Viola, instrumento e flôr--No seculo Violante Montesino. O
seiscentismo portuguez. As musas--Violante comediographa. Trocadilho
e galanteio--A paixão da poetisa.--A sua profissão. As cellas das
freiras preciosas. Uma suspeição injuriosa. Rythmas e Soliloquios. A
velhinha do Convento da Rosa.
«_Viola, instrumento e flôr!_»
É assim que a ella se dirige um Doutor seu contemporaneo, recitando-lhe
alguns versos lamechas, todos rescendentes ao gongorismo, ainda então
em moda na litteratura e nas salas.
Esse Doutor thuribulario, e, ao que parece, levemente emprehendedor no
seu galanteio, cortejando a poetisa, que desabrochava no pleno irradiar
da mocidade, e jogando n’um trocadilho com o nome suave de _Violante_,
allude, com intenção, á belleza recatada da musa, formosa como as
_violetas_, e ao seu estro, harmonioso como as _violas d’amor_. Não foi
d’ella bem acceite.
Respondendo de improviso ao atrevido poetrasto, n’uma decima, que o
deve ter deixado estarrecido, a esquiva rapariga termina assim:
«_Nem instrumento, nem flôr, Pois nenhum me ha de tocar. Pois nenhum me
ha de colher._»
E realmente pouco depois, mordida por despeito amoroso, que transparece
em alguns dos seus versos, encerra-se, sem que uma vocação violenta a
arraste, n’um claustro onde vae emmurchecendo e definhando, como flôr
nunca colhida, e como instrumento--que jámais fosse tangido por mão de
homem.
Quem é a esquiva versejadora, que assim se defende dos madrigaes com
que a incensam?
* * * * *
Violante Montesino, se chamou no mundo aquella que foi uma das mais
caracteristicas individualidades litterarias d’esse seculo XVII, tão
desdenhado pela critica moderna, mas tão rico de cultivadores da nossa
lingua.
Entre aquelles que, no seiscentismo portuguez, levaram o idioma patrio
á perfeição pelo culto da palavra, e que melhor sentiram o genio da
lingua, manejando-a com uma technica nunca até ahi attingida, nem
depois excedida; e junto áquelles que escreveram o castelhano com tal
perfeição que se tornaram classicos em Hespanha, figurou n’um relevo
precioso a personalidade de Violante do Céo, com as suas «_Rythmas_»,
os seus «_Soliloquios_», e com o _Parnaso Lusitano_.
E não é pouco ser alguem a escrever, n’esse período em que Rodrigues
Lobo dá á phrase uma suavidade que emballa o ouvido, e Antonio Vieira
arredonda os periodos, enriquecendo-os com a rebuscada propriedade
dos termos; em que D. Francisco Manoel de Mello usa, na concisão da
sua prosa, uma elegancia e elasticidade, que encanta ainda o leitor
d’hoje; e em que Manoel Bernardes põe notas ineditas na harmonia da
sua linguagem opulenta. Nem tão pouco é facil, (como a ella foi,)
destacar-se no verso entre os que mais engenhosamente fizeram sujeitar
o fogo da inspiração ás exigencias do metro e da rima, jogando com
hyperboles e outros artificios de que usaram Gabriel Pereira de Castro,
estofando de synonimias e locuções abundantes a famosa «_Ulyssêa_»;
e D. Bernarda Ferreira de Lacerda gemendo e cantando com rigor
vernaculo as suas «_Soledades do Buçaco_»; e D. Joanna, Condessa da
Ericeira, philosophando em oitavas nebulosas no «_Despertador del Alma
al sueño de la vida_» e tantos mais, não esquecendo duas freirinhas do
aristocratico convento da Esperança que, embora hoje quasi ignoradas,
poetavam com muito valor, ao mesmo tempo que Violante. Tem qualquer
d’ellas duas tanta graça no dizer e tanta frescura no estylo, que bem
mereceram o piedoso gesto com que o Dr. Mendes dos Remedios as evocou
n’uma recente collectanea, dando á estampa algumas das suas poesias.
De Maria do Céo, filha de Antonio de Eça de Castro e de Catharina de
Tavora, resta-nos, além de outras obras, a _Preciosa_, em que revela
uma inspiração nascida, não só de cogitações divinas, mas de graciosa
feição mundanal, como transparece n’aquela deliciosa egloga, que
Rodrigues Lobo não regeitaria. e que diz assim:
Montanheza que foste á fonte
Como suspeito,
Que trouxeste agua nos olhos
Fogo no peito.
Quem te trocou no caminho,
Serrana dos olhos negros?
Pois te conheço só hoje
Pelo que te desconheço?
Como suspeito,
Que encontraste teus cuidados
A roubar-te taes assocegos?
E a outra, Magdalena da Gloria, ou antes Leonarda Gil da Gama, como
realmente se chamava, nascida n’um refego da Serra de Cintra, que nos
seus _Brados do Desengano_ trata o amor com tal sanha, que mais parece
vingança de coração dolorido, que precaução contra os perigos que
d’elle provêem. Assim, n’uma composição que intitula o _Baile_ e em
que entram como figuras:--o _Amor_--_duas Damas_--o _Apetite_--_dois
galantes_, faz aparecer o _Amor_, vestido de pobre, encostado a uma
aljava e resmungando:
«El amor soy, que he llegado
A tal pobreza, que pido
Por sustentar mi decoro
Limosna como mendigo.
Hay quien quiera limosna
Dar al dios Cupido?»
Outras houve poetizas de talento, na mesma quadra, como D. Leonor de
Menezes, Condessa de Atouguia, auctora da novella _El desdeñado mas
firme_; Maria de Mesquita Pimentel, que escreveu o _Triumpho do Divino
Amor_; D. Marianna de Luna (grande amiga de Violante) que compoz o
_Ramilhete de Flores_; Izabel Corrêa, que, por motivos religiosos, se
ausentou para Hollanda, onde publicou _El Pastor Fido_, e mais outras
ainda, que o Padre Antonio dos Reis celebra no seu _Enthusiasmus
Poeticus_, e que formam a brilhante pleiade, onde é astro de primeira
grandeza Violante do Céo.
* * * * *
Corria o anno de 1619 e Lisboa preparava-se para receber com festejos
pomposos Filippe III, o pallido filho do _Diabo do Meio Dia_, que
parecia afinal ter-se decidido a realizar a promessa, feita havia dez
annos, de visitar a capital de Portugal.
Projectava-se armar nas ruas arcos festivos e porticos imponentes;
erigir sobre pedestaes vistosos estatuas e figuras symbolicas; entoldar
as ruas e adornar as janellas com preciosas colgaduras; desfraldar
galhardetes nos innumeros mastaréos; fazer jorrar agua de rosas das
fontes improvizadas; e construir estrados e palanques nos sitios onde
deveria passar o cortejo.
A cidade de Lisboa, apesar da mingoa do Thesouro, deliberára dar ao Rei
duzentos mil cruzados para a sua jornada, afóra as avultadas quantias
destinadas aos festejos.
De porta para porta, na Rua Nova, os mercadores nacionaes ou
extrangeiros--os ataqueiros, que faziam atacas, os roupavelheyros,
os relojoeiros de sol, os confeiteiros, os vendedores de
porcelanas e outras cousas da India, e os que vendiam crystaes de
Veneza--commentavam os preparativos ao sabor das predilecções.
--Decidiu-se finalmente Sua Magestade Catholica a visitar este seu
burgo, dizia com pouco dissimulada malquerença, um algibebe remedeiado
a um seu vizinho, rico mercador de sedas, velludos, damascos e tafetás.
Mas para se metter a caminho carece das ajudas d’esta cidade e das
villas que vae atravessando.
--E muito devemos agradecer á Providencia respondia o interpellado,
senão succeder como ha alguns annos, quando o fallecido Marquez de
Castello Rodrigo (que o inferno queime!) fingindo ceder ás reclamações
dos povos, aconselhava o seu amo, que anda sempre em viagens de
recreio, a alongar uma até cá. No fim de contas...
--No fim de contas, commentava um vendedor de especiarias, que voltava
da Ribeira, El-Rei exigia cem mil cruzados, só á capital, para fazer
a viagem, e, deitando poeira aos olhos do povo, mandou chamar galés e
soldados de Italia para lhe fazerem acompanhamento.
--E depois d’essa comedia, nem cá pôz os pés, atalhou uma velha
embiocada, com o seu matéo de briche, que vendia padinhas, n’uma cabana
ambulante. Ainda me lembra de quando eu era rapariga, e tinha bastas
vezes o bom dia de vêr passar n’esta rua o Senhor Rei D. Sebastião,
muito galhardo... com o seu prepõem de velludo... n’um cavallo com
freio e estribos de ouro... e os fidalgos atraz muito luzidos...
Agora já não ha côrte e está muito syncopada a galanteria. Tempos que
já lá vão!
--E que hão de voltar! retorquiu um velhote de gabinardo cinzento, com
olhar de iniciado. Annunciam-n’o as prophecias. Lá o diz o sapateiro de
Trancoso...
Os mercadores abastados, vendo o caminho em que enveredava a conversa,
entreolharam-se receiosos, não fossem os esbirros denuncial-os. E
desviando o curso aos commentarios, o mercador de sêdas apressou-se a
informar:
--Os Inglezes vão levantar no Pelourinho Velho um arco magestoso, que
os officiaes de bandeira de S. Jorge tencionam ornamentar ricamente.
--Aqui na rua Nova, que é a mais bella da cidade, (basofiou um homem de
alentado corpanzil, com pronuncia extrangeira, que ouvira silencioso a
ementa dos festejos), nós, os Flamengos, para mostrarmos quem somos,
vamos construir, todo de madeira e lona, um edificio de cento e vinte
pés de altura e sessenta de largura, com columnas e pedestaes para
dezesete estatuas, e um frontão que ha de fazer morderem-se de inveja
os Italianos, que dizem ir adornar á sua custa as portas da Sé...
--Parece que a festa mais galante (aventou o loquaz negociante de
estofos) entre todas as momarias que se projectam, será no dia do
juramento do Principe herdeiro a representação de uma peça, que o
Senado da Camara escolheu para solemnizar esse acontecimento. Dizem
que entre muitas, foi escolhida a comedia de uma menina de dezoito
annos apenas, que é muito sabedora d’isto de versos e que ha de vir a
hombrear com o grande Quevedo...
--D. Francisco? interrogou com intenção um hespanhol, mestre de
manicordio e de orgão, o que está escrevendo a _Historia del Gran
Tacaño_...
--Qual D. Francisco (replicou o Portuguez), Vasco Mousinho de
Quevedo auctor de _Affonso, o Africano_, natural alli de Setubal.
Que nós Portuguezes em poetas, como em tudo, não ficamos abaixo dos
hespanhoes...
--Essa tal menina (disse então com ares de alviçareiro o mercador de
especiarias) que por signal é muito formosa, ainda hontem a vi aqui
passar quando ia, grave e sisuda, acompanhada de seus paes, o Sr.
Manoel da Silveira Montesino e a Sr.ᵃ D. Helena Franco, que moram alli
perto da Sé, dar licção de harpa e de canto. Tão dotada de engenho é
ella, que a sua comedia, ou auto, ou lá que é, foi a preferida para ser
representada na presença de El-Rei e da Côrte.
--E como se chama essa joia litteraria? interrogou com sorriso sceptico
um estudante de rhetorica, que descia das Escolas Geraes.
--_Santa Eugenia_ ou _Santa Engracia_, respondeu o mercador. E já não é
a primeira composição da sua lavra...
E o colloquio proseguiu n’aquelle soalheiro de Lisboa de então, fertil
de bisbilhotice, que n’essa occasião mais fervilhava com a approximação
dos festejos.
* * * * *
Effectivamente Fillippe III de Hespanha, II de Portugal, que já em
1611, escutando os conselhos do Ministro Christovam Moura promettera
vir a Lisboa (sem ter cumprido a promessa), resolvera agora (Maio de
1619) a instancias do seu valido Duque de Uzeda realizar a viagem, como
remedio para os perigos e embaraços que a cada passo surgiam no Governo
de Portugal.
Entrou por Elvas e Estremoz em 13 de Maio. Em 14 descansou em Evora.
Presenceou alli espectaculos varios, tendentes a desannuviarem o seu
espirito sombrio, ou a fortificarem o seu ardor religioso. Visitando as
aulas ouviu discutir algumas theses de philosophia, em que sobresahiu
o irmão do Marquez de Fereira, Rodrigo de Mello. Applaudiu tambem a
representação de uma obra dramatica executada pelos estudantes, e
animada com danças, folias, tramoias, e transformações de monstros e
figuras.
Mas o que lhe mereceu maior interesse foi a realização de um _auto de
fé_, em que se queimaram muitos réos, e que durou desde manhã até á
noite.
Consolado assim na sua fé, mas não socegado no seu animo. Filippe
mostrava-se inquieto. Não lhe sahiam do sentido as reclamações dos
povos descontentes; as queixas contra o Governador; as exigencias
de que o Principe herdeiro ficasse regendo Portugal. E recordava
agastado aquella scena, quando fôra da passagem por Elvas em que o
Duque de Bragança, D. Theodosio, com orgulho soberano, recusara dar
_Excellencia_ ao seu valído o Duque de Uzeda, originando-se assim uma
animosidade entre os dois, que fermentou depois, levedando sempre.
Tratavam de lhe proporcionar distracções. Elle, porém, desconfiado não
apreciava com regalo os espectaculos, que a natureza e o artificio dos
povos lhe offereciam.
Chegando a Almada ficou deslumbrado com o panorama do Tejo e o doce
espreguiçar de Lisboa nas suas sete collinas. Mas quando á noite via o
luzir dos fogareus com que os operarios se alumiavam para ultimar os
preparativos, ou dos archotes que acompanhavam o coche de algum nobre,
logo lhe assaltava o animo um enxame de presentimentos e agouros.
Resolveu deter-se no Convento dos Jeronymos em Belem, antes de fazer a
entrada solemne em Lisboa. Alli se demorou um mez esperando as galés de
Hespanha que por precaução o haviam de acompanhar pelo Tejo, desde o
Restello até á ponte dos Mercadores, junto ao Paço de Ribeira.
Foi um cortejo luzido. Doze galés e mais dois mil baixeis ornamentados
seguiam a galeota real á qual Neptuno sahiu ao encontro tirado em um
carro marinho por quatro phocas, e acompanhado de tritões montados em
baleias, espadartes e crustaceos enormes. O Deus dos Mares, depois de
dar ao monarcha as boas vindas, encorporou-se no sequito. Na ponte, D.
Filippe foi acolhido delirantemente pela população da cidade em festa.
Portugal n’esse momento acreditava, ou diligenciava acreditar, que o
Rei, de boa fé, vinha tentar uma solução que salvaguardasse os brios
nacionaes...
Ficaria o moço Principe Rei de um Portugal independente?
N’essa esperança abriam-se sorrisos, desfraldavam-se bandeiras,
ostentavam-se galas nos vestidos, faziam-se brilhar ao sol as
pedrarias,--trazidas do Oriente--rubis brilhantes, esmeraldas rutilando
em collares, em gargantilhas, em copos de espadas, e nos cabellos das
bellas portuguezas.
Filippe, ligeiramente curvado, e tendo no olhar aquella sombra
de desconfiança, que herdara do pae, atravessou a cidade n’um
deslumbramento. Quando ao cahir da noite fez a sua entrada nos Paços da
Ribeira, entre cincoenta moços de Camara que, empunhando tochas accesas
allumiavam a larga escadaria, e que, precedido pelas trez guardas reaes
dos archeiros, subia levado na magnificencia do triunpho ao som dos
instrumentos e vozes que entoavam em côro, exclamou já socegado de
animo e convencido da sinceridade do acolhimento jubiloso--«Só neste
dia sei que sou verdadeiramente Rei».
E dando largas a um bom humor, que não era habitual, passou os
dias seguintes desfructando os desfastios espectaculosos que lhe
offereciam as danças dos padeiros e collareos, as folias, e as chacotas
populares, e outros festejos, que lhe davam a illusão do amor de um
povo agradecido. E agradecidos estavam effectivamente aquelles que o
acclamavam, jubilosos por sobre elles ter feito cahir uma chuva de
vinte mil cruzados, e os que aproveitavam com a suspensão, por trez
dias, dos direitos do consumo de peixe na cidade.
Em 14 de Julho na sala grande do Paço da Ribeira, celebrou-se a
ceremonia do juramento do Principe.
Foi então n’essa noite ou n’uma das que se lhe seguiram que o Senado
offereceu a representação de uma peça theatral composta pela poetisa
Violante Montesino, cuja mocidade, formosura e talento precoce
despertavam a mais viva curiosidade.
Além do exito que obteve, e esse foi grande, não ficou outro vestigio
d’essa producção litteraria.
Sobre o proprio titulo e assumpto os auctores discordam. Emquanto
Barbosa Machado na _Bibliotheca Lusitana_ e Garcia Perez no _Catalogo
Razonado_ se referem a esta peça theatral, chamando-lhe _Santa
Engracia_, outros, como Costa e Silva no _Ensaio biographico e critico_
dizem: «Contava esta poetisa apenas dezoito annos de idade quando
compoz a comedia _Santa Eugenia_, que foi representada com grande
apparato na presença de Filippe III quando este visitou Lisboa em 1619.»
Fosse, porém, heroina do drama Santa Eugenia, abbadessa na Alsacia, ou
como de preferencia crêmos, Santa Engracia virgem e martyr, natural de
Braga que, com o peito rasgado e o coração ás escancaras, ainda clamava
a sua fé em Christo, o certo é que o exito da linda musa lusitana foi
retumbante, mettendo na sombra uma tragicomedia de grande apparelho
theatral posta em scena pelos jesuitas, com esplendor extraordinario,
em honra de Filippe com o titulo de: _Descoberta e conquista da India_.
Para nos descerrarem um pouco as cortinas da sala em que se realisou a
representação do drama de Violante, faltam-nos os registos da palrice
mundana, que modernamente as gazetas fornecem aos leitores, curiosos de
conhecer o movimento da gente elegante a que se chama--a _Sociedade_.
Carecemos de um jornal d’esse tempo para procurarmos n’aquelle cantinho
em que a leitora actual, cada manhã ou cada tarde, procura anciosa quem
faz annos, quem dançou no baile, ou quem recitou no saráo de arte;
os que vão casar e os que estão doentes; quem partiu e quem chegou;
como vestiam as dirigentes da moda, e quem concorreu ás reuniões da
tafularia, falta-nos essa tagarelice informadora, de que alguns sorriem
e que todos lêem, para sabermos como a côrte do soberano hespanhol
acolheu a peça da poetisa portugueza, e para buscarmos os nomes dos que
compunham o auditorio brilhante.
O que sabemos é que todos á uma applaudiram o nascente talento
d’aquella a que desde logo ficaram chamando «Fenix de los ingenios
lusitanos».
Violante conheceu então a deliciosa embriaguez do triumpho. Pelo
prestigio da sua formosura, pelo poder do seu engenho, pela graça da
sua mocidade encantadora, captivou todas as imaginações. Poetas e
cortezãos exaltaram-n’a na linguagem alambicada do tempo, e crearam em
volta d’ella uma atmosphera de gloria e de adulação, que a envolveu em
ondas de incenso lisongeiro.
Ficou consagrada!
* * * * *
Foi provavelmente n’esse periodo da sua existencia que se deu o
episodio a que já atraz alludimos, quando com tanta vivacidade
respondeu aos versos do Doutor apaixonado.
N’uma d’aquellas reuniões da Lisboa seiscentista que já não eram os
saráos da côrte joannina ou manuelina, mas discretas assembléas,
rudimentos de academias que então começavam a pullular, n’um desses
cenaculos familiares onde as classes já entravam promiscuamente,
acorrendo a ellas desembargadores escolhidos na magistratura
alitteratada, dignidades ecclesiasticas decorativas ou eruditas, e
membros da alta burguezia, á qual pertencia a familia de Violante,
certo Doutor recitou-lhe uns versos em que, invocando o seu nome, a
comparava ás violetas e ás violas.
Ella, repentista e manejando com facilidade a _decima_ (forma de
estrophe muito usada no versejar de então), repelliu o intencional
trocadilho, retorquindo:
«Contradizer hum Doutor
Nem sei que he temeridade,
Porém com huma verdade
Quero pagar um louvor.
Nem instrumento nem flor
Sou, porém se o posso ser
Ninguem trate de emprehender
O que não ha de alcançar,
Pois nenhum me ha de tocar
Pois nenhum me ha de colher.
Por que não acceitou ella o galanteio do legisperito?
E porque se mostrava assim esquiva?
A este tempo já teria sentido de certo a alma invadida por aquella
paixão amorosa, que lhe trouxe na vida tempestade tão grande, que a
ella deveu talvez a resolução decisiva da sua existencia.
Conforme alguem já notou, nos proprios versos da celebre poetisa se
póde seguir o fio do seu romance sentimental, tanto quanto é possivel
procurar vestigios de coração entre as selvas do cultismo, dos
arrebiques litterarios, dos trocadilhos, impostos pelo gosto da moda.
Áquelle que lhe tinha prendido os sentidos chama ella _Silvano_,
certamente um véu cryptonimico em que esconde o nome do homem de que
chora a ausencia, a quem exproba pelas infidelidades, de quem tenta
vingar-se, e por causa de quem abandona o mundo.
Não transcrevemos das suas poesias, (muitas das quaes aliás se lêm na
integra com prazer) senão o que fôr guia para nos esclarecer um pouco
ácerca da sua biographia e da vida do seu coração. E assim, da Ode que
foi escripta por ventura logo depois da partida do seu escolhido, só
copiaremos as primeiras estrophes, que são documentos caracteristicos
da casuistica amorosa de uma portugueza sentimental.
Diz ella:
«Amante pensamento
Nuncio de amor, terceiro de vontade;
Emulação do vento,
Lisonja da mais triste soledade;
Ministro da Lembrança.
Gosto na posse, allivio na esperança,
Já que de minhas queixas
A causa idolatrada vás seguindo,
Dize-lhe que me deixas,
Dize-lhe que estou morta mas sentindo,
Que póde mal tão forte
Fazer que sinta, ái triste, a mesma morte.
Dize-lhe que é já tanto
O pesar de me vêr tão dividida,
Que só me causa espanto
A sombra que me segue de uma vida
Tão morta para o gosto
Como viva, ái de mim para o desgosto.»
Seguem-se mais algumas estrophes, que são variantes do mesmo thema,
cuja substancia são os trez versos seguintes
«Pois para quem _padece o mal d’ausente_
Que he só remedio entendo
Ver o que quer, ou fenecer querendo.»
N’este primeiro periodo da sua paixão quasi todos os versos são
fabricados com a idéa exclusiva da morte causada por sentir saudades;
da vida consagrada a padecer por ellas.
O soneto seguinte, todo dedicado ao ausente querido revela na
intencional pobreza de rimas (só usa de duas palavras) o proposito de
tornar bem patente o seu modo de sentir.
É como se nos abrisse o peito, para que possâmos devassar o mechanismo
do seu coração, e as subtilezas da sua psychologia amorosa.
Se, apartada do corpo a doce vida
Domina em seu lugar a dura morte;
De que nasce tardar-me tanto a morte,
Se ausente d’alma estou que me dá vida?
Não quero sem Silvano já ter vida,
Pois tudo sem Silvano é viva morte,
Já que se foi Silvano venha a morte,
Perca-se por Silvano a minha vida.
Ah suspirado ausente! se esta morte
Não te obriga a querer vir dar-me vida,
Como não m’a vem dar a mesma morte?
Mas se n’alma consiste a propria vida
Bem sei que se me tarda tanto a morte
He porque sinto a morte de tal vida!
Não tome o leitor este soneto como um modelo, nem como specimen da arte
poetica da escriptora.
Veja n’elle apenas um testemunho interessante, uma especie de
thermometro collocado na axilla da lisboetazinha de 1620, que, marcando
os gráos de exaltação sentimental da musa amorosa, quando, rendida e
morta de saudades pela ausencia do amante, deita mão de um artificio
litterario em voga n’esse tempo, para confidenciar ao papel o seu
tormento.
Quem percorrer os cinco volumes da _Fenix Renascida_ ou as poesias
amorosas que Maria da Veiga Tagarro, nos deixou na _Laura de Anfriso_;
quem ler as redondilhas e romances de D. Francisco de Portugal, e todos
os gemidos das freiras apaixonadas por Deus ou pelo Mundo, n’esse
periodo de convencionalismo litterario, sentirá como aquella geração
amava e traduzia o amor em verso. E comprehenderá então como atrás
das franjas gongoricas e dos conceitos rebuscados da musa, palpitava
vivamente o coração de Violante.
N’um extasis exclama ella de uma vez:
Que suspensão, que enleio, que cuidado
É este meu, tyranno Deus Cupido?
Pois tirando-me emfim todo o sentido,
Me deixa o sentimento duplicado.
* * * * *
Depois começamos a sentir o latejar offegante do seu inquieto amor,
quando a invade o ciume. E então despreza as consolações dos parentes e
amigos que, com raciocinios cansados e sempre servidos n’estes casos,
tentavam desviar-lhe o sentido da obcessão sentimental em que vivia.
Os paes, vendo-a estiolar-se, ou ir-se deixando morrer, chamavam em
auxilio o physico da casa um esculapio encarregado (eterna illusão de
pae!) de a chamar á vida, de lhe dar saude. Mas ella, n’um arranque
responde a todos estes cuidados exclamando:
«Cessen ya los remedios
Que para vivir me applican,
Que quien de zelos se muere
No es bien que moriendo viva,
Dexen ya d’importunarme
Cansadas philosophias,
Que nunca males del alma
De Esculapio necesitan.
* * * * *
Muera quien amando tanto
Mereció tan poca dicha,
Que en vez de correspondencias
Experimente tyrannias.
* * * * *
Muera quien siendo constante
Fué tan mal correspondida,
Que tributando verdades,
Adquerió solo mentiras.
Com o assalto que lhe deu o ciume, a que um seu contemporaneo chamou
«sarna de amor, que faz doer e gostar juntamente», adoeceu-lhe o
espirito.
O ciume é máu conselheiro. Violante escutou-o, e lentamente foi-se-lhe
envenenando o animo e foram-se-lhe alterando as particulas de sangue.
Mulher que julga castigar uma infidelidade, praticando outra, crava em
si propria um punhal, abre uma ferida que raramente cicatriza.
Assim ella, inexperiente e impulsiva, suppondo-se aggravada, deixou-se
cortejar por algum dos galantes profissionaes, que enxameavam por esse
tempo nos adros das egrejas da moda, ou nos _pucaros d’agua_ e nas
merendas das amigas de sua mãe. _Loureira_ (como quem diz _coquette_, a
la moda de então) cahiu na _facilidade_ e _ligeireza_ de que resmunga
D. Francisco Manoel de Mello quando diz:
«Mulheres ha leves e gloriosas prezadas do seu parecer loureiras, cuido
eu que lhes chamavam nossos antigos, por significar que a qualquer bafo
de vento se movião.»
Também um rifão popular diz: «Menina loureira, uva de parreira.» Ora,
Violante foi loureira, não por indole mas por despeito. E allegando que
o infiel
«Hizo locuras por otra,
Fué fino en las astucias...
cahiu no laço armado pelo seu desespero e, conforme nos declara:
«Mas pensando en los agrabios
Tanto me venció la furia,
Que _admitti divertimientos_,
Veras amorosas nunca.
Chegaria elle a ter noticia d’estes _divertimientos_, e resolveria
castigal-a pelo silencio?
O caso é que durante cinco annos não deu signal de si. É o que nos
revelam as duas quadras das _Rythmas_ que registam este episodio do
enygmatico romance da poetiza:
Despues de un lustro d’ausencia,
Despues de tanta fortuna
El que negava respuestas
Me hace agora perguntas.
Matar-me quiere de nuevo
Porque como alfim se occulta
No teme ser homecida
Y mas de vida que es suya.
Adivinha-se, mais que se lê, este pequeno drama de amor. Um biographo,
dando largas á imaginação, pretende que ella se deixou envolver tão
desastradamente nas malhas da rêde, que ella propria lançára, que
afinal confessa a uma amiga «que o tal amante, por _divertimiento_,
tinha feito tanta impressão em sua alma que não sabia decidir-se entre
os dois».
Parece-me esticar demais a hermeneutica querer tirar esta conclusão das
confusas queixas de Violante.
O que não offerece duvida é que de um ou do outro, d’aquelles com quem
_flirtou_, recebeu desdens que a molestaram.
Assim o declara a Nise, sua confidente, n’uma longa poesia.
Teve a vibratil creaturinha com o abandono, ou com a frieza do homem
que adorava, uma commoção profunda.
E, como qualquer movimento do seu espirito crystalizava em versos
reveladores, logo a sua alma dolorida gemeu em estrophes que dão a voz
do seu desespero:
Coração! Basta o soffrido
Ponhamos termo ao cuidado,
Que hum despreso averiguado
Não he para repetido;
Basta o que havemos sentido
Não demos mais ao tormento,
Que passa de soffrimento
Dar por um desdem tyranno
Toda a alma ao desengano
Toda a vida ao sentimento.
Fujamos d’este perigo
Livremo-nos, coração!
Que não he bom galardão
O que parece castigo.
Eu comvosco e vós comigo
Melhor o mal passaremos,
Pois entre amantes extremos
Tão divididos ficamos,
Que se nos communicamos
He só quando padecemos.
* * * * *
D’esta excitação nasceu provavelmente o passo que deu, e que havia de
transformar a sua vida.
Sem haver uma causa conhecida que a afastasse da casa paterna, do
mundo que a adulava, dos admiradores que festejavam a sua formosura e
o seu engenho, e dos pretendentes que aspirávam á sua mão, Violante
subitamente, contrariando a vontade dos paes, que a adoravam,
determinou encerrar-se n’um mosteiro.
Foi para muitos um mysterio a sua resolução, e ainda hoje alguns
biographos teimam em ignorar o motivo d’esta renuncia a tudo o que
seduz e attrahe as mulheres.
A este tempo ainda não tinham apparecido impressas as poesias de
Violante, e aos poucos que as conheciam faltava o faro necessario para
surprehender, nas moitas e nas selvas embrenhadas dos sonetos, decimas
e odes da musa, o segredo do seu amor.
As amigas iniciadas--as Nises, as Menandras, as Belisas--não trahiram
a confidencia da musa dolente. Mas as queixas, apezar de congeladas
em versos hirtos, derretem-se, quando esses versos são humedecidos
pelo bafo tepido de uma interpretação carinhosa, e pela sympathia
do critico. É facil então de ver que não a chamava uma vocação
irresistivel. Impellia-a o coração esmagado.
Tão fracas eram n’esse periodo as suas tendencias mysticas, tão pouco
intenso o fogo do amor divino, que o que principalmente lhe assaltava o
animo era receios de um arrependimento, e de que, ao olhar para traz, a
espicaçassem saudades dos attractivos do mundo que deixava.
Relembrando a estatua de sal em que se transformára a mulher da Loth,
invocava Deus, exclamando:
Oh nó permittais vós que arrependida
Los ojos buelva más a lo que dexo
Pues otro ya, Señor, femineo sexo
Por bolver a mirar quedo sin vída.
* * * * *
Por isso, rapidamente, sem olhar para traz, (não fosse ainda a imagem
perturbadora do infiel detel-a), entrou como noviça em Agosto de 1629
no Convento de Nossa Senhora do Rosario, a que o vulgo chamava--da Rosa.
Era este convento situado na rua das Farinhas, da Freguezia de S.
Lourenço, e fôra edificado no terreno que um tal Vicente Martins
Michão, sobrinho do Bispo de Silves, doára em 1279, para n’essa
_courella de vinha_ ser instituido um mosteiro de Dominicanas.
Desde o seculo XIII até á era de seiscentos vinha o sagrado cenobio
augmentando-se e enriquecendo, a ponto de, quando Violante n’elle
entrou, ser um dos mais opulentos e povoados da capital. Frey Nicoláo
de Oliveira, que escreveu por este tempo as «Grandezas de Lisboa», diz
que «havia n’elle cento e trinta mulheres entre freiras e servidoras».
Por que escolheu Violante este convento?
Vivia ella junto á Sé, na casa em que nascera a 30 de Maio de 1602.
Era perto da rua das Farinhas. Tinha n’aquelle mosteiro amigas, talvez
confidentes, e de certo tambem o seu confessor, que porventura lhe
ouvira queixas mais concretas do que as reveladas nos seus versos.
As tradições de recato d’este convento quadravam ao seu feitio
espiritual e, por seu lado, attrahia-a a ideia de que a ordem não era
demasiadamente apertada, e de que a disciplina permittia confortos
defesos á de outras communidades, como á da Madre Deus, na qual as
freiras não tinham serviçaes.
O Padre Manuel Bernardes, contemporaneo de Soror Violante, querendo
exaltar a modestia das Claristas, escreve n’uma das apostrophes da
_Nova Floresta_:
«D’estes escrupulos hoje ha poucos, ou se os ha devem passar pela
peneira da consciencia, porque é rara. Ver hoje uma cella d’estas, que
não são Santa Clara, é ver uma casa de estrado de uma noiva, laminas,
oratorios, cortinas, sanefas, rodapés, tomados a trechos com rosas de
maravalhas, banquinhas de damasco, franjadas de seda ou de ouro, pias
de crystal, guarda-roupas de Hollanda, caçoulas, espelhos, craveiros,
mangericões, ou naturaes ou contrafeitos, passarinhos, cachorrinhos de
manga, que, se adoecem de puro mimo, se chama o mais perito na arte
de os curar, jarros, ramalhetes, porcellanas, brinquinhos de sangria,
figuras de alabastro ou de gesso, frutas escolhidas para coroar as
molduras da alcova ou dos contadores, perfumes, alambiques, todo o
genero de arame para a fabrica dos doces, almarios para os recolher,
criadas para o ministerio da casa, tecto da cella com taes paizagens,
relevos e pinturas que passam para as mãos dos officiaes as bolsas
dos parentes e devotos mais ricos. Oh! que temos licença e assim não
violamos o voto...»
Eram assim as cellas das freiras, de que o doce Bernardes extranhava o
sybaritismo. E assim devia ser a de Soror Violante do Céo, tendo ainda
a accrescentar-se junto _do cachorrinho de manga_ e das sanefas tomadas
a rosas de maravalhas, a harpa que tangia em horas de inspiração, e o
bufete onde escrevia as suas _Rythmas_, _os Soliloquios_, _os Divinos e
humanos versos_.
Este titulo quadra bem na obra em que foram reunidos n’um
_Parnaso Lusitano_ muitos dos versos sahidos d’aquella cella,
onde a famosa dominicana no seu habito branco, ora se entretinha
com Deus em meditações mysticas, ora se dirigia aos grandes da
terra--Reis--Principes e Nobres--ora desentranhava do proprio coração
gritos de profano affecto, de que se arrependia depois:
«Si escrivi, si canté de objecto humano,
Y no solo de vós, Divino objecto,
En la publicidad de tal defecto
Bien castigado está mi error profano.»
* * * * *
Vem aqui a talho de foice uma pergunta, que estou sentindo aflorar
á bocca de quem me lê. Pergunta indiscreta, maliciosa talvez, mas
natural, quando se conhece a alma inflammada da monja da Rosa, e
quando se recordam leituras em que passam phantasmas leves de freiras
amorosas, ou tragicas, ou de leviana memoria.
Perguntar-se-me-ha, (como se eu tivesse o privilegio da madre
vigilante, que, ao longo do claustro ou dos corredores da Rosa,
escutava os colloquios mysteriosos das noviças), perguntar-se-me-ha
se nenhuma aventura de profano amor perturbou a existencia de Soror
Violante desde os 23 annos, em que para alli entrou, até os 91, em que
morreu quasi de subito n’uma noite fria de Janeiro de 1698.
Não é possivel garantir que nos seus sonhos, ou que nas horas perigosas
da quadra do anno, em que a natureza se renova e invade com os philtros
estonteadores os organismos vivos, o seu coração não recordasse as
doces tempestades dos tempos em que, moça, o sentia bater apressado.
Não asseguramos tambem que nas trevas das suas noites de vigilia se não
desenhasse luminoso o espectro d’aquelle que a fizera padecer.
Mas durante os sessenta e trez annos que n’aquella cella recordou
e formulou em verso os seus lamentos, não entrou alli homem, senão
porventura na imagem, já muito diluida d’aquelle _Silvano_, que
primeiro lhe despertou o coração ou do outro, que por desgraça
distinguiu passageiramente. Mas só a imagem.
* * * * *
Um ponto melindroso ha, porém, na sua vida sentimental que um seu
biographo tratou com menos delicadeza.
Costa e Silva, referindo-se á mania das que entravam para freiras por
despeito, escreveu o seguinte:
«Creio que foi esta a sorte de Soror Violante do Céo, não só pelo seu
modo de vida todo profano, mas porque a idéa de piedade, e o fervor
religioso, não póde de modo algum combinar-se com varias poesias que
se deparam entre as suas, tão cheias de arrebatamentos apaixonados,
de admirações da formosura, de certa Menandra, de colloquios ternos,
de finezas ardentes, e, o que é mais em estylo tão natural, despido
dos seus costumados gongorismos, como ditado pelo coração e não pelo
espirito, que dão motivo para desconfiar muito da sua honestidade.»
E o casmurro commentador transcrevendo uma poesia que julga de equivoca
interpretação e reveladora de intimidades suspeitas, accrescenta:
«Ora, como me parece que uma amizade simples e pura nunca usou de
semelhante linguagem, presumo que, sem escrupulo, poderei inferir
d’esta e de outras poesias que a moderna Sapho ardeu nas chammas
d’aquelle amor inatural de que foi accusada a antiga Sapho.»
A poesia em que o resmungão encontrou resaibos lesbianos e um indicio
de paixão amorosa por essa Menandra, a quem se dirige com hyperbolica
emphase, não é prova senão dos exageros da escola e da epocha. D’essa
poesia destacamos as quadras em que Costa e Silva encontrou prova do
_amor inatural_ de Soror Violante:
«Se vivo en ti transformada
Menandra, bien lo averiguas,
Pues quando me atiras flechas
Hallas en ti las heridas.
Flechas me tiras al alma
Mas quando flechas me tiras
Como en ti misma mi hieres
Hallas la herida en ti misma.
Tu mano candida, e bella,
Dulce Señora, lo diga,
Pues siendo yo la flechada
Ella fué solo la herida.
Ya no dirás que en tu mano
No tienes el alma mia;
Pues quando el alma mi hieres
Sangre tu mano destila.»
* * * * *
Não defendemos o mau gosto que esta gymnastica de vocabulos revela,
mas o que é certo é que qualquer freira escrevendo a outra freira, ou
qualquer _Filis_ dirigindo-se a uma _Cloris_ sobre materia de amizade,
usava de metaphoras e de hyperboles tanto ou mais inflammadas, que as
das poesias da nossa Violante, sem que d’isso se inferisse que eram
inspiradas pela sensualidade.
A transposição para uma oitava acima, como na éra de seiscentos se
fallava e escrevia em toda a Europa, sem excepção da Inglaterra, onde o
Eufuismo introduzido por Lyly florescia, torna suspeitos, lidos hoje,
trechos que então eram de uso corrente.
Se a cella da musa dos _Divinos e humanos versos_ se tivesse
transformado em alcova almiscarada de espasmos lubricos, não seria ella
decerto que viria devassar os mysterios do tabernaculo, em quadras que
são, não o nego, expansões algo alambicadas de amizade requintada, mas
nunca requebros amorosos de femineas concupiscencias.
Para se avaliar do sentido que Soror Violante ligava ao sentimento de
amizade deverá ler-se o soneto em que ella se dirige a uma amiga, cujo
transparente anagrama de _Belisa_ indica uma _Isabel_, talvez D. Isabel
de Castro, a quem tambem dedicou uma epistola por ocasião da morte da
Rainha D. Luiza.
É como se respondesse á suspeita que sobre ella recahiu, não em vida,
mas duzentos annos depois de morta.
«Belisa, el amistad es un tesoro
Tan digno de estimar-se eternamente,
Que a su valor no es paga sufficiente
De Arabia e Potosi la plata e oro.
Es la amistad un licito decoro,
Que se guarda en lo ausente y lo presente
Y con que un amigo el otro siente
La tristeza, el pesar, la risa, el lloro.
No se llama amistad la que es violenta
Sinó la que es conforme simpatia,
De quien lealtad hasta la muerte ostenta.
Esta amistad es, que hallar queria
Esta la que entre amigas se sustenta
Y esta, Belisa, en fin la amistad mia.»
Ora diga-me o leitor imparcial, se quem faz este soneto tinha de Sapho
a paixão ardente.
E são tantas as senhoras a quem Soror Violante se dirige á Condessa
de Penaguião e á Duqueza de Aveiro, ás poetisas D. Marianna de Luna e
D. Bernarda Ferreira de Lacerda, á Condessa da Vidigueira e a outras
mais, sem que das suas poesias rescenda o aroma capitoso com que a
poetisa grega perfumou as suas, que entro a suppôr ter Costa e Silva
tido o proposito preconcebido de attribuir a Soror Violante costumes,
que melhor se conformam com as liberdades lesbias, do que com as
austeridades das filhas de S. Domingos.
* * * * *
A vida da monja da Rosa, no longo periodo que vae desde a sua profissão
em 1629 até 1693, corre sem ser cortada de outros incidentes, que
não sejam as producções litterarias com que ia celebrando factos, e
dirigindo-se a personagens importantes.
Saúda a acclamação de D. João IV n’um soneto em perguntas e respostas,
genero muito em moda, que já Camões cultivara.
Dirige muitas cartas á Duqueza de Medina--Celi, que devem ser
interessantes, mas de que na Bibliotheca Publica, onde as procurámos,
por indicação do catalogo de Garcez Perez, não encontrámos vestigio.
Dedicou rimas ao padre Antonio Vieira, a Manuel Severim de Faria, a
Antonio de Sousa de Macedo, etc.
E solicitada para concorrer com as suas producções aos certamens
litterarios, que se realizavam quer no Convento do Carmo, quer nas
varias Academias, vê coroadas e premiadas essas poesias e sente-se
festejada pela fina flôr do cultismo.
Por isso não lhe faltam encomios e elogios.
É Antonio dos Reis que no seu _Enthusiasmus poeticus_, a sauda em
latim. É Souza Caria que traduzindo esse elogio lhe chama:
«A celebre Violante
A delicia do Céo, da terra o gosto».
É Antonio de Sousa de Macedo que na _Eva e Ave_ a chama _insigne_ e nas
_Flores de España_ e _Excelencias de Portugal_ a saúda como auctora de
_Obras admirables_.
É Froes Perim no _Theatro Heroino_ e Juan Loar de Brito no _Theatro
Luzitano_; é Frei Lucas de Santa Catharina na continuação da Historia
de S. Domingos.
É D. Francisco Manoel de Mello que diz rendidamente: «Soror Violante
do Céo _em tudo de seu appellido_ por juizo e virtude»; e é Manoel de
Faria e Sousa que na _Fuente de Aganipe_ lhe diz: «Viola antes que
lirio, antes que rosa». É tambem Jacintho Cordeiro, poeta então em
voga, que no anno de 1636 publicando o _Elogio dos poetas lusitanos_
(livro hoje rarissimo) falla da nossa musa dizendo:
«Que es Violante deidad cuya camena
A valientes ingenios desafia
Com tanta admiracion que alçando el vuelo,
Las lettras hurta del insigne abuelo.»
Não alongaremos a lista de nomes d’aquelles que a louvaram, nem
continuaremos a accumular citações, mas relembremos ainda que,
achando-se em Ruão no anno de 1646 o Conde de Vidigueira, D. Vasco Luiz
da Gama, Almirante da India (marido da Condessa, que se vestia de pardo
na sua ausencia, como se vê da dedicatoria em um soneto) chegou áquella
cidade o capellão do Conde, um tal Dom Leonardo de S. Joseph, levando
na sua bagagem o manuscripto das _Rythmas_, que a freira lhe confiara.
Logo o intelligente fidalgo, avaliando o merito da obra, a mandou dar
á estampa na imprensa de Maury, sahindo á luz com alguns preliminares,
entre os quaes a dedicatoria do capellão, que em prosa e em verso lhe
chama «Aguia de Portugal, decima musa da Hespanha.»
* * * * *
E agora, leitora curiosa, se me perguntaes, a mim que não sou
seiscentista, que não sou D. Francisco Manoel de Mello, que não sou
capellão do Conde Almirante, qual o meu sentir ácerca da celebre musa
dir-vos-hei sem ambages:
--Nem aguia nem gallinha.
Os seus versos, se não têem o sopro do genio que faz estremecer de
admiração, não merecem comtudo o desdem com que os paladares modernos
os regeitam.
Violante foi na mocidade a rapariguinha bem dotada que, logo de
estreia, uma côrte aclamou.
Foi depois uma mulher apaixonada por um vago anonymo, ausente, infiel,
e que, segundo ella pensava «_fazia loucuras por outra_». Vingou-se.
Mas logo mal ferida sentiu o ferro retalhal-a. Atirou-se para o
convento.
O romance é banal. Mas é sempre interessante saber-se como sente um
coração feminino, sobretudo quando a heroina escreve em estrophes a sua
autobiographia.
Sómente n’este caso, a linguagem, que o gosto do seu tempo lhe impôz,
foi como uma fôrma de cobre em que a massa ligeira de uma alma de
mulher endurecesse nos moldes convencionaes.
Por isso, indiscreta leitora, visto que instaes em saber se deveis
lêr, para vosso agrado, todas as poesias de Soror Violante do Céo,
dir-vos-hei que... somente devereis ler algumas, escolhidas nas
anthologias. E sendo difficil obter as obras completas, que ha muito
se esgotaram, encontrareis n’esse obstaculo uma desculpa plausivel
para vos absterdes de percorrer as numerosas paginas das _Rythmas_,
_do Parnaso_, e dos _Soliloquios_ em que se repetem com monotona
insistencia os _Villancicos_ ao _Nascimento_, á _Visitação_, á
_Ascenção_ com que a velhinha do Convento da Rosa ia distillando o seu
espirito e volatilizando a sua alma amorosa.