Voltemos á ponte da Asseca, de que ha tanto estamos ausentes.
Vamos saber se o palacio arruinado conserva a sua reputação diabolica, e
se o João da Ventosa, depois do façanhudo murro, que esboroou quasi a
cabeça ao sargento Cabrinha, se recolheu são e salvo a seus lares, ou se
a vingança do espião punido o obrigou a tomar ares mais fortes no
exercito nacional do general Bernardim Freire. Avisinhemo-nos com certo
resguardo. É noite, e ainda com o luar claro podem tomar-nos por
francezes, e pescar-nos com alguma bala patriotica.
Deram onze horas. Provavelmente o patrão e os creados dormem a somno
solto esfalfados do trabalho da eira e dos carretos do celleiro. Não! Ha
luz no quarto terreo. Espreitemos! Lá está o lavrador sentado com o
sabido caneco ao lado, o bojudo cangirão defronte, e o eterno Manuel
Simões a fazer-lhe a segunda. Estes pelo menos não emigraram para o
Porto, nem mudaram de costumes.
A opinião de que os tumultos do Corpo de Deus tinham sido obra de uma
conspiração mallograda salvou das perseguições da policia os tres
camponezes. Uma das pessoas, que podia denuncial-os, o sargento
Cabrinha, agonizava no hospital accommettido de uma congestão cerebral,
e com a perna esquerda partida e amputada, tudo fructos amargosos do
funesto dia, que o céu destinára para castigo de seus crimes. Mesmo que
escapasse da amputação e á febre, o que os facultativos duvidavam, todos
prognosticavam que acabaria demente, ou nescio.
Restava o Gaspar Preto, o _Sapo_, do qual nos despedimos a ultima vez,
deixando-o entre as garras de dois inimigos resentidos e inexoraveis, o
Antonio da Cruz e o fazendeiro da Aramanha. O que é feito d'elle?
Tres dias depois as mulheres que iam ceifar ao campo, passando pelo alto
do Valle, viram de longe balouçado pelo vento nos galhos da figueira do
José Lopes, a mais elevada e formosa arvore dos contornos, um vulto, que
á luz incerta e na meia treva do alvorecer, tomaram por espantalho
pendurado para assustar os passaros.
Palraram, discorreram, entre si as comadres e as visinhas ácerca
d'aquella novidade, e acabaram por decidir, como verdadeiras pêgas
curiosas, que o caso merecia exame. Subiram a encosta. Quando chegavam
acima, rompia ainda pallido o primeiro raio de sol. Soltaram um grito de
susto, e ataram as mãos na fronte! O espantalho era um homem enforcado!
Quizeram fugir, mas o peccado de nossa mãe Eva deteve-as. Antes das
linguas paroleiras tocarem a rebate no logar e nos arredores era
indispensavel conhecer o infeliz. As mais velhas e resolutas armaram-se
de valor, e approximaram-se. Outra exclamação, em que o espanto se
revelava mais, do que o dó, chamou em volta d'ellas as raparigas. O
padecente, que em vida fôra assaz feio, apparecia-lhes medonho n'este
patibulo repentino com a cabeça pendente, a lingua fóra da bôcca, e os
olhos esbugalhados e saidos das orbitas. Tinha as mãos amarradas atraz
das costas e um rotulo no peito, que dizia: «Justiça de Deus! Por
Judas!»
As mulheres benzeram-se em silencio, e olharam umas para as outras. O
medo curou-as por um instante da loquacidade. Apezar das contorsões, que
desfiguravam o rosto da victima, e que a morte como que immobilizára,
petrificando-as com sua rigidez, aquella cara, tantas vezes vista, não
podia enganar a memoria das matronas e donzellas. Era o _Sapo!_ o _Sapo_
garrotado!
Satisfeito este ultimo instincto de sua indole, as mulheres
dispersaram-se como um vôo de gralhas ao tiro do caçador, e esquecendo a
ceifa e o jornal, correram, como loucas cada uma para sua parte, a fim
de espalharem a noticia. O primeiro, que avistaram, e a quem a deram,
foi ao Antonio da Cruz, que acharam assentado á porta do moinho, com o
cigarro acceso na bôcca, e a espingarda ao lado. Escutou-as sem se
alterar, saccudiu o lume com um piparote, e erguendo-se vagaroso e
sereno, respondeu-lhes:
--Então! São coisas! Deus escreve muitas vezes direito por linhas
tortas! O velhaco não merecia uma, mas cem forcas.
Fechou depois a porta, metteu a chave no bolso da vestia, e partiu
direito a Santarem pela Ponte da Asseca sem olhar para traz. A isto se
reduziu da sua parte a oração funebre do desgraçado malsim!
O povo commentou, como costuma, o successo, repartiram-se os votos sobre
a causa e os auctores da execução, porém nem um só dos patriarchas da
aldeia se lembrou de boquejar no Antonio da Cruz. Os contrabandistas,
como tinham os hombros largos, carregaram com todas as culpas, e a
versão mais seguida foi que o desditoso _Sapo_ recebêra de alguns
d'elles com capital e juros o premio de suas espertezas e denuncias.
No emtanto os acontecimentos politicos adeantavam-se. A revolução do
norte creára forças, e os francezes, acossados e repellidos de toda a
parte pelas populações iradas, já não chamavam seu, senão ao terreno que
pisavam. A derrota dos insurgidos do Alemtejo por Loison em Evora, o
saque e o martyrio da cidade levada de assalto, longe de acalmarem os
animos, exaltaram-n'os com a narração exagerada dos horrores perpetrados
pelos francezes. O nome de Loison, já odioso, tornou-se execravel; e a
sêde de vingança accendeu-se em todos os peitos, ardente e implacavel.
Lisboa principiou a agitar-se. Os moradores mais abastados, fugindo ao
jugo detestado dos estrangeiros, accolhiam-se ás provincias sublevadas.
A cidade tornou-se um deserto. Em pleno dia as ruas eram silenciosas,
como se a peste as houvesse despovoado. A falta de communicações com o
norte e o sul do reino, e com o mar, elevou o custo dos generos a preços
fabulosos, e a escacez do trabalho assentou a miseria e a fome no
albergue do pobre e do operario. Os proprietarios não recebiam suas
rendas, nem os empregados seus ordenados. Mais de vinte mil pessoas
decentes, que viviam dos salarios da côrte e dos lucros do commercio,
pediam agora esmola! Os habitantes ruraes, intimados para entregarem as
espingardas, evadiam-se em grande numero com ellas, e iam engrossar a
insurreição. Ninguem podia sair as portas de Lisboa sem passaporte. As
bombas, os foguetes, e os fogos de artificio, alegria e paixão das
festas e arraiaes, foram prohibidos. Emfim todas as oppressões e
violencias se accumulavam para apressar as horas de dominio, que o
governo francez ainda havia de contar, quasi reduzido á capital do reino
e suas cercanias.
Leiria, vendo o Porto, Braga, e Coimbra levantadas, quiz imital-as com
mais zelo, do que prudencia. Os vaticinios patrioticos do morgado de
Penin, excellente portuguez e pessimo soldado, não se tinham cumprido,
senão na parte mais facil. O resto, o peior da empreza, encarregou-se o
brigadeiro Margaron de o concluir por ordem de Junot. O ex-coronel de
cavallaria e alcaide mór Rodrigo Crespo, e o coronel do regimento de
milicias Isidoro Pinto Gomes, com um punhado de soldados
indisciplinados, unidos ao capitão mór das ordenanças do termo, Manuel
Carranca, sonharam uma restauração temeraria, decidiram o bispo a cantar
um _Te Deum_ na egreja matriz, e passeiaram em triumpho entre
acclamações estrepitosas o estandarte de Portugal.
Vimos com que leviandade o major Alvaro e o morgado de Penin discutiam
os seus planos de rebellião, como se os veteranos de Bonaparte fossem
soldados de chumbo, ou de papelão. As avançadas inimigas, entrando em
Rio Maior, despertaram os dois velhos crianças de suas illusões. O
galope de seus cavallos, reputados os melhores da Extremadura, salvou-os
de ficarem prisioneiros e trouxe-os já meio desenganados a Leiria, aonde
a sua presença sobre-excitou as paixões, em vez de as aplacar. Todos
juraram morrer defendendo os muros derrocados e o castello da terra
natal; anoiteceu porém, e os heroes, conversando com o travesseiro,
sentiram esfriar repentinamente os brios. O prelado recordou-se de que,
ministro de um Deus de paz, devia abominar o sangue, e, cavalgando a
mula episcopal, apartou-se a bom andar do sitio da tentação. Muitos dos
granadeiros da independencia, que na vespera rachavam ainda os céus com
féros brados, lembrados de que á noite todos os gatos são pardos,
aproveitaram o escuro, e eliminaram-se sem ruido, mais cuidadosos da
saude do corpo, do que do esplendor de suas armas. Ficou o povo, gente
quasi inerme, alvoroçada, e inconstante. A primeira descarga inimiga
varreu, como pó, essa plebe, e abriu as portas aos francezes. Como
Achilles os lidadores de Leiria sobresaíram na ligeireza dos pés!
Mas até os triumphos de Junot conspiravam a sua ruina. Cada derrota dos
portuguezes levantava em favor da independencia milhares de braços.
Quando um povo inteiro se torna inimigo, o seu nome é legião, e a fabula
de Cadmo realiza-se. Evora e Leiria volveram logo a si, e Loison e os
generaes estrangeiros recuaram. A ambição de Bonaparte cansára a
fortuna, e Deus tinha designado a peninsula para theatro das primeiras
licções dadas ao seu orgulho, e dos primeiros revezes experimentados
pelas suas aguias. Encarando o bello sol das Hespanhas, a estrella do
imperio sentiu esmorecer o brilho, e começou a declinar.
Os adversarios irreconciliaveis, aos quaes o novo Cesar imaginou cerrar
para sempre nossas praias, saltaram n'ellas como libertadores, e
romperan essa guerra, alternada de victorias e revezes, que só havia de
findar ás portas de París. Sir Arthur Wellesley á frente dos soldados
embarcados em Cork, seguidos de perto pelas tropas de Sir John Moore,
transportadas do Baltico, combinando as operações com o almirante Sir
Charles Cotton, e com os generaes, que dirigiam a insurreição de
Portugal, havia de pisar em breve a terra, aonde o esperavam tantos
tropheos, marchando direito sobre Lisboa, decidido a arriscar em um só
lanço a sorte de toda a lucta.
O duque de Abrantes era uma alma bem temperada. Se as prosperidades
entorpeciam a sua indole um pouco frivola, o infortunio, ou os perigos,
encontravam-o sempre intrepido. As más noticias não o desalentaram.
Decidido a disputar até á ultima escorva a capital do paiz, que por
momentos julgára esquecido dos seus reis e da sua autonomia, não
trepidou um momento, empregando todos os esforços para conservar
Portugal engastado como joia inestimavel no diadema do conquistador.
Para que a heroica decisão não desmentisse tão audaciosas esperanças,
era necessario reunir em Lisboa todas as forças activas. Kellerman
expelliu de Alcacer do Sal os bandos de guerrilhas, que a infestavam,
evacuou Setubal, e veio coroar com suas tropas as eminencias de Almada.
Todos os preparativos, ditados com vigor, correram rapidos. As
prevenções compativeis com o pequeno numero de bayonetas, que lhe
obedeciam, foram adoptadas a tempo. O general Graindorge defendeu a
margem esquerda do Tejo. O regimento 47.^o guarneceu o forte da
Trafaria, a torre do Bogio, e os navios fundeados. O regimento 66.^o
occupou Cascaes. A legião do Meio Dia a torre de S. Julião da Barra. O
regimento 26.^o cubriu Belem, o Bom Successo, e a Ericeira. O 15.^o
Lisboa e Sacavem. O marechal Travou foi nomeado governador das armas da
capital; o general Avril governador do castello de S. Jorge; e o conde
de Novion, á testa da guarda da policia rareada pelas deserções, e quasi
limitada ao seu estado maior, auxiliava a conservação da cidade,
reputada por Junot como base essencial de todos os seus projectos.
No dia 15 de agosto, anniversario do nascimento de Napoleão, o duque
logar-tenente reuniu ainda nas salas do palacio da sua residencia, a
nobreza, o clero, os magistrados, e os officiaes superiores, e
recebeu-os com um rosto tão alegre e prazenteiro, como se Catilina não
batesse quasi ás portas de Roma, ou como se o trovão dos canhões
britannicos, já bem proximo, não acordasse os echos dos campos de
batalha, aonde se ia jogar esta partida, que deu o signal a tantas
tempestades na Europa!
Eis o estado dos negocios, e pedimos venia ao leitor de o ter demorado
tanto na Ponte da Asseca com esboço tão informe de noticias politicas e
militares. Voltando atraz, e penetrando com elle discretamente no
corredor, meio alluido do andar nobre do palacio _maldicto_, pedimos
licença para o guiarmos pelo som das vozes, que parecem altercar em uma
sala proxima, até o seio mesmo do congresso dos conspiradores, que alli
pleiteiam competencias, e apuram alvitres afim de coadjuvarem as armas
nacionaes e os progressos dos alliados.
Era noite, já o dissemos, e noite adeantada. A lua alta nos ceus
espalhava o seu clarão sobre as aguas dormentes da villa, e prateava de
luz branca, franjando-as, as copas das oliveiras, trepadas pela encosta
fronteira. Tinham dado onze horas, e havia duas que os oradores
patriotas exgotavam toda a sua eloquencia sem se entenderem. A casa
vasta, arruinada, com os tectos a cair, e os sobrados a desfazer-se de
podridão, estava mais de metade mettida na escuridade quasi clara, que
fazia a sombra das paredes luctando com a lua e as estrellas. Todas as
janellas, que abriam para as hortas, sem vidraças, nem portas, deixavam
coar livremente o ar, e os ruidos de fóra, tão sensiveis na solidão e no
silencio nocturno.
Na parte mais reparada, entre duas portas quasi penduradas das couceiras
carcomidas pela ferrugem, via-se uma comprida mesa de pinho allumiada
por enorme candieiro de latão de tres bicos, cuja chamma enfumada a
aragem saccudia e ondeava. Á roda da mesa, ornada apenas de um tinteiro
de pau immenso, de pennas resequidas, e de papel em branco, sentados em
mochos toscos, viam-se alguns homens, tão diversos nos trajos e
maneiras, como na physionomia e expressão.
Na cabeceira, com a face recostada no punho, as palpebras quasi
fechadas, e certo ar de imperio indolente, estava um ancião, que a farda
de panno azul escuro com abotoadura e guarnições brancas, e dragonas de
cachos, denunciavam como official superior de um dos corpos de milicias.
Era o coronel Isidoro Pinto Gomes, que a espada do general Margaron não
podéra alcançar em Leiria, e que o zelo attrahia a todos os
conciliabulos patrioticos. O major Alvaro á direita d'elle, e o morgado
de Penin á esquerda, ambos de uniforme, e com os capotes, com que se
encobriam apezar da estação, abertos, ou derrubados para traz, compunham
o que hoje diriamos a mesa da presidencia.
Mais abaixo a farda verde comprida com vistas brancas e o chapeu armado
de outro personagem accusavam com evidencia egual o seu cargo de
capitão-mór de ordenanças. Manuel Carranca, tambem salvo por milagre do
conflicto de Leiria, inflammava-se em um debate violento com uma pessoa,
que o habito e o cordão, as bochechas redondas, a triplice rosca da
barba, e o ventre empinado proclamavam logo como um dos mais
apopleticos, irasciveis, e facciosos filhos de S. Francisco. Este padre,
conhecido e respeitado como orador sagrado, pertencia ao convento de
Santarem, e chamava-se fr. João Salgado. O segundo interlocutor, com o
qual repartia os thesouros da dialectica, ainda moço, pallido,
melancholico, e esbelto, sem lhe ceder uma pollegada de terreno,
sorria-se dos clamores freneticos do reverendo, e parecia atiçal-os
mesmo com prazer maligno, lançando no meio de suas apostrophes uma
interjeição, ou uma exclamação repentina, que tinham a virtude de fazer
saltar o theologo aos ares como uma mina carregada. Os outros conjurados
ouviam calados, trocando apenas algum relancear de olhos, como no circo
os espectadores comtemplam as vicissitudes da lucta entre dois campeões
afamados, contentando-se com o espectaculo, e abstendo-se de o perturbar
com os seus applausos, ou com a sua reprovação.
--Os laços da prudencia humana não me prendem! exclamava o padre com o
barretinho de seda arregaçado para a nuca, a calva purpurea, e o
sobrolho franzido... Mais poderoso e forte do que todos os artificios
mundanos é o Senhor dos exercitos!... Para vencermos os jacobinos basta
a candura da pomba.
--Cuidado com as garras do milhafre!... interrompeu pela terceira vez o
mancebo pallido com um sorriso ironico.
--Ao milhafre atira-se, sr. Mannel Coutinho, gritou o bellicoso servo de
S. Francisco, ferindo a mesa com o punho cerrado. Bons caçadores temos,
e se for preciso, Deus pela sua infinita misericordia fará um milagre em
nosso favor.
--Nada de milagres! accudiu o capitão-mór de ordenanças, Manuel
Carranca, o qual, rouco de gritar, aproveitava o incidente para
locupletar com duas valentes inspirações o pulmão estafado. Nada de
milagres! Se v. s.^a rev.^{ma} julga, que os francezes fogem com
estolas, hyssopes, e caldeirinhas de agua benta, engana-se redondamente.
Vá a Leiria, e lá lhe dirão de que serviu o bello cantoxão do bispo e
dos clerigos!... Safa! Tenho ainda nos ouvidos os bérros das peças de
artilheria, e os alaridos d'aquelles malditos granadeiros... Pareciam
gatos a marinhar e leões a arremetter...
Esta apostrophe, sem desmaiar a resolução dos ouvintes, tornou mais
grave o rosto de alguns. Houve até quem applaudisse com um aceno de
cabeça assaz expressivo a rustica e quasi impia declaração do
capitão-mór. As momices bellicosas e varias do franciscano começavam a
aborrecel-os. Veremos no capitulo seguinte a verdade do adagio: Pela
fructa se conhece a arvore!