros de gente. É um delirio, uma loucura! Deram-me mais

de cem abraços, e não sei ainda a quem os devo! Somos livres. Temos rei

e patria!... Manuel Coutinho dentro de tres dias quero que seja meu

filho. Temos a dispensa concedida e o padre de casa, o nosso santo

bispo. D'Aubry! Deixe rir e cantar os rapazes! Não faça caso. Quando

vier a paz geral... venha comer comnosco a Lisboa as broas do natal!...

Armand, ouvindo anunciar para tão breve o casamento de Leonor, tinha-se

tornado livido como um cadaver, e vacillára. A vista cobriu-se-lhe de

nuvens, e se Lassagne o não amparasse, não se sustinha de pé. A

donzella, á qual Manuel Coutinho apertava a mão com namorado enlevo, leu

a desesperação nos olhos do official francez, e sentiu quasi remorsos do

amor que o matava a elle. Silenciosa e pallida inclinou a fronte, e

sepultou no peito o suspiro, que ia jà a soltar indiscretamente. D'Aubry

venceu-se de pressa.

Tornando-se a si, adivinhou o que encerrava de affectuoso e nobre o

silencio da noiva, e resolveu corresponder-lhe com generosidade egual.

Pegando na mão de Manuel e de Leonor, e unindo-as, disse ao velho

cavalheiro com um sorriso:

--Sr. Paulo de Azevedo! Este dia de jubilo para Portugal não me

entristece. Nós o vingaremos, como soldados, em outros campos. Consinta

que na hora de partir, e de lhe dizer adeus para sempre, eu beije a mão

de minha irmã, e que estreite nos braços o irmão que me salvou!...

E depois de abraçar Manuel, os seus labios tocaram por instantes a bella

mão de Leonor. A donzella, sentindo caír sobre ella uma lagrima ardente,

que lhe escaldou a alma, refugiou-se confusa e anciosa contra o peito do

esposo promettido.

--Aubry! Não acceito desculpas. Ha de ser dos nossos, assista ao

casamento de minha filha!

--É impossivel! redarguiu Armand com tristeza, logo dissipada pelo

impeto affectado do seu genio jovial. As nupcias de Manuel fizeram-me

lembrar, de que tambem tenho uma noiva, a gloria, noiva que espera por

mim para consumar o meu destino. Leonor, adeus. É melhor despedirmo-nos

já d'aqui... até á eternidade! ajuntou em voz sumida.

--Armand! respondeu ella no mesmo tom. Fique! Não vê que a morte, que

deseja, é um suicidio?!

--Não. É um dever. Adeus. Lassagne! Quando em França nos recordarmos de

Portugal... a doce imagem do anjo, que nos salvou, sempre gravada no

peito, será a companheira e a consoladora de nossas saudades. Manuel

Coutinho! A sua felicidade com a esposa, que vae ter, é para ser

invejada até do céu. Não importa, merece-a. Nunca encontrei maior alma,

nem coração mais puro. Sr. Paulo de Azevedo! Ficam-lhe dois filhos para

amparo da sua velhice. Quer lançar uma benção sobre o terceiro, que não

tornará a ver talvez, mas que jura amal-o sempre?

O cavalheiro commovido apertou-o nos braços, beijou-o como filho, e

arrancando-se a custo ao doloroso enlace, exclamou:

--D'Aubry! Se Deus me tivesse dado um filho assim?! Adeus. Não se

demore. Faltar-me-ia o animo. Não quero... vel-o partir.

Um momento depois Lassagne e Armand volviam para aquella casa um

derradeiro e sentido olhar. O primeiro levava só vivas as saudades; o

segundo deixava n'ella para sempre metade da sua alma e a alegria de

toda a vida.

Silenciosa e triste, Leonor seguiu-os com a vista até desapparecerem.

Depois enxugou as lagrimas a furto, e suffocou os suspiros.

Teria receio de amar de mais o irmão que fugia d'ella para não

entristecer a sua felicidade!?

Quem se atreverá a decifrar os mysterios do coração feminino?

A guerra da independencia prolongou-se. Armand e Manuel Coutinho,

pelejando debaixo de bandeiras oppostas, não se encontraram. Paulo de

Azevedo e sua filha falavam a miudo do official francez, que o seu

coração não sepultára com a ausencia, e o avô, fazendo saltar nos braços

o primeiro neto, fructo mimoso do afortunado enlace, muitas vezes

repetia com os olhos humidos: Deus te faça um homem, como teu pae, ou

como Armand d'Aubry!

Quando a batalha de Waterloo encerrou a ultima pagina da epopeia

maravilhosa do primeiro imperio, Manuel, que subíra por suas proezas a

um posto elevado no exercito, e que teve a gloria de não assistir

obscuro áquelle derradeiro feito de armas, levantou do campo o coronel

d'Aubry, moribundo e varado de balas nos quadrados da velha guarda. A

morte d'esta vez quizera accudir, mas vagarosa e incerta, ao chamamento

do mancebo. Tres mezes depois Armand pelo braço do esposo de Leonor

batia de novo á porta da casa, de que se despedira sem esperanças de a

tornar a ver.

A sua presença, festejada por Paulo de Azevedo e pela filha, como

verdadeira ventura domestica, avisou a serena alegria, em que se

escoavam os ditosos dias dos seus amigos. D'Aubry mostrava ter esquecido

na lucta de gigantes da épocha o louco amor, que lhe apressára annos

antes a saída de Portugal. Nem um gesto, nem uma palavra revelaram da

sua parte a menor fraqueza! Sómente, ao apartar-se, já na vespera de

embarcar para Londres, é que o segredo foi revelado por um gemido mais

alto do coração. Leonor, sempre discreta, simulou não o entender, mas

percebeu que o francez partia para não voltar! A antiga ferida

continuava aberta, seria sem remedio d'esta vez?

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 36 / 59 题