D. Francisca, a segunda, foi professar á Lorvão, e alli morreu freira.

D. Guiomar, que acompanhava seu pae, deixou-se galantear por um rapaz

pertencente a familia distincta da terra, um tal Heitor de Sá, de quem

nada mais se sabe alem da proeza que vamos referir.

Devia a rapariga ser formosa. Assim o attestam as poesias que lhe

chamam _bella dama_, o que não custa a crer imaginando um perfil

hebraico, temperado pela graça castelhana.

Além dos encantos pessoaes seria chamariz para o pretendente a

segurança de altas protecções e a perspectiva da herança paterna.

Teria o cosmographo conhecimento do namorico?

E contrariaria elle os amores de sua filha, ou por egoismo de velho,

que vê fugir-lhe a companhia, ou por conhecer pecha na familia do

Heitor?

Houve um Diogo de Sá, talvez parente d’este, que n’um livro

intitulado--_De navigatione libri tres_--atacava vivamente Pedro

Nunes; e outro Diogo de Sá (senão o mesmo) que lançara contra os

hereges um escripto, a que alguem já attribuiu a intenção de renovar

contra Pedro Nunes a perseguição em tempo iniciada contra Damião de

Goes.

Fosse o que fosse, Heitor de Sá, por sua parte, começou a esfriar,

diminuindo com esquivança as suas assiduidades, e causando com esse

desapego grande desgosto a D. Guiomar, a quem prometera casamento.

Alguns supuzeram que a fama de christão novo, agora assacada a Pedro

Nunes, afastara o pretendente, a quem os parentes davam reproche por

tencionar assim conspurcar-lhes o sangue limpo.

É facil de imaginar quanto a deserção de Heitor affrontou D. Guiomar,

que, vendo-se tão dolorosamente desprezada, adoptou o expediente de

citar o perjuro perante o Bispo da diocese, que então era D. Manoel de

Menezes.

Assim, convocado pela intimação, apoiada com a auctoridade do Prelado,

o remisso noivo compareceu na egreja de S. João de Almedina, contigua

aos paços episcopaes.

Renovado pelo Bispo D. Bernardo no seculo XII, o pequeno templo tinha

na sua architectura, antes das ultimas transformações que soffreu,

um vago parentesco, um ar de familia, com a visinha Sé, cujas naves

romanicas haviam sido scenario de tanto drama no decurso dos tempos.

Tambem agora, sob as abobadas que abrigavam o tumulo do Bispo D.

Paterno, sentia-se um desassocego de animos, precursor de borrasca, nos

grupos que vinham chegando com desvairados impulsos.

Inclinavam-se uns á parte de D. Guiomar, cuja sisudez e mocidade

recatadas eram atropeladas pela offensa recebida. E lamentavam que

a injuria feita á velhice veneranda do cosmographo não pudesse ser

desaggravada pelos filhos agora ausentes na India.

Outros, da parcialidade dos Sás, rosnavam maldizentes, salpicando de

doestos a filha de Pedro Nunes, e alcunhando-a de enredadora.

Para ella aquelle momento era grave e decisivo. Envolta no manteu

negro que fazia sobresahir a sua pallidez, cravava os olhos no chão,

atraiçoando-lhe apenas a commoção o palpitar das azas do nariz,

revelador do seu natural irrascivel.

O Bispo sizudo e grave, arrogando-se auctoridade de juiz inflexivel,

sentia comtudo no intimo um pendor favoravel á justiça da accusadora.

Adivinha-se essa parcialidade de animo no decurso dos acontecimentos

narrados por Duarte Nunes de Leão, contemporaneo do drama, e nas

declarações dos sobrinhos da heroina quando foram depôr, passados

annos, no Tribunal do Santo Officio.

N’aquelle momento, porém, se lá bem no fundo orientava a sua sympathia

para a filha do cosmographo, pelo interesse que lhe merecia a

situação de desamparo em que a via, pela consideração que votava ao

sabio, agora velho e alquebrado, cuja reputação enchia o mundo, e se

tambem era pouco caroavel d’essa familia dos Sás, de onde brotara o

petulante pimpolho, que alli se apresentava, a attitude do Prelado,

julgador austero e pastor das suas ovelhas, era da mais intransigente

impassibilidade.

Tem esta scena, passada em S. João de Almedina, de Coimbra, um sabor

medieval, embora succedesse no declinar do seculo XVI.

Tinham affluido muitos curiosos áquella especie de tribunal, ou

pretorio erecto sob as abobadas sagradas do vetusto templo, presidido

pelo Bispo, que lhe dava a um tempo o aspecto solemne, que a sua alta

cathegoria impunha, e uma feição familiar da auctoridade paternal para

com os filhos espirituaes.

A assembléa escutava attenta as interrogações do Prelado.

Quando este perguntou a Heitor de Sá, se effectivamente, promettera

casamento a D. Guiomar, como ella affirmára, ou se, como alguem chegara

a avançar, esse casamento se tinha realizado, houve em todo o auditorio

uma suspensão...

As palavras do accusado echoaram claras e peremptorias.

Assegurou que nunca fizera tal promettimento, e que nem mesmo conhecia

D. Guiomar.

Todos os olhos se voltaram para ella interrogativos. Em alguns apontava

a ironia, n’outros o desdem, em muitos commiseração.

Então, a pallidez da sua physionomia tornou-se mais livida, o olhar

mais negro, e n’aquella alma de hespanhola, fermentada pelos rancores

de israelita, levantou-se impetuosa uma onda de indignação e de odio.

Tremeram-lhe as mãos esguias com instinctivo furor. A direita,

encontrando ao alcance o canivete do estojo, que lhe pendia da cinta,

levantou-se ameaçadora e antes que alguem pudesse suspender-lhe o

gesto, a enfurecida rapariga, com segurança de punho, retalhou o rosto

do perfido com uma funda cutilada.

Impellido pela agudeza da dôr e pela perturbação que lhe causava o

borbotár do sangue da ferida hiante, o malfadado heroe arrancou da

espada e arremetteu contra D. Guiomar.

Mas, ou porque a vista turvada o não deixasse bem enxergal-a, ou porque

um resto de cavalheirismo o impedisse de commetter outra cobardia,

descarregou a espadeirada sobre uma columna da egreja.

A este tempo, já D. Guiomar cahira de joelhos perante o altar, pedindo

perdão a Deus pelo sacrilegio commettido, e ao Bispo pelo desacato e

escandalo que causara.

É facil de imaginar o sentimento de estupor que nos primeiros momentos

se apoderou da assembléa e o borborinho que lhe succedeu.

Os parciaes dos Sás reclamavam energicamente a punição da culpada.

Os animos iam levedando de fórma que ameaçavam tumultos.

O Bispo atalhou promptamente, ordenando que D. Guiomar fosse levada

para o Aljube, onde permaneceu. Mas não se contentava a familia de

Heitor com tanta benignidade. Exigiam castigo mais severo. E não o

obtendo recorreram aos tribunaes, moveram influencias, e conseguiram

que da Côrte viesse um magistrado com provisões, em vista das quaes a

desditosa Guiomar foi removida para o Castello.

Resentido com esta affronta, o Bispo D. Manoel de Menezes, escreveu a

El-Rei, e como que para affirmar a sua auctoridade e interessar mais

profundamente aquillo a que hoje chamariamos a opinião publica, lançou

sobre a cidade um interdicto cujo effeito era: _cessatio a divinis_,

expediente bem doloroso para a população, que durante trez ou quatro

mezes esteve privada de soccorros espirituaes, e por isso em permanente

excitação de animos.

Entretanto, mandava retirar da masmorra a prisioneira, e tornava a

fazel-a conduzir para a Aljube, carcere menos duro que o do Castello.

Grande alarido dos Sás, que chegaram a fazer correr insidiosas

suspeitas ácerca dos motivos por que o Bispo favorecia D. Guiomar.

O velho cosmographo consumia-se de desgosto. A sua nomeada corria agora

mundo, entrançada com o apimentado escandalo.

Pasto das linguas chilreadoras, o caso foi aproveitado pelos poetas

palreiros, que logo começaram a mettel-o nos seus villancetes, chacotas

e canções.

Pela calada das noites luarentas ouvia-se por vezes a voz d’um

estudante, acompanhada pela viola, entoar:

«Senhora Dona Guiomar,

Moradora na Calçada,

Que destes a cutilada,

Senhora Dona Guiomar

Que moraveis na Calçada,

Mereceis tença d’el-Rei

Pois destes a cutilada».

e outra voz respondia:

«Foi mui grande o valor d’ella

E pouca a vergonha d’elle

Mas se ella ficou sem elle

Elle não ficou sem ella».

* * * * *

Era ambigua a interpretação d’esta quadra. Mas o sentimento geral

continuava a ser favoravel ao cosmographo e á filha, pois que até os

vates mais graves entraram a thuribulal-a com sonetos encomiasticos,

que correram impressos.

Ainda em 1826, isto é, perto de trezentos annos depois de ella morta,

foi dado á estampa em Coimbra o folheto, hoje raro que tem por titulo:

_Sonetos a D. Guiomar filha do Dr. Pedro Nunes, sobre a cutilada que

deu em Coimbra_, opusculo attribuido a Joaquim Ignacio de Freitas.

Revelam os versos engenhos chochos, mas enthusiasmos vibrantes quando

declamam:

«Alma formosa e bella produzida

Do famoso cosmographo e divino,

Illustre gloria, espelho crystallino,

Corôa das mulheres mais subida:

Valerosa donzella esclarecida,

Esmalte glorioso do ouro fino,

Celebre-se teu nome de contino,

Tua fama, tua honra, tua vida.

Seja com louvor alto mui cantado

D’antiga Coimbra o blasão famoso,

Serpente, Leão, Vaso, e bella dama.

E seja juntamente sublimado

Dona Guiomar, o teu peito animoso,

Pois fez um feito illustre de tal fama».

E outro soneto, depois de evocar Cleopatra, e Lucrecia, termina assim:

«Quem é que a nossa fama escureceu?

_Guiomar_, que se vingou co’o duro córte

De quem tingir sua fama pretendeu.

Vive na terra? não, porque escolheu

Um meio tão seguro em vida e morte,

Que estando cá na terra está no Céo.»

Refere-se este ultimo verso á sua clausura, porque o Pae entendeu que

a melhor solução para o melindroso caso seria que D. Guiomar entrasse

n’um convento, á semelhança da irmã que professara em Lorvão.

D. Manoel de Menezes tinha uma irmã abbadessa em Santa Clara. Suggeriu

a adopção d’aquelle mosteiro por tantos titulos nobre.

Acceito o alvitre, promptamente começou a espalhar-se na cidade que a

formosa protagonista de tão dramatico reboliço ia sahir do Aljube.

Novamente se alvoroçaram os parentes amigos e sequazes de Heitor de Sá,

cuja ferida apenas cicatrizava, emquanto o nome de D. Guiomar corria,

já accrescentado com a prestigiosa alcunha de: _a da cutilada_.

Resolveram por isso tirar estrondosa vingança na passagem d’ella para o

Mosteiro.

O caso era embaraçoso. Resolveu-o a animosa rapariga por uma fórma

original.

Estava-se nas proximidades da Semana Santa, que em Santa Clara era

celebrada com solemnidades pomposas. As tochas de cêra e os pannos para

realizar os officios religiosos, eram conduzidos para aquelle convento

em grandes canastras, ás costas de homens.

A valorosa aspirante a noviça, de concerto com as freiras, mandou ir

ao Aljube um d’esses moços com o seu canastrão, e n’elle se acommodou,

como tocha do cereeiro.

O trajecto não era longo, e o carregador foi escolhido entre os

possantes.

Seguiu elle caminho com a sua carga pela Calçada, em direcção á margem

esquerda do rio, onde estava situado o Convento de Santa Clara (hoje em

ruinas).

Proximo á Portagem, e mais adiante, n’aquelle alargar dos peitoris, em

circulo, a que chamavam o O da ponte, numerosos grupos em fallatorio

ruidoso dispunham-se a atacar o cortejo que, suppunham, havia de

conduzir a prisioneira.

Entretanto, o carregador caminhava, não sem inquietação, receiando que

os discolos, descobrindo o embuste, o atacassem.

Lá de dentro do seu escondedouro, a destemida Guiomar animava-o,

exhortando-o a proseguir.

«Que nada temesse (dizia baixinho), porque Deus, a quem ia servir, os

guardaria.»

Em volta o tumulto ia crescendo. Homens armados dispunham-se a atacar

os que provavelmente viriam guardando a protegida do Bispo.

Previa-se rixa bravia. E emquanto as bravatas ameaçadoras recrudesciam,

e se cruzavam no ar imprecações violentas, a voz doce de D. Guiomar,

despercebida dos energumenos, acompanhava n’um rythmo suave os passos

cadenciados do seu rude salvador.

Finalmente, chegaram ao Mosteiro!

A madre rodeira, prevenida, correu a aldraba, entreabriu meia porta

que, passado o homem com a sua canastra, se fechou sobre o batente,

emquanto o ganhão se sumia nas sombras da crasta, onde depositou o

precioso fardo.

Estava salva a filha do cosmographo!

A historia é muda sobre a sua vida conventual.

Cá fóra, porém, as paixões humanas continuaram agitando-se em volta do

seu nome.

Pedro Nunes, alquebrado pela edade, roido de maguas, e talvez com

saudades da filha, deixou-se morrer pouco depois.

Os Sás não abrandaram na sua sanha, e continuaram a calumniosa tarefa,

distingindo peçonha sobre a reputação do Bispo, conforme consta de

umas notas marginaes postas n’um exemplar do livro--_Descripção de

Portugal_--, que existia na livraria dos Condes de Vimieiro e em que

se dizia: «Esta obra toda foi feita pelo Bispo D. Manuel de Menezes,

não sei se a canastra, mas sei que foi levada á conta e cargo do Bispo,

cuja irmã era abbadessa.»

Uma tal Maria Barreira, no depoimento do processo intentado em 1624

contra os netos do cosmographo, que eram accusados de judaisar,

accentúa mais e diz: «quando de sua casa D. Guiomar fora a perguntas á

egreja, e depois da cutilada, os Sás se juntaram e insultaram o Bispo

D. Manuel de Menezes, entendendo que elle favorecia a dita D. Guiomar.»

N’esse curioso processo, sente-se palpavel o odio dos Sás, sedentos de

vingança por o seu parente ter _apanhado pelas queixadas_ (palavras de

uma testemunha) a celebre cutilada e vão n’um bando, como _gibelinos_

contra _guelfos_, perseguindo os sobrinhos de D. Guiomar...

* * * * *

Emquanto na turbulenta Coimbra, outr’ora tão pacata, _capuletos_ e

_montecchios_ se crivam com dardos envenenados, Romeu e Julieta, ao

revez dos amantes de Verona, continuam distanciando-se cada vez mais,

de corpo e de espirito. Elle, curando a cicatriz que, mau grado seu,

lhe ha de perpetuar a memoria com ridiculosa fama. Ella professando

em Santa Clara, abafando no habito cinzento rancores ou despeitos,

e porventura afogando em lagrimas ainda vestigios do seu amor

desprezado!

Neves de antanho · 第 27 / 44 题