O palacete dos Barrôlos em Oliveira (conhecido desde o começo do seculo
pela Casa dos _Cunhaes_) erguia a sua fidalga fachada de doze varandas
no Largo d'El-Rei, entre uma solitaria viella que conduz ao Quartel e a
rua das Tecedeiras, velha rua mal empedrada, ladeirenta, opprimida pelo
comprido terraço do jardim, e pelo muro fronteiro da antiga cerca das
Monicas. E n'essa manhã, justamente quando Gonçalo, na caleche da Torre
puxada pela parelha do Torto, desembocava no Largo d'El-Rei, subia pela
Tecedeiras, dobrando a esquina dos Cunhaes, n'um cavallo negro de fartas
clinas, que feria as lages com soberba e garbo, o Governador Civil, o
André Cavalleiro, de collete branco e chapeu de palha. N'um relance, do
fundo da caleche, o Fidalgo ainda o surprehendeu levantando os
pestanudos olhos negros para as varandas de ferro do palacete. E pulou,
com um murro no joelho, rugindo surdamente--«que biltre!» Ao apear no
portão (um portão baixo, como esmagado pelo immenso escudo de armas dos
Sás) tão suffocada indignação o impellia que não reparou nas effusões do
porteiro, o velho Joaquim da Porta, e esqueceu dentro da caleche os
presentes para Gracinha, a caixa com o guardasolinho e um cesto de
flores da Torre coberto de papel de sêda. Depois em cima, na sala
d'espera, onde José Barrôlo correra, ao sentir nas lages do Largo
silencioso o estrepito do calhambeque, desabafou logo, arrebatadamente,
atirando o guarda pó para uma cadeira de couro:
--Oh senhores! Que eu não possa vir á cidade sem encontrar de cara este
animal do Cavalleiro! E sempre no Largo, defronte da casa! É sorte!...
Esse bigodeira não achará outro logar para onde vá caracolar com a
pileca?
José Barrôlo, um moço gordo, de cabello ruivo e crespo, com um buço
claro n'uma face mais redonda e córada que uma bella maçã, accudiu,
ingenuamente:
--Pileca?!... Oh, menino, tem agora um cavallo lindo! Um cavallo lindo,
que comprou ao Marges!
--Pois bem! É um burro feio em cima d'um cavallo bonito. Que fiquem
ambos na cavallariça. Ou que vão ambos pastar para as Devezas!
O Barrôlo escancarou a bôca larga e fresca, de soberbos dentes, n'um
lento pasmo. E de repente, com uma patada no soalho, vergado pela cinta,
rompeu n'uma risada que o suffocava, lhe inchava as veias:
--Essa é d'arromba! Não, essa é para contar no Club... Um burro feio em
cima d'um cavallo bonito! E ambos a pastarem!... Tu vens hoje rico,
menino! Olha que essa! Ambos a pastarem, com os focinhos na herva, o
Governador civil e o cavallo... É d'arromba!
Rebolava pela sala, com palmadas radiantes sobre a coxa obesa. E
Gonçalo, adoçado por aquella ovação que celebrava a sua facecia:
--Bem. Dá cá esses ossos, ou antes esses untos. E como vae a familia? A
Gracinha?... Oh! viva a linda flôr!
Era ella, com a sua ligeiresa airosa e menineira, os magnificos cabellos
soltos sobre um penteador de rendas, correndo alvoroçada para o irmão,
que a envolveu n'um abraço e em dous beijos sonoros. E immediatamente,
recuando, a declarou mais bonita, mais gorda:
--Positivamente estás mais gorda, até mais alta... É sobrinho?... Não?
nada, por ora?
Gracinha córou, com aquelle seu languido sorriso que mais lhe humedecia
e lhe enternecia a doçura dos olhos esverdeados.
--Se ella não quer, ella não quer! gritava o José Barrôlo, gingando, com
as mãos enterradas nos bolsos do jaquetão que lhe desenhava as ancas
roliças. A culpa não é cá do patrão... Mas ella não se decide!
O fidalgo da Torre reprehendeu a irmã:
--Pois é necessário um menino. Eu por mim não caso, não tenho geito: e
lá se vão d'esta feita Barrôlos e Ramires! A extincção dos Barrôlos é
uma limpeza. Mas, acabados os Ramires, acaba Portugal. Portanto, Snr.^a
D. Graça Ramires, depressa, em nome da nação, um morgado! Um morgado
muito gordo, que eu pretendo que se chame Tructesindo!
Barrôlo protestou, aterrado:
--O que? Turtesinho? Não! para tal sorte não o fabríco eu!
Mas Gracinha deteve aquelles gracejos picantes, desejosa de saber da
Torre, e do Bento, e da Rosa cosinheira, e da horta, e dos pavões...
Conversando, penetraram na outra sala, guarnecida de contadores da
India, de pesados cadeirões dourados de damasco azul, com tres varandas
sobre o Largo d'El-Rei. Barrôlo enrolou um cigarro, reclamou a historia
do Relho, da grande desordem. Tambem elle arranjára uma «pega» com o
rendeiro da _Ribeirinha_, por causa d'um córte de pinhal. Essa do Relho
porém fôra tremenda...
E Gonçalo, enterrado ao canto do fundo camapé azul, desabotoando
preguiçosamente o jaquetão de chaviote claro:
--Não! foi muito simples. Já ha mezes esse Relho andava bebedo, sem
despegar... Uma noite berrou, ameaçou a Rosa, agarrou n'uma espingarda.
Eu desci, e n'um instante a Torre ficou desembaraçada de Relhos e de
barulhos.
--Mas veio o Regedor, com cabos! accudio o Barrôlo.
Gonçalo saccudiu os hombros, impaciente:
--Veio o regedor? Veio depois, para legalisar! Já o homem abalára,
corrido. E como resultado arrendei a Torre ao Pereira, ao Pereira da
Riosa...
Contou esse negocio excellente, tratado na varanda, ao almoço, entre
dous copos de vinho verde. Barrôlo admirou a renda--gabou o rendeiro.
Assim Gonçalo descortinasse outro Pereira para a quinta de Treixedo,
terra tão generosa, tão mal amanhada!
Á borda do camapé, coberta pelos bellos cabellos que lavára n'essa manhã
e que cheiravam a alecrim, Gracinha comtemplava o irmão com ternura:
--E do estomago, andas melhor? Continuam as ceias com o Titó?
--Oh! esse animal! exclamou Gonçalo. Ha dias prometteu jantar na Torre,
até a Rosa assou um cabrito no espeto, magnifico... Depois falhou: creio
que teve uma orgia infame, com bichas de rabear. Elle vem esta semana a
Oliveira... E é verdade! vocês sabiam da intimidade do Titó com o
Sanches Lucena?
Historiou então, com exagero alegre, o encontro da Bica-Santa, o horror
que lhe causára a bella D. Anna, a descoberta inesperada d'essa
familiaridade do Titó na _Feitosa_.
Barrôlo recordou que uma tarde, antes do S. João, avistára o Titó,
deante do portão da _Feitosa_, a passear pela trela um cãosinho branco
de regaço...
--Mas o que eu não comprehendo, menino, é esse teu «horror» pela D.
Anna... Caramba! Mulher soberba! Um quebrado de quadris, uns olhões, um
peitoril...
--Calle essa bôca impura, devasso! gritou Gonçalo. Pois aqui ao lado da
sua mulher, que é a flôr das Graças, ousa louvar semelhante peça de
carne!
Gracinha rindo, sem ciumes, comprehendia «a admiração do José.»
Realmente, a Anna Lucena, que vistosa, que bella!...
--Sim, concedeu Gonçalo, bella como uma bella egoa... Mas aquella voz
gorda, papuda... E a luneta, os modos... E «o cavalheiro póde fumar, o
cavalheiro está enganado...» Oh! senhores, pavorosa!
Barrôlo gingava, deante do sophá, com as mãos nos bolsos da rabona:
--Uvas verdes, Snr. D. Gonçalo, uvas verdes!
O Fidalgo dardejou sobre o cunhado uns olhos ferozes:
--Nem que ella se me offerecesse, de joelhos, em camisa, com os duzentos
contos do Sanches n'uma salva d'ouro!
Sorrindo, vermelha como uma pionia, com um «oh» escandalisado, Gracinha
bateu no hombro de Gonçalo--que puxou por ella, galhofeiramente:
--Venha lá essa bochecha, e outra beijoca, para purificar! Com effeito,
só pensar na D. Anna arrasta a gente ás imagens brutaes... Dizias então
do estomago... Sim, filha, combalido. E ha dias mais pesado, desde o tal
cabrito no espeto e da companhia beberrona do Manoel Duarte. Tu tens cá
agua de Vidago?... Então, Barrôlinho, sê angelico. Manda trazer já uma
garrafinha bem fresca. E olha! pergunta se subiram um açafate e uma
caixa de papelão que eu deixei na caleche? Que ponham no meu quarto. E
não desembrulhes, que é surpreza... Escuta! Que me levem agua bem
quente. Preciso mudar toda a roupa... Estava uma poeirada por esse
caminho!
E quando o Barrôlo abalou, a rebolar e a assobiar, Gonçalo, esfregando
as mãos:
--Pois vocês ambos estão explendidos! E na harmonia que convem. Tu
positivamente mais fórte, mais cheia. Até pensei que fosse sobrinho. E o
Barrôlo mais delgado, mais leve...
--Oh, agora o José passeia, monta a cavallo, já não adormece tanto
depois de jantar...
--E a outra familia? A tia Arminda, o rancho Mendonça? Bem?... Padre
Sueiro, que é feito d'esse santo?
--Teve um ataquesito de rheumatismo, muito ligeiro. Agora bom, sempre no
Paço do Bispo, na Bibliotheca... Parece que se entretem a fazer um livro
sobre os Bispos.
--Bem sei, a Historia da Sé d'Oliveira... Pois eu tambem tenho
trabalhado muito, Gracinha! Ando a escrever um Romance.
--Ah!
--Um Romance pequeno, uma Novella, para os _Annaes de Litteratura e de
Historia_, uma Revista que fundou um rapaz meu amigo, o Castanheiro... É
sobre um facto historico da nossa gente... Sobre um avô nosso, muito
antigo, Tructesindo.
--Tem graça, que fez elle?
--Horrores. Mas é pittoresco... E depois o Paço de Santa Ireneia, no
século XII, em todo o seu explendor! Emfim uma bella reconstrucção do
velho Portugal e sobre tudo dos velhos Ramires. Has-de gostar... Não ha
amores, tudo guerras. Apenas, muito remotamente, uma das nossas
antepassadas, uma D. Menda, que eu nem sei se realmente existiu. Tem seu
chic, hein?... E tu comprehendes, como eu desejo tentar a Politica,
preciso primeiramente apparecer, espalhar o meu nome...
Gracinha sorria docemente para o irmão, no costumado enlevo:
--E agora tens alguma idéa? A tia Arminda lá continua sempre com a teima
que devias entrar na Diplomacia. Ainda ha dias... «Ai, o Gonçalinho,
assim galante, e com aquelle nome, só n'uma grande embaixada!»
Gonçalo despegára lentamente do vasto camapé, reabotoando o jaquetão
claro:
--Com effeito ando com uma idéa, ha dias... Talvez me viesse d'um
romance inglez, muito interessante, e que te recommendo, sobre as
antigas Minas de Ophir, _King Salomon's Mines_... Ando com idéas de ir
para a Africa.
--Oh Gonçalo, credo! Para a Africa?
O escudeiro entrára com duas garrafas de agua de Vidago, ambas
desarrolhadas, n'uma salva. Precipitadamente, para aproveitar o
«piquesinho», Gonçalo encheu um copo enorme de crystal lavrado. Ah! que
delicia d'agua!--E como o Barrôlo voltava, annunciando que cumprira as
ordens de S. Ex.^a:
--Bem! então logo conversamos ao almoço, Gracinha! Agora lavar, mudar de
roupa, que não paro com estas infames comichões...
Barrôlo acompanhou o cunhado ao quarto, um dos mais espaçosos e alegres
do Palacete, forrado de cretones côr de canario com uma varanda para o
jardim, e duas janellas de peitoril sobre a rua das Tecedeiras e os
velhos arvoredos do convento das Monicas. Gonçalo impaciente despiu logo
o casaco, saccudiu para longe o collete:
--Pois tu estás explendido, Barrôlo! Deves ter perdido tres ou quatro
kilos. São naturalmente os kilos que Gracinha ganhou... Vocês, se assim
se equilibram, ficam perfeitos.
Deante do espelho Barrôlo acariciava a cinta, com um risinho deleitado:
--Realmente, parece que adelgacei... Até sinto nas calças...
Gonçalo abrira o gavetão da rica commoda de ferragens douradas, onde
conservava sempre roupa (até duas casacas), para evitar o transporte de
malas entre os Cunhaes e a Torre. E ria, aconselhava o bom Barrôlo a
«adelgaçar» sem descanço, para belleza da futura raça Barrolica--quando
em baixo, na silenciosa rua das Tecedeiras as patas de um cavallo de
luxo feriram as lages em cadencia lenta.
Logo desconfiado, Gonçalo correu á janella, ainda com a camisa que
desdobrava. E era _elle_! Era o André Cavalleiro, que descia ladeando,
sopeando a rédea, para escarvar com garbo e fragor a rampa mal
empedrada. Gonçalo virou para o Barrôlo a face chammejante de furôr:
--Isto é uma provocação! Se este descarado d'este Cavalleiro passa outra
vez na maldita pileca, por debaixo das janellas, apanha com um balde
d'agua suja!...
Barrôlo, inquieto, espreitou:
--Naturalmente vae para casa das Louzadas... Anda agora muito intimo das
Louzadas... Sempre por aqui o vejo... E é para as Louzadas.
--Que seja para o inferno! Pois, em toda a cidade, não ha outro caminho
para casa das Louzadas? Duas vezes em meia hora! Grande insolente! Tem
uma chapada d'agua de sabão, pela grenha e pela bigodeira, tão certo
como eu ser Ramires, filho de meu pae Ramires!
Barrôlo beliscava a pelle do pescoço, constrangido ante aquelles
rancores ruidosos que desmanchavam o seu socego. Já, por imposição de
Gonçalo, rompera desconsoladamente com o Cavalleiro. E agora antevia
sempre uma bulha, um escandalo que o indisporia com os amigos do
Cavalleiro, lhe vedaria o Club e as doçuras da Arcada, lhe tornaria
Oliveira mais enfadonha que a sua quinta da _Ribeirinha_ ou da
_Murtosa_, solidões detestadas. Não se conteve, arriscou o costumado
reparo:
--Ó Gonçalinho, olha que tambem todo esse espalhafato só por causa da
Politica...
Gonçalo quasi quebrou o jarro, na furia com que o pousou sobre o marmore
do lavatorio:
--Politica! Ahi vens tu com a Politica! Por Politica não se atira agua
suja aos Governadores Civis. Que elle não é Politico, é só malandro!
Além d'isso...
Mas terminou por encolher os hombros, emmudecer, diante do pobre bacôco
de bochechas pasmadas, que, n'aquellas rondas do Cavalleiro pelos
Cunhaes, só notava o «lindo cavallo» ou «o caminho mais curto para as
Louzadas!...»
--Bem! resumiu. Agora larga, que me quero vestir... Do bigodeira me
encarrego eu.
--Então, até logo... Mas se elle passar nada d'asneiras, hein?
--Só justiça, aos baldes!
E bateu com a porta nas costas resignadas do bom Barrôlo, que, pelo
corredor, suspirando, lamentava o assomado genio do Gonçalinho, as
coleras desproporcionadas em que o lançava «a Politica.»
Em quanto se ensaboava com vehemencia, depois se vestia n'uma pressa
irada, Gonçalo ruminou aquelle intoleravel escandalo. Fatalmente, apenas
se apeava em Oliveira, encontrava o homem da grande guedelha,
caracolando por sob as janellas do palacete, na pileca de grandes
clinas! E o que o desolava era perceber no coração de Gracinha, pobre
coração meigo e sem fortaleza, uma teimosa raiz de ternura pelo
Cavalleiro, bem enterrada, ainda vivaz, facil de reflorir... E nenhum
outro sentimento forte que a defendesse, n'aquella ociosidade
d'Oliveira--nem superioridade do marido, nem encanto d'um filho no seu
berço. Só a amparava o orgulho, certo respeito religioso pelo nome de
Ramires, o medo da pequena terra espreitadeira e mexeriqueira. A sua
salvação seria o abandono da cidade, o encerrado retiro n'uma das
quintas do Barrôlo, a _Ribeirinha_, sobretudo a _Murtosa_, com a linda
matta, os musgosos muros de convento, a aldêa em redor para ella se
occupar como castellã benefica. Mas quê! Nunca o Barrôlo, consentiria em
perder o seu voltarete no Club, e a cavaqueira da tabacaria «Elegante»,
e as chalaças do Major Ribas!
Afogueado pelo calor, pela emoção, Gonçalo abriu a varanda. Em baixo, no
curto terraço ladrilhado, orlado de vasos de louça, precedendo o jardim,
Gracinha, ainda soltos os cabellos por cima do penteador, conversava com
outra senhora, muito alta, muito magra, de chapeu marujo enfeitado de
papoulas, que segurava entre os braços um repolhudo mólho de rosas.
Era a «prima» Maria Mendonça, mulher de José Mendonça, condiscipulo do
Barrôlo em Amarante, agora capitão do Regimento de Cavallaria
estacionado em Oliveira. Filha d'um certo D. Antonio, senhor (hoje
Visconde) dos Paços de Severim, devorada pela preoccupação de
parentescos fidalgos, de origens fidalgas, ligava sempre surrateiramente
o vago solar de Severim a todas as casas nobres de Portugal--sobre tudo,
mais gulosamente, á grande casa de Ramires: e, desde que o regimento se
aquartellára em Oliveira, tratára logo Gracinha por «tu» e Gonçalo por
«primo», com a intimidade especial, que convem a sangues superiores.
Todavia mantinha amisades muito seguidas e activas com brazileiras ricas
d'Oliveira--até com a viuva Pinho, dona da loja de pannos, que (segundo
se murmurava) lhe fornecia os dous filhos ainda pequenos de calções e de
jalecas. Tambem convivia intimamente, já na cidade, já na _Feitosa_, com
D. Anna Lucena. Gonçalo gostava da sua graça, da sua agudeza, da
vivacidade maliciosa que a agitava n'uma linda crepitação de galho,
ardendo com alegria. E quando, ao rumor da janella perra, ella levantou
os olhos lusidios e espertos, foi em ambos uma surpresa carinhosa:
--Oh prima Maria! Que felicidade, logo que chego e que abro a janella...
--E para mim, primo Gonçalo, que o não via desde a sua volta de
Lisboa!... Pois está mais lindo, assim de bigode...
--Dizem que estou lindissimo, absolutamente irresistivel! Até aconselho
á prima Maria que se não approxime muito de mim, para se não incendiar.
Ella deixou pender desoladamente nos braços o seu pesado molho de rosas:
--Ai Jesus, então estou perdida, que ainda agora prometti á prima Graça
jantar cá esta tarde!... Oh Gracinha, por quem és, põe um biombo entre
os dois!
Gonçalo gritou, pendurado da varanda, já deliciado com os chistes da
prima Maria:
--Não! enfio eu um _abat-jour_ pela cabeça para attenuar o meu
brilho!... E o maridinho, os pequenos? Como vae o nobre rancho?
--Vivendo, com algum pão e muita graça de Deus... Então até logo, primo
Gonçalo! E seja misericordioso!
E ainda elle ria, encantado--já a prima Maria depois de cochichar e
d'estalar dois beijos apressados na face de Gracinha, desapparecêra pela
porta envidraçada da sala com a sua elegancia esgalgada. Gracinha,
lentamente, subiu os tres degraus de marmore do jardim. Da varanda,
Gonçalo ainda avistou atravez da ramaria leve, entre as sebes de buxo, o
penteador branco, os fartos cabellos cabidos, relusindo no sol como uma
cascata de azeviche. Depois o negro brilho, as claras rendas,
desappareceram sob os loureiros da rua que conduzia ao Mirante.
Mas Gonçalo não se arredou d'entre as janellas, limando vagamente as
unhas, espreitando pelas cortinas, n'uma desconfiança, quasi n'um terror
que o Cavalleiro de novo surgisse na pileca--agora que Gracinha se
embrenhára para os lados d'esse commodo Mirante, construcção do seculo
XVIII, imitando um Templosinho do Amor, que rematava o longo terraço do
jardim e dominava a rua das Tecedeiras. Mas a calçada permanecia
silenciosa, sob as derramadas sombras de arvoredo do Palacete e do
Convento. E por fim decidiu descer, envergonhado da espionagem--certo
que a irmã não se mostraria ao Cavalleiro na varandinha do Mirante,
assim com os cabellos em desalinho, por cima d'um penteador.
E cerrava a porta, quando se encontrou deante dos braços do Padre
Sueiro, que o prenderam pela cinta com affago e respeito.
--Oh! meu ingratissimo Padre Sueiro! exclamava Gonçalo, batendo
ternamente nas gordas costas do Capellão. Então que feia acção foi esta?
Mais de um mez sem apparecer na Torre! Agora para o Sr. Padre Sueiro já
não ha Gonçalinho, ha só Gracinha...
Enternecido, quasi com uma lagrima a bailar nos mansos olhos miudos, que
mais negrejavam entre a frescura rozea da face roliça e a cabecinha
branca como algodão--Padre Sueiro sorria, fechando as mãos sobre o peito
da batina d'alpaca, d'onde surdia a ponta de um lenço de quadrados
vermelhos. E não lhe escasseára certamente o desejo d'ir á Torre. Mas
aquelle trabalhinho na Bibliotheca do Paço do Bispo... Depois o seu
rheumatismosito... Emfim a Sr.^a D. Graça sempre esperando S. Ex.^a, um
dia, outro dia...
--Bem, bem! acudiu alegremente Gonçalo, comtanto que o coração não se
esquecesse da Torre...
--Ah! esse! murmurou Padre Sueiro com commovida gravidade.
E pelo corredor de paredes azues, adornadas com gravuras coloridas das
batalhas de Napoleão, Gonçalo resumiu as novidades da Torre:
--Como o Padre Sueiro sabe, rebentou aquelle escandalo do Relho... E
ainda bem, porque conclui um negocio explendido. Imagine! Arrendei ha
dias a quinta ao Pereira Brazileiro, ao Pereira da Riosa, por um conto
cento e cincoenta mil réis...
O capellão suspendeu a pitada, que colhera n'uma caixa de prata dourada,
pasmado para o Fidalgo:
--Ora ahi está como as cousas se inventam! Pois por cá constou que V.
Ex.^a tratára com o José Casco, o José Casco dos Bravaes. Até no
Domingo, ao almoço, a Sr.^a D. Graça...
--Sim, interrompeu o Fidalgo com uma fugidia côr na face fina.
Effectivamente o Casco veio á Torre, conversámos. Primeiramente quiz,
depois não quiz. Aquellas cousas do Casco! Einfim, uma massada... Não
ficou nada decidido. E quando o Pereira, uma bella manhã, me appareceu
com a proposta, eu, inteiramente desligado, acceitei, e com que
alvoroço!... Imagine! Um augmento soberbo de renda, o Pereira como
rendeiro... O Padre Sueiro conhece bem o Pereira...
--Homem entendido, concordou o Capellão coçando embaraçadamente o
queixo. Não ha duvida. E homem de bem... Depois não havendo palavra dada
ao Cas...
---Pois o Pereira para a semana vem á cidade, atalhou apressadamente
Gonçalo. O Padre Sueiro previne o tabellião Guedes, e assignamos essa
bella escriptura. São as condições costumadas. Creio que ha uma reserva
a respeito da hortaliça e do porco... Emfim o Padre Sueiro deve receber
carta do Pereira.
E immediatamente, descendo a escada, passando o lenço perfumado pelo
bigode, gracejou com o capellão sobre o famoso _Fado dos Ramires_ em que
elle collaborava com o Videirinha. Oh! Padre Sueiro fornecera lendas
sublimes! Mas aquella de Santa Aldonça, realmente, fôra ataviada com
exageração... Quatro Reis a levarem a Santa aos hombros!
--São Reis de mais, Padre Sueiro!
O bom capellão protestou, logo interessado e serio, no amor d'aquella
obra que glorificava a Casa:
--Ora essa! Com perdão de V. Ex.^a... Perfeitissimamente exacto. Lá o
conta o Padre Guedes do Amaral, nas suas _Damas da Côrte do Ceu_, livro
precioso, livro rarissimo, que o Sr. José Barrôlo tem na Livraria. Não
especifica os Reis, mas diz quatro... «Aos hombros de quatro Reis e com
acompanhamento de muitos Condes.» Mas o nosso José Videira declarou que
não podia metter os Condes por causa da rima.
O Fidalgo ria, dependurando n'um cabide, ao fundo da escada, o chapeu de
palha com que descêra:
--Por causa da rima, pobres Condes... Mas o fado está lindo. Eu trago
uma copia para a Gracinha cantar ao piano... E agora outra cousa, Padre
Sueiro. O que se conta por ahi do Governador Civil, d'esse Sr. André
Cavalleiro?...
O capellão encolheu os hombros, desdobrando cautelosamente o seu vasto
lenço de quadrados vermelhos:
--Eu, como V. Ex.^a sabe, não entendo de Politica. Depois tambem não
frequento os cafés, os sitios onde se questiona Politica... Mas parece
que gostam.
No corredor um escudeiro gordo, de opulentas suissas ruivas, que Gonçalo
não conhecia, badalou a sineta do almoço. Gonçalo reparou, avisou o
homem que a Snr.^a D. Maria da Graça andava para o fundo do jardim...
--Entrou agora, Snr. D. Gonçalo! accudiu o escudeiro. E até manda
perguntar se V. Ex.^a deseja para o almoço vinho verde de Amarante, de
_Vidainhos_.
Sim, com certeza, vinho de _Vidainhos_. Depois sorrindo:
--Oh Padre Sueiro, previna este escudeiro novo que eu não tenho _Dom_.
Sou simplesmente Gonçalo, graças a Deus!
O capellão murmurou que todavia, em documentos da Primeira Dynastia,
appareciam Ramires com _Dom_. E, como Gonçalo parara deante do
reposteiro corrido da sala, logo o bom velho se curvou, com as suas
escrupulosas, reverentes ceremonias, para o Fidalgo passar.
--Então, Padre Sueiro, por quem é!
Mas elle, com apegado respeito:
--Depois de V. Ex.^a, meu senhor...
Gonçalo afastou o reposteiro, empurrou docemente o capellão:
--Padre Sueiro, já nos documentos da Primeira Dynastia se estabeleceu
que os Santos nunca andam atraz dos Peccadores!
--V. Ex.^a manda, e sempre com que graça!
Depois dos annos de Gracinha, uma tarde, pelas tres horas, Gonçalo,
recolhendo com Padre Sueiro d'uma visita á Bibliotheca do Paço do Bispo,
sentiu logo da antecamara o vozeirão do Titó, que rolava na sala azul em
trovão lento. Franziu vivamente o reposteiro--e sacudiu o punho para o
immenso homem que enchia um dos cadeirões dourados, estirando por sobre
as flôres do tapete umas botas novas de grossas tachas reluzentes:
--Oh infame!... Então n'outro dia assim me larga, sem escrupulo, depois
de eu lhe preparar um cabrito estupendo, assado n'um espeto de
cerejeira? E para quê?... Para uma orgia reles, com bolinhos de bacalhau
e bichinhas de rabear!
Titó não desmanchou a sua conchegada beatitude:
--Impossibilissimo. De tarde encontrei o João Gouveia no Chafariz. E só
então nos lembrámos de que eram os annos da D. Casimira. Dia sagrado!
Aquellas ceias de Villa-Clara, as tresnoutadas «pandegas» com violão,
impressionavam sempre Barrôlo, que as appetecia. E com o olho aguçado,
do canto da mesa onde esfarelava cuidadosamente pacotes de tabaco dentro
de uma terrina do Japão:
--Quem é a D. Casimira? Vocês em Villa-Clara descobrem uns typos...
Conta lá!
--Um monstro! declarou Gonçalo. Uma matronaça bojuda como uma pipa, com
um pêllo nojento no queixo. Vive ao pé do Cemiterio, n'um cacifro que
tresanda a petroleo, onde este senhor e as auctoridades vão jogar o
quino, e derriçar com umas serigaitas de cazabeque vermelho e de
farripas... Nem se póde decentemente contar deante do Snr. Padre Sueiro!
O capellão, que sem rumor se esbatera n'uma sombra discreta, entre os
franjados setins d'uma cortina e um pesado contador da India, moveu os
hombros n'um consentimento risonho, como acostumado a todas as fealdades
do Peccado. E, com pachorra, o Titó emendava o esboço burlesco do
Fidalgo:
--A D. Casimira é gorda, mas muito aceada. Até me pediu para eu lhe
comprar hoje, na cidade, uma bacia nova d'assento. A casa não cheira a
petroleo e fica por traz do convento de Santa Theresa. As serigaitas são
simplesmente as sobrinhas, duas raparigas alegres que gostam de rir e de
troçar... E o Snr. Padre Sueiro podia, sem medo...
--Bem, bem! atalhou Gonçalo. Gente deliciosa! Deixemos a D. Casimira,
que tem bacia nova para os seus semicupios... Vamos á outra infamia do
Sr. Antonio Villalobos!
Mas Barrôlo insistia, curioso:
--Não, não, conta lá, Titó... Noite d'annos, patuscada rija, hein?
--Ceia pacata, contou o Titó com a seriedade que lhe merecia a festa das
suas amigas. A D. Casimira tinha uma bella frangalhada com ervilhas. O
João Gouveia trouxe do Gago uma travessa de bôlos de bacalhau que
calharam... Depois, fogo de vistas na horta. O Videirinha tocou, as
pequenas cantaram... Não se passou mal.
Gonçalo esperava--irresistivelmente interessado pela ceia das Casimiras:
--Acabou, hein?... Agora a outra infamia, mais grave! Então o Snr.
Antonio Villalobos é intimo do Sanches Lucena, frequenta todas as
semanas a _Feitosa_, toma chá e torradas com a bella D. Anna, e esconde
tenebrosamente dos seus amigos estes privilegios gloriosos?...
--Sem contar, gritou o Barrôlo deliciosamente divertido, que lhe passeia
á trela os cãesinhos felpudos!
--Sem contar que lhe passeia á trela os cãesinhos felpudos! echoou
cavamente Gonçalo. Responda, meu illustre amigo!
O Titó remecheu o vasto corpo dentro do cadeirão, recolheu as botas de
tachas luzentes, afagou lentamente a face barbuda, que uma vermelhidão
aquecêra. E depois de encarar Gonçalo, intensamente, com um esforço de
sagacidade que mais o afogueou:
--Tu já alguma vez, por curiosidade, me perguntaste se eu conhecia o
Sanches Lucena? Nunca me perguntaste...
O Fidalgo protestou. Não! Mas constantemente na Assembleia, no Gago, na
Torre, elles berravam, em questões de Politica, o nome do Sanches
Lucena! Nada mais natural, até mais prudente, do que alludir o Snr. Titó
á sua intimidade illustre! Ao menos para evitar que elle, ou os amigos,
deante do Snr. Titó que comia as torradas da _Feitosa_, tratassem o
Sanches Lucena como um trapo!
O Titó despegou do cadeirão. E afundando as mãos nos bolsos da quinzena
d'alpaca, sacudindo desinteressadamente os hombros:
--Cada um tem sobre o Sanches a sua opinião... Eu apenas o conheço ha
quatro ou cinco mezes, mas acho que é serio, que sabe as cousas...
Agora, lá nas Camaras...
Gonçalo, indignado, bradava que se não discutiam os meritos do Snr.
Sanches Lucena--mas os segredos do Snr. Titó Villalobos! E o escudeiro
novo, avançando as suissas ruivas por uma fenda do reposteiro, annunciou
que o Snr. Administrador de Villa-Clara procurava Suas Ex.^{as}...
Barrôlo largou logo a terrina de tabaco:
--O Snr. João Gouveia! Que entre! Bravo! temos cá toda a rapaziada de
Villa-Clara!
E Titó, da janella onde se refugiara, lançou o vozeirão, mais troante,
abafando a importuna conversa do Sanches e da _Feitosa_:
--Viemos ambos! Por signal n'uma traquitana infame... Até se nos
desferrou uma das pilecas e tivemos de parar na Vendinha. Não se perdeu
tempo, que ha agora lá um vinhinho branco que é d'aqui da ponta fina!...
Beliscava a orelha. Aconselhava ruidosamente Barrôlo e Gonçalo a
passarem na Vendinha, para provar a pinga celeste.
--Até aqui o Snr. Padre Sueiro lhe atiçava uma caneca valente, apesar do
Peccado!
Mas João Gouveia entrou, encalmado, empoeirado, com um vinco vermelho na
testa, do chapeu e do calor--e abotoado na sobrecasaca preta, de calças
pretas, de luvas pretas. Sem folego, apertou silenciosamente pela sala
as mãos amigas que o acolhiam. E desabou sobre o camapé, implorando ao
amigo Barrôlo a caridade d'uma bebidinha fresca!
--Estive para entrar no café Monaco. Mas reflecti que n'esta grandiosa
casa dos Barrôlos as bebidas são de mais confiança.
--Ainda bem! Você que quer? Orchata? Sangria? Limonada?
--Sangria.
E, limpando o pescoço e a testa, amaldiçoou o indecente calor
d'Oliveira:
--Mas ha gente que gosta! Lá o meu chefe, o Snr. Governador Civil,
escolhe sempre a hora do calor para passear a cavallo. Ainda hoje... Na
repartição até ao meio dia; depois, cavallo á porta; e larga até á
estrada de Ramilde, que é uma Africa... Não sei como lhe não fervem os
miolos!
--Oh! acudiu Gonçalo, é muito simples. Se elle os não tem!
O administrador saudou gravemente:
--Já cá faltava com a sua ferroadasinha o Snr. Gonçalo Mendes Ramires!
Não comecemos, não comecemos... Este seu cunhado, Barrôlo, é bicho
indomesticavel! Sempre reponta!
O bom Barrôlo gaguejou, constrangido, que Gonçalinho em Politica não
dispensava a piada...
--Pois olhe! declarou o administrador, sacudindo o dedo para Gonçalo.
Esse Snr. André Cavalleiro, que não tem miolos, ainda esta manhã na
Repartição gabou com immensa sympathia os miolos do Snr. Gonçalo Mendes
Ramires!...
E Gonçalo, muito serio:
--Tambem não faltava mais nada! Para esse Governador Civil ser
perfeitamente absurdo só lhe restava que me considerasse um asno!
--Perdão! gritou o Administrador, que se erguera, desabotoando logo a
sobrecasaca, para commodidade da contenda.
Barrôlo acudio, afflicto, carregando nos hombros do Gouveia--para o
socegar e o repôr no camapé:
--Não, meninos, não! Politica, não! E então essa massada do
Cavalleiro... Vamos ao que importa. Você janta comnosco, João Gouveia?
--Não, obrigado. Já prometti jantar com o Cavalleiro. Temos lá o Ignacio
Vilhena. Vae lêr um artigo que escreveu para o _Boletim de Guimarães_
sobre umas fôrmas de fabricar ossos de martyres, descobertas nas obras
do convento de S. Bento. Estou com curiosidade... E a Snr.^a D. Graça,
bem? Quem eu não avistava havia mezes era o Snr. Padre Sueiro. Nunca
apparece agora pela Torre!... Mas sempre rijo, sempre viçoso. Oh, Snr.
Padre Sueiro, qual é o seu segredo para toda essa meninice?
Do seu canto, o capellão sorriu timidamente. O segredo? Poupar a
Vida--não a consumindo nem com ambições nem com decepções. Ora para
elle, louvado Deus, a vida corria muito simples e muito pequenina. E
fóra o seu rheumatismo...
Depois, córando d'acanhamento, atravez das sentenças evangelicas que lhe
escapavam:
--Mas mesmo o rheumatismo não é mal perdido. Deus, que o manda, sabe
porque o manda... Soffrer edifica. Por que enfim o que nós soffremos nos
leva a pensar no que os outros soffrem...
--Pois olhe, volveu com alegre incredulidade o Administrador, eu, quando
tenho os meus ataques de garganta, não penso na garganta dos outros!
Penso só na minha que me dá bastante cuidado. E agora a vou regalar
n'aquella bella sangria...
O escudeiro vergava, com a luzente bandeja de prata, carregada de copos
de sangria onde boiavam rodellinhas de limão. E todos se tentaram, todos
beberam, até Padre Sueiro, para mostrar ao Snr. Antonio Villalobos que
não desdenhava o vinho, dadiva amavel de Deus--pois como ensina Tibulo
com verdade, apezar de gentilico, _vinus facit dites animos, mollia
corda dat_, enrija a alma e adoça o coração.
João Gouveia, depois d'um suspiro consolado, pousou na bandeja o copo
que esvasiára d'um trago e interpellou Gonçalo:
--Vamos a saber! Então n'outro dia que historia phantastica foi essa
d'uma festa na Torre, com senhoras, com a D. Anna Lucena?... Eu não
acreditei quando o pequeno do Gago me encontrou, me deu o recado.
Depois...
Mas d'entre as cortinas da janella, onde acabava a sangria, Titó
novamente rebombou, interpellando tambem o Fidalgo:
--Oh sô Gonçalo! E o que me contou ha pouco o Barrôlo?... Que andavas
com idéas de abalar para a Africa?
Ao espanto de João Gouveia quasi se misturou terror. Para a Africa?... O
quê? Com um emprego para a Africa?...
--Não! plantar côcos! plantar cacau! plantar café! exclamava o Barrôlo,
com divertidas palmadas na côxa.
Pois Titó approvava a idéa! Tambem elle, se arranjasse um capital, dez
ou quinze contos, tentava a Africa, a traficar com o preto... E tambem
se fôsse mais pequeno, mais secco. Que homens do seu corpanzil,
necessitando muita comezaina e muita vinhaça, não aguentam a Africa,
rebentam!
--O Gonçalo sim! É chupado, é rijo; não carrega na agua-ardente; está na
conta para Africanista... E sempre te digo! Carreira bem mais decente
que essa outra por que tens mania, de deputado! Para que? Para palmilhar
na Arcada, para bajular Conselheiros.
Barrôlo concordou, com alarido. Tambem não comprehendia a teima de
Gonçalo em ser deputado! Que massada! Eram logo as intrigas, e as
desandas nos jornaes, e os enxovalhos. E sobretudo aturar os eleitores.
--Eu, nem que me nomeassem depois Governador Civil, com um titulo e uma
gran-cruz a tiracollo, como o Freixomil!
Gonçalo escutára, n'um silencio risonho e superior, enrolando
laboriosamente um cigarro com o tabaco do Barrôlo:
--Vocês não comprehendem... Vocês não conhecem a organisação de
Portugal. Perguntem ahi ao Gouveia... Portugal é uma fazenda, uma bella
fazenda, possuida por uma parceria. Como vocês sabem ha parcerias
commerciaes e parcerias ruraes. Esta de Lisboa é uma _parceria
politica_, que governa a herdade chamada Portugal... Nós os Portuguezes
pertencemos todos a duas classes: uns cinco a seis milhões que trabalham
na fazenda, ou vivem n'ella a olhar, como o Barrôlo, e que pagam; e uns
trinta sujeitos em cima, em Lisboa, que formam a _parceria_, que recebem
e que governam. Ora eu, por gosto, por necessidade, por habito de
familia, desejo mandar na fazenda. Mas, para entrar na _parceria
politica_, o cidadão portuguez precisa uma habilitação--ser deputado.
Exactamente como, quando pretende entrar na Magistratura, necessita uma
habilitação--ser bacharel. Por isso procuro começar como deputado para
acabar como parceiro e governar... Não é verdade, João Gouveia?
O Administrador voltára á bandeja das sangrias, de que saboreava outro
copo, agora lentamente, aos goles:
--Sim, com effeito, essa é a carreira... Candidato, Deputado, Politico,
Conselheiro, Ministro, Mandarim. É a carreira... E melhor que a
d'Africa. Por fim na Arcada, em Lisboa, tambem cresce cacau e ha mais
sombra!
Barrôlo no emtanto abraçára o hombro possante do Titó, com quem
mergulhou no vão da janella, n'uma confraternidade d'ideias, gracejando:
--Pois eu, sem ser dos taes _parceiros_, tambem mando nos bocados de
Portugal que mais me interessam por que me pertencem!... E sempre queria
vêr que esse S. Fulgencio, ou o Braz Victorino, ou lá os politicos do
Terreiro do Paço, se mettessem a dispôr nas minhas terras, na
_Ribeirinha_ ou na _Murtosa_... Era a tiro!
Encostado á vidraça, Titó coçava a barba, impressionado:
--Pois sim, Barrôlo! Mas você na _Ribeirinha_ e na _Murtosa_ tem de
pagar as contribuições que elles mandarem. E n'esses concelhos tem
d'aguentar as auctoridades que elles nomearem. E goza para lá d'estradas
se elles lh'as fizerem. E vende o carro de pão e a pipa de vinho com
mais ou menos proveito, segundo as leis que elles votarem... E assim
tudo. O Gonçalo não deixa de acertar. É o diabo! Quem manda é quem
lucra... Olhe! o maroto do meu senhorio em Villa-Clara, agora para o S.
Miguel, augmenta a renda da casa em que eu moro, um cochicho que ninguem
quer, por que mataram lá o carrasco, que ainda lá apparece... E o
Cavalleiro, esse, como _parceiro_, vive de graça n'este bello palacio de
S. Domingos, com cocheira, com jardim, com horta...
Barrôlo atirou um _chut_, de mão espalmada, abafando o vozeirão do Titó,
com medo que as regalias do Cavalleiro, assim proclamadas, renovassem as
furias de Gonçalo. Mas o Fidalgo não percebera, attento ao João Gouveia,
que, enterrado no camapé depois da sangria, novamente contava o seu
assombro, ao encontrar no chafariz, em Villa-Clara, o rapasola do Gago
com o recado da grande festa na Torre:
--E cheguei a desconfiar que realmente você désse festa, quando bateram
as nove, depois as nove e meia, e o Titó sem chegar para a ceia da D.
Casimira!... Bem, pensei, tambem recebeu recado e abalou para a Torre!
Por fim, apenas elle appareceu, de carapuço e de jaqueta, percebi que
fôra troça do Snr. D. Gonçalo...
Então o Fidalgo pasmou com uma inesperada, estranha suspeita:
--De carapuço e jaqueta? O Titó andava n'essa noite de carapuço e de
jaqueta?...
Mas bruscamente Barrôlo, da funda janella, lançou para dentro, para a
sala, um brado de pavor:
--Oh! rapazes! Santo Deus! Ahi veem as Louzadas!
João Gouveia saltou do camapé, como n'um perigo, reabotoando
arrebatadamente a sobrecasaca; Gonçalo, atarantado, esbarrou com o Titó
e o Barrôlo que recuavam, no terror de serem apercebidos atravez dos
vidros largos; até Padre Sueiro, prudente, abandonou o seu recanto onde
corria os oculos pela _Gazeta do Porto_. E todos, d'entre a fenda das
cortinas, como soldados na fresta de uma cidadella, espreitavam o Largo,
que o sol das quatro horas dourava por sobre os telhados musgosos da
Cordoaria. Do lado da rua das Pêgas, as duas Louzadas, muito esgalgadas,
muito sacudidas, ambas com manteletes curtos de seda preta e vidrilhos,
ambas com guardasoes de xadresinbo desbotado, avançavam, estirando pelo
largo empedrado duas sombras agudas.
As duas manas Louzadas! Seccas, escuras e garrulas como cigarras, desde
longos annos, em Oliveira, eram ellas as esquadrinhadoras de todas as
vidas, as espalhadoras de todas as maledicencias, as tecedeiras de todas
as intrigas. E na desditosa Cidade não existia nodoa, pécha, bule
rachado, coração dorido, algibeira arrasada, janella entreaberta, poeira
a um canto, vulto a uma esquina, chapeu estreado na missa, bolo
encommendado nas Mathildes, que os seus quatro olhinhos furantes
d'azeviche sujo não descortinassem--e que a sua solta lingoa, entre os
dentes ralos, não commentasse com malicia estridente! D'ellas surdiam
todas as cartas anonymas que infestavam o Districto: as pessoas devotas
consideravam como penitencias essas visitas em que ellas durante horas
galravam, abanando os braços escanifrados: e sempre por onde ellas
passassem ficava latejando um sulco de desconfiança e receio. Mas quem
ousaria rechaçar as duas manas Louzadas? Eram filhas do decrepito e
venerando General Louzada; eram parentas do Bispo; eram poderosas na
poderosa confraria do Senhor dos Passos da Penha. E depois d'uma
castidade tão rigida, tão antiga e tão resequida, e por ellas tão
espaventosamente alardeada--que o Marcolino do Independente as alcunhára
de _Duas Mil Virgens_.
--Não veem para cá! trovejou o Titó, com immenso allivio.
Com effeito no meio do Largo, rente á grade que circumda o antigo
Relogio-de-Sol, as duas manas paradas, erguiam o bico escuro, farejando
e espiando a Egrejinha de S. Matheus onde o sino lançára um repique de
baptisado.
--Oh, c'os diabos, que é para cá!
As Louzadas, decididas, investiam contra o portão dos Cunhaes! Então foi
um panico! As gordas pernas do Barrôlo, fugindo, abalaram, quasi
derrubaram sobre os contadores, os potes bojudos da India. Gonçalo
bradava que se escondessem no pomar. Desconcertado, o Gouveia rebuscava
com desespero o seu chapeu côco. Só o Titó, que as abominava e a quem
ellas chamavam o _Polyphemo_, retirou com serenidade, abrigando o Padre
Sueiro sob o seu braço forte. E já o bando espavorido se arremessára
sobre o reposteiro--quando Gracinha appareceu, com um fresco vestido de
sedinha côr de morango, sorrindo, pasmada, para o tropel que rolava:
--Que foi? Que foi?...
Um clamor abafado envolveu a dôce senhora ameaçada:
--As Louzadas!
--Oh!
Fugidiamente o Titó e João Gouveia apertaram a mão que ella lhes
abandonou, esmorecida. A sineta do portão tilintára, temerosa! E a fila
acavallada, onde Padre Sueiro rebolava a reboque, enfiou para a livraria
que o Barrôlo aferrolhou, gritando ainda a Gracinha, com uma inspiração:
--Esconde as sangrias!
Pobre Gracinha! Atarantada, sem tempo de chamar o escudeiro, carregou
ella para uma banqueta do corredor, n'um esforço desesperado, a pesada
salva--com que as Louzadas, se a descortinassem, edificariam por sobre a
cidade, e mais alta que a Torre de S. Matheus, uma historia pavorosa de
«vinhaça e bebedeira». Depois, offegando, relanceou no espelho o
penteado. E direita como n'uma arena, com a temeridade simples e risonha
dos antigos Ramires, esperou a arremettida das manas terriveis.
* * * * *
No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã a casa da
tia Arminda Villegas, que na vespera, ao tomar (como costumava todos os
sabbados) o seu banho aos pés, se escaldára e recolhera á cama,
apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões d'Oliveira. Depois
acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da Louça, pensando na sua
Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do
Capitulo II que o tentava e que o assustava--o encontro de Lourenço
Ramires com Lopo de Bayão, _o Bastardo_, no valle fatal de Cantapedra. E
recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao Barrôlo uma trotada a
cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo
ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabellião Guedes, que
sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis.
Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua--emquanto o Guedes, da
borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos
gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a calva,
emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe valera a
alcunha de «Guedes Pôpa»:
--Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como está? Sempre féro e
moço. Ainda bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa,
por fim, só vem á cidade na quarta feira...
Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para avisar--e elle
apresentava os parabens a S. Ex.^a pelo seu novo rendeiro...
--Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o conheço...
E olhe V. Ex.^a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro
d'ella, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que elle tem plantado!
Homem muito competente... E V. Ex.^a com demora?
--Dois ou tres dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje,
felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O amigo
Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?
Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces conchegado ao
collete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, n'uma indignação
que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabelludas, a face
rapada, toda a testa até ás abas do chapeu branco orlado de fumo negro:
--E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não ha-de
ser?... Pois este ultimo escandalo!
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, serios:
--Que escandalo?
O Tabellião recuou. Pois S. Ex.^a não sabia da ultima prepotencia do
Governador Civil, do Snr. André Cavalleiro?
--O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e
inchou, para exclamar:
--A transferencia do Noronha!... A transferencia do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, tambem obesa, de buço carregado, toda a estalar em
ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando severamente pela mão um
menino que rabujava, parou, fitou o Guedes--porque o digno homem com o
seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das
Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ella entrar, o fecho
da porta envidraçada. Depois, n'um alvoroço:
--O amigo Guedes naturalmente vae para casa. É o meu caminho. Andamos e
conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?
--O Ricardo Noronha... V. Ex.^a conhece. O pagador das Obras-Publicas!
--Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?
Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão das lojas
cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:
--Infamemente, Snr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para
Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos,
sem distracções, sem familias!...
Parára, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o
Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo!
E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos
Regeneradores. Só da familia, das tres irmãs que sustentava, tres
flôres... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento
immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonçalo Ramires não sabia? Pois
compunha ao piano cousas lindas! Depois precioso para reuniões, para
annos. Era elle quem organisava sempre em Oliveira as representações de
curiosos...
--Porque, como ensaiador, creia V. Ex.^a que não ha outro, mesmo na
capital... Não ha outro! E, zás, de repente, para Almodovar, para o
Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!... Veja V. Ex.^a só o
transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
--É um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu
caro Guedes!... E não se sabe o motivo?
De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabellião
encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre
n'estas prepotencias, o motivo era a conveniencia do Serviço...
--Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o
verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!
--Então?
Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando,
segurando uma bilha. E o tabellião segredou cavamente, junto á face
deslumbrada do fidalgo.--É que o Snr. André Cavalleiro, esse infame, se
encantára com a mais velha das irmãs Noronhas, a D. Adelina,
formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E repellido
(porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a intenção
villissima) em quem se vinga, por despeito, o Snr. Governador Civil? No
pagador! Para Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador
quem pagava!
--É uma bella maroteira! murmurou Gonçalo, banhado de gosto e riso.
--E note V. Ex.^a! exclamava o Guedes, com a mão gorda a tremer por cima
do chapeu. Note V. Ex.^a que o pobre Noronha, na sua innocencia, tão bom
homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes, ainda ha semanas
dedicára ao Cavalleiro uma valsa linda!... A _Mariposa_, uma valsa
linda!
Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos n'um triumpho:
--Mas que preciosa maroteira!... E não se tem fallado? Esse jornal
d'opposição, o _Clarim d'Oliveira_, nem uma denuncia, nem uma
allusão?...
O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O Snr. Gonçalo Ramires conhecia
bem essa gente do _Clarim_... Estylo--e estylo brincado, opulento... Mas
para assoalhar, assim n'um caso gravissimo como o do Noronha, a verdade
bem nua--pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redactor
principal, andava a passar surrateiramente para os Historicos. Ah! O
Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se inteirára? Pois esse torpissimo
Biscainho bolinava. De certo o Cavalleiro lhe acenára com posta... Além
d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas, cousas de familia. Não se
podia apresentar a declaração da D. Adelina, menina virtuosissima--e com
uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino e da _Aurora de
Oliveira_!... Esse era homem para estampar logo na primeira pagina, em
letra graúda: «Alerta! que a Auctoridade superior do Districto tentou
levar a deshonra ao seio da familia Noronha!...»
--Esse era um homem! Coitado, lá está no cemiterio de S. Miguel... E
agora, Snr. Gonçalo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!
Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a
esquina das Brocas para a bella rua, novamente calçada, da Princeza D.
Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco,
o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.^a para descançar.
--Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive immenso, immenso prazer, em o
encontrar... Essa historia do Noronha é tremenda!... Mas nada me espanta
do Snr. Governador Civil. Só me espanta que o não tenham corrido
d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada... Emfim, nem toda a
gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel... Até ámanhã, meu Guedes. E
obrigado!
Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei, Gonçalo correu com o
deslumbramento de quem descobrisse um thesouro e o levasse debaixo da
capa! E ahi levava com effeito o «escandalo, o rico escandalo», que
tanto farejára, por que tanto almejára, para desmantelar o Snr.
Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que lhe levantava arcos
de buxo! E, por uma mercê de Deus, o «rico escandalo» demoliria tambem o
homem no coração de Gracinha, onde, apezar do antigo ultraje, elle
permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando e estragando... E não
duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se revoltaria contra a
Authoridade femieira, que opprime, desterra um funccionario
admiravel--por que a irmã do pobre senhor se recusou á baba dos seus
beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha áquelle desengano--o seu
antigo André abrazado pela menina Noronha e por ella repellido com nôjo
e com mófa? Oh! o escandalo era soberbo! Só restava que estalasse, bem
ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e sobre o peito de Gracinha como
trovão benefico que limpa ares corrompidos. E d'esse trovão, rolando por
todo o Norte, se encarregava elle com delicia. Libertava a cidade d'um
Governador detestavel, Gracinha d'um sonho errado. E assim, com uma
certeira pennada, trabalhava _pro patria et pro domo_!
Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrôlo, que se vestia trauteando o
_Fado dos Ramires_, e gritou atravez da porta com uma decisão
flammejante:
--Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que escrever urgentemente.
E não subas, não me perturbes. Necessito socego!
Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barrôlo accudira ao
corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir
rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'agua de
Colonia, abancou á mesa--onde Gracinha collocava sempre entre flores,
para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao
tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos
de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma Correspondencia rancorosa
para a *Gazeta do Porto* contra o Snr. Governador Civil. Logo o titulo
fulminava--_Monstruoso attentado_! Sem desvendar o nome da familia
Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por elle testemunhado,
«a tentativa villôa e baixa da primeira Auctoridade do Districto contra
a pudicicia, a paz de coração, a honra de uma doce rapariga de dezeseis
primaveras!» Depois era a resistencia desdenhosa--«que a nobre creança
oppuzera ao Don Juan administrativo, cujos bellos bigodes são o espanto
dos povos!» Por fim vinha--«a desforra torpe e sem nome que S. Ex.^a
tomára sobre o zeloso empresado (que é tambem um talentoso artista),
obtendo d'este nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado,
cruelmente exilado, com a familia de tres delicadas senhoras, para os
confins do Reino, para a mais arida e escassa das nossas Provincias, por
o não poder empacotar para a Africa no porão sordido d'uma fragata!»
Lançava ainda alguns rugidos sobre «a agonia politica de Portugal». Com
pavor triste, recordava os peiores tempos do Absolutismo, a innocencia
soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Principe sendo a
expressão unica da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria
este seu agente--«este grotesco Nero, que como outr'ora o outro, o
grande, em Roma, tentava levar a seducção ao seio das familias melhores,
e commettia esses abusos de poder, motivados por lascivias de
temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e todas as
civilisações, a execração do justo!»--E assignava _Juvenal_.
Eram quasi seis horas quando desceu á sala, ligeiro e resplandecente.
Gracinha martellava o piano, estudando o _Fado dos Ramires_. E Barrôlo
(que não se arriscára a um passeio solitario) folheava, estendido no
camapé, uma famosa _Historia dos Crimes da Inquizição_ que começára
ainda em solteiro.
--Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo Gonçalo,
escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz
obra de Justiça... D'esta vez o Snr. André Cavalleiro vae abaixo do seu
cavallo!
Barrôlo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas almofadas,
inquieto:
--Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um risinho
feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:
--Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso
Governador Civil infamias são bagatellas.
Sob os dedos de Gracinha o _Fado dos Ramires_ esmoreceu, apenas roçado,
n'um murmurio incerto.
O Barrôlo esperava, esgaseado:
--Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
--Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha,
perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para
o Algarve!
--O Noronha pagador?
--O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr. André
Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela irmã mais velha do
Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estropidos
cada manhã por deante da janella, a ladear na pileca! Até lhe soltára,
ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um
anjo cheio de dignidade, impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria.
Era uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada
ardente em que elle a tratava de «Nympha, d'estrella da tarde...» Emfim
uma sordidez funambulesca!
O pobre _Fado dos Ramires_ debandou pelo teclado, n'um tumulto de
gemidos desconcertados e asperos.
--E eu não ter ouvido nada! murmurava o Barrôlo, assombrado. Nem no
Club, nem na Arcada...
--Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre
Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio,
coalhado de pantanos. É a morte... É uma condemnação á morte!
A esta apparicão da Morte, surdindo dos pantanos, Barrôlo atirou uma
palmada ao joelho, desconfiado:
--Mas quem diabo te contou tudo isso?
O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:
--Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu em
Alcacer-Kebir?... São os factos. É a Historia. Toda Oliveira sabe. Por
acaso ainda esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já
sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! Não ha crime em se estar
apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na
Repartição, deante do Secretario Geral. E a rapariga ás gargalhadas!...
Agora onde ha crime, e horrendo, é na perseguição ao irmão, ao pagador,
empregado excellente, d'um talento raro... E o dever de todo o homem de
bem, que prese a dignidade da Administração e a dignidade dos costumes,
é denunciar a infamia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E
com certo brilho, louvado Deus!
--Que fizeste?
--Enterrei na ilharga do Snr. Governador Civil a minha bôa penna de
Toledo, até á rama!
O Barrôlo, impressionado, beliscava a pelle do pescoço. O piano
emmudecera: mas Gracinha não se movia do môcho, com os dedos
entorpecidos nas teclas, como esquecida deante da larga folha onde se
enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as quadras triumphaes dos
Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu n'aquella immobilidade suffocada o
despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar, lhe poupar
algum soluço escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com
carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:
--Tu não dás conta d'esse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te
cantarolo uma quadra, á bôa moda do Videirinha... Mas primeiramente sê
um anjo... Grita ahi no corredor que me tragam um copo d'agua bem fresca
do Poço Velho.
Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um esforço esganiçado:
Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes...
Gracinha desapparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor. Então o
bom Barrôlo, que deante da sua terrina da India enrolava um cigarro com
pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre Gonçalo, da
certeza que lentamente o invadira:
--Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha é um mulherão
soberbo! Mas o que eu não acredito é que ella se fizesse arisca. Com o
Cavalleiro, bonito rapaz, Governador civil?... Não acredito. O
Cavalleiro saboreou!
E com as bochechas lusidias d'admiração:
--Aquelle velhaco! Para cavallos e para mulheres não ha outro, em
Oliveira!
V
A *Gazeta do Porto*, com a Correspondencia vingadora, devia desabar
sobre Oliveira na quarta-feira de manhã, dia dos annos da prima Maria
Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que não temesse (resalvado pelo seu
pseudonymo de _Juvenal_) uma briga grosseira com o Cavalleiro nas ruas
da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidarios servis e façanhudos
como o Marcolino do *Independente*--recolheu discretamente a Santa
Ireneia na terça-feira, a cavallo, acompanhado pelo Barrôlo até á
Vendinha, onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo Titó.
Depois, para recordar os logares memoraveis em que na sua Novella se
encontravam, com desastrado choque d'armas, Lourenço Ramires e o
Bastardo de Bayão--tomou o caminho que, atravessando os pomares da
espalhada aldêa de Canta-Pedra, entronca na estrada dos Bravaes.
N'um trote folgado passára á Fabrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre
coberto pelas pombas que esvoaçam do pombal da Fabrica. E entrava no
logar de Nacejas--quando, á janella d'uma casinha muito limpa, rodeada
de parreiras, appareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqué de
panno azul e lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós ondeados.
Gonçalo, sopeando a egua, saudou, sorriu suavemente:
--Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?
--Vae, sim senhor. Em baixo, á ponte, mette para a direita, para os
alamos. E é sempre a seguir...
Gonçalo suspirou, gracejando:
--Antes desejava ficar!
A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gosar a fina
face morena, entre os dous craveiros da janellinha, na casa tão bem
caiada.
N'esse momento, ao lado, d'uma quelha enramada, desembocava um caçador
do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas
costas, seguido por dois perdigueiros. Era um latagão airoso, que todo
elle, no bater dos sapatões brancos, no menear da cinta enfaixada em
seda, no levantar da face clara de suissas louras, transbordava de
presumpção e pimponice. N'um relance surprehendeu o sorriso, a attenção
galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre elle, com lenta
arrogancia, os bellos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente,
sem se arredar da egua na ladeira estreita, quasi raspando pela perna do
Fidalgo o cano da caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela
secca e de chasco--com um bater mais petulante dos tacões.
Gonçalo picou a egoa, colhido logo por aquelle desgraçado temor, aquelle
desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco, qualquer
ameaça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar, a abalar. Em
baixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote,
espreitou para traz, para a branca casa florida. O mocetão parára,
encostado á espingarda, sob a janella onde a rapariga morena se
debruçava entre os dous vasos de cravos. E assim encostado, depois de
rir para a moça, acenou ao Fidalgo, n'um desafio largo, com a cabeça
alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista flammante.
Gonçalo Mendes Ramires metteu a galope pelo copado caminho d'alamos que
acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar
(como tencionava para proveito da sua Novella) o valle, a ribeira
espraiada, as ruinas do Mosteiro de Recadães sobre a collina, e no
cabeço fronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da
antiga e tão fallada Honra d'Avellans. De resto o ceu, cinzento e
abafado desde manhã, entenebrecia para os lados de Craquede e de
Villa-Clara. Um bafo môrno remexeu a folhagem sedenta. E já gotas
pesadas se esmagavam na poeira--quando elle, sempre galopando, entrou na
estrada dos Bravaes.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota andava por saber
«se essa _Torre de D. Ramires_ se erguia emfim para honra das letras,
como a outra, a genuina, se erguera outr'ora, em seculos mais ditosos,
para orgulho das armas...» E accrescentava n'um
_Post-Scriptum_--«Planeio immensos cartazes, pregados a cada esquina de
cada cidade de Portugal, annunciando em letras de covado a apparição
salvadora dos *Annaes*! E, como tenciono prometter n'elles aos povos a
sua preciosa Novellasinha, desejo que o amigo Gonçalo me informe se ella
tem, á moda de 1830, um saboroso sub-titulo, como _Episodios do seculo
XII_, ou _Chronica do Reinado de Affonso II_, ou _Scenas da Meia-Idade
Portugueza_... Eu voto pelo sub-titulo. Como o sub-solo n'um edificio, o
sub-titulo n'um livro alteia e dá solidez. Á obra, pois, meu Ramires,
com essa sua imaginação feracissima!...»
Esta invenção de immensos cartazes, com o seu nome e o titulo da sua
Novella em letras de côres estridentes, enchendo cada esquina de
Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo n'essa noite, ao rumor da chuva
densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscripto,
parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Cap. II...
Atravez d'ellas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes Ramires,
com o troço de cavalleiros e peonagem da sua mercê, corria sobre
Monte-Mór em soccorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no valle
de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho de Tructesindo avista a
mesnada do Bastardo de Bayão, esperando desde alva (como annunciára
Mendo Paes) para tolher a passagem.--E então, n'esta sombria Novella de
sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda d'um
bastião, um lance de amor, que o tio Duarte cantára no *Bardo* com
dolente elegancia.
Lopo de Bayão, cuja belleza loura de fidalgo godo era tão celebrada por
toda a terra d'Entre Minho-e-Douro que lhe chamavam o _Claro-Sol_, amára
arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires.
Em dia de S. João, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de
toiros e jogos de tavolagem, conhecera elle a donzella explendida, que o
tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:
Que liquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ebano!
E ella, certamente, rendera tambem o coração áquelle moço resplandecente
e côr d'ouro, que, n'essa tarde de festa, arremessando o rojão contra os
toiros, ganhára duas fachas bordadas pela nobre Dona de Lanhoso--e á
noite, no sarau, se requebrára com tão repicado garbo na dança dos
Marchatins... Mas Lopo era bastardo, d'essa raça de Bayão, inimiga dos
Ramires por velhissimas brigas de terras e precedencias desde o conde D.
Henrique--ainda assanhadas depois, durante as contendas de D. Tareja e
de Affonso Henriques, quando na curia dos Barões, em Guimarães, Mendo de
Bayão, bandeado com o Conde de Trava, e Ramires o _Cortador_, collaço do
moço Infante, se arrojaram ás faces os guantes ferrados. E, fiel ao odio
secular, Tructesindo Ramires recusára com áspera arrogancia a mão de
Violante ao mais velho dos de Bayão, um dos valentes de Silves, que pelo
Natal, na Alcaçova de S.^{ta} Ireneia, lh'a pedira para Lopo, seu
sobrinho, o _Claro-Sol_, offerecendo avenças quasi submissas d'alliança
e doce paz. Este ultraje revoltára o solar de Bayão--que se honrava em
Lopo, apezar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e graça galante. E
então Lopo ferido doridamente no seu coração, mais furiosamente no seu
orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos
Ramires--tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as
veigas do Mondego já verdes. A donosa senhora, entre alguns escudeiros
da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorvão, onde
sua tia D. Branca era abbadeça... Languidamente, no *Bardo*, descantára
o tio Duarte o romantico lance:
Junto á fonte mourisca, entre os ulmeiros,
A cavalgadura pára...
E junto aos ulmeiros da fonte surgira o _Claro-Sol_--que, com os seus,
espreitava d'um cabeço! Mas, logo no começo da curta briga, um primo de
D. Violante, o agigantado Senhor dos Paços d'Avellim, o desarmou, o
manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com
vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos
solarengos que o acompanhavam n'esta affouta arremettida. Desde então
mais fero ardera o rancor entre os de Bayão e os Ramires. E eis agora,
n'esse começo da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no
valle estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lanças e mais
de cem besteiros da Hoste Real. Lourenço Mendes Ramires com quinze
cavalleiros e noventa homens de pé do seu pendão.
Agosto findava: e o demorado estio amarellecera toda a relva, as
pastagens famosas do valle, até a folhagem de amieiros e freixos pela
beira do riacho das Donas que s'arrastava entre as pedras lustrosas, em
fios escassos, com dormido murmurio. Sobre um outeiro, dos lados de
Ramilde, avultava, entre possantes ruinas erriçadas de sarças, a
denegrida _Torre Redonda_, resto da velha Honra de Avellans, incendiada
durante as cruas rixas dos de Salzedas e dos de Landim, e agora habitada
pela alma gemente de Guiomar de Landim, a _Mal-casada_. No cabeço
fronteiro e mais alto, dominando o valle, o mosteiro de Recadães
estendia as suas cantarias novas, com o forte torreão, asseteado como o
d'uma fortaleza--d'onde os monges se debruçavam, espreitando, inquietos
com aquelle coriscar d'armas que desde alva enchia o valle. E o mesmo
temor acossára as aldeias chegadas--porque, sobre a crista das collinas,
se apressavam para o santo e murado refugio do convento gentes com
trouxas, carros toldados, magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de cavalleiros e peões, espalhado até á beira
do riacho por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires soffreou,
susteve a leva, junto d'um montão de pedras onde apodrecia, encravada,
uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largára redeas soltas,
estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada--logo voltou,
sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:
--São homens de Bayão e da Hoste Real!
Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado
Ramires não duvidou avançar, travar peleja. Sósinho que assomasse ao
valle, com uma quebradiça lança de monte, arremetteria contra todo o
arraial do Bastardo...--No emtanto já o adail de Bayão se adeantára,
curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima do
morrião que pennas de garça emplumavam. E pregoava, atroava o valle com
o rouco pregão:
--Deter, deter! que não ha passagem! E o nobre senhor de Bayão, em
recado d'El-Rey e por mercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se
volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou:
--A elle, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos cavalleiros de Santa-Ireneia
tropeou para dentro do valle, de lanças ristadas. E o filho de
Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do panno solto do
seu pendão que apressadamente o alferes saccára da funda, descerrou a
vizeira do casco para que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou ao
Bastardo injurias de furioso orgulho:
--Chama outros tantos dos villões que te seguem que, por sobre elles e
por sobre ti, chegarei esta noite a Monte-Mór!
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rêde de malha cobria, toda
acairelada d'ouro, atirava a mão calçada de ferro, clamava:
--Para traz, d'onde vieste, voltarás, bulrão traidor, se eu por mercê
mandar a teu pae o teu corpo n'umas andas!
Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no
Poemeto do Tio Duarte. E depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires,
(sentindo a alma enfunada pelo heroismo da sua raça como por um vento
que sopra de funda compina) arrojou um contra o outro os dous bandos
valorosos. Grande briga, grande grita...
--Ala! Ala!
--Rompe! Rompe!
--Cerra por Bayão!
--Casca pelos Ramires!
Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões, as rudes
balas de barro despedidas das fundas. Almogavres de Santa-Ireneia,
almogavres da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com
baralhado arremesso d'ascumas que se partem, de dardos que se cravam: e
ambas logo refogem, refluem--em quanto, no chão revolto, algum
mal-ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob
o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao meio, no embate mais
nobre da peleja, por cima dos corceis que se empinam, arfando ao peso
das coberturas de malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam,
retinem, embebidas nas chapas dos broqueis:--e já, dos altos arções de
couro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de
ferragens sobre a terra molle. Cavalleiros e infanções, porém, como n'um
torneio, apenas terçam lanças para se derribarem, abolados os arnezes,
com clamores de excitada ufania: e sobre a villanagem contraria, em quem
cevam o furor da matança, se abatem os seus espadões, se despenham as
suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de grêda.
Por entre a pionagem de Bayão e da Hoste Real Lourenço Ramires avança
mais levemente que ceifeiro apressado entre herva tenra. A cada arranque
do seu rijo murzello, alagado d'espuma, que sacode furiosamente a
testeira rostrada--sempre, entre pragas ou gritos por _Jesus!_ um peito
verga trespassado, braços se retorcem em agonia. Todo o seu afan era
chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão arremessado e affrontador em
combate, não se arredára n'essa manhã da lomba do outeiro onde uma fila
de lanças o guardava, como uma estacada: e com brados, não com golpes,
aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a viva cerca Lourenço
gastava as forças, berrando roucamente pelo Bastardo com os duros
ultrajes de _churdo!_ e _marrano!_ Já d'entre a trama falseada do
camalho lhe borbulhavam do hombro, pela loriga, fios lentos de sangue.
Um lanço de virotão, que lhe partira as charneiras da greva esquerda,
fendera a perna d'onde mais sangue brotava, ensopando o forro d'estopa.
Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu,
rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos
loros com um salto, Lourenço Ramires encontrou em roda uma sebe erriçada
de espadas e chuços, que o cerraram--em quanto do outeiro, debruçado na
sella, o Bastardo bramava:
--Tende! tende! para que o colhaes ás mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de
ferro, o valente moço arremette, a golpes arquejados, contra as pontas
luzentes que recuam, se furtam... E, triumphantes, redobram os gritos de
Lopo de Bayão:
--Vivo, vivo! tomadel-o vivo!
--Não, se me restar alma, villão! rugia Lourenço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no
braço--que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda
ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que uma roca. N'um relance
ficou agarrado por peões que lhe filavam a gorja, emquanto outros com
varadas de ascuma lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim
direito como um madeiro;--e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu
hirto, sem elmo, sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os
cabellos presos n'uma pasta de poeira e de sangue.
Eis pois captivo Lourenço Ramires! E, deante das andas feitas de ramos e
franças de faias em que o estenderam, depois de o borrifarem á pressa
com a agua fresca do riacho,--o Bastardo, limpando ás costas da mão o
suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas douradas,
murmurava, commovido:
--Ah! Lourenço, Lourenço, grande dôr, que bem poderamos ser irmãos e
amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott por noticias do
_Panorama_, compozera Gonçalo a mal-venturada lide de Canta-Pedra. E com
este desabafo de Lopo, onde perpassava a magua do amor vedado, fechou o
Cap. II, sobre que labutára tres dias--tão embrenhadamente que em torno
o Mundo como que se calára e se fundira em penumbra.
* * * * *
Uma girandola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravaes,
onde no Domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias.
Depois da chuva d'aquelles tres dias, uma frescura descia do ceu
amaciado e lavado sobre os campos mais verdes. E como ainda restava meia
hora farta antes de jantar, o Fidalgo agarrou o chapeu, e mesmo na sua
velha quinzena de trabalho, com uma bengalinha de canna, desceu á
estrada, tomou pelo caminho que s'estreita entre o muro da Torre e as
terras de centeio onde assentavam no seculo XII as barbacans da Honra de
Santa Ireneia.
Pela silenciosa vereda, ainda humida, Gonçalo pensava nos seus avós
formidaveis. Como elles resurgiam, na sua Novella, solidos e resoantes!
E realmente uma comprehensão tão segura d'aquellas almas Affonsinas
mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e sahira do mesmo
rico bloco d'ouro. Porque um coração molle, ou degenerado, não saberia
narrar corações tão fortes, d'eras tão fortes:--e nunca o bom Manoel
Duarte ou o Barrôlo excellente entenderiam, bastante para lhes
reconstruir os altos espiritos, Martim de Freitas ou Affonso de
Albuquerque... N'esta fina verdade desejaria elle que os Criticos
insistissem ao estudar depois a _Torre de D. Ramires_--pois que o
Castanheiro lhe assegurára artigos consideraveis nas *Novidades* e na
*Manhã*. Sim! eis o que convinha marcar com relevo (e elle o lembraria
ao Castanheiro!)--que os Ricos Homens de Santa-Ireneia reviviam no seu
neto, senão pela continuação heroica das mesmas façanhas, pela mesma
alevantada comprehensão do heroismo... Que diabo! sob o reinado do
horrendo S. Fulgencio elle não podia desmantelar o solar de Bayão,
desmantelado ha seiscentos annos por seu avô Lionel Ramires--nem retomar
aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho Moreno era o languido
Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o prestimo historico d'esse
arrojo que outr'ora impellia os seus a arrasar Solares rivaes, a escalar
Villas mouriscas: resuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava para a
vida ambiente, esses varões temerosos, com os seus corações, os seus
trajes, as suas immensas cutiladas, as suas bravatas sublimes: dentro do
espirito e das expressões do seu Seculo era pois um bom Ramires--um
Ramires de nobres energias, não façanhudas, mas intellectuaes, como
competia n'uma Edade d'intellectual descanço. E os jornaes, que tanto
motejam a decadencia dos Fidalgos de Portugal, deveriam em justiça
affirmar (e elle o lembraria ao Castanheiro!):--«Eis ahi um, e o maior,
que, com as fórmas e os modos do seu tempo, continua e honra a sua
raça!»
Através d'estes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre
chão tão calcado pelos seus--o Fidalgo da Torre chegára á esquina do
muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do
pinheiral e da matta. Do portão nobre, que outr'ora se erguera n'esse
recanto com lavores e brazão d'armas, restam apenas os dois humbraes de
granito, amarellados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancella
de taboas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos annos. E n'esse
momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado
de matto, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava.
--Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes!
--Boas tardes, flôrzinha!
O carro lento passou. E logo atraz surdio um homem, esgrouviado e
escuro, trazendo ao hombro o cajado, d'onde pendia um mólho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravaes. E seguia, como
desattento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a
bengalinha as silvas floridas do vallado. O outro porém estugou o passo
esgalgado, lançou duramente, no silencio do arvoredo e da tarde, o nome
do Fidalgo. Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou,
forçando um sorriso affavel:
--Olá! É vossê, José! Então que temos?
O Casco engasgára, com as costellas a arfar sob a encardida camisa de
trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmelleiro que cravou no
chão pela choupa:
--Temos que eu fallei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que
depois me faltasse á palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e
custosa--como se levantasse uma massa de ferro:
--Que está vossê a dizer, Casco? Faltar á palavra! em que lhe faltei eu
á palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então
houve por acaso escriptura assignada entre nós? Você não voltou, não
appareceu...
O Casco emmudecera, assombrado. Depois, com uma colera em que lhe
tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as seccas mãos cabelludas,
fincadas ao cabo do varapau:
--Se houvesse papel assignado o Fidalgo não podia recuar!... Mas era
como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.^a disse, quando eu
acceitei: «viva! está tratado!...» O fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, apparentou a paciencia d'um senhor benevolo:
--Escute, José Casco. Aqui não é logar, na estrada. Se quer conversar
commigo appareça na Torre. Eu lá estou sempre, como vossê sabe, de
manhã... Vá ámanhã, não me encommóda.
E endireitava para o pinhal, com as pernas molles, um suor arripiado na
espinha--quando o Casco, n'um rodeio, n'um salto leve, atrevidamente se
lhe plantou diante, atravessando o cajado:
--O Fidalgo ha-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A
mim não se me fazem d'essas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo relanceou esgaseadamente em redor, na ancia d'um soccorro. Só o
cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto
de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas
dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já
se adensava sombra e nevoa. Então, estarrecido, Gonçalo tentou um
refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E
como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços resequidos e
tremulos:
--Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a
gritar. Póde haver desgosto, apparecer o regedor. Depois é o tribunal, é
a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu
motivo para se queixar, vá á Torre, conversamos. Pacatamente tudo se
esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...
Então de repente o Casco cresceu todo, no solitario caminho, negro e
alto como um pinheiro, n'um furor que lhe esbugalhava os olhos
esbraseados, quasi sangrentos:
--Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima
de me fazer a maroteira me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos!
primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...