Voltemos á mesma sala, onde assistimos ha dias nos paços da Inquisição
ao conselho de governo, presidido pelo duque de Abrantes. As figuras,
que vamos encontrar, são ainda as mesmas. Só falta o general em chefe já
a caminho para se collocar á testa do exercito.
Á direita da sua cadeira vazia, senta-se o conde da Ega, nomeado
conselheiro do governo, e encarregado da pasta da justiça por decreto de
1 de julho, em virtude da demissão do Principal Castro. Á esquerda, mas
de pé, e com indicios evidentes de summa agitação, está Lagarde, não só
pallido, mas verde de bilis concentrada, todo convulso, e amarrotando
com grande ira um papel entre as mãos. Francisco Antonio Herman, sempre
apurado no trajo e primoroso nas joias e galas pessoaes, corre pela
vista, quasi sem a ler, uma folha coberta de algarismos, resumo pouco
agradavel do ultimo balanço do erario. Luyt, com a barba quasi em cima
da mesa, e os oculos assestados, faz voar a penna em linhas miudas,
enchendo varios diplomas e interrompendo-se com frequencia para menear a
cabeça em ar de hesitação, ou para espreitar por baixo dos oculos a
posição e os modos das pessoas, que o rodeiam.
Dois personagens mais completam o quadro. O primeiro é o capitão
Magendie, de grande uniforme, passeando silencioso, e medindo o aposento
em largas passadas de um a outro extremo. O segundo, que apresentâmos ao
leitor pela primeira vez, chama-se mr. Juffré, merece a reputação de
estelionario, que o flagella, passa com razão pela harpia mais ávida de
todo o bando de abutres, que espicaçam o corpo quasi moribundo de
Portugal, e honra-se e faz vida essencialmente de ser cunhado de um
general.
No momento, em que entrámos, a discussão, acalorada, tinha-se
interrompido de salto com a chegada de Lagarde, o qual rebentára do
antro da policia grávido de cuidados, de apprehensões, e de pessimas
noticias. Apenas acabou de balbuciar o prologo da elegia dos infortunios
consummados e das desgraças imminentes, alguns dos ministros, como
petrificados, sumiram-se nas cadeiras, pozeram a vista no chão, ou
cairam n'aquellas sombrias meditações ácerca da fatalidade, de que o
vulto dramatico de Hamlet é a personificação sublime.
O menos sensivel na apparencia aos revezes e receios era Herman. O
sorriso, é verdade, tornou-se-lhe contrafeito, as faces desmaiaram um
pouco, e o brilho das pupillas esmoreceu visivelmente; porém nenhum
outro symptoma accusou n'elle enleio, ou perplexidade. Magendie,
official intrepido, mas pouco affeito a dissimulações diplomaticas,
tinha exhalado a primeira explosão de colera, descarregando uma punhada
furiosa sobre o bofete, e ornando o gesto violento de uma rajada de
pragas maritimas de sabor alcatroado excessivamente forte para o paladar
e delicadeza nervosa do auditorio. Partiu depois direito á parede de
fundo da casa, encetando o passeio peripatetico, annotado de murmurios
surdos, em que viemos colhel-o.
O ministro da guerra e da marinha, o incomparavel Luyt, vivia em um
resfriamento perenne, e era quasi impossivel concluir cousa alguma da
expressão apathica e insignificante, por calculo, do seu rosto immovel e
descorado. Escrevia, olhava, tornava a escrever, sacudia o arieiro, e
sobretudo não perdia palavra, nem movimento dos collegas. Dir-se-hia um
automato funccionando em quanto lhe durava a corda. Quem não queria, nem
sabia enganar o observador menos perspicaz era de certo o conde da Ega.
O honrado fidalgo retratava no semblante, sem o menor disfarce, a
tragedia do partido, que tinha abraçado. Ignorâmos se começára já para
elle o arrependimento, e se lamentava a docilidade, que o fizera mais
francez, do que alguns ministros de Napoleão; mas ousâmos asseverar que
as faces jaspeadas de malhas lividas, o luto das feições contraídas, e o
profundo desalento, que respirava a sua mudez glacial, exprimiam uma
grande agonia moral, e equivaliam a um bilhete de pesames aos
protectores, e a uma certidão de obito passada á causa imperial na
Peninsula!
Finalmente mr. Juffré, especie de peão fidalgo da côrte do duque de
Abrantes, verdadeira, mas rachitica estatua de Nabuco invertida, com
bases de prata, e cabeça de barro, ora sobre um pé, ora sobre o outro,
recuava, pulava, e adeantava-se em saltinhos de pulga industriosa, com o
chapeu na mão direita, a bengala na esquerda, e dois lenços ricamente
bordados e almiscarados a rebentarem pelos bolsos da casaca côr de
pinhão.
Um risinho amarello, meio enfiado, tremia-lhe nos cantos dos labios,
delgados e sumidos, revelando indiscretamente, que aquella bôcca voraz,
era rasgada, como a do tubarão de orelha a orelha. O nariz expansivo e
recurvo, como bico de ave da rapina, quasi que arremettia com os beiços,
invadindo-os; e os dentes finos, juntos, e agudos, assimilhavam-se a
duas serras parallelas.
Anão de estatura, enfeitado como uma imagem, recendente a aromas como um
pivete, dir-se-hia a alma do Judeu de Veneza no estojo dourado de um
pintalegrete de quarenta annos! As luvas estalavam-lhe nas mãos, os
calções modelavam o algodão que chumaçava as coxas, e a meia de seda
exgotava os poderes da elasticidade para não trahir, abrindo-se, o
segredo da perna artificial d'este Nemorino em edição correcta.
A testa immensa e esguia, como que escorregava para a nuca, acabando
aonde principiava o chinó, que, forcejando por ser louro, sahira,
comtudo, quasi alaranjado, arqueando as sanefas graciosas do mais
vistoso topete. Os olhos azues, da tinta das más porcelanas japonezas,
volviam-se cheios de vivacidade, armando ciladas quasi constantes á
formosura, ou á riqueza, duas conquistas em que seu dono os empregava
com summo gosto. N'este momento, um véu de inquieta tristeza assombrava
a sympathica physionomia de mr. Juffré. A vista penetrante e obliqua do
homunculo estava de sentinella á leitura, de que o ministro Herman se
distraía a miudo, e inculcava ao mesmo tempo a desconfiança, e a cubiça
luctando com o medo e a avareza.
--Emfim! exclamou por fim Herman, sorvendo com pausa uma pitada. Até que
temos os inglezes á porta!...
--Diga dentro de casa, e quasi senhores d'ella, que diz a verdade!
redarguiu Lagarde meio suffocado. Ouçam o resto. Ainda não li tudo.
Vejam como Wellesley e Cotton rematam a proclamação: «O nobre esforço
contra a tyrannia e usurpação da França será sustentado pelas forças
unidas de Portugal, Hespanha e Inglaterra; e para o exito feliz de causa
tão justa e gloriosa os designios de sua magestade britannica são eguaes
aos que nos animam»... Ah! proseguiu animando-se, os traidores sabem que
nos achâmos sobre um barril de polvora, e lançam fogo ao rastilho,
calculando pelo relogio a hora de nos fazerem voar!...
--Mas a policia apanhou de certo os agentes, e arrancou as proclamações?
accudiu Luyt sem levantar a cabeça, nem a penna do papel, e com a
accentuação fria e nasal, que lhe era propria.
--A policia, senhor Luyt, atalhou o intendente colerico, fulminando o
ministro com a vista accesa em chammas, a policia não possue o dom de
ubiquidade, nem os cem braços de Briareu... Esta madrugada todas as
esquinas amanheceram forradas de pasquins e de impressos incendiarios.
Arrancaram-se muitos. Pois bem! Á tarde já lá estavam outros!...
--Se não serve ao menos para isso, de que vale então a policia? repetiu
o fleugmatico ministro da marinha, continuando a escrever.
--De que serve?!... Serviu, bradou Lagarde enfurecido, para não cairmos
umas poucas de vezes nos laços dos conspiradores! Inaudita pergunta! De
que serve a policia! De accordar os que dormem, de velar pela ordem, de
conter e reprimir os maus sentimentos de uma população que nos detesta.
Achais pequeno milagre conservarmos ainda Lisboa, quando o reino todo se
levanta e os inglezes marcham contra nós?!... De que serve a policia?! É
boa! Serve para isto!...
Ao mesmo passo mr. Juffré, vendo Herman pousa a folha coberta de
algarismos, interpellava-o em tom meio submisso, meio agastado.
--Então?! O que diz?...
--É exacto. Estão escripturados e dados em entrada por emprestimo, a
trinta dias, vencendo juro de 15 por cento os seus cento e trinta
contos...
--Bem! Agora a ordem para os receber do erario?...
--É inutil.
--Inutil! Porque?! interrogou o argentario sobresalto.
--Porque no erario não ha real. Todo o dinheiro, que existia, levou-o o
duque na caixa militar...
--Ah! Malditos inglezes! Mas! E o penhor? A prata da egreja de S. Roque,
que está na Moeda, e que s. ex.^a o general meu cunhado me affiançou?...
--Por ordem do duque restituiu-se outra vez á egreja. Póde ir lá
buscal-a... se lh'a derem.
--Mas n'esse caso estou roubado, despido, e nú! Caí nas garras de uma
quadrilha de salteadores! berrou o uzurario, ao qual as palavras mansas
do ministro quasi arrancavam a alam aos pedaços com tenazes em braza.
--Modere-se sr. Juffré. Veja aonde está e a quem fala...
--Falo ao salteador que me espoliou! O sr. Herman rouba-me e
escarnece-me.
--Engana-se. Está fazendo a satyra do duque de Abrantes. São d'elle as
ordens de que se queixa. Eu obedeci.
--Pois então clamo e juro, que s. ex.^a o duque é tão bom, ou peior do
que o sr. Herman.
--Olhe, atalhou o ministro, muito sereno, monte a cavallo e vá
dizer-lh'o a elle. Fica além d'isso mais perto dos seus cento e trinta
contos de réis. O que não lhe prometto, se o duque lhe ouvir metade das
palavras, com que me está regalando a mim, é que não lhe pague capital e
juros com um chicote na cara ás vergalhadas...
--Que insolencia! Ousa dizer-me?! exclamou Juffré fulo e convulso.
--Um conselho! Não torne a falar aqui em ladrões. Não acorde o cão que
dorme. Observou Herman, olhando de revez para Lagarde, e apunhalando o
uzurario com o sorriso.
--Porque? É capaz de insinuar? atalhou o outro já em voz baixa.
Sou capaz de me lembrar, sim senhor, e muita gente commigo. Fazem-lhe
hoje trezentos contos, e quando veiu para aqui não trazia treze francos.
Quem o ignora? Cuida que todos são esquecidos? O sr. Juffré e outros
similhantes foram a vergonha e o opprobrio do nosso governo. Deus queira
que não sejam tambem os instrumentos da sua ruina. Adeus! O conselho tem
cousas sérias de que tractar, e a mesa dos publicanos é lá fóra. Vá!
--Miseravel! Salteador! gritou o homunculo roxo de ira, cerrando os
punhos, e crescendo contra o ministro, cuja frieza motejadora o
exasperava.
Mas a raiva converteu-se-lhe logo em susto, quando sentiu a larga e
pesada mão de Magendie a ferral-o pela gola e pelo fundo dos calções,
leval-o pelos ares até á porta, abril-a com o pé, e despedil-o como um
fardo, accrescentando no fim de todo este drama em acção:
--Desprezivel sanguesuga! Se aqui voltas protesto cortar-te e salgar-te
as orelhas, a unica cousa que não é postiça em ti!
O argentario calado e tremulo ergueu-se moido, reparou á pressa os
ultrajes das roupas amarrotadas, e desceu as escadas rabiando como
buscapé acceso em arraial.
Depois d'esta proeza, pouco heroica pela qualidade da victima, o capitão
Magendie approximouse da meza, e fitando Lagarde, disse-lhe com a
concisão militar, que lhe era usual:
--Quem espalhou as proclamações?...
--Não se sabe. Ha indicios... replicou Lagarde assumindo o seu ar
mysterioso.
--Quem as trouxe de bordo da nau ingleza? insistiu o official,
continuando o interrogatorio.
--Ignora-se ainda, mas suppõe-se! respondeu o intendente um pouco
turvado.
--Quaes são os agentes dos sublevados do norte em Lisboa?...
--Tracta-se de os descobrir, porèm!...
--Não sabeis nada então?
--È verdade. Nada certo.
--Muito bem! Se não sabeis nada certo, se para vós tudo são trevas e
ignorancia, tinha razão mr. Luyt. De que serve a policia? De engulir
dinheiro e denuncias, e de fazer render os serviços que não faz. Não nos
quebreis, pois, mais os ouvidos com os vossos malsins surdos, cegos,
immundos, e famintos, e fazei-nos o obsequio de nos deixar discutir em
paz.
--Oh! exclamou Lagarde livido e convulso de ira. Tractas-me como se
fosse um verme. Sois acaso Napoleão o grande!? Cuidais que hei de
supportal-o? Sou magistrado independente, e não recebo ordens, nem
censuras senão dos superiores...
--De mais tendes recebido dos inferiores, mas peitas e dinheiro. Até nas
enxovias e prostibulos se diz que bateis moeda! Olhai bem para mim! Toda
a minha riqueza consiste n'estas dragonas, em cem francos que trago no
bolso, e nos copos de prata da minha espada. Não levarei de Portugal
senão mais alguma cicatriz, e um nome honrado. Se vos atreveis a
asseverar o mesmo, aqui está a minha mão, apertai-a, estou prompto a
pedir-vos mil desculpas. Se não ousais!... Sumi nas trevas com os vossos
morcegos toda a historia da policia de Lisboa, e não faleis de collo
alto aos que vos conhecem e se envergonham de vos têr por compatriota.
Lagarde espumava. Immovel de colera e espanto cada phrase do capitão
feria-o no rosto e na consciencia como um açoute. A sua posição era tão
falsa e dolorosa, que Herman compadecido quiz pôr-lhe termo.
--Vamos, senhores, exclamou, deliberemos e não questionemos. Hoje os
minutos valem horas. Lagarde! Receiais algum tumulto na capital?
--Não. Apezar de contar com pouca força respondo sobre minha cabeça pela
tranquillidade de Lisboa, se os inglezes não entrarem.
--E eu respondo sobre a fé e honra de meus canhões, que os inglezes não
passam as torres! acudiu Magendie. As minhas proclamações de polvora e
bala agradam-lhes menos ainda, do que as suas de papel nos lisongeam a
nós.
--Excellente! tornou o ministro do reino. Então por esse lado podemos
estar descançados. Mas os inimigos, é provavel, que não queiram perder
de todo o lanço, e hão de trabalhar. Dão-me cuidado os inglezes tão
proximos, e os odios vivos de toda esta gente.
O general partiu com o melhor das tropas. Novion avisa-me de que a
guarda da policia já desertou quasi toda. Só hontem fugiram sessenta
soldados. Se acaso se levanta um tumulto repentino, e é facil, com que
havemos de contar?!...
Lagarde encolheu os hombros e calou-se. O conde da Ega estremeceu e
fez-se mais pallido. Luyt, com a penna suspensa, e os olhos parados
atraz dos vidros dos oculos, respondeu a meia voz:
--Com umas segundas vesperas sicilianas!...
--Em que todos seremos assassinados?! interrogou Herman affectando
serenidade, porém um pouco tremulo. Meus senhores, parece-me que o caso
merece ser examinado. Estou prompto a verter o sangue no campo,
pelejando como soldado, mas a idéa de uma affrontosa morte, dos ultrages
e supplicios, de que nos ameaça a vingança de uma plebe de canibaes,
aterra-me, não o encubro. Confesso mais. Falta-me o valor para a encarar
com intrepidez! Lagarde, vamos! Reanimai-vos. Os homens são para as
occasiões. Que imaginastes para conter e enfrear o populacho, que
murmura, e que o canhão de Wellesley, ou de Cotton póde dispertar e
enfurecer?...
--O terror! O reinado do terror! Só o medo póde salvar-nos! redarguiu o
intendente sombrio e fitando os collegas.
--O terror?! Renovar as scenas de 1793 em Lisboa? Levantar o patibulo em
permanencia?!...
--Sim! O estado de sitio em todo o seu rigor! Não foi já decretado? O
verdugo e o cadafalso são a razão extrema da autoridade contra o povo.
--Mas as horrorosas execuções de partidos inteiros, de classes adversas
quasi em massa, que nos propondes o que salvaram em Paris? Já vos
esqueceu o famoso dia de thermidor?...
--Não! Salvaram a França das armas dos alliados, cobriram as fronteiras
de recrutas, que luctaram como veteranos, assegurando o triumpho e
unidade da republica. Achais pouco? Reparais nas manchas de sangue?!...
--Dizei nas torrentes, é mais exacto...
--Sim! Mas esse sangue, embora jorrasse innocente muito, confirmou a
liberdade, e tornou a França grande, invencivel e temida. Robespierre,
Saint Just, e Carrier, os chefes e os proconsules succumbiram afinal, e
foram arrastados no rolo furioso da tempestade, desenfreada por elles? A
expiação do systema foi o mesmo patibulo aonde o tinham architectado?
Que importam tres, ou quatro cabeças mais no cesto da guilhotina, quando
tantos resultados abonam a logica inexoravel, que o dictou? Estamos
quasi sós no meio de uma nação insurgida e irritada, que a saudade da
independencia e de seus principes subleva, que a dor e a ira das
offensas exaspera!... Os inglezes bloqueiam-nos por mar, e
accommettem-nos por terra! A nossa sorte é vencermos, acabar aqui, ou
passarmos por cima de montões de ruinas e de cadaveres. Não temos
quartel a dar, nem a receber! Na falta de forças seja o terror a nossa
espada! Na falta de todo o apoio seja o cadafalso a nossa força!...
--Para que o sangue das victimas nos afogue? Para que o luto de um povo
assassinado macule de eterno opprobrio o lustre de nossas armas?!...
exclamou Hermam erguendo-se com impeto, severo, e indignado. Não! mil
vezes não! Esse crime inutil, porque apressaria só a nossa queda, fôra a
sentença de morte da honra franceza. A civilização, que representâmos,
esconderia o rosto de vergonha. O imperio teria de córar deante d'esse
anachronismo sanguinario. O anno de 1808 não é o anno de 1793. Podem
tental-o; mas eu não lançarei essa grande nodoa sobre mim e sobre a
patria. Os vencedores de Austerlitz por meu voto nunca hão de vestir a
opa vermelha do carrasco...
--Veremos como os guerrilhas e os sicarios do principe regente vos
agradecem! Quando virdes o punhal sobre o coração, ou o trabuco apontado
ao peito...
--Poderá tremer no homem o que é fragil, por ser barro e limos,
redarguiu o ministro com um gesto de suprema elevação moral, mas a
consciencia, ao menos, não ha de accusar-me n'essa hora suprema! Alguns
mezes menos de vida não valem o sangue de milhares de innocentes, a
infamia do meu nome, o opprobrio da minha memoria.
--N'esse caso, accudiu Lagarde, lavo as mãos de tudo, e não respondo...
--Respondo eu! interrompeu Magendie, que escutava o dialogo havia
minutos, e que de pé e silencioso, mas cheio de impaciencia, a custo
reprimia a colera. Respondo eu! As taboas de proscripção não hão de
aviltar-nos. Somos soldados e temos armas. Se Lisboa se insurgir, os
canhões dos meus navios e os machados dos meus marinheiros chegam ainda
para varrer, como pó levantado, as espumas da plebe enfurecida e
indisciplinada, sr. Lagarde! O reinado do terror, o arremedo das
carnificinas de 1793, não se ha de fazer em Lisboa, em quanto uma bala
me não varar o coração. Nunca o sangue dos patibulos, que eu saiba, que
eu consinta, salpicará as aguias, que beijámos como symbolo da honra...
Sei porque lhe occorreu exhumar do arsenal infamado dos dias mais
funestos da revolução o cadafalso de Robespierre! Tem mais sede de ouro,
do que de sangue, a sua idéa é mais de vingança, de cubiça, do que de
medo! Se fossemos agora ao castello de Lisboa, talvez achassemos a
explicação do plano, que nos propõe!...
--Sr. Magendie! É a terceira vez que hoje me affronta n'esta casa!
bradou o intendente enraivecido, mas pallido de susto deante dos
relampagos, que despediam os olhos do capitão.
--Acha? Uma já devia ser de mais! Quer a reparação? Está a minha espada
ás suas ordens...
--A sua espada?! Desafia-me?! A occasião podia ser mais opportuna.
--Creia que nunca lhe fiz a injuria de suppor, que podia encontrar um
homem no sr. Lagarde. Estava zombando quando falei na minha espada; é
arma que não conhece. Se fosse uma mordaça, e fossem algemas?!...
--Senhores! Senhores! Por quem são! accudiu o conde da Ega
interpondo-se.
--A minha paciencia, atalhou o intendente, limpando dos labios a escuma,
e empregando vãos esforços para vencer a convulsão nervosa, a minha
longanimidade não se altera com estas provocações grosseiras proprias de
uma educação de tarimba...
--Agradecido pela clemencia, meu fidalgo! redarguiu Magendie,
inclinando-se ironicamente. Mas o plebeu, que se levantou da tarimba, e
poz estas dragonas présa os brios como um ducado. Quereis saber porque
este homem de bem queria fazer de todos nós assassinos, e dos soldados
da França verdugos? Eu vol-o digo em duas palavras! Machinou casar a
filha de um cavalheiro rico de Mafra com Armand d'Aubry seu sobrinho. A
donzella resistiu, e o sr. Lagarde vingou-se accusando falsamente o pae,
sepultando-o em um carcere, e dando a escolher á filha a morte d'elle,
ou um resgate infame a troco da sua mão e dos seus bens! Encontrou duas
almas nobres; Aubry rejeitou o pacto; a filha não se quiz vender para
salvar a velhice de um militar, deshonrando-lhe os cabellos brancos... O
sr. Lagarde não se deu por vencido, e trabalhou para si. A esta hora
achar-se-ha um agente seu na prisão do cavalheiro, que se chama Paulo de
Azevedo, e ha de já ter-lhe intimado a decisão final de pagar trinta
contos de réis até ámanhã, ou de ouvir a sentença de um conselho de
guerra, e de aparar no peito as balas de um pelotão na praça do
castello! Eis o verdadeiro motivo do santo zelo que o inflamma. O
reinado do terror sería para elle uma chuva de ouro, ou de sangue,
segundo a docilidade das victimas!...
--Calumnia! Infame calumnia! exclamou Lagarde branco e tremulo de
colera.
--A accusação é grave, sr. Magendie! observou Herman, que se poz em pé
assim como os collegas, e que leu no rosto demudado do intendente,
apezar de todo o cynismo d'elle, vehementes indicios da culpa. Veja o
que acaba de asseverar! Allude a um magistrado, a um homem que mereceu a
confiança do imperador. Provará o que affirmou?
--Se houver alguem que ouse repetil-o deante de mim, interrompeu Lagarde
suffocado, consinto que me condemnem!
--Acceito! disse Magendie. Ouvirá a confirmação da verdade, e de uma
bôcca insuspeita. Aubry!...
A porta abriu-se, e Armand appareceu aos umbraes, pallido e resoluto.
--Meu tio, disse depois de saudar o conselho com uma cortezia, jurei-lhe
que seria punido se não remediasse o mal, e aqui estou para cumprir a
promessa. Na presença de Deus e dos homens, por alma de meus paes,
assevero e juro que o capitão Magendie disse a verdade e só a verdade!
Agora, que deante de vós, e de todos os que me escutam prestei
testemunho á consciencia, curvae a cabeça, e arrependei-vos, porque, por
vossa propria bôcca estais condemnado!
O tom, em que Aubry falou, inculcava maior tristeza, do que ira. Lagarde
petrificado deixou pender a fronte e murmurou:
--Tambem tu, Armand!...
--Fiz o meu dever. Sois irmão de minha mãe, mas da herança de meu pae, o
que acima de tudo préso é a honra do nome, e essa, já vol-o tinha dito,
hei de sepultal-a commigo pura no campo da batalha, aonde posso caír e
morrer hoje, ou ámanhã! Meus senhores, adeus. Pedí a Deus que exalte as
nossas armas!
Ditas estas palavras saíu sereno e grave, deixando todos pasmados e
silenciosos.