As vozes, o espanto, o terror, e o tumulto das ruas, todas as
apparencias, em fim, inculcavam a cidade sublevada e as apprehensões de
Lagarde confirmadas.
O denodo e a presença de espirito de Junot não o atraiçoaram n'este
lance. Descendo os degraus da escadaria á pressa, emquanto o intendente
da policia se emparedava e calafetava no gabinete secreto, o duque de
Abrantes atravessa intrepido por meio das ondas revoltas do povo, rompe
pelo centro d'ellas até á egreja, corre á sacristia, e á força de
estimulos e persuasões consegue arrancar d'aquelle asylo pouco seguro o
prelado e os sacerdotes, que tremem de medo, e que julgam chegada a sua
ultima hora.
Chamando depois os padres, os fidalgos, e os cavalleiros das ordens
militares e animando-os com as palavras e o exemplo, diz-lhes:
--De que se receiam? O que temem? Não estou eu aqui? Não vêem os meus
soldados firmes? Continuemos a procissão.
Recompondo, do modo possivel depois, o prestito disperso manda saír o
pallio, e acompanha-o a pé com o seu estado maior.
Patrulhas fortes circulam ao mesmo tempo, e dispersam os mais pequenos
ajuntamentos. O regimento 86.^o marcha com tanta precipitação, que leva
o pão espetado nas bayonetas por carecer de vagar para comer o rancho!
Qual fôra, porém, a origem do estrondoso successo? Nascêra de planos
concertados pelos amigos da independencia, como cuidaram os francezes,
ou rebentára espontaneo da agitação e do odio comprimido dos habitantes
de Lisboa? Nem uma, nem outra cousa. Um grão de areia fez parar a roda.
Um sopro desenfreou o temporal. A verdadeira causa do arruido colossal
do dia 16 de junho de 1808 foi uma imprudencia policial do honrado
sargento Cabrinha, e um esquecimento de lingua do seu virtuoso assessor
Gaspar Preto, por alcunha o _Sapo_. Estes dois personagens, que não
cabiam em si de vaidade, desde que os louvores do intendente geral da
policia inflammaram o seu zelo pelo serviço da sua magestade o imperador
e rei, succumbiram um instante á fraqueza dos grandes homens, e
estiveram a ponto de fazer nadar a capital em sangue. Eis como se passou
o notavel episodio.
Já sabemos que o Antonio da Cruz, o Manuel Simões da Aramanha, e o João
da Ventosa, obedientes como bons patriotas ás instancias do morgado de
Penin, capitão de milicias de Rio Maior, tinham feito a jornada de
companhia, e por um triz não apanharam em Villa Franca o sargento e o
seu ajudante, que partiam para os denunciar a Lagarde. Os tres em Lisboa
alojaram-se em uma casa conhecida do lavrador da ponte da Asseca,
regalaram-se de bom vinho e de bons boccados, e esperaram resignados que
a causa nacional lhes pedisse o auxilio do braço ou do cajado.
Na madrugada do dia da procissão, muito antes do sol fóra, já o
triumvirato ribatejano palmilhava as ruas com a curiosidade mais
inoffensiva, e apenas se abriu a primeira taverna uma copiosa libação
desjejuára os tres vastos estomagos, montados em diamante.
Começou a concorrer gente, acabou a parada no Passeio publico, e
desfilaram as tropas. Davam nove horas, e o fazendeiro da Aramanha,
interpellando o João da Ventosa, perguntou alto aonde era o almoço, e se
teriam tempo de o engulir antes da procissão? A resposta foi sumirem-se
por uma travessa escusa, entrarem para uma especie de furna escura,
immunda, e humida, e sentarem-se em mochos vacillantes á roda de uma
mesa, cuja toalha bem mostrava nunca haver deixado os lençoes de vinho.
Chiavam as appetitosas iscas de figado, e o cheiro exhalado das
enfumadas frigideiras convidava o olfato dos freguezes.
Quando os tres se levantaram d'este banquete plebeo, a procissão andava
já no Rocio, e o Deus Baccho tambem lhes fazia a elles mil travessuras
na vista e no equilibrio. Metteram hombros ao apertão, foram rompendo a
murro e a calcadellas, mas á esquina da travessa da Assumpção
encontraram resistencia tal, que se viram obrigados a ceder.
As bandeiras dos officios fluctuavam nos ares, e uma linha cerrada de
bayonetas, pouco condescendentes, não consentiu que os provincianos a
atravessassem. O lavrador e seus amigos rosnaram algumas pragas, mas
tiveram de as engulir em sêcco e de ficar.
Antonio da Cruz, guapo e decidido, trajava bem suas galas domingueiras,
e dava-se ares de moço mui desempenado debaixo das abas do chapéu novo
de Braga. Vendo-o assim alegre e pimpão, meio encostado ao cajado, uma
saloia, fresca e viçosa como as rosas do campo, pediu-lhe licença de
passar para deante afim de ver melhor, e o moleiro officioso fez-lhe
logar immediatamente, acto de cortezia recompensado por um sorriso, que
descobriu indiscretamente as trinta e duas perolas, que escondiam uns
beiços mais vermelhos, do que bagos de romã. Ao mesmo tempo o João da
Ventosa e o Manuel Simões, encontrando-se hombro a hombro com um
marchante conhecido, homiziavam-se com elle a furto no retiro de uma
tasca chamada loja de bebidas, para onde os iniciados se introduziam por
um corredor estreito, disfarçado no fundo da entrada da casa, deante da
qual se achavam.
Até aqui corrêra tudo admiravelmente, mas o demonio depressa as arma. O
sargento, o _Sapo_, e uma quadrilha de beleguins da policia seguiam de
longe o triumvirato innocente, desde as portas do Passeio publico.
Haviam-n'o perdido de vista, quando á voz do almoço o robusto lavrador
capitaneou a evolução, que levára os convivas ao sujo templo, aonde o
Comus enfarruscado das iscas os detivera duas horas.
Cabrinha recebêra ordem expressa de Lagarde de se apoderar dos tres
amigos, e de os hospedar na cadeia, mas fôra egualmente admoestado para
obrar com finura e sem ruido. Era a razão porque não se atrevêra a
empolgal-os na rua, e no meio do povo, que seus gritos podiam alvorotar.
Quando lhe desappareceram, como se a terra se tivesse sumido com elles,
scismando um instante, disseminou logo depois a quadrilha em duas
mangas. Uma partiu para o Rocio e foi postar-se á esquina do arco do
Bandeira. A outra conservou-se na rua Augusta, vigiando-a. O _Sapo_,
trepado em um frade de pedra, servia de vedeta.
O Antonio da Cruz estava todo embebido nos colloquios e requebros de seu
galanteio com a saloia, quando sentiu de repente, que lhe batiam no
hombro. Virou-se, e deu de rosto com um sujeito magro e grelado, de
chapéu arrombado, calções espigados, casaca de côr cambiante, e sapatos
risonhos, que lhe disse muito manso ao ouvido, travando-lhe do braço.
--Está preso! Venha commigo. Não faça bulha!
Ao mesmo tempo outro escudeiro, baixo, roliço, olhos encarnados e
chorosos, e nariz expansivo, cravejado de rubis assanhados,
deitava-se-lhe ao outro braço, ao braço do cajado, pendurando-se quasi
n'elle. N'um rapido relancear o moleiro descobriu a poucos passos,
cozidos com as hombreiras da porta, por onde se tinham escoado os seus
amigos, o sargento, o _Sapo_, e um terceiro quadrilheiro. Esta apparição
revelou-lhe que era serio o caso.
Soltando um assobio forte e prolongado, signal aos companheiros para se
juntarem e accudirem, o Antonio, sem accusar a intenção na physionomia,
sem levantar voz, ou grito, por um movimento secco dos hombros saccudiu
de si os dois malsins, e empunhando-os já no ar pela gola assás madura
das casacas cossadas e transparentes, cuspiu-os das mãos, colhidos em
flagrante, cada qual para sua direcção. Ao arremesso momentaneo, o homem
esguio e grelado, por ser mais leve, subiu mais alto, e veiu caír por
elevação sobre as costas de um massiço prebendado, com os olhos
escudados de oculos e palla verde, o qual estava explicando a duas
sobrinhas boqui-abertas a lenda aurea de S. Crispim, pintado na bandeira
dos sapateiros. O agarrador, grosso e baixo, mais pesado, voou rasteiro,
deixando metade da gola, as costas, e uma aba da casaca no punho do
moleiro, e foi bater, como pella despedida, no vulto enorme de certa
dona viuva e namoradeira, notavel pelo toucado impossivel e alteroso, a
qual occupava os ocios em tiroteio amoroso com um alferes da brigada da
marinha, pessoa corpulenta, forçosa, e de maus narizes, cuja carranca um
par de bigodes hirsutos e alastrados tornava ainda mais temerosa.
O prebendado com a pancada afocinhou o chão, não sem trazer comsigo
tambem de golpe o tambor mór de um dos regimentos, que por acaso seus
braços extendidos empolgaram na ancia de se amparar. O militar francez,
verdadeiro Alcides, arqueava n'aquelle instante o corpo com donaire, e
dobrado para traz, firme nas pontas dos pés, aparava com a palma aberta
o couto do bastão volteado com graça. A dona, impellida pelo
esbirro-tortulho, soltou um grito agudo, desabando de chofre sobre o
peito do seu Adonis. O volume era colossal, e o alferes desapercebido,
não podendo suster de pé posto o pezo d'aquella montanha de ternura, que
em cima d'elle o alluia, apalpou a calçada com as costas, mastigando uma
blasphemia por entre as guias dos bigodes.
O drama complicou-se então. Advertido pelo signal, o João da Ventosa
deixára em meio o monstruoso caneco de vinho de Torres, que saboreava, e
saltou da tasca vermelho e inflammado. A primeira figura, com que a
fortuna o obsequiou, foi a figura patibular do sargento Cabrinha, o qual
primeiro se offereceu ás iras do lavrador. Um murro capaz de fulminar um
touro prostrou o espião sem sentidos sobre o lagedo. Nem o sacrificador,
nem a victima tiveram tempo de proferir palavra. Ao mesmo tempo o
marchante, que vinha atraz, colleando os beiços com a lingua, esbarrando
com o quadrilheiro entufado em defeza do seu superior, despediu-o nos
bicos dos sapatos, e remetteu-o ao meio da rua, aonde se espalmou sobre
os pés gotosos de um frade arrabido, mestre e prégador, cujas rezas
nasaes paralyzou o baque repentino.
Finalmente, o Manuel Simões da Aramanha, que saíra em ultimo logar, como
homem de consciencia, porque não quizera deixar o copo cheio, encarando
com o _Sapo_, que se fazia pequeno como um verme a ver se escapava,
calado, mas terrivel de gesto, alongou o braço com a rapidez e a força
irresistivel da mola de aço, que resalta, e aferrando o aborto pela
nuca, com um murro metteu-lhe os dentes e os queixos pelas guelas, e
metade a rastos, metade por seu pé, seguiu com elle atordoado e alagado
em sangue o rasto dos companheiros. Os tres cortaram depois intrepidos
pelo meio da procissão alvoroçada, por entre as alas de tropa
baralhadas, e pelo centro dos magotes de povo em remoinho, e
entranhando-se por travessas e bêccos desertos esquivaram-se
modestamente aos justos applausos de suas proezas.
Cabrinha tornando a si, e os beleguins moidos e estirados, soltavam
gritos espantosos, bradando pelo soccorro da justiça. Respondeu-lhes a
bengala magistral do tambor mór, e a bainha de ferro da espada do
alferes, vingando com raiva incansavel o riso e as vaias da queda
desastrada no dorso dos delinquentes. O mais agil dos dois, o
homem-grelo, fulo de dor, e cego de medo, para se furtar ao chuveiro de
bastonadas, que não cessava de lhe afagar as costellas, atirou-se de um
pulo, ao meio do prestito, abalroou um desditoso cruciferario banhado em
suor, e encontrando-o em cheio, rolou com elle. Amotinou-se o vulgo,
ferveram juras, ameaças, e punhadas, e um patriota, que espreitava a
occasião, lembrou-se de açular a desordem, exclamando: «Fujam! fujam!
Ahi vem os inglezes!» Não foi preciso mais. O espanto e o terror obraram
prodigios. A multidão precipitou-se, e o tumulto tomou as proporções,
que sabemos.
Em quanto nos quarteirões da cidade baixa se representavam estas scenas,
corriam os tres auctores do motim direitos ao caes hoje chamado da
Areia. Chegados em poucos minutos viram uma falua do Riba-tejo de verga
de alto, e o arraes, seu conhecido, metteu-os dentro sem mais perguntas.
D'ahi a pouco navegavam rio acima, e o _Sapo_, sempre hypocrita e vil,
estorcia-se aos pés dos inimigos triumphantes, chorando e supplicando,
com prantos mulherís! Mas o Manuel Simões apontava-lhe para a cicatriz
da bala, com que o ferira na cabeça, o João da Ventosa encolhia os
hombros, e o Antonio da Cruz, grave e conciso, como um juiz do crime,
mandava-o calar, jurando-lhe que a arvore e a corda estavam promptas, e
não podiam esperar, e que a sua palavra, uma vez dada, havia de ser
cumprida. O arraes e os marujos, um ao leme, e dois á proa, assobiavam
como se não vissem, ou não ouvissem nada.
O vento soprou de feição, e ás dez horas da noite a falua atracava a
Villa Franca.