As fontes tinham agoas de brilhantes;

E em quanto a sua voz vibrava em mim,

Eu fitava seus olhos avidos, amantes,

Na sua alva botinha de setim.

Ella é fragil e timida. Ama as rosas,

Crê nos sonhos, _visões_, nos malmequeres,--

E chora com as musicas nervosas

Como as debeis e mysticas mulheres.

No entanto mais ninguem do que eu receia

Seus pobres, frageis nervos delicados!

Ninguem mais me seduz do que a sereia,

Correndo a mão fransina nos teclados!

Iamos assim fallando d'escudeiros,

Paladins, lendas, dramas, toda a escura

Edade media, em quanto na espessura,

Os rouxinoes cantavam nos loureiros.

Mas eis que pára... e diz-me de repente,

Cravando-me o olhar tragico sublime,

--Mata-me um dia!--E eu li, perfeitamente,

--Em seus olhos _azues_ o _amor_ do Crime!--

Mata-me tu! cruel! disse-lhe eu rindo,

E em quanto o seu olhar errava em mim,--

E enterra-me depois n'um sitio lindo,

--N'um loureiro que cresce em teu jardim!

Minha alma ali será perto da tua,

Como as almas irmãs, branca sereia,

E tremerei nas folhas, pela lua,

Ao sentir teus pésinhos sobre a areia!

Manda pôr o meu corpo em sitio lindo,

Debaixo d'um loureiro, em teu jardim;

Meu bem! Mata-me tu! disse-lhe rindo:--

Ensanguenta as botinhas de setim!

..........................................

..........................................

..........................................

..........................................

E eis aqui como em noutes amorosas

Nestes bons climas callidos do Sul,

Produz sonhos, _chymeras_ monstruosas,

A triforme immortal--a lua azul!

*O SELVAGEM*

A Silva Qinto

Eu não amo ninguem. Tambem no mundo

Ninguem por mim o peito bater sente,

Ninguem entende meu sofrer profundo,

E rio quando chora a demais gente.

Vivo alheio de todos e de tudo,

Mais callado que o esquife, a Morte e as lousas,

Selvagem, solitario, inerte e mudo,

--Passividade estupida das Cousas.

Fechei, de ha muito, o livro do Passado

Sinto em mim o despreso do Futuro,

E vivo só commigo, amortalhado

N'um egoismo barbaro e escuro.

Rasguei tudo o que li. Vivo nas duras

Regiões dos crueis indifferentes,

Meu peito é um covil, onde, ás escuras,

Minhas penas calquei, como as serpentes.

E não vejo ninguem. Saio sómente

Depois de pôr-se o sol, deserta a rua,

Quando ninguem me espreita, nem me sente,

E, em lamentos, os cães ladram á lua...

*O AMOR DO VERMELHO*

(Nevrose d'um Lord.)

A idéa de teu corpo branco amado,

Belleza esculptural e triumphante,

Persegue-me, mulher, a todo o instante,

--Como o assassino o sangue derramado!

Quando teu corpo pallido, e brijado,

Abandonas ao leito--palpitante,

Quem jámais comtemplou em noute amante,

Tentação mais cruel, tom mais nevado?!

No emtanto--duro, excentrico desejo!

--Quisera as vezes que a dormir te vejo

Tranquilla, branca, inerme, unida a mim....

Que o teu sangue corresse de repente,

Fascinação da Côr!--e extranhamente,

Te colorisse pallido marfim!

*A UM CORPO PERFEITO*

Nenhum corpo mais lacteo e sem defeito

Mais roseo, esculptural e femenino,

Pode igualar-se ao seu, branco e divino

Immovel, nù, sobre o comprido leito!--

Nada te eguala! O ferro do assassino

Podia, hoje, matal-a, que o meu peito

Seria o esquife embalsamado e fino

D'aquelle corpo sem rival, perfeito.

Por isso é muito altiva e apetecida;--

E o goso sensual de a vêr vencida

Ha de ser forte, extranho e singular...

Como o das cousas dignas de castigo;

--Ou d'um amante sacerdote antigo,

Derrubando uma deusa d'um altar.

*CARTA AO MAR*

Ó ondas fugitivas!...

(Camões)

Deixa escrever-te, verde mar antigo,

Largo Oceano, velho deus limoso,

Coração sempre lyrico, choroso,

E terno visionario, meu amigo!

Das bandas do poente lamentoso

Quando o vermelho sol vae ter comtigo,

--Nada é mais grande, nobre e doloroso,

Do que tu,--vasto e humido jazigo!

Nada é mais _triste_, tragico e profundo!

Ninguem te vence ou te venceu no mundo!...

Mas tambem, quem te poude consollar?!

Tu és Força, Arte, Amor, por excellencia!--

E, comtudo, ouve-o aqui, em confidencia;

--A Musica é mais triste inda que o Mar!

*A LENDA DAS ROSAS*

No principio eram mais doces os olhares

Socegados de Deus!

Era mais verde o manto destes mares

E mais azues os ceus!

Não tinha nuvens este sol na rota,

Nem tormentas o Sul,

Nem era, como o olhar d'um idiota,

Impassivel o azul!

Não choravam no val escuros casos,

Á noute, os tristes ventos!

Nem eram como hoje, nos occasos,

Os ceus sanguinolentos!

Deus não tinha vibrado ainda o açoute

A gerações inteiras,

Nem o Christo suára a longa noute

No Jardim d'Oliveiras.

Não andavam os tristes miseraveis

Torcendo os braços nùs!

Nem erravam na treva, inconsolaveis,

Os expulsos da Luz.

E não haviam sangue ainda chorado

Os santos nos desertos,

Nem no craneo do morto esverdeado

Inda lyrios abertos!

Não pisava inda um pé selvas umbrosas

E florestas bastas,

Os mares eram mansos!--sempre as rosas

Eram brancas e castas!

Não era côr de sangue assim vestida

Inda a rosa vermelha,--

Nem o ceu tinha a côr desvanecida

D'uma tunica velha.

..........................................

Toda uma noute, a Mãe primeira errante

E todo um dia andou!

Da noute a branca luz de diamante

Os passos lhe guiou.

E abandonavam seus pombaes as pombas

Seguindo-a pela estrada!...

E o mar dizia ao vento: Por que zombas?

Pobre mãe desgraçada!

E as montanhas choravam;--pois poderam

Prantos de mãe fendel-as!

E toda a noute pelo ceu correram

Mais tristes as estrellas!

E o mar tinha uma voz dorida, como

Na noute do Salem,

E quando o sol nasceu em rubro assomo

Arrastava-se a Mãe!

E perguntava ao vento: Onde está elle?

--Quem o meu filho viu?

E o vento respondeu:--Não sei d'Abel!

E o mar, ao fim, carpiu!

E arrastava-se assim no fim do dia--

Já quando toda exangue,

--Uma roseira avista que tingia

A côr rubra do sangue:

Então dorida estatua,--hirtos os passos,

Ai de mim! ai de mim!

Gritou, convulsa a Mãe, torcendo os braços,

«Aqui passou Cain!»

No principio eram mais doces os olhares

Socegados de Deus!

Era mais verde o manto destes mares

E mais azues os ceus!

E a Rosa era só _branca_, pura, exangue;

--Pois que como hoje assim

Não corrêra sobre ella ainda o sangue

Que derramou Cain!

*NO ENTERRO D'UM CORAÇÃO*

(A Betencourt Rodrigues)

Vaes a enterrar nas hervas verde-escuras,

Na fria terra, ó santa, que devias

Não ter roçado estas paixões impuras,

E estas lepras,--irmã das cotovias!

Vaes a enterrar sob as folhagens frias,

--Vóz alegre, rir cheio de doçuras!

Ó lindo coração! que só te abrias

Para a dôr das alheias amarguras!...

Vão-te levar á terra, ó casto e amado!--

Mas olha!--os vegetaes tem mais cuidado

Dos seios virginaes do que a paixão!...

Adeus, triste!... Adeus peito amante e ardente!

--Quem me déra comtigo, juntamente,

Ir tambem a enterrar, ó Coração!

*A JOVEN MISS*

Tocar que impio se atreve!..

(Flores do Campo)

Ella é tão loura, lyrica, franzina,

Tão mimosa, quieta, e virginal,

Como uma bella virgem d'um missal

Toda dourada, e preciosa e fina!

Não ha graça mais casta e femenina

Do que a d'ella! Seu riso angelical

Cria em nós todo um mundo de moral,

Melhor que tudo o que Platão ensina!

Por isso; e pela sua castidade,

Deve ser goso intenso, na verdade,

Sentir fundir-se em nós seus olhos regios!..

E o goso de a beijar trémula, amante,

Deve ser quasi extranho!--e semelhante

Ao de fazer terriveis sacrilegios.

*O DOENTE ROMANTICO*

Eu sei que morrerei, discreta amante,

Antes do inverno vir; mas, lentamente,

Quero morrer á tua luz radiante,

Como os tisicos á luz do sol poente!

Sou romantico assim! O tempo ardente

Das chimeras vae longe! Vão, constante,

Morrerei crendo em ti... e o azul distante

Olhando como um sabio ou um doente!...

--Mas, eu não preso a tarde ensanguentada...

Nem o rumor do Sol!--quero a calada

Noute brumosa junto do Oceano...

E assim, sem ai nem dôr, entre a neblina,

Morrer-me, como morre a balsamina,

--E ouvindo, em sonho, os ais do teu piano.

*QUADRA D'UM DESCONHECIDO*

Eu morrerei, ó languida trigueira!

Sem sentir teus cabellos sobre mim,

Coroado dos lumes da poncheira,

Sobre o chão immoral d'um botequim!

*EM VIAGEM*

Ia o vapôr singrando velozmente

O verde mar antígo e caprixoso,

Á rude voz do capitão _Contente_,--

Um rubro homem do mar silencioso.

Demandava a Madeira,--a ilha bella,

A patria excelsa e celebre do vinho,

A viagem foi curta; e no caminho

Intentei relações com _Arabella_.

Arabella era a lyrica ingleza,

Loura, pallida e fragil como um vime,

Que traz sempre a sua alma meiga presa

D'algum amor profundo, mas sublime.

O londrino, o Antony d'esses amores,

Era um rubro e excentrico burguez,

Mais amigo do bife que das flores,

--A extravagancia de chapeu inglez,

Seu olhar dubio, incerto e traiçoeiro

Tinha visões de sangue derramado

Em toda a parte; ao todo um ex-banqueiro,

--Um calvo, velho amigo do Peccado!

Nunca o olhar fitava em sitio certo;--

Vogava ás vezes só no tombadilho,

Com um comprido e merencorio filho,

E ninguem viu-lhe um riso franco e aberto.

Punha, ás vezes, no mar o olhar sombrio;

E ao vento, a fita branca do chapeu

Dir-se-hia a vella triste d'um navio

De naufragos, n'um lugubre escarceu!

--Mas comtudo, a ingleza, a triste amante

Com seus longos e louros caracoes,

Fitava ás vezes no azul distante,

Seus olhos divinaes como dous soes.

E, mau grado andar languida, doente,

Ser branca, loura, e fragil como um vime...

--Um sabio lêra-lhe a attracção ardente

Pelas virís fascinações do crime.

*NOUTES DE CHUVA*

Eu não sei, ó meu bem, cheio de graças!

Se tu amas no Outomno--já sem rosas!--

A longa e lenta chuva nas vidraças,

E as noutes glaciaes e pluviosas!

N'essas noutes sem luz, que--visionarios--

Temos chymeras misticas, celestes,

E scismamos nos pobres solitarios

Que tiritam debaixo dos cyprestes!

Que evocamos os liricos passados,

As chymeras, e as horas infelizes,

Os velhos casos tristes olvidados,--

E os mortos corações sob as raizes!

N'essas noutes, meu bem! em que desfeito

Cae o frio granizo nas estradas,

E tanto apraz, sonhando, sobre o leito,

Ouvir a longa chuva nas calçadas!

N'essas noutes, electricas, nervosas,

Todas cheias d'aromas outonaes,

Que a tristeza tem formas monstruosas

Como n'um sonho os porticos claustraes.

Noutes só em que o sabio acha prazeres,

--Tão ignorados dos crueis profanos!--

E em que as nervosas, mysticas mulheres,

Desfallecem chorando nos pianos.

N'essas noutes, meu bem! é que os poetas

Tem ás vezes seus sonhos mais brilhantes,

Folheam suas obras predilectas...

--E evocam rostos... e visões distantes!

*IDYLIO MERIDIONAL*

Sem ti, vejo o meu futuro

Um horto cheio d'abrolhos!--

Ah não me deixem teus olhos

Por este caminho escuro!

No inverno, as candidas aves

Abandonam os pombaes,

Meu bem, teus olhos suaves

Não me desterrem jámais!

Quando á tarde o ceu flameja,

Junto de ti encostado,

Que vezes, não tenho inveja

Da agulha do teu bordado!

Eu quizera a toda a hora

Cantar-te, ó sol os meus dias!

Como os sonetos que á Aurora

Enviam as cotovias.

Ó labios que pedem beijos!

Ó brancas mãos delicadas!

Voam a vós meus desejos

Quaes pombas ensanguentadas!..

Ó rival das açucenas!

Nenhum punhal faz no peito

As chagas que me tem feito

Essas tuas mãos pequenas!

E, comtudo o amor só dura

Entre as lagrimas da magoa,

--Como uma violeta escura

Que se morre á mingoa de agoa!

Um horto todo d'abrolhos

Sem ti será meu futuro!--

Ah! não me larguem teus olhos

Por este caminho escuro!

*DUAS QUADRAS DE DIOGENES NO ALBUM DE LAIS*

Quando no meu o teu olhar se esquece,

A minha alma, mulher! é como um urso

Que dança pelas feiras, e obdece

Ao magro saltimbanco e ao seu discurso.

E os meus velhos desejos violentos

Soluçam--hystriões esfomeados!--

Como os gatos noturnos, friorentos,

Que miam lamentosos nos telhados.

*A CAMELIA NEGRA*

Por isso vos espera

O dia da vingança!

(Souza Caldas)

Como as urnas das rosas mal fechadas,

Cujos aromas boiam no poente,

Quando passas nossa alma aspira e sente

As sensações das ilhas ignoradas.

E o teu cabello, ó lubrica serpente!

Rescende todo a unguentos e a pomadas,

Como as mumias que habitam no Oriente,

Debaixo das pyramides sagradas.

Mas que te serve e val tanta fadiga,

Ó pó doirado e vão? e o mundo diga:--

Meu leito, meu pomar de sensações!!

Se o vento que hoje o teu sorrir perfuma

Na tua cruz soluçará:--Mais uma

Dos monstros maternaes das gérações!

*A ULTIMA SERENADA DO DIABO*

No tempo em que elle, nas lendas,

Era amante e cortezão,

Jogava, e tinha contendas,

Cantava assim em Milão:

..........................................

..........................................

..........................................

Ó flores meigas, ó Bellas!

Para prender os toucados,

Eu dar-vos-hia as estrellas:

--Os alfinetes dourados!

Só pelo amor quebro lanças!--

A Rainha de Navarra

Enleou um dia as tranças

No braço d'esta guitarra!

Sou um heroe perseguido!...

Mas inda ha luz nos meus rastros;

A lança que me ha ferido

Foi feita do ouro dos astros!

Mas um dia, ó bem amadas!

Eu tornaria ás alturas...

Subindo pelas escadas

Das vossas tranças escuras!

O amor que em meu peito cabe

Não conta diques, ó bellas!

Só minha guitarra o sabe,

E aquellas velhas estrellas!

Ó batalhas amorosas!

--Era d'aventuras cheia!

Ó brancas noutes saudosas

Que eu andei pela Judea!

Ó flores apetecidas!

Livros escriptos com beijos!

Ó brancas aves fugidas

Dos jardins dos meus desejos!

Não me deixeis no abandono

Ó tristes olhos leaes!

Como as pombas, no outomno,

Que abandonam os pombaes!

Que fosse eu crucificado

N'alguma bem alta Cruz!...

--E vos tivesse a meu lado,

Como vos teve Jezus!...

Esses olhos me consomem!...

Mas, Mulher, da lucta ao cabo,

Se perdeste o antigo Homem...

--Tu matarás o _Diabo_!

*A MUSA VERDE*[1]

Il apellait l'absynthe sa «muse verte»

(Les derniers bohémes)

Io vidi gia al cominciar del giorno

La parte oriental del ciel tutta rosata.

(Dante. Purg.)

Infelizes!--os sujos, verdes limos,

Que vezes não tem visto os afogados!...

Corações tantas vezes sobre os cimos

Do Ideal! e que o Vicio tem marcados!

Quem os leva por esses vis atalhos

Do Desespero, Fome e Suicidio,

E ao verde absintho e aos sordidos baralhos!

--Elles que leram Dante, Homero e Ovidio?

Quem os conduz?--A vil fatalidade

É quem os leva ás perfidas ciladas?--

E é tal secreta e livida deidade

Quem lhes esmaga os craneos nas calçadas?

Quem pois os empurrou, um dia--e disse:

--Aquece o Alcool... mais que o Paraizo!--

E nas cavadas faces da velhice

Gelou-lhes sempre, imbecilmente, o riso?

--Quem foi? Quem é que arrasta, eternamente,

A velha e a nova geração que perde

O seu calor, seu sangue, febrilmente--

Aos braços infernaes da _Musa Verde_!?

A Miseria--a irmã velha do Peccado,

--E o Luxo, o Mal!--tão negros conselheiros!

São quem os faz, no asphalto abandonado,

Ver apagar, com dia, os candieiros?...

Ou será, tambem,--goso triste insano

Da alma escura!--e nova podridão

Do homem de hoje, _blazé_ como um tyrano:

--De se sentir boiar na perdição?!

*IDYLIO D'ALDEIA*

Oh! que harmonia!

Cadente s'esvoaça pela fresta

D'um visinho postigo!

(Hostia d'ouro)

Não sei que ha que me impelle

Para o teu escuro olhar!...

É mais branca a tua pelle,

Do que o linho de fiar!

É tua boca um botão,

E o teu riso a lua nova;--

Quem me dera ter na cova

Os _ais_ do teu coração!

Mal podes saber o gosto

Que tive da vez primeira

Que te avistei, ao sol posto,

Debaixo d'esta amoreira!

Desde esse dia, andorinha!

Desde essa tarde infeliz,

Fiquei preso da _covinha_

Que fazes quando te ris!

Não sei que ha que me impelle

Para o teu escuro olhar!...

É mais branca a tua pelle

Do que o linho de fiar!

A minha alma não descança;--

Morra o sol, ou surja a aurora,

Só tu me lembras _creança_

De cabellos côr d'amora!

A tua doce ignorancia

Tão cheia de _singelesas_...

Faz todas as almas presas

Como as perguntas da infancia!

Tu és como um pomo d'ouro,

E o vivo sol que me alegras;

--Amo mais teu rir sonoro

Do que a voz das toutinegras!...

Quando eu fôr a enterrar,

N'algum dia, ao pôr do Sol,

Quero levar por lençol

Só a luz do teu olhar!

..........................................

--Mas tu só vives cantando!--

E ao vir da fonte com agoa,

Mais sentes que estou penando,

Mais te ris da minha magoa!

Ah! nunca eu tivesse o gosto

Que tive da vez primeira

Que te avistei, ao sol posto,

Debaixo d'esta amoreira!

*CARTA ÁS ESTRELLAS*

Ninguem soletra mais vossos mysterios

Grandes letras da Noute! sem cessar...

Ó tecidos de luz! rios ethereos,

Olhos _azues_ que amolleceis o Mar!...

O que fazeis dispersas pelo ar?!...

E ha que tempos ha já, fogos siderios,

Que ides assim como uns brandões funereos

Que levaes o Deus Padre a sepultar?!

Ha que tempos, dizei!--Ha muitos annos?...

E, com tudo, astros santos, deshumanos,

A vossa luz é sempre clara e egual!

Ha muito, que sois bons, castos, brilhantes!...

--Mas, tambem... ó crueis! sempre distantes...

Como dos nossos braços o Ideal!

*NA FOLHA D'UM LIVRO*

Uma é a forma ideal do triste anjo vencido,

--A outra, a doce luz diaphana da manhã!

E entre ellas chora e diz meu coração perdido:

--Em mim vencerá Deus, ou ganhará Satan!?

*OS BRILHANTES*

Não ha mulher mais pallida e mais fria,

E o seu olhar azul vago e sereno

Faz como o effeito d'um luar ameno

Na sua tez que é morbida e macia.

Como _Levana_... esta mulher sombria

Traz a Morte cruel ao seu aceno,

O Suicidio e a Dôr!... Lembra do Rheno

Um conto, á luz crepuscular do dia.

Por isso eu nunca invejo os seus amantes!

--E em quanto hontem, gabavam seus brilhantes,

No theatro, com vistas fascinadas...

Tortura das visões... incomprehensiveis!

Em vez d'elles, cri ver brilhar--horriveis

E verdadeiras lagrimas geladas!

*O ASTROLOGO*

Quem tem ouvidos que ouça.

Quem tem ouvidos que ouça, e o velho mundo

Que o aprenda de cór, pois que o que digo

È fructo d'um estudo egregio e fundo

Como a sciencia d'um Chaldeu antigo!

A Terra ha muito que é um charco immundo,

Vencida eternamente do Inimigo,

E ha muito lhe prevejo um fim profundo,

E um terrivel e tragico castigo!

Ora, hontem á noute, fui a um monte

Muito alto--e eis que avisto no horisonte

Dez signos, como em longa proscissão...

E esses signos, a mim que sou vidente,

Tinham formas de lettras, claramente,

--E n'essas lettras li DESTRUIÇÃO.

QUARTA PARTE

MYSTICISMO

*DEDICATORIA*

Este livro é dos poetas

E mais de vós--pombas minhas!

--Podeis-me ler, violetas!

--Podeis-me ler, andorinhas!

*OS DEUSES MORTOS*

(Á memoria de J. M. Fernandes)

Parce diis

Eu nunca os insultei!... Se estão emfim vencidos

Silencio! Cubra luto a natureza inteira!

Nuvens dillacerae os pallidos vestidos!

Verte gotas de sangue, ó flor da larangeira!

Onde estaes, onde estaes!--Extactica palmeira,

Viste acaso passar os grandes foragidos?

Onde estão Zeus Jesus?! Velhos cedros erguidos!

Nuvens, ventos e mar, guardae sua poeira!

Deixae-os descansar!--Luzentes mariposas,

Cuidado! não piqueis o coração das rosas!

Lavrador cava a Terra, a Terra, devagar!...

Silencio! Orpheu, Jesus, dormem no seu mysterio!

--A Natureza é toda um vasto cemiterio!

Eu nunca os insultei!--Deixae-os repousar!

*DEBAIXO DAS HERVAS*

Podesse ir eu comtigo que m'encantas

Como um vinho, no pó da terra dura,

Dormir ambos na mesma sepultura,

Entre os braços das hervas e das plantas?

Dormir no mesmo leito, e a mesma cova

Sentir os nossos pallidos abraços,

De noite, quando branca nos espaços,

Nas hervas desmaiasse a lua nova.

E aquellas tristes cousas que disseram

Os meus olhos nos teus, adormecidos,

Dizel-as outra vez, já confundidos

Na poeira d'aquelles que morreram.

Sentir, meu bem, de novo, as tuas tranças,

Com que tu tantas vezes me vestiste,

Enlaçarem-me ainda, á hora triste,

Em que os astros reluzem como lanças.

E entre as hervas da terra, e os acres cheiros

Dos cyprestes, dizer as cousas mil

Que diziamos, ó triste! quando abril

Fazia colorir os teus canteiros.

E debruçada estavas á janella

Nas horas religiosas do Poente,

Como a mãe que anciosa e docemente,

Espreita no horisonte a amada vella.

E quando íamos depois as nossas magoas

Contarmos, pelo espesso das folhagens,

Cabellos desmanchados nas aragens,

E entre as vozes das folhas e das aguas.

E todas essas cousas que me dizes,

Quando estás debruçada na costura,

E que inda nunca ouviu a terra dura,

E que chorar fariam as raizes!

E eu quizera que o lenho do cypreste,

--Marco escuro da terra que nos come!

Enlaçado tivesse o nosso nome,

Como um lenço bordado que me déste!

..........................................

..........................................

..........................................

Podesse ir eu comtigo, que m'encantas

Como um vinho, no pó da terra dura,

Dormir ambos na mesma sepultura,

Entre os braços das hervas e das plantas!

*A UMA VOZ CELESTE*

A. C. de Carvalho

Na noute que passou

O Christo no Calvario,

Um rouxinol cantou

Sobre a Cruz, solitario.

Os trigueiros soldados,

E os lyrios de Salem

Perguntavam pasmados

--Que voz canta tão bem?

Como sentindo os males

Das suas proprias penas

Vergavam-se nos calix

Chorando as açucenas.

Choravam os caminhos,

Os dados, os cilicios,

A grinalda d'espinhos,

E a esponja dos supplicios.

Choravam os sem luz,

E os rijos peitos bravos,

--Começavam na cruz

A vacillar os cravos.

Pelo tranquillo espaço

Paravam as estrellas,

E o vagaroso passo

As mudas sentinellas.

E os peitos deshumanos

Resentiam mudanças;

--Deixavam os Romanos

Escorregar as lanças.

E a noute ali ficou...

Assim lembrando o Ceu!

--Quando Jesus morreu,

Do lenho emfim voou.

Ora eu mulher! que creio.

Que a Vida sae das lousas,

Eu que nos astros leio

E adoro a alma das rosas!

Que sei que o que hoje existe

Foi nuvem, flor, cypreste...

E escuto essa voz triste

A tua voz celeste!

Eterno visionario,

E adorador do Sol...

Creio que no Calvario

--Cantaste, rouxinol!

*Á POMBA QUE VOOU*

Foste-te, ó luz das solidões amenas!

Ó grandes olhos tristes, ideaes!

--Partiste, casta pomba d'alvas pennas,

Em procura dos lucidos pombaes!

..........................................

Tu estás hoje entre as hervas e as poeiras,

Ou cheia de celestes claridades!

Ó doce irmã das rolas companheiras!

Por ti ouço chorar as larangeiras!

E de luto vestirem as saudades!

Ah! quantas vezes, n'este mar d'escolhos,

Comtemplando o azul duro e sem fim...

E os pés ensanguentados nos abrolhos,

Eu nas estrellas creio vêr teus olhos

Que estão chorando lagrimas por mim!

Teu corpo está talvez, dilacerado

Entre as plantas escuras e as raizes!..

E, ah! que vezes talvez, n'um _ai_ cortado

Não me terá teu seio immaculado

Entre as hervas bradado--_Não me pizes_!

Por isso vou curvado para o chão

Com medo de pizar-vos, tranças bellas!

--E ah! quantos, como eu, tambem irão,

Correndo o mundo atraz d'uma illusão,

Ou soletrando as mysticas estrellas!

..........................................

Foste-te luz das solidões amenas!

Ó grandes olhos trístes divinaes!...

--Partiste, casta pomba d'alvas pennas

Em procura dos lucidos pombaes!

*TRISTISSIMA*

N'um paiz longe, secreto,

Lendaria ilha affastada,

Jaz todo o dia sentada

N'um throno de marmor preto.

No seu palacio esculpido

Não entram constellações;

Os tectos dos seus sallões

São todos d'ouro polido!

Nas largas escadarias

Sobem vassallos ao cento,

De noute suluça o vento

N'aquellas tapeçarias.

E pelas largas janellas

Fechadas, sempre corridas,

Ha flores desconhecidas

Que não olham as estrellas.

Na dextra segura um calix,

--Calix da Dôr e da Magoa!

Onde está contida a agoa

E o sangue dos nossos males!

Pelas florestas sosinhas

Escuras, sem rouxinoes,

Erram chorando os Heroes,

E as desgraçadas Rainhas.

Seguida, á noute, de servas,

Caminha, em cortejo mudo,

Rojando o negro velludo

De seu cabello nas hervas.

Sómente ao vel-a passar

Ficam as almas surprezas;

--Ha todo um mar de tristezas

No abismo do seu olhar!

*IDYLLIO TRISTE*

(A Léon de La vega)

Olha! sinto-me exhausto

Pomba da minha vida!

Eu serei o teu Fausto,

Sê minha Margarida!

Deixa que o alegre ria

Alma que me estremeces!

Que ruja fóra a orgia

Os prantos, as _kermesses_!

Vamos a colher rosas,

Rola dos meus carinhos!

Pelos brancos caminhos

Nas noutes luminosas!

Sob esta curva azul

Amemos, bem amada!

Na torre levantada

Que gema o rei de Thule!

Que o mundo chore e gema

Em quanto o Tempo dura!

Da nossa noute escura

Façamos um poema!

Deixa na roca os linhos

Pomba dos meus amores!

E aos sabios e aos doutores

Os livros e os cadinhos!

E aos tristes, aos ascetas

As grutas, os cilicios,

E a esponja dos supplicios

Aos labios dos poetas!

Claridades do sul · 第 3 / 6 段