SUMMARIO

Duas obras recentes--De Ruy Chianca, no Theatro. De Edgar Prestage, em

livro--Valor da obra do erudito lusophilo--Trabalho exhaustivo sobre

o escriptor seiscentista. A vida do D. Francisco, suas viagens, suas

aventuras, sua prisão. Lenda romantica--O duello nas sombras--A sua

divisa: _Quare?_

Estabeleceu certa academia um premio valioso para ser conferido ao

sabio zoologo, que escrevesse a mais completa e notavel memoria sobre o

_Leão_.

Trez candidatos concorreram ao certamen: um Francez, um Inglez, um

Allemão.

O Francez, espirito vivo, intelligencia captadora, facetada,

assimiladora, que lêra Buffon, e admirára a elegancia de estylo com que

o nobre Conde escrevia historia natural, empunhando uma penna de ouro,

com mão bem tratada e esguia emergindo das preciosas rendas, sobraçou

um volume d’essa historia, encadernado em marroquim, _or sur tranches_,

e tomou um carro que o conduziu ao _Jardin des Plantes_.

Alli, em frente da jaula d’um formoso specimen do rei dos animaes,

emquanto as amas e creadas da visinhança ouviam dengosas os requebros

dos soldados, e as borboletas se perseguiam amorosas entre a folhagem,

estudou os movimentos do soberbo animal, idealizou-lhe a existencia,

e, em seguida, n’uma barraca da feira Neuilly, assistiu attento ás

coleras d’um bando de leôas, excitadas pelo chicote de uma domadora

que, vestida com _maillot_, dava tiros de polvora secca, em frente das

fauces escancaradas dos bichos truculentos.

Poucas semanas depois tinha escripto um volume faiscante, pulverizado

de anecdotas, livro de leitura interessante e facil, que foi devorado

por milhares de leitores.

O Inglez comprou um fato de linho, um capacete de cortiça, uma boa

carabina de caça, varias obras de viagens, um livro em branco para

tirar notas e tomou um bilhete a bordo d’um transatlantico que o levou

a um porto da Africa.

D’alli penetrou na Libya, procurando a região onde melhor pudesse

observar a vida, os usos, os costumes das soberbas féras em plena

natureza. Passou noites no embrenhado das florestas, e nas quebradas

dos montes, onde echoam os rugidos dos magestosos animaes, e ouviu os

bramidos das fulvas leôas amorosas nas clareiras alumiadas pelo luar

africano.

Surprehendeu nos antros o ciume das mães; as luctas sanguinolentas

entre os machos com o cio; o esphacelar das victimas colhidas nas

caçadas. Elle proprio matou valorosamente, para se defender, medonhos

leões, e trouxe exemplares preciosos para o estudo da raça. Ao fim de

dez annos, tinha escripto um livro bem documentado, vivido, verdadeiro.

Um livro de consulta, um livro de sciencia, um livro de bibliotheca.

O Allemão, esse, limpou os cristaes dos seus oculos de ouro, penetrou

na bibliotheca imperial de Berlim, requisitou todas as obras de

historia natural escriptas nas seis mil linguas que se fallam no mundo,

abancou n’um dos mais reservados cantos da sala de leitura, e começou

a ler, tomando apontamentos sobre tudo quanto se tem escripto ácerca

do Leão, desde as obras fundamentaes de sabios até ás dissertações

phantasistas a respeito do leão alado de S. Marcos nos monumentos de

Veneza, não esquecendo as referencias á fabula do immortal Phedro. _Ego

nominor leo..._ O Allemão tem lido, lido, lido. Já lá vão vinte annos e

juntou notas para outros tantos volumes de uma futura obra colossal!

Occorreu-me ao espirito a anecdota que precede ao ler as duas

obras recentes (emquanto não apparece a terceira) inspiradas na

personalidade de D. Francisco Manoel. O polygrapho seiscentista não é

positivamente um leão. Mas o facto de ter sido agora assumpto de um

drama de Ruy Chianca, e de um estudo biographico de Edgar Prestage,

trouxe-me a confirmação do caso, que tão bem caracteriza as tres raças.

* * * * *

Francisco Manoel de Mello! A todos os que estudam, ainda que

superficialmente, litteratura portugueza, este nome recorda o

auctor da «Carta de Guia de Casados», dos «Apologos dialogaes», das

«Epanaphoras», o diplomata da Restauração, o prisioneiro da Torre de

Belem, e mais ainda o heroe do romanesco duello nas sombras, o supposto

rival de D. João IV, e a victima da sua paixão pela Condessa de Villa

Nova.

Dados estes elementos tentadores, o espirito meridional do sr.

Ruy Chianca, todo vibrante ainda do seu triumpho com o exito de

«Aljubarrota», toma o auctor do «Fidalgo Aprendiz», colloca-o em scena,

apresentando-o entre personagens, mais de imaginação que de historia,

e, dando-o como typo da nobreza de sentimentos da raça portugueza,

exalta-o e celebra-o.

«_Porque é poeta e nobre audaz e ciumento_»

e tambem ainda porque, segundo elle põe na propria bocca do seu heroe:

«_Poeta e bom fidalgo á moda portugueza

Bato-me onde é precizo em lidima defeza.

Por que? Pela divisa escripta em minha espada.

Por quem? Por meu amor. Por quem? Por minha amada._»

Não sei se quem não conhecer a individualidade de D. Francisco

Manoel, tão complexa, e tão cheia de incertezas e de penumbras na

vida do coração; quem não tiver perfeito conhecimento das suas obras

litterarias, nas quaes o culteranismo, triumphante n’esse tempo, é

tão elegantemente subjugado por um bom gosto artistico, raro nos

seus contemporaneos; se quem não tiver lido os cem volumes de que se

compõe a opulenta lista das suas obras; se quem não tiver saboreado

nos «Apologos dialogaes» a «Visita das Fontes» e os «Relogios

fallantes» tão ricos de conceitos, noticias, e bom sal attico; se

quem não conhecer as discussões ora eruditas, ora piegas da «Academia

dos Generosos»; se quem não tiver compulsado os diccionarios

bibliographicos de Barbosa Machado e de Innocencio, e os estudos

de Costa e Silva, Alexandre Herculano, e Camillo Castello Branco;

não sei, repito, se o espectador que assistir desprevenido ao drama

intitulado: «Dom Francisco Manoel» ficará com uma ideia approximada do

homem notavel, que se chamou assim. É incontestavel, porém, que a sua

attenção será sollicitada com sympathia para as qualidades reaes d’esse

attrahente vulto, que o auctor do drama phantaziou galhardamente,

e para a nobreza de sentimentos, que caracterizam a sua classe,

predicados que são postos em formosos versos, n’um peito genuinamente

portuguez. E porventura essa obra de arte, concebida e executada com a

impetuosidade de um quasi improviso, n’um jacto de lyrismo, induzirá

muitos a irem buscar nas fontes noticias acerca da individualidade do

heroe, e a lerem nas obras de investigação o que se tem escripto com

relação a esse personagem tão rodeado de interrogações, a esse soldado,

diplomata, philosopho e poeta, sobre cuja acção politica a historia

falla alto; sobre cujo valor intellectual os seus livros são eloquentes

attestados, que perpetuam a sua fama; e cuja existencia sentimental

a lenda envolve n’uma atmosphera de mysterio propicia ás hypotheses

romanescas.

Em todo o caso é obra digna de ouvir-se agradabilissimamente.

O mais recente estudo, o mais notavel, e o que mais noticias encerra

ácerca da vida e obras de D. Francisco Manoel de Mello é o «Ensaio

biographico», grosso volume in-8.º, que se deve ao trabalho exegetico

do escriptor inglez Edgar Prestage.

Espirito namorado das coisas portuguezas, alma lusitanisada até ao

amago, a força de seducção que o levára a trasladar para o seu idioma

Azurara na «Chronica do descobrimento e conquista da Guiné»; as

«Cartas da Freira portugueza»; e o «Suave Milagre» de Eça de Queiroz,

attrahia-o, desde alguns annos, para o vulto que no seculo XVII tão

caracteristicamente representa a gente lusa, e que melhor cultiva a

sonora e doce lingua de Portugal.

Conservando as qualidades fundamentaes da sua raça, e a segurança dos

processos na investigação, o critico inglez entendeu que devia usar o

idioma portuguez, tratando de um escriptor cuja linguagem Herculano

aponta como modelo de estylo «pelo qual se vê quão rica e bella é esta

nossa lingua, que para exprimir affectos não carece de neologismos,

nem de enredar-se em archaismos». Prestage resolveu pois fallar d’esse

portuguez na lingua portugueza.

O esforço enorme assim realizado pelo critico bilingue não se compara

á alternativa facil com que os nossos quinhentistas e seiscentistas

empregavam indifferentemente a lingua patria e a castelhana, de que é

exemplo o proprio D. Francisco Manoel reputado classico, aqui com os

seus «Apologos» e «Carta de Guia de Casados»; lá em Hespanha com o seu

«Movimento de Cataluña».

Por isso mesmo é mais para admirar a temeridade do escriptor inglez

que, habituado a formular a ideia na simples e regular syntaxe de

sua lingua, se aventurou a tratar da vida e obras de um requintado

cultista, ligeiramente eivado de gongorismo, e tão avesso na redacção

complicada do pensamento á simplicidade ingleza quanto a glotte de um

saxonio é rebelde á harmonica e suave musica da dicção portugaleza.

O esforçado escriptor sahiu-se da sua empreza com muita honra, e o seu

livro que modestamente baptisou com o nome de «_Esboço biographico_»

é trabalho de grande valor, e está destinado a figurar em todas as

bibliothecas de estudiosos de Portugal, do Brazil, da Hespanha e da

America latina.

Embora por vezes a construcção da phrase deixe no paladar um resaibo,

ou ligeiro travo que indica a sua proveniencia britanica, a redacção

sempre clara leva-nos arrastados pelo interesse, atravez dos nove

capitulos do livro, confiando plenamente na honestidade da factura, e

na segurança dos processos empregados.

Para muitos se afigurará exagero de segurança, tanta é a minuciosidade

com que se procura uma data: se discute um facto; se verifica uma

lacuna; se averigua a existencia de indicios até agora desprezados;

e com que se cata as obras do escriptor para n’ellas ir encontrar

elementos biographicos.

Mas nunca é demasiada a investigação em livros d’esta indole, ainda

mesmo quando as conclusões sejam de natureza negativa.

É portanto bem para apreciar a paciencia com que o auctor da biographia

lê attentamente as obras do escriptor; com que interroga todos os que

lhe possam fornecer elementos uteis, com que se corresponde com os

directores dos archivos nacionaes e extrangeiros; com que entra nos

cartorios das antigas familias que ainda os teem; com que examina os

registos de nascimento, casamentos e obitos das parochias de Lisboa;

com que percorre as ruas, praças e beccos estreitos, e com que estuda

antigas plantas da velha Lisboa do seculo XVII.

Procedendo assim, e a exemplo de Herculano que do «Memorial» dirigido

a D. João IV tira dados biographicos, consegue, cotejando textos e

analysando documentos, alguns até hoje inéditos, e estudando as «Cartas

Familiares», as «Tres Musas del Melodino», as «Epanáphoras», etc.,

reconstituir a vida do escriptor e, o que é mais difficil, sondar por

vezes o seu intimo pensar.

No proseguimento d’esta tarefa apresenta Prestage o problema, ainda

hoje insoluvel, dos motivos da paixão de D. Francisco Manoel, e da

supposta connexão entre a sua desgraça e a aventura amorosa que,

segundo alguns, deu causa ao desagrado regio, e á vingança de um

marido.

Esse problema desperta a curiosidade, com a attracção irresistivel do

mysterio.

O escrupuloso biographo apresenta-o tal como foi posto pelos seus

predecessores, e indica as soluções alvitradas. Deixa ao leitor o

decidir-se pela solução, que melhor convenha ao seu espirito. E, se não

omitte a sua opinião, tambem não a impõe como dogma.

Ora como o caso é interessante; como os enredos que motivaram a prisão

do moço militar formam uma trama emmaranhada, que nunca se desfiou bem,

nem durante os doze annos de encarceramento, nem quando regressou do

exilio, nem depois da sua morte; e, como nos depoimentos da historia

apparece, trazido por mexericos, o echo do testemunho d’um avô meu,

(echo, note-se bem, mas não voz propria), redobrei a attenção com que

li o livro, e especialmente quando dá conta das versões, com que se tem

querido explicar o drama.

No livro de Edgar Prestage são apontadas todas essas versões, desde as

notas sisudas e graves de Alexandre Herculano, no «Panorama», até ás

phantasiosas noticias publicadas por Camillo Castello Branco, na ancia,

com que algum tempo enfermou, de deprimir a Casa de Bragança, e com

as quaes pretende desatar todas as duvidas, e alumiar todos os pontos

obscuros.

* * * * *

É sabido que D. Francisco Manoel de Mello, descendente por sua mãe do

Duque de Bragança, degolado em Evora, e portanto ainda parente de D.

João IV, depois de estudar humanidades no Collegio de Santo Antão, com

o Padre Balthazar Telles, o historiador da Ethiopia, embarcou aos 16

annos, como aventureiro, na armada commandada por D. Manoel de Menezes,

o chronista de D. Sebastião.

Batalhou nos Paizes Baixos; e foi como mestre de campo na armada de

Antonio Oquendo contra os Hollandezes do canal da Mancha; militou no

exercito do Marquez de los Veles, contra a Catalunha revoltada; e já

antes da Restauração de 1640 foi diplomata habil por parte do Duque de

Bragança, explicando com astucia em Madrid os tumultos de Evora, que

inquietavam o Governo hespanhol.

A sua passagem, na Côrte de Madrid, pelas rodas elegantes, deixou fama.

E foi festejada a sua assistencia nos celebradissimos saraus e festins,

onde soube usar a arte subtil do cortezanismo, e as amaveis manhas de

requintada galanteria.

Corria fama da sua maneira de cortejar as senhoras quando, subindo aos

estribos dos côches em que passeavam no Prado, elle as entretinha com

motes, que provocavam riso e galhofa; e celebrava-se a sua sciencia

de bem dizer e engenho em contar casos, ora narrando as proezas de D.

Simão da Silveira, em frente do balcão das damas da Rainha, quando

lhes fazia terreiro, ora alludindo á naturalidade com que a Condessa

de Lalaim, jantando á mesa de Margarida de Valois, se desabotoára,

mostrando o seio, para dar de mamar a um filho que creava. A sua

conversação salpicada de dictos, de annexins, de anecdotas, de

epigrammas picantes, era saboreada com prazer nas tertulias e seroadas,

onde por este conjunto de qualidades mundanas, D. Francisco era

apreciado como modelo de verdadeiro cortezão: ao mesmo tempo diplomata

habil, militar arrojado e poeta galanteador.

Foi, por isso mesmo, bem acceito das mulheres, debicando com ellas

se eram «leves e gloriosas, prezadas do seu parecer» (euphemismo

com que se referia ás _coquettes_, a quem comparava a _loureiros_,

por indicar que a qualquer bafo leve de vento se moviam), e sabendo

lisonjeal-as, se eram interessantes, com o aguçar-lhes as qualidades

femenis, cultivando assim com pericia «toda a casta de _damarias_ e

_matronerias_». E ao passo que desafiava com malicia o riso das que

tinham bons dentes, e aquelle feitio a que chamava «graça na boca e

cova na face», requestava as que «traziam castanhetas na algibeira,

sabiam jacaras, e entendiam de mudanças de sarambeque, com indicios

de desenvolturas.» Tinha além d’isso receitas seguras para lidar com

ellas, como revela na «Visita das Fontes» com o aphorismo que diz: «A

mulher é como a laranja. Se muito apertada logo amarga. Quer-se levada

por bem, mas não pelos cabellos.»

Não lhe perjudicava o exito, e o prestigio, a sua fealdade, se

realmente era feio, como parece indicar aquella anecdota, que vem

referida n’um codice da Bibliotheca Nacíonal de Lisboa, e que é

attribuida ao Conde de S. Lourenço. Diz assim:

«A Senhora Rainha D. Luiza tinha um quarto aonde ella só entrava e

muito occultamente ia pôr seu alvaiade e seu carmin de cara. Este

quarto tinha por cima da porta ou de uma janella, uma bandeira, á

qual muitas vezes, estando a Rainha dentro subia um macaco, por lhe

permittir o comprimento da sua cadeia e d’alli observava as operações

da mascara.

Quebrou o macaco hum dia a sua cadeia e, pela bandeira da janella ou

porta, entrou no gabinete; foi-se logo aos unguentos e appareceu no

Paço feito muito galante Dama.

A Rainha, desesperada, mandou matar o macaco, na mesma occasião

infelizmente que uma Dama do Paço, prima de D. Francisco Manoel,

n’aquella occasião preso de pouco, se foi lançar aos pés da Rainha,

banhando-se em lagrimas, a pedir a Real intercessão por seu primo _que

era assaz homem de um semblante muito feio_, talvez tanto como era

bello espirito.

A Rainha, em colera, persuadida que a Dama lhe ia pedir pelo macaco,

deu-lhe logo a exclusão, prevenindo o peditorio, dizendo-lhe: «Não,

não. Não me peças por elle que ha de morrer, _porque é muito feio_.»

Cahiu a pobre Dama com um accidente, fulminada da injusta sentença da

Rainha, que condemnou o innocente animal pelo mesmo delicto em que ella

era comprehendida e em que tinha sido a mestra do macaco, que por isso

mesmo que era feio, queria fazer-se bonito.»

A anecdota é engraçada, mas não nos assegura a fealdade de D. Francisco.

Este Conde de S. Lourenço, meu avô, a quem, diga-se de passagem, são

attribuidas com mais ou menos authenticidade muitas anecdotas, nasceu

muito depois da morte de D. Francisco Manoel a quem só conheceu por

tradição, e pela leitura das obras d’aquelle a que chamava _bello

espïrito_.

Emquanto á prima que desmaiou aos pés da Rainha, quando foi do mofino

equivoco, o seu testemunho é suspeito.

Pois que emquanto com os labios o alcunhava de feio, com o indiscreto

desmaio trahia o sentimento que a dominava.

Chamava-se ella D. Maria de Portugal, e foi depois Condessa de Penalva.

Era irmã do Conde da Ponte, Marquez de Sande, e acômpanhou como Dama a

Rainha D. Catharina a Inglaterra. Quem sabe se nas vigilias da brumosa

ilha, não lhe pairava na imaginação a figura do encarcerado primo,

menos disforme que a imagem que apresentára á Rainha D. Luiza.

Camillo Castello Branco, não sei com que fundamento, assegura que elle

era «gentil, moço de trinta annos, corajoso e poeta, o primeiro e mais

galan de quantos então abrilhantavam os saraus da primeira fidalguia».

Não existem retratos para averiguar. Mas o que é tradição é que nas

suas peregrinações pela Europa, teve triumphos, e que sejam quaes forem

os lances do drama que causou a sua prisão, parece ter captivado alguns

corações. Entre elles um, que ficou na lenda.

Seria essa aventura que occasionou a sua desgraça?

Vejamos.

* * * * *

O crime de que foi accusado, e pelo qual foi preso e condemnado, caréce

de fundamento.

Um certo Francisco Cardoso, creado do Conde de Villa Nova, D. Gregorio,

andava de amores com uma tal Catharina, mulher de um antigo creado de

D. Francisco Manoel chamado João Vicente, que fôra despedido por seu

amo.

O marido mandou matar por trez homens o Cardoso, sendo o cadaver d’este

encontrado em uma viella, que subia para o Limoeiro.

Foi aberta devassa, e os assassinos postos a tormentos declararam que

fôra D. Francisco que os incumbira do crime. Os trez sicarios foram

justiçados: João Vicente, o marido de Catharina, e antigo creado de D.

Francisco, foi condemnado ás galés; e este enclausurado, victima ao que

parece de vingança de inimigos publicos e _encobertos_.

Quem eram elles? É sobre isso que paira o mysterio.

Attribuem uns essa prisão á vingança de D. João IV; outros ao odio

do Conde de Villa Nova, porque o moço escriptor era bem querido da

Condessa; outros ainda a inimigos politicos que depois de perderem o

desgraçado Secretario de Estado, Francisco de Lucena, aproveitaram o

assassinato do Cardoso, e o resentimento de um creado despedido, para

armarem o tenebroso enredo que perdeu o infeliz D. Francisco.

E todas estas versões se entrelaçam nas sombras, formando um d’estes

enygmas historicos, que tentam dramaturgos e romancistas.

A mais romantica das versões é a que se encontra n’um livro de

Linhagens attribuido a Joseph Cabedo de Vasconcellos e Manoel Moniz

Castello Branco, versão explorada por Camillo com toda a veia de arte e

azedume, que caracteriza o seu modo de escrever.

Segundo elle, D. Francisco, apaixonado pela formosa Condessa de Villa

Nova, esperava uma noite, cioso e desconfiado, n’um canto escuro do

pateo de um palacio, espaçoso vestibulo, que se chamava o Pateo das

Columnas, perto do Limoeiro, quando um vulto se approximou embuçado.

D. Francisco perguntou quem era. Não recebendo resposta, desafiou o

desconhecido, e cruzaram as espadas.

Ao tilintar do ferro accudiu sobresaltada a Condessa, com uma luz na

mão. Os duelistas separaram-se.

Mas o embuçado, que era D. João IV, tambem enfeitiçado pela Condessa,

conhecera a voz do rival, que lhe era familiar, e d’ahi a vingança

attribuida ao Rei.

Esta versão, que é deprimente para todos os personagens, pois faz

da Condessa, além de leviana, dobre e refalsada, de D. Francisco um

ciumento ridiculo, do Conde D. Gregorio um inverosimil _barba-azul_

envenenador de trez consortes, que successivamente o enganaram, e de D.

João IV um rufião de congostas escusas e um algoz coroado, esta versão,

repito, não resiste á critica. Embora houvesse no caso um fermento de

amores e ciumes que sempre fazem levedar o folhado dos corações, não

foi assim baixo o papel de D. João IV, e o proprio Camillo o confessa

n’uma nota correctiva publicada, annos depois da primeira afirmativa,

na «Bohemia do Espirito» isentando o Rei da responsabilidade dos

infortunios de D. Francisco.

O sisudo e taciturno Costa e Silva no seu «Ensaio bigraphico-critico

sobre os melhores poetas portuguezes», dá a esta versão um aspecto mais

réles e burguez, pois diz que D. Francisco «era victima da vingança de

uma alta personagem a quem offendera sem o saber, e sem intenção; pois

encontrando-se os dois ás escuras em casa de certa moça, passaram ambos

a vias de facto e houve entre elles alguns bofetões».

Por esta fórma o enfadonho Costa e Silva conserva o odioso da historia,

tirando o perfume romantico á pittoresca aventura de capa e espada.

Por outra maneira se quer explicar o caso n’uma _advertencia_, que se

encontra no codice da Bibliotheca Publica, a que já nos referimos. Diz

assim: «D. João José Ansberto de Noronha, Conde de S. Lourenço, homem

de prodigiosa memoria e muito grande instrucção em toda a litteratura

e historia, me disse hoje, 4 de Maio de 1790, que não ouvira jámais

fallar nesta briga, mas sim que sendo D. Francisco Manoel suspeitoso

ao Rei por algumas informações de Castella, ou verdadeiras ou falsas,

fizera propor a D. Francisco Manoel, pela Condessa de Villa Nova, o

plano de uma conspiração contra o Rei, ferindo pelos mesmos pontos

das noticias ou suspeitas que tivera. Á conversação desta nova Dalila

assistio o Rei, occulto com hum panno de raz, e o infeliz amante

tendo a fraqueza de condescender na proposição, e a fineza de não a

denunciar, cahio na desgraça do Rei para não incorrer na de traidor».

O Bispo do Gram Pará nas suas memorias conta a mesma historia pela

fórma seguinte: «A Condessa de Villa Nova e Figueiró foi objecto da

affeicção de D. Francisco Manoel de Mello. Allude a ella quando diz:

_Nuevo la vi_. D. João IV querendo provar a fidelidade de D. Francisco

persuadiu a Condessa que o tentasse.

D. Francisco para lisonjeal-a disse que seguiria o partido de Castella.

Foi preso.

Assim m’o revelou o Conde de S. Lourenço».

Essa historia deixa assim collocados, ainda mais desastradamente que a

outra, os que n’ella entram.

D. João IV passa a ser um esbirro, um aguazil; a Condessa uma sereia

perfida e desprezivel; D. Francisco um patetinha lamecha e pueril; e o

Conde de S. Lourenço um bisbilhoteiro indiscreto.

Sem pretender arvorar-me em paladino d’este meu avô, querendo

desvanecer defeitos ligeiros que, se porventura os tivesse, eram bem

compensados pelas qualidades brilhantes, que dão tão grande interesse á

sua personalidade, devo dizer que é muito duvidosa a authenticidade de

qualquer d’aquellas affirmativas, e sobretudo das insinuações malevolas

que encerram.

A _Advertencia_, onde são colhidas, é uma nota anonyma lançada n’um

codice e não merece grande confiança. A segunda variante é tirada das

Memorias do Bispo do Gram Pará, manuscripto publicado por Camillo, de

cuja authenticidade alguns duvidam.

Mas se effectivamente o Conde de S. Lourenço tivesse referido o caso

a Frei João de S. Joseph, não o affirmava como testemunho (pois a

scena se passára havia mais de um seculo), mas apenas como echo dos

_zum-zuns_ maliciosos trazidos na tradição, e ainda não registrado na

chronica escandalosa.

Este Conde de S. Lourenço foi, com mais trinta e tantos companheiros,

preso á ordem do Marquez de Pombal no Forte da Junqueira, onde esteve

dezoito annos.

Era tão excepcional a sua memoria que se conta ter escripto nas paredes

do carcere o «Velho e Novo Testamento», sem auxilio de livro. Parece

que tambem escreveu um «Tratado para a educação do Principe», que nunca

chegou a publicar-se.

Os dissabores passados na masmorra, que um companheiro de prisão--o

Marquez de Alorna--descreve no livro intitulado «Prisões da Junqueira»,

deram ao seu espirito uma ampliação morbida na visão das cousas, um

poder maravilhoso de evocar personagens e factos que a sua imaginação

ideava. Quando sahiu da cadeia, e recolheu á casa da Congregação

do Oratorio, onde foi companheiro do poeta Bocage, a originalidade

da sua conversação dava a muitos, que não possuiam a facilidade de

comprehender os cambiantes da palavra, a impressão de que a sua

razão desvairava. Outros, tomando á lettra as divagações da fecunda

phantasia, registravam-n’as como assertos. Assim o Bispo do Gram-Pará

e o anonymo da _Advertencia_ terão recolhido como affirmações, simples

boatos, que o Conde referia, se é certo que os referiu, pois não estava

isso na indole intellectual do auctor da «Carta ao Marquez de Ponte de

Lima sobre a Regencia do Reino».

Voltando agora ás causas da prisão de D. Francisco Manoel, e pondo

de parte as explicações romanescas, (posto que pareça certo que o

infortunado poeta teve effectivamente uma paixão pela formosa Condessa)

inclinamo-nos a que a perseguição, que soffreu, tivesse sido motivada

por odios politicos. Entre os seus perseguidores parece na verdade ter

figurado D. Gregorio, o marido da Condessa. Mas não ha indicios de ter

sido o ciume que o aguilhoou na sua furia contra o amoroso D. Francisco.

Rancor é certo que existia, como prova uma carta do Embaixador de

Hespanha em Roma ao Rei D. Filippe, em que dá noticia de o Conde

reclamar contra a presença de D. Francisco na capital, depois de ter

sido solto.

Prestage, no seu livro, onde o leitor póde encontrar «tudo o que se

tem escripto sobre esta questão tão complexa», aponta de passagem uma

circumstancia, que abre um horizonte á critica e um incentivo a novas

investigações. Refiro-me á condemnação de D. Agostinho Manoel, parente

de D. Francisco. Tudo leva realmente a crer que a causa da accusação

fosse semelhante á que tornou suspeitos e acarretou ao patibulo este

D. Agostinho, o Duque de Caminha, o Marquez de Villa Real e o Conde de

Armamar.

A atmosphera de desconfiança e suspeição, creada na sociedade

portugueza pela conspiração dos Grandes contra D. João IV, e o estado

de espirito do monarcha, ameaçado de perder a corôa, são motivos

sufficientes para explicarem a perseguição que D. Francisco soffreu.

É eloquente aquelle periodo do «Memorial» dirigido por elle a El-Rei,

a quem diz: «No mesmo dia em que eu estava diante de um esquadrão (no

Alemtejo), governando-o contra os inimigos de Vossa Majestade, estava

alguma pessoa--que d’esta pratica já haverá dado a Deus contas--n’esse

Paço persuadindo a Vossa Majestade me mandasse prender porque eu sem

duvida, a juizo da sua bondade, hia com animo de me passar a Castella.

Fundava bem essa sua suspeita em me haver eu escusado de testemunhar

contra Francisco de Lucena aquillo que eu não sabia».

É emquanto a mim n’estas palavras do proprio D. Francisco Manoel,

dirigidas ao Rei, que se deve ir procurar a explicação da sua odysséa.

E na excitação dos espiritos, vibrantes ainda com a tragedia do Rocio

que pôz um epilogo á conspiração, é que se deve buscar o fermento com

que os inimigos do talentoso escriptor, architectaram a sua desgraça.

Ciumes, se os houve por parte de um marido, só podem ter contribuido

para que este diligenciasse prolongar o encarceramento.

Da parte do Rei, que se correspondia em cartas com D. Francisco Manoel,

depois de preso, e que até o consultava sobre negocios publicos, não se

nota vislumbre de azedume ou rivalidade; como tambem não transparece em

tudo quanto D. Francisco escreveu.

Então que resta da imaginada vingança de um Rei que ardendo em zelos

ferinos se transforma em «algoz coroado»?

Phantazias de novellistas!

Em toda esta emmaranhada questão aguça-nos a curiosidade saber alguma

cousa acerca da heroina do romance (se o houve), aquella requestada

Condessa de Villa Nova, cuja physionomia esquiva se rebuça n’uma

mantilha de mysterio.

O Conde D. Gregorio foi casado trez vezes. E não concordam aquelles

que mais acreditam na rivalidade entre o Rei e o escriptor, sobre qual

das trez Condessas enfeitiçou a ambos. Uns preferem para causadora

da tenebrosa historia a primeira, que foi D. Brazia ou D. Branca de

Vilhena, filha do Conde da Sortelha. Outros talvez prefiram como

enredadora do drama amoroso D. Guiomar da Silva, segunda mulher do

Conde D. Gregorio e filha do Conde de Odemira. Finalmente, Camillo,

seguindo os genealogistas que consultou, decide-se pela terceira, D.

Marianna de Lencastre «de peregrina formosura e a mais cantada dos

poetas fidalgos d’aquelle tempo».

E com a phantazia camilliana decide sem hesitação que o Conde seu

marido envenenara esta terceira consorte, como já tinha envenenado as

duas primeiras, e apresenta-o como um Borgia, prodigo em ministrar

fortes dóses de peçonha ás successivas condessas.

Ora, a «Historia Genealogica» e alguns linhagistas bem informados dão

noticia de que D. Marianna, dezoito ou vinte annos depois d’este drama,

não só estava com vida, mas casou segunda vez com o Conde de Aveiras,

Luiz Telles da Silva, tendo enviuvado do Conde de Villa Nova a 14 de

Abril de 1662.

Se é certo que tivesse havido da sua parte qualquer especie de

sentimento pelo talentoso fidalgo, encarcerado a 19 de Novembro de

1644, já de ha muito o coração lhe arrefecera, não tendo resistido á

ausencia do amoroso poeta, que ia transitando de carcere para carcere,

do Castello para a Torre de Belém: da Torre velha para Ribamar...

E elle? Que sentia na prisão onde permaneceu tantos annos?

«Entrei n’esta prisão honrado, sahirei por força abatido; entrei são,

sahirei doente; entrei mancebo, sahirei velho; entrei accommodado,

sahirei pobre. Tudo o que perco, e já não posso cobrar, dou por bem

perdido quando a grandeza de Vossa Majestade não consentir acabem meus

inimigos que eu entrando tambem innocente, saia culpado».

Estas palavras dirigidas ao Rei não dão a impressão de um rival

despeitado e opprimido, fallando ao seu competidor victorioso. Não

falla ahi (nem é natural que fizesse confidencias amorosas n’um

memorial ao Rei) nos sentimentos que porventura o atormentavam, como

tambem pouco ou nada se fazem sentir os seus infortunios de coração nas

obras que escreveu--cartas, apologos, poesias ou tratados.

Quem, porém, esquadrinhar bem os seus escriptos encontra phrases, que

abrem frestas reveladoras sobre a alma do captivo sentimental, que

sabia fallar de amor. Assim, diz elle: «quando nisso me ponho, sei amar

de uma arte nova. Porém, tambem digo que passar ruins dias e peiores

noites por gente _loureira_ é cousa trabalhosa».

Se quando isto escrevia ainda não estava preso, o que sentiria quando

nas longas noites da Torre de Belém, banhada pelo Tejo que o luar

chapinhava, ruminasse sobre a fidelidade da leviana e loureira creatura

que porventura, á mesma hora nos Paços da Ribeira em festa, escutava

galanteios e finezas?

«Encerrado en una torre,

me guardan dentro del mar,

como en el nacar la concha

guarda la perla oriental».

Pobre poeta esquecido! Pobre coração atormentado!

Para suavisar amarguras, trocou angustias sentimentaes em moeda

litteraria.

As lettras, que são um grande refugio espiritual, trouxeram-lhe uma

occupação, e dos annos passados na inactividade forçada resultaram

algumas das obras primas da litteratura portugueza.

«Aos emulos que o perseguiram, escreve Herculano, deve elle a gloria

que cerca o seu nome.

Se não fosse a dura e larga prisão, porventura teria gastado os seus

dias no meio dos tumultos da guerra e dos enredos cortezãos. Assim,

os invejosos que pretendiam deprimil-o, foram aquelles mesmos que

contribuiram para que lhe coubesse o que neste mundo mais preço e valor

tem--o renome e a immortalidade».

Prestage tambem considera bemaventurados os infortunios de D. Francisco

Manoel, «que delle fizeram um grande homem e um grande escriptor».

Será assim? Talvez não! Costumam os amadores do canto de certas aves

cegal-as com um ferro em braza afim de as tornarem mais canoras e

melodiosas. Quer-me parecer que as volatas do rouxinol nos salgueiros,

e que os trillos do pintasilgo nas giestas, tem mais sabor e harmonia

que os gorgeios por força dolentes do «ruysenhol captivo que canta de

noute e faz saudades», ou que o pintasilgo preso ao poleiro, por cadeia

de latão, na loja do barbeiro.

É pois de crer que o talento de D. Francisco Manoel, desabrochando

livre nos paços, nas salas nobres, nos campos de batalha, no convivio

do seu amigo Quevedo--o pae da graça--e nas tardes de ocio no Rocio,

onde os casquilhos da Côrte tinham prazo-dado, teria produzido mais

«Apologos dialogaes», mais «Guerras da Catalunha», mais «Epanaphoras»

e mais obras poeticas, embora fosse mais reduzido o numero de

allegações juridicas e memoriaes.

Mas, metade dos seus cem volumes que escrevesse, já eram de sobejo para

immortalizar o classico escriptor que marca uma phase na evolução da

nossa lingua.

* * * * *

A obra de Prestage sobre D. Francisco Manoel de Mello é o que os

Inglezes chamam _an exhaustive work_.

Desde a noticia sobre a familia em que nasceu, até ao ultimo capitulo

em que faz um apanhado sobre o homem e o escriptor, os seus amores

e a sua descendencia, o auctor do ensaio vae seguindo com minuciosa

attenção cada um dos trabalhos litterarios do prodigioso polygrapho,

tirando d’elles preciosos dados para a sua biographia e para a analyse

psychologica da sua interessante individualidade.

Os capitulos sobre o exilio no Brazil; sobre as viagens; sobre a

«academia dos generosos», em que ha a curiosa relação dos certamens, e

a lista dos socios; sobre as negociações para o casamento de D. Affonso

VI e sobre a morte do escriptor, encerram paginas não só de biographia,

mas de historia.

E dos documentos que são annexos ao volume, alguns ha bem curiosos,

como aquelle que testemunha as relações de D. Francisco Manoel com

o Governo hespanhol logo depois da Restauração, e que tanto fazem

meditar sobre a concepção de patriotismo n’aquelle turvado periodo.

Augmentam esses documentos o valor da obra, e tiram-lhe todo o caracter

de panegyrico, pois não poupam o espectaculo de algumas mazellas

espirituaes.

O ensaio biographico está destinado a ser não só o breviario de todos

aquelles que quizerem conhecer D. Francisco Manoel de Mello, mas a

formar a base fundamental do monumento que é devido ao inconfundivel

escriptor.

* * * * *

Esta obra faz cahir o véo de sobre alguns pontos escuros e duvidosos

da vida de D. Francisco Manoel, e, por engenhosas e rebuscadas

conjecturas, encaminha o espirito do leitor a hypotheses provaveis. Mas

não tem pretenção a desvendar de vez muitas das circumstancias em que

está envolvida a existencia do interessante vulto seiscentista, nem

dissipar por completo essa nebulose que nunca se esfarrapará em volta

do nome prestigioso do escriptor.

No frontespicio de muitas das suas obras figura a enygmatica palavra:

«Quare?»--«Por que?»

A concisão com que é feita essa pergunta encerra um mundo de

interrogações, que dão á figura de D. Francisco Manoel de Mello

juntamente com a poesia do infortunio, a poesia do mysterio.

Neves de antanho · 第 31 / 44 题