D. Maria hesitou:

--É um pouco longe, veremos, talvez.

E como D. Anna esperava em silencio--Gonçalo abriu a portinhola, tomou

ao trintanario as rédeas da egoa. D. Maria Mendonça, no seu

contentamento por tão proveitosa tarde, sacudiu ardentemente a mão do

primo jurando «que ia apaixonada por Craquêde!» D. Anna mal roçou os

dedos de Gonçalo, acanhada e córando.

Sózinho, com a rédea da egoa enfiada no braço, Gonçalo sorria. Na

verdade, n'essa tarde, D. Anna não lhe desagradára. Outros modos, outra

singeleza grave, outra doçura na sua possante belleza de Venus rural...

E aquella observação sobre a Capella, «pouco religiosa» depois das

ruinas seculares do claustro, era uma observação fina. Quem sabe? Talvez

sob carne tão sensual se escondesse uma natureza delicada. Talvez a

influencia d'outro homem, que não o estupidissimo Sanches, desenvolvesse

na filha explendida do carniceiro qualidades de muito encanto... Oh,

evidentemente, a observação sobre os tumulos e a sua religiosidade

emanando da Lenda e da Historia--era fina.

E então tambem o tomou a curiosidade de visitar esse claustro onde não

entrára desde pequeno--quando ainda a Torre conservava as suas

carruagens montadas e a romantica Miss Rhodes escolhia sempre o passeio

de Craquêde para as tardes pensativas d'outomno. Puxou a egoa, transpoz

o portal, atravessou o espaço descoberto que fôra a nave--atulhado de

caliça, de cacos, de pedras despegadas da abobada e afogadas nas hervas

bravas. E pela brecha d'um muro a que ainda se amparava um pedaço

d'altar--penetrou na silenciosa crasta Affonsina. Só d'ella restam duas

arcadas em angulo, atarracadas sobre rudes pilares, lageadas de

poderosas lages poidas que n'essa manhã o sachristão cuidadosamente

varrera. E contra o muro, onde rijas nervuras desenham outros arcos,

avultam os sete immensos tumulos dos antiquissimos Ramires, denegridos,

lisos, sem um lavor, como toscas arcas de granito, alguns pesadamente

encravados no lagedo, outros pousando sobre bolas que os seculos

lascaram. Gonçalo seguia um carreiro de tijolo, rente aos arcos,

recordando quando elle outr'ora e Gracinha pulavam ruidosamente por

sobre essas campas, em quanto no pateo do claustro, entre as pilastras

tombadas e a verdura das ruinas, a boa Miss Rhodes agachada procurava

florinhas silvestres. Na abobada, sobre o mais vasto tumulo, lá

negrejava chumbada a espada, a famosa espada, com a sua corrente de

ferro pendendo do punho, a folha roida pela ferrugem das longas idades.

Sobre outro lá ardia a lampada, a estranha lampada mourisca, que não se

apagára desde a tarde remota em que algum monge, com uma tocha de

sahimento, silenciosamente a accendera... Quando se accendera ella, a

eterna lampada? Que Ramires jazeriam n'esses cofres de granito, a que o

tempo raspára as inscripções e as datas, para que n'ellas toda a

Historia se sumisse, e mais escuramente se volvessem em leve pó sem nome

aquelles homens de orgulho e de força?... Depois na ponta do claustro

era o tumulo aberto, e ao lado, derrubada em dous pedaços, a tampa que o

esqueleto de Lopo Ramires arrombára para correr ás Navas de Tolosa e

bater os cinco Reis mouros. Gonçalo espreitou para dentro, curiosamente.

A um canto da funda arca alvejava um montão d'ossos, limpos e bem

arrumados! Esquecera o velho Lopo, na sua pressa heroica, esses poucos

ossos, já despegados do seu esqueleto?... O crepusculo cerrára, e com

elle uma melancolica sombra que se adensava sob as abobadas da crasta,

cobria de tristeza morta aquella jazida de mortos. Então Gonçalo sentiu

a desolada solidão que o envolvia, o separava da vida, alli desgarrado,

e sem soccorro entre a poeira e a alma errante dos seus avós temerosos!

E de repente estremeceu, no arripiado mêdo de que outra tampa estalasse

com fragor e atravez da fenda surdissem lividos dedos sem carne! Repuxou

desesperadamente a egoa pelo muro desmantelado, nas ruinas da nave pulou

para o selim, e varou n'um trote o portal, galgou o adro com ancia--só

socegou ao avistar, ao fim do pinhal, a cancella do Caminho de Ferro

aberta, e uma velha que a passava tangendo o seu burro carregado

d'herva.

A Illustre Casa de Ramires · 第 17 / 25 题