A batalha

Deram oito horas da manhã. Um silencio profundo afogou de repente todos

os estrepitos e todas as vozes nos dois campos. Similhante á pausa

abafada, que precede os gemidos da procella, em breve iam rebentar

d'este silencio momentaneo, todas as tempestades, que o odio e as

paixões encerram.

A fortaleza das posições do Vimeiro, e a valentia dos defensores

promettiam aos soldados de Junot disputada lucta. Apezar d'isso as

massas accumuladas nas eminencias, nem suspenderam, nem paralysaram, o

seu esforço. A divisão Laborde começou o ataque. N'esse momento, como se

á ira dos homens se antepozessem as consolações do ceu, ouviu-se o

repique longiquo, mas claro, de uma sineta, na capella da aldeia,

convidando os fieis á oração. Logo apoz reboou, immensa e prolongada,

acclamação festiva dos batalhões francezes. Era a brigada Thomières, que

a passo ordinario, e com os estandartes desenrolados, partia intrepida a

escalar as escarpas da montanha, d'onde tres linhas inabalaveis juravam

repellil-a.

Cobria-lhe a frente uma nuvem de atiradores. Os reparos dos canhões,

rodando nos flancos, abalavam o chão, confundindo com o tropear da

marcha o seu rolar soturno. O espaço, que separava os contendores,

depressa se encurtou; o vulto da columna depressa se estreitou tambem, e

diminuiu na distancia. Uma orla de fumo alvacento, franjada de

relampagos, elevou-se lentamente da testa da linha no meio de detonações

repetidas. Ao mesmo tempo os tambores, as trombetas, as gaitas

escocezas, as cornetas, e os cheios sonoros dos instrumentos bellicos

romperam em harmonia guerreira do centro das brigadas inglezas.

Encostando as coronhas ao hombro, com os murrões accesos junto ao ouvido

das peças, os soldados de Wellesley acceitavam resolutos o desafio das

aguias francezas.

D'ahi a um momento ao trovão da artilheria juntava-se o estampido de

milhares de fuzis. A montanha, silenciosa e fria até então, vestiu-se de

clarões lividos, e uma densa nuvem de fumo, baixa e quasi immovel, véu

sinistro, escondeu os combatentes da vista anciosa dos espectadores. De

instante em instante novas explosões atroavam o campo, e por entre os

rolos de pó e as fumaradas dos tiros faiscaram como fitas tortuosas de

lume as descargas dos batalhões. Os pelouros, bastos como granizo,

silvaram, varejando as fileiras. As balas de artilheria, cortando o ar,

e zumbindo, vinham enterrar-se, escarvando o solo aos pés das

companhias, ou, rasgando-lhes e esmigalhando-lhes as filas, abriam por

meio d'ellas cruentas e largas brechas, assignalando no chão juncado de

cadaveres e moribundos o seu rasto destruidor.

Pendurados das ingremes ladeiras, ouvindo por cima das cabeças estourar

a voz de bronze dos canhões, sentindo debaixo dos pés retremer e

escorregar a terra, no meio de uma atmosphera ardente, ora atropellados

pelos que a morte despenha adeante das pontas dos alcantis, ora

impellidos pelo tropel impaciente dos que atraz d'elles bramem e se

apinhoam na subida, os soldados do regimento 26.^o, respondendo com a

audacia do silencio á tempestade vomitada das cristas das alturas,

alcançam por fim a aresta da montanha, conquistam a beira da planura, e

arremessam-se como leões raivosos, em linhas crespas, contra a muralha

de aço, que lhes oppõem o 5.^o regimento inglez. Foi como o encontro de

duas nuvens carregadas de electricidade. A meia distancia uns dos

outros, os canos das espingardas inclinam-se, dois relampagos immensos

lambem a face das columnas, e o ruido de duas descargas quasi unisonas

ribomba de cerro em cerro até aos valles.

As vozes dos chefes por cima dos mil rumores da peleja, e o tinir do

ferro nos pelotões calando bayonetas soam distinctamente durante a curta

pausa, que se segue. Depois, violentos estremeções sacodem os membros

convulsos dos dois corpos gigantes, e n'um abrir e fechar de olhos ambos

se precipitam um contra o outro, esperando suffocar-se n'este abraço, em

que toda a sua colera ruge frenetica.

A cortina de fumo, que os encobre, adelgaçando, rarea-se um pouco, e o

duello temeroso dos dois regimentos, arcando peito a peito, com os

ferros apontados ao coração, brilha por momentos em toda a sua

magestade!

Loison e Charland, com os batalhões 32.^o e 82.^o já a esse tempo

estavam travados com tres dos regimentos de sir Arthur, o 97.^o o 43.^o

e o 52.^o. As linhas britannicas, abaladas pelo furioso embate,

vacillam, encurvando-se. O impetuoso encontro das companhias francezas,

sulcando-as, e mutilando-as em partes, cuida um momento tel-as

arrancado, desordenadas e vencidas, do solo a que a disciplina parece

arraigal-as. Mas a confusão dura apenas minutos! As filas confundidas

reconstruem-se, e os assaltos vertiginosos dos guerreiros de Thomières e

Loison quebram-se em vão contra a firmeza admiravel d'aquelle rochedo

humano!

O sangue ensopa o chão, amortecendo o ruido dos carros e reparos, e o

estrupido medonho dos pés dos combatentes. A chamma das bôccas dos

canhões e fuzis cresta o rosto dos mais avançados. Fileiras sobre

fileiras, minadas pelo bater incessante dos pelouros, escorregam no solo

humido de carnificina, e prostram-se depois para não se levantarem,

conservando apenas, aqui, e acolá, de pé, um ou outro soldado,

sentinella perdida, que sobrevive ao estrago commum.

De lado a lado mordem o pó os mais valentes. O coronel Pillet e o

general Charland, feridos, multiplicam as ordens e o esforço. O tenente

coronel Peytavy adormece do somno dos fortes. Os inglezes pelejam com

pouco enthusiasmo, mas com tenacidade indomita. Sem retirada, a derrota

equivale para elles a um desastre sem nome. Nas suas costas aprumam-se

despenhadeiros a pique; a seus pés ronca o mar enfurecido! Wellesley

sabe-o, mas conta com os obstaculos naturaes, e com o valor e o numero

de suas tropas. As columnas de Junot não são assás profundas para

varrerem na ponta das bayonetas as tres linhas, que têem defronte.

Kellermann desdobra os batalhões da reserva a dois tiros de peça do

Vimeiro. O duque d'Abrantes, perto d'elle, contempla o progresso dos

ataques de Delaborde e Loison. Uma ordem sua manda marchar em auxilio

dos dois generaes o 2.^o de granadeiros, commandado pelo coronel

Sainte-Claire. Avançando em columna, e em pelotões, o regimento costêa a

quebrada, que baixa á direita para o barranco, aonde passa a estrada do

Vimeiro a Toledo. Os inglezes, desopprimidos das forças de Delaborde,

constrangidas a recuar, respiram por instantes, recuperando-se á pressa

dos golpes precedentes.

Avistando os inimigos, que se adeantam, são suas disposições promptas e

decisivas.

Os artilheiros assestam contra elles as bôccas de dezoito canhões e

obuzes, e dando-lhes fogo a um tempo cobrem o terreno de projectis. As

balas ôccas dos obuzes, enfiando filas inteiras, vem rebentar como

bombas e granadas no centro dos segundos pelotões. Cuidam que o espanto

e o terror dissiparam o ataque, e que os francezes cedem sem entestar

com suas linhas! Illusão! Mal protegido pelos frouxos tiros das baterias

da primeira divisão e da reserva, investindo por baixo de uma chuva de

balas, que o consome, o regimento, como se entrasse em parada, prosegue

inalteravel, semeando de mortos e feridos todo o caminho, e pagando com

torrentes de sangue cada passo adeantado. Os que se aprestam a

rechaçal-o, sentindo-o acercar, sem o ver, pelo som cada vez mais forte

da marcha, vencem a custo o sobresalto inspirado por aquelle silencio

ameaçador, grávido da vingança de tantas perdas.

Finalmente as pontas das bayonetas relampejam sobranceiras ás cristas da

montanha, e as companhias, desfilando a cincoenta toezas da planura,

principiam a formar-se em batalha. De repente, espectaculo doloroso,

porém cheio de grandeza(!), um mar de fogo irrompe de todos os lados, e

envolta em chammas a pequena columna oscilla, arqueja, relucta ainda,

mas em vão e alue-se por fim, crivada pelas descargas convergentes da

mosquetaria de seis regimentos! As explosões das peças acompanham o

trovão rolante das descargas, os clamores do combate, e as ameaças dos

tambores e cornetas. Os cavallos de trem da artilheria franceza

extendem-se uns após outros, deixando os reparos desmontados. Os

coroneis Foy e Prost pugnam debalde, e salpicam de sangue os canhões

emmudecidos. Os primeiros pelotões de infanteria varridos pelo tufão de

metralha desapparecem fulminados, e quando o fumo, que cega o campo, se

desvanece, do bello e soberbo regimento, cujos brios os contrarios mesmo

haviam applaudido, apenas restam reliquias, que em troços dilacerados se

derivam fugitivas pela encosta, golfando de todos os membros o sangue de

mil feridas!

Kellerman, que seguíra o 2.^o de granadeiros com o 1.^o regimento, ás

ordens do coronel Morancin, atravessado o barranco, fôra encontrar-se de

rosto com a brigada de Ackland. Sir Arthur, notando cuidadoso este

movimento contra o centro, e receando pela povoação do Vimeiro, tractára

de anniquilar sem demora o novo ataque. As tropas britannicas baixaram

em forças duplas sobre a columna de Kellermann, e flanquearam-n'a. Não

contente ainda com a fuzilaria cerrada, que dizima as fileiras

contrarias, o general inglez arroja sobre ellas o impetuoso choque de

quatrocentos cavallos do 20.^o de dragões ligeiros, da guarda de policia

portugueza, e dos voluntarios da Beira Alta e Extremadura.

Os granadeiros, colhidos no meio de um verdadeiro furacão de ferro,

antes de poderem formar quadrado, vêem reluzir sobre as cabeças os

sabres dos dragões e as espadas da cavallaria portugueza, á qual a voz e

o exemplo de Manuel Coutinho, do coronel de milicias de Leiria, do

morgado de Penin, e dos outros cavalheiros, que dias antes encontrámos

no palacio da Asseca, infundem animo superior a maiores emprezas. As

aguias rojam no pó pela primeira vez, e o amante de Leonor, alcançando a

preço de ferimento leve a gloria de tomar um dos estandartes fadados até

então pela victoria é saudado com vivas e felicitações pelos soldados,

ebrios de enthusiasmo.

Os granadeiros acutilados dispersam-se deante dos cavalleiros, que os

perseguem, alastrando o terreno de victimas, destroços, e captivando

quasi a cada passo os que fogem, arremessando as armas.

--Safa com a calma! brada um dos officiaes portuguezes, que a farda, a

estatura herculea, e a voz atroadora denunciam de longe ser o bellicoso

patriota, o major Alvaro. Trago os miolos assados dentro d'esta

barretina, d'esta maldita panella. Forte asneira! Pôrem á cabeça da

gente um cantaro que peza arrobas! Trago a camisa pegada ao corpo de

suor!

--Que dia, meu amigo, que grande dia! disse o capitão-mór de ordenanças

de Leiria, Manuel Carranca, limpando junto d'elle a testa com a aba

verde da farda, e restabelecendo o equilibrio ameaçado pela carreira do

cavallo, um pouco fogoso de mais talvez para a sua pericia equestre. Não

sinto já o braço de jogar cutiladas a estes cães, sr. Alvaro! Respiremos

um instante!

--Pouco os acúa! Não me estejam a fazer de um agreiro um cavalleiro!

accudiu o alcaide-mór Rodrigo Crespo com a serenidade de um veterano

callejado. Isto de que os senhores se admiram não é nada em comparação

do que foi pelo Roussillon! Se caíssem sobre um quadrado a espirrar fogo

por todos os lados, e crespo de bayonetas como um ouriço, então veriam.

Mas estes granadeiros, que se derretem como alcôrce mal os cavallos lhes

fungam ás barbas?! Historia!... Olhe, sr. Isidoro Pinto! ajuntou,

voltando-se para o coronel de milicias, que acabava de sofrear o ginete,

e que o escutava. Olhe como Manuel Coutinho, vae guapo na frente. Corre

que desapparece! Ah, rapazes, rapazes!

--Bom sangue não mente! redarguiu o velho cavalheiro, resguardando a

vista do sol com a mão curva, e contemplando o espectaculo terrivel e

variado, que se descortinava no campo por todas as partes.

--Ah, meu coronel! exclamou o major Alvaro escarlate de fadiga e de

regozijo. Tenho engulido mais de dois alqueires de terra, ando todo n'um

lago, mas juro-lhe por todos os sanctos da côrte do ceu, que não trocava

por um condado a alegria d'esta hora... Como elles fogem! Parecem gamos!

Ah senhores francezes, cheira-lhes a esturro a nossa polvora? Bravo! Lá

apanharam os inglezes um pelotão quasi inteiro! Fortes covardes!...

--Não diga isso, senhor Alvaro! atalhou o coronel Isidoro Pinto.

Agradeça a Deus o que estamos presenciando, e antes de tempo não cante

victoria! Os francezes são valentes soldados, e aqui mesmo o estão

mostrando. Fogem estes, e quem sabe, talvez d'aqui a nada tenhamos de

fugir tambem. Agora por elles, e logo por nós. São sortes da guerra.

--Qual fugir, nem meio fugir! gritou Rodrigo Crespo, rindo

desentoadamente. Mas espera! Que é aquillo lá em baixo!

E alçando-se nos estribos apontava para a linha de arvores de um pequeno

bosque, copado sobre a esquerda, d'onde principiavam a enrolar-se certas

ondas suspeitas de poeira, avultando, como nuvem que desponta e se

desdobra, em corpo numeroso.

--Aquillo?! O que é aquillo? berrou o major Alvaro depois de fitar por

um pouco a vista de lince no ponto designado. Aquillo são francezes. É

uma emboscada de cavallaria jacobina. Estamos lambidos, com mil

diabos!...

--Fale mais devagar, observou o experimentado alcaide-mór. Noticias

d'estas não se gritam por cima dos telhados. É verdade, são francezes, e

com peças montadas e atiradores na frente! Formam em columna e em

pelotões á saída do bosque! Temos festa!... Rapazes! Alto! accrescentou

virando-se para o meio esquadrão de voluntarios que o seguia. Apparece

um grosso de cavallaria inimiga pelo flanco! Sentido! Toca a reunir ao

tenente coronel Taylor.

E o alcaide-mór, collocando-se á testa do meio esquadrão, ajuntava

friamente voltado para o major e para o capitão-mór:

--O sr. Isidoro Pinto tinha razão. Vamos receber uma carga a fundo, e

receio que a nossa gente a não supporte. A confusão desordenada, em que

a cavallaria ingleza corre no alcance dos granadeiros, póde ser-nos

fatal. Em todo caso... somos portuguezes. Aqui havemos de vencer ou

morrer!

--Viva o principe regente! Viva a santa religião! bradou o major

floreteando a pesada espada, e atirando a barretina ao ar.

--Viva Portugal, e sejamos homens! exclamou o coronel sereno e

intrepido, mettendo o cavallo ao lado do do alcaide-mór.

--Eil-os comnosco! gritou Manuel Carranca. Deus me perdôe! Como vem

feros! Se não fosse vergonha dizia, que mettem medo... de longe!

--Póde dizer, que não lhe fica mal. Mais d'estes lances tenho eu visto

na minha vida, e confesso-lhe que estimaria achar-me agora em outra

parte... São ossos do officio, não ha remedio senão roel-os. Paciencia!

A conjectura do velho official era exacta. Vendo disperso pelo fogo das

brigadas e pelo ferro dos dragões inglezes e da guarda da policia o

bello regimento de Morancin, o general Margaron, emboscado desde o

romper da manhã com toda a divisão de cavallaria franceza, deu por fim o

signal do ataque, signal, que Armand de Aubry, Lassage, e muitos outros

officiaes, não menos impacientes do que elles, aguardavam cheios de ira,

e mordendo os beiços.

O formoso quadro, que offereciam á vista os pelotões, desfilando a trote

de entre as arvores, cobertos por uma linha de atiradores, e trazendo

nos flancos as bôccas de fogo chamadas da reserva, ao passo que enlevava

os olhos, confrangia o coração. De momento para momento apertava o

perigo dos alliados soltos em carreira desenfreada após os vencidos.

Avançando em duas columnas, uma composta da guarda do general em chefe e

do regimento 26.^o de caçadores a cavallo, ás ordens do principe de

Salm-Salm, a outra formada dos regimentos 4.^o e 5.^o de dragões, na

frente dos quaes galopavam Margaron, os majores Leclerc, Theron, e todo

o estado maior, os esquadrões francezes, desenvolvendo-se, arremettem

com os estandartes altos, e as espadas núas, no meio da brava alegria

dos clarins, direitos a uma eminencia, que precisam vencer para dominar

o campo.

Similhantes a duas serpes monstruosas, suas columnas enroscam-se,

colleando pelas veredas da encosta, e subindo, ora entumecem, ora

estiram os anneis luzentes pelas voltas sinuosas, precedidas dos

relampagos, que fuzilam as bôccas das peças, do trovão, com que a

artilheria annuncia a sua presença, e da cortina de fumo, que ondeia e

paira sulcada de coriscos, sobre a ladeira opposta pela qual já se

precipitam os atiradores, investindo-a.

Vendo-os accommetter assim vistosos e intrepidos, o tenente coronel

Taylor olhou em redor de si, e apontando para elles exclamou:

_splendid_! Soldado applaudia a bizarra apparencia de outros soldados

dignos do seu valor! Firme deante da ameaça d'aquelle golpe sua voz

resoa em brados viris superior a todos os ruidos. Indifferente aos

perigos, vôa, ora a um, ora a outro lado, ordenando e confortando os

seus.

Os clarins britannicos e portuguezes respondem altivos ao desafio

guerreiro do inimigo. As nossas bandeiras tremulam com orgulho deante

das bandeiras oppostas. Retrocedendo em ondas loucas do alcance, que os

attraíra, os portuguezes e os dragões britannicos entram nas fileiras

uns após outros, e a ordem de batalha reconstrue-se sobre o terreno já

cavado pelas balas dos francezes. Manuel Coutinho e os officiaes unem os

esforços aos do valente capitão inglez e acodem á confusão inevitavel

d'este momento de sobresalto.

--Eil-os partem! exclama o amante de Leonor, vendo a cavallaria

contraria arremessar-se a todo o galope.

--Ávante! A elles, dragões! Bradou Taylor, largando as redeas, e

soltando o fogoso ginete, cujas crinas ondeantes açoutam o ar.

Foi como o encontro de dois vulcões rolando ennovelados por cima da

terra, que parecia gemer e vergar opprimida com a tempestade de homens e

cavallos, cujo estrondo abafado recresce á medida, que as duas muralhas

de ferro se approximam.

O chão embebe-se rapido debaixo dos pés dos corseis. Já não é senão uma

estreita orla entre dois rolos de pó.

O sol bate de chapa sobre a planicie. As armas scintillam despedindo

clarões sinistros. A distancia desapparece! As primeiras filas topam em

cheio. Um grito, uma explosão, um estrondo horrendo, assonancia de mil

clamores e de mil estrepitos, acompanha o medonho choque!

As fileiras baralham-se, e a peleja individualiza-se. Os pelotões

atiram-se uns contra os outros como vagas furiosas e encapelladas,

estourando no meio d'aquelle mar agitado. Com as redeas nos dentes, os

cavallos empinados, e a pistola, ou o sabre em punho, n'este duello

immenso composto de mil combates parciaes, cada qual busca um contendor

e logo o esquece, derrubado e nas ancias da morte, ou distraído no ardor

da nova provocação. Ao fuzilar das espadas juntam-se as detonações, a

chamma fugaz dos tiros disparados á queima roupa, e os jorros de fogo

que illuminam a frente das baterias.

A atmosphera suffoca. Ao alento fumegante dos cavallos, nitrindo de

colera, une-se a respiração abrazada dos homens, cujos olhos relampejam,

cujo odio encanecido em momentos devora o adversario alçado deante

d'elles. O sangue gotteja das armas e dos uniformes. Gemidos e brados

acompanham a agonia e a vingança. Por meio d'esta scena de furia e

delirio feroz atravessam ginetes sem dono com as crinas soltas, e cruzam

esvaindo-se pelas feridas corseis arrastando presos dos estribos os

cavalleiros moribundos. A lucta é toda de força e destreza. Deslumbra a

vista o faiscar incessante dos golpes. As fileiras raream-se. As vozes

dos chefes retumbam por cima do concerto horrendo dos combatentes

travados como feras no circo.

D'Aubry, fiel á sua palavra, mais parecia buscar a morte, do que a

gloria. O seu braço fere infatigavel; o seu peito offerece-se descoberto

ás balas e ao ferro. Por onde passa, os mais fortes e audazes, recuam,

ou caem. Manuel Coutinho, ao lado de Taylor, viu-o atirar o cavallo ao

encontro do coronel, saír intacto e invulneravel do arremesso de cem

contrarios, e avisinhar-se com a espada alta sobre o commandante inglez.

Sentindo fugir-lhe o campo, e divisando rotas, ou desordenadas suas

fileiras, Taylor accommette quasi só os inimigos com aquelle supremo

desdem do perigo, feição heroica do seu caracter. Poucos dragões e

alguns portuguezes ainda o rodeam, porém já desfallecidos. Os esquadrões

britannicos recuam e fazem já meia volta, retirando-se surdos ás ordens

e á desesperação dos capitães.

Lassagne e o coronel inglez encontram-se um defronte do outro por um

d'esses acasos, que a guerra tantas vezes arrasta. D'Aubry luctava perto

por abrir caminho, mas se podia ver o combate, não podia soccorrer o

companheiro de armas. De subito a espada do tenente francez faiscou

baixando a cravar-se no hombro esquerdo de Taylor, que a dor faz

vacillar nos arções, mas ao qual a ira, restituindo o alento, presta

novas forças. Um golpe terrivel depressa o vinga, e Lassagne, varado de

uma estocada pelos peitos, baquêa do cavallo em terra.

--Adeante! clama a voz do coronel, apertando os joelhos ao cavallo, e

floreteando o sabre.

Não poude dizer mais. Uma bala suspende-o na carreira. A mão inerte

solta as redeas, a espada núa escapa-lhe dos dedos, e o corpo seguro na

sella por segundos oscilla e prostra-se afinal sem vida. A bala

tinha-lhe atravessado o coração!

Manuel Coutinho olhou e empallideceu. Na mão de Armand d'Aubry fumegava

ainda a pistola, que disparára o tiro. A queda de Taylor acabou de

abalar os soldados já vacillantes. Alguns d'elles comtudo, cercam

d'Aubry, accesos em raiva e esquecem tudo para saciar o odio, que os

abraza. Triste com a perda do amigo, insensivel á propria morte, o

mancebo quasi que mal lhes disputa a existencia. Já o sangue lhe corre

de largas feridas, já a espada lhe treme na guarda, já um véu principia

a turvar-lhe a vista, quando de repente vê a larga folha de um sabre

ameaçar-lhe a fronte, outro ferro antepor-se e aparar a golpe, e uma voz

conhecida bradar-lhe:

--Rende-te!

Entregou a espada já sem ver a quem, e fechou os olhos.

Quando tornou a abril-os, achou-se debaixo do tecto de uma barraca de

lona ingleza, com o cirurgião-mór de um corpo britannico ao lado, e

Manuel Coutinho á cabeceira.

A batalha tinha terminado. A brigada Solignac na estrada da Lourinhã, e

a brigada Crenier na assomada da Ventosa haviam tentado tambem de balde

a ventura das armas. A fortuna de Wellesley foi mais poderosa. As

posições do Vimeiro, immortalizadas pela firmeza dos alliados,

repelliram todos os ataques. No fim de duas horas e meia de fogo, os

francezes contaram fóra de combate mil e oitocentos homens entre mortos

e feridos, bastantes prisioneiros, entre elles o general Brenier, e

treze peças de campanha perdidas, com vinte e tres carros de munições. O

duque de Abrantes, salva a honra, inclinou-se deante da adversidade, e

ordenou a retirada.

Restava-lhe morrer, capitular, ou abrir pelo meio dos inimigos a

retirada. A sorte compadecida não quiz que elle encontrasse um tumulo em

Portugal, aonde quasi possuira um throno. Por mão dos proprios

adversarios lhe franqueou as portas da patria.

A Casa dos Fantasmas - Volume II Episodio do Tempo dos Francezes · 第 32 / 59 题