--Ai! tem muita graça!
--Mas não teve resultado, minha senhora... Já não existem Clèves, nem
Tancarvilles! Todas essas grandes familias feudaes findaram, se fundiram
n'outras casas, até na Casa de França. E o meu padre Sueiro, apezar de
todo o seu saber genealogico, nunca conseguiu descobrir quem as
representava com bastante affinidade para me emprestar, a mim parente
pobre de Portugal, esses trezentos francos.
Aquella penuria de Gonçalo, de tamanho fidalgo, quasi enternecera D.
Anna:
--Ora estarem assim sem vintem! Quem soubesse... Mas tem graça! Essas
historias de Coimbra teem sempre muita graça. O D. João de Pedrosa, em
Lisboa, tambem contava muitas...
D. Maria Mendonça, porém, através d'essa facecia d'estudantes,
descortinára outra prova inesperada da grandeza dos Ramires. E
immediatamente a estendeu deante de D. Anna com habilidade:
--Ora vejam!... Todas essas grandes casas de França, tão ricas, tão
poderosas, acabaram, desappareceram. E cá no nosso Portugalsinho ainda
dura a casa de Ramires!
Gonçalo acudiu:
--Acaba agora, prima!... Não olhe para mim assim espantada. Acaba
agora... Pois se eu não caso!
Então D. Maria recuou o magro peito--como se esse casamento do primo
dependesse de doces influencias, que convinha se trocassem bem
chegadamente, sem Marias Mendonças de permeio no estreito banco com
grandes mangas bufantes tolhendo as correntes de effluvio. E sorria,
quasi languidamente:
--Ora não casa... Mas por quê, primo, por quê?
--Por que não tenho geito, prima. O casamento é uma arte muito delicada
que necessita vocação, genio especial. As Fadas não me concederam esse
genio. E se me dedicasse a semelhante obra, ai de mim! com certeza a
estragava.
D. Anna, como se outra idéa a occupasse, puxára lentamente do cinto o
relogio preso por uma fita de cabello. E D. Maria insistia, recusava os
motivos do Fidalgo:
--São tolices. O primo que gosta tanto de creanças...
--Gosto, gosto muito de creancas, até de creancinhas de mama. As
creanças são os unicos seres divinos que a nossa pobre humanidade
conhece. Os outros anjos, os d'azas, nunca apparecem. Os santos, depois
de santos, ficam na Bemaventurança a preguiçar, ninguem mais os enxerga.
E, para concebermos uma ideia das cousas do céo, só temos realmente as
creancinhas... Sim, com effeito, prima, gosto muito de creanças. Mas
tambem gosto de flôres, e não sou jardineiro, nem tenho geito para a
jardinagem.
E D. Maria com uma faisca no olhar promettedor:
--Socegue, que ainda vem a aprender!
Depois, para D. Anna que se esquecera na contemplação do relogio:
--Achas que vão sendo horas? Então, se queres, entramos na Capella... Oh
primo, veja se está aberta.
Gonçalo correu, empurrou a porta da Capella. Depois acompanhou as duas
senhoras pela pequenina nave soalhada, entre delgados pilares recobertos
de uma cal aspera e crua--que recamava tambem as paredes lisas, apenas
guarnecidas, na sua rigida nudez, por lithographias de Santos dentro de
caixilhos de pinho. Deante do altar as senhoras ajoelharam--a prima
Maria enterrando a face nas mãos juntas como n'um vaso de Piedade.
Gonçalo dobrou o joelho de leve, engrolou uma Ave-Maria.
Depois voltou para o adro, accendeu um cigarro. E, pisando lentamente a
relva, considerava quanto a viuvez melhorára D. Anna. Sob o negrume do
luto, como n'uma penumbra que esfuma a grosseira deselegancia das
cousas, todos os seus defeitos se fundiam--os defeitos que tanto o
horripilavam na tarde da Bica Santa, o rolar gordo da voz, o peito
empinado, a ostentação de burgueza ricassa pinguemente repimpada na
vida. Até já nem dizia--«o cavalheiro!» E alli, no adro melancolico de
Craquêde, certamente parecia interessante e desejavel.
As senhoras desciam os dois degraus da Capella. Um melro esvoaçou na
ramagem dos alamos. E Gonçalo encontrou o lampejo dos olhos serios de D.
Anna que o procuravam.
--Peço perdão de não lhes ter offerecido agua benta á sahida, mas a
concha está secca...
--Jesus, primo, que Egreja tão feia!