Sol entre nuvens

Voltemos áquella casa tão risonha do campo do Ourique, aonde ouvimos as

imprecações de Manuel Coutinho, as palavras prudentes do bispo de

Malaca, e a resposta de Leonor ás propostas de Lagarde. Apenas

decorreram algumas semanas, mas os successos precipitaram-se, e tudo

mudou de aspecto.

Entremos sem ruido pela alcova, cujas portas de vidraça, recatadas pelo

reposteiro de seda, abrem sobre a sala, aonde vimos a filha de Paulo de

Azevedo jurar ao seu amante eterno amor. Os moveis e o adorno do

aposento são ainda os mesmos. Os raios do sol afagam de luz dourada as

avezinhas, que saltam nas gaiolas, e beijam as corollas das flores,

cujos variados matizes sobresaem, marchetando os bellos ramos, que

enfeitam as antigas jarras japonezas em cima do marmore dos tremós.

O gato valido dormita enrolado sobre o seu coxim de lã. A agulha

continúa esquecida, picando a tela na folha começada mezes antes no

bastidor. Lá está aberta a «Imitação de Christo» na pagina, que Leonor

lia, quando a entrada de Manuel Coutinho a veiu interromper. Além se

descobrem, junto do espelho de talha alta, os outros livros, fieis

companheiros da donzella, nas suas horas de tristeza e solidão! Tudo

parece o mesmo, e, todavia não sei que invisivel e indiscreto delator

logo revela aos olhos, que o infortunio e as magoas já não humedecem de

suas lagrimas aquellas paredes, aonde já se respira conforto e alegria.

Soam passos e vozes na rua mais proxima do jardim. A areia range debaixo

dos pés de tres pessoas, que se encaminham lentamente para a meia

laranja rasgada deante da escada de pedra.

Todas tres são nossas conhecidas. No meio, mais grave e preoccupado, do

que o vimos nos dias de oppressão e de risco, vem o veneravel bispo de

Malaca. Conserva ainda o bondoso sorriso e a serena expressão do

semblante, mas um véu de melancholia lança-lhe algumas sombras sobre o

rosto. Á sua direita Manuel Coutinho com o braço esquerdo ao peito

parece escutar com impaciencia as phrases, que Paulo de Azevedo solta

com vehemencia, todo inflammado em ira.

--Não, Manuel, não me convence! exclamava o velho cavalheiro colerico. A

capitulação de Cintra é um opprobrio para nós, e uma infamia para quem a

assignou! Se foi para nos tractarem como conquista sua, para nos

venderem a honra e a fazenda a retalho, excusavam os inglezes de vir a

Portugal. Estrangeiros por estrangeiros cá tinhamos o Junot. Ladrões por

ladrões cá estavam Lagarde e Juffré. Não era necessario encommendarem-se

os Trant, os Dalrymple, e os Ackland!...

--Não vá tão longe, sr. Paulo de Azevedo, não seja injusto! accudiu o

bispo, interpondo-se mansamente. Louve a Deus pelas maravilhas da nossa

restauração, e não se afflija tanto com o mais. Tudo tem remedio.

--De mais, observou Manuel Coutinho, estou certo de que os alliados já

conhecem o seu erro, e hão de cedo emendar o mal. Sir Arthur Wellesley

disse...

--Tão bom é elle, como os outros! interrompeu Paulo, levantando a voz.

Manuel Coutinho é muito moço. Conto mais annos e mais experiencia.

Lembre-se de que tambem os francezes entraram aqui com pés de lã, e

depois...

--Pois cuida?! É impossivel!...

--Cuido, sim, senhor. Não sei o que acham os estrangeiros n'esta tira de

terra, mas a verdade é que todos a cubiçam, hespanhoes, francezes e

inglezes! Mas se estes de agora imaginam representar ao vivo a fabula da

ostra e dos litigantes talvez se arrependam. Não hão de comer a polpa e

dar as cascas a Bonaparte e ao principe regente! Em Portugal ainda ha

fouces roçadouras e espingardas caçadeiras por essas choupanas para

exterminar hereges e traidores!...

--Socegue! Pois julga que o governo inglez havia de cair na loucura de

querer apoderar-se do reino!? atalhou o bispo sorrindo-se. Os generaes

alliados não nos tractaram bem, concedo. Faltaram ao respeito devido á

rainha, nossa senhora, dispondo sem audiencia nossa, do que pertence á

sua corôa; mas suppor que o fizessem com o ruim sentido de substituir a

sua usurpação á de França, não posso crel-o!

--Creia o que quizer, senhor bispo; mas saiba que o illude a sua bondade

natural. Senão diga-me: Estamos hoje a dez de setembro. Ha oito dias,

que o Tejo se vê coalhado de navios de transporte e de vazos de guerra

inglezes. Que bandeira tremula em S. Julião, nos fortes, em Paço

d'Arcos, e em Belem? Uma commissão de estrangeiros, em que só figura por

esmola um portuguez, abriu balcão no largo do Loreto n.^o 8, para tomar

conta das mobilias dos paços reaes, das repartições publicas, e dos

objectos furtados dos arsenaes, como de cousas inteiramente suas! Os

francezes acampam nas praças com as peças carregadas! Os inglezes estão

quasi ao lado d'elles! Pode dar-me noticia de Bernardim Freire e do

exercito portuguez? Sabe aonde pára? Não o pozeram fóra, a elle, que era

de casa, para se metterem a si de dentro?!...

--É verdade! respondeu Manuel Coutinho um pouco enleiado, porque a

amisade e respeito ao velho cavalheiro o prendiam por um lado, em quanto

pelo outro se lhe figuravam exageradas suas queixas e apprehensões. Mas

a capitulação foi negociada e assignada entre Junot e os alliados!

Talvez seja essa a causa da falta do nosso general n'este momento.

--E essa falta, attestada pelo protesto, que elle de certo ha de fazer

como bom portuguez e bom soldado, é a maior accusação, que existe,

contra a insolencia, com que somos tractados! bradou Paulo de Azevedo

com os olhos scintillantes. Pois dispõe-se assim da soberania, da

independencia, da honra, dos interesses, e da segurança de um reino

amigo sem chamar ás conferencias o general, que o representa, e que

empunha as armas para os sustentar?! Aonde estariam a esta hora

Wellesley, Dalrymple, Beresford, e Moore, se as nossas villas e cidades

se não sublevassem, e se o nosso exercito lhes não cobrisse a marcha

sempre? A bordo dos navios, ou vencidos e afogados no mar! São muito

esquecidos estes senhores inglezes!

--E aonde estariamos nós, tambem, accudiu Manuel Coutinho, por fim

irritado, se esses inglezes, que o sr. Paulo de Azevedo quasi amaldiçôa,

como inimigos, não combatessem pela nossa liberdade na Roliça e no

Vimeiro? Julga que as milicias de Bernardim Freire, e os Terços

tumultuosos eram capazes de desalojar De Laborde, ou de vencer Junot?

Quer que sejamos injustos? Todos viram o que succedeu. Foi ainda hontem!

O sangue vertido pelos estrangeiros em nossa defeza está vivo e fresco.

Não lhe parece cedo para começarmos a ser ingratos?!...

--Ingratos?! Ah! Manuel Coutinho não esperava similhantes palavras da

sua bôcca! Pois já se namorou tanto dos estrangeiros n'estes poucos

dias, que lhe esqueçam as offensas da patria escarnecida,

vilipendiada?...

--Ajudei a vingal-as no campo, sr. Paulo de Azevedo! redarguiu o mancebo

com alguma altivez. O que digo vi-o por meus olhos. O meu sangue correu

tambem alli! Se defendo os inglezes é porque os admirei como soldados, e

juro que não receio d'elles, que se nos convertam em inimigos. Acredite!

Agora podemos confessar a verdade. As sublevações das provincias não

expulsavam os francezes de Portugal!

--É tambem o meu voto! disse o bispo, pondo a mão no hombro do velho

cavalheiro, e persuadindo-o mais pela amenidade do sorriso e dos modos,

do que com as palavras. Nós sós contra tropas firmes e disciplinadas

podiamos ennobrecer de victimas o martyriologio nacional; mas vencer

parece-me que não. Vamos, meu amigo. Melhor o fará Deus! Estamos em suas

mãos, e Elle por sua infinita misericordia não ha de levantar de cima

d'este reino a protecção visivel, com que nos está soccorrendo. Não vae

tudo tão bem como devia ir? Fomos offendidos e aggravados? Paciencia! Do

mal o menos.

--Paciencia! exclamou o pae de Leonor já mais brando. Paciencia?! Sinto

arder o sangue nas veias, e o pejo nas faces, quando leio as

proclamações e editaes d'esses libertadores, que mandam como se não

tivessemos patria, rei, e independencia! Os francezes riem-se de nós

como de crianças enganadas. Lagarde entrouxa e enfarda as riquezas de

Queluz. Junot tracta do Castello de S. Jorge, e embarca caixotes e

caixotes cheios de preciosidades. Os traidores, que nos venderam, vão

saír com elle ricos e impunes, e não nos levam amarrados com

gargalheiras de ferro ao pescoço para nos venderem, como negros, talvez

porque não têem navios para tanta gente!...

N'este momento os tres chegavam defronte da escada. No alto, entre os

humbraes da porta, despontava, pallida e graciosa, a figura delicada de

Leonor, envolta em um penteador de rendas, com um meigo sorriso nos

labios.

--Alli está a nossa irmã da caridade, a nossa fada! Leio nos seus olhos

melhores noticias dos enfermos! accudiu o bispo, acenando risonho á

donzella, que esperasse, e começando a subir os degraus com a pausa da

edade.

Manuel Coutinho córou de alvoroço, e a sua vista, em um relance, disse

tantos segredos amorosos ao coração palpitante, que voava para elle, que

as faces de Leonor se avivaram de instantaneo rubor.

Paulo de Azevedo, no peito do qual principiavam a applacar-se as iras

murmurando ainda, apenas fitou a filha, sentiu de repente o animo de

todo sereno, e as mais grossas nuvens dissipadas. A alegria intima

espraiou-se-lhe pelo rosto, e com a bôcca cheia de riso, exclamou ainda

do meio dos canteiros de flores:

--Ah! Ah! Pelo que vejo levantámo-nos com a aurora e saímos fresca e

viçosa com ella?! Manuel, que fizeste á tua noiva, que não te fala?

Temos amuos, ou estaes hoje deveras mal, filhos?

Os dois amantes, sorrindo-se, trocaram um volver de olhos tão suave e

enlevado, que os anjos custodios de ambos, se não fossem tão puros

espiritos, teriam inveja ás felicidades da terra.

Paulo percebeu e sorriu-se tambem, offerecendo o braço a Manuel ainda

ferido no braço esquerdo, e contuso em uma perna, para o ajudar a subir.

Ao mesmo passo ameaçava com o dedo a Leonor, accrescentando:

--Bem! Muito bem! Entendo! Estão apostados para enganar o pobre velho,

que já não sabe de si, nem dos outros? Pois sim! Quer saber, sr. bispo?

Estes dois innocentes, que não pestanejam deante de nós, que não dizem

uma palavra com medo de que o ar os toque, vou jurar, que já se viram e

se falaram hoje da janella?! Adivinhei? Sim, ou não, Manuel Coutinho?

--Adivinhou metade. Já nos vimos, é verdade. Agora falarmos não. Para

que?

--De certo! atalhou o cavalheiro rindo com malicia. Se não me esqueci do

meu tempo de rapaz, para que deu Deus olhos aos amantes, senão para

dizerem tudo callados? Vamos! São mais do que horas de almoço. O passeio

e a disputa abriram-me o appetite! E d'Aubry? Passou melhor a noite? O

accesso não voltou?

--Não, meu pae. Graças a Deus, está salvo. Disse-o o medico ainda ha

pouco.

--Ah! o doutor Thomaz esteve por aqui? Não me chamaram?! Com que então

temos homem? Estimo immenso. D'Aubry, apezar de jacobino, é uma perola,

e sou seu amigo verdadeiro. Aquelle coração...

--É um nobre e grande coração, sr. Paulo, um coração de ouro! atalhou

Manuel Coutinho. Devemos-lhe muito, e ainda bem que o acaso me trouxe

pela mão ao sitio em elle de proposito se estava deixando matar!...

--E o outro francez, o tenente Lassagne? observou o bispo depois de

beijar Leonor na testa com paternal carinho. Tenho por elle tanta

sympathia!...

--Está livre de perigo tambem, disse-o o doutor, redarguiu Leonor.

--Podem pezar-se ambos a cêra, que no estado, em que os vi entrar aqui

nas macas, não cuidei nunca que escapassem. É verdade, que reis não eram

tractados com mais desvelo. Leonor! Nasceste mesmo para mulher de um

capitão. Foste uma enfermeira exemplar.

--Devia-o ser, meu pae. Não foi d'Aubry quem abriu as portas da sua

prisão e enxugou as nossas lagrimas? Manuel lembrou-se, e, salvando-o,

verteu por elle o seu sangue. Eu! Havia de fazer menos e ser ingrata?

Quando voltar a França, não ha de dizer, que a nossa memoria foi mais

curta, do que o beneficio. Achou em Manuel um irmão...

--E em ti uma irmã! Muito bem! Elle merece-o. Sabes a minha pena? É

aquelle maldito Lagarde! Porque ha de Aubry ser sobrinho de similhante

velhaco?! Se não fosse isso! Antes do senhor intendente nos dizer adeus,

havia de ajustar com elle as minhas contas! Entremos. Com aguas passadas

não moem moinhos.

Os tres entraram, e em quanto elles almoçam e conversam, informaremos

nós o leitor em duas palavras dos acontecimentos a que alludiram no

jardim, quando os encontrámos.

A batalha do Vimeiro provou ao duque de Abrantes, que lhe escasseavam as

forças para arrancar os inglezes de Portugal. Kellermann, acompanhado de

dois esquadrões de cavallaria, apresentou-se no quartel general inglez,

e aproveitando habilmente a timidez e a falta de tacto de sir Hew

Dalrymple, negociou com elles a famosa capitulação de 30 de agosto, que

tomou o nome de villa Cintra, aonde foi assignada, e que feriu ao mesmo

tempo o orgulho britannico e o amor proprio nacional, murchando metade

dos louros da victoria, e esmorecendo o enthusiasmo, com que Portugal

abria os braços aos alliados, e os acclamava restauradores da sua

independencia!

Os francezes por ella obrigaram-se a evacuar o reino com armas e

bagagens, não como prisioneiros, mas como tropas em armas, que os navios

britannicos haviam de desembarcar em Rochefort, podendo servir na guerra

apenas entrados na sua patria. As praças de guerra deviam ser entregues

aos soldados inglezes! Ao exercito era livre transportar comsigo, além

da artilheria e do trem, a caixa militar, e tudo o que pertencesse aos

corpos e aos chefes! Os feridos e doentes ficaram entregues ao cuidado

do governo inglez. Junot prometteu concentrar as suas divisões a duas

leguas de Lisboa, e o general em chefe sir Hew a tres leguas. A

convenção affiançou de mais a segurança e a impunidade das pessoas

addictas ao dominio dos invasores, e a troca de todos os prisioneiros

desde o começo das hostilidades. Dos portuguezes, do seu rei, dos seus

direitos, nem uma palavra! Foi como se não existissem! Nem os ouviram,

nem os attenderam!

O general Bernardim Freire de Andrade, aggravado do completo

esquecimento ou antes do desprezo, com que viu omittida a sua patria

n'estas memoraveis estipulações, protestou contra ellas em 14 de

setembro, e suas justas queixas, inseridas nas folhas de Londres,

exacerbaram ainda mais a indignação do povo inglez. A capitulação,

condemnada como um acto vergonhoso, mereceu o stygma, de que a flagellou

a soberba imprecação de Byron em um dos cantos de _Child Harold_.

O duque de Abrantes affrontou a adversidade com valor, e houve-se com

destreza antes, e depois do revés. Escarneceram-o por mandar illuminar

Torres Vedras na vespera da batalha, festejando antecipadamente o

triumpho! As luminarias eram para illudir e conter as iras da capital.

Recolhido de novo á côrte, á testa de suas tropas, a impaciencia dos

habitantes, por mais que o desejasse, não poude ler o annuncio do

desastre no seu rosto impenetravel. Sereno e intrepido conservou seguras

até ao ultimo instante as chaves!

A anciedade attribulou muitos dias o animo dos moradores. Lagarde e a

Policia, caso raro (!) alcançaram entreter as incertezas, encobrindo a

noticia da convenção. Os primeiros signaes da liberdade proxima

deu-lh'os sómente em 2 de setembro a entrada dos navios britannicos no

Tejo. O exercito francez principiou a embarcar por divisões, e com elle

se abrigaram egualmente debaixo dos estandartes estrangeiros os

portuguezes compromettidos, que o odio publico apodava de jacobinos. A

bandeira dos alliados hasteava-se em S. Julião e nos fortes das margens

do rio, em Paço de Arcos, e em Belem! Os inglezes acampavam em Arroyos e

no Campo de Santa Anna, tomando posse dos quarteis, á medida, que os

regimentos de Junot os despejavam.

Todos estes movimentos, e a vigilancia militar e hostil, com que os

francezes se guardavam nas praças com as peças carregadas á bôcca das

ruas e os murrões accesos, despertavam as esperanças dos nossos,

inflammando o seu zelo, reprimido do maior impeto pelos avisos de sir

Carlos Cotton, enviados de bordo da nau _Hybernia_, e pelos conselhos

prudentes de alguns patriotas respeitados.

Ao povo tudo isto se representava um sonho. Aos homens sisudos doiam no

orgulho nacional as condições da capitulação, mas temperava-se a magoa

d'ellas com a idéa de estar por um fio a queda da usurpação.

D'Aubry e Lassagne, perigosamente feridos no Vimeiro, salvos por Manuel

Coutinho, e transportados para a casa hospitaleira do bispo de Malaca,

graças aos disvelos do mancebo, tornando a si do agudo padecimento,

souberam que veriam de novo a França em breve. Seria sem saudade da

terra que iam deixar?

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 34 / 59 题