As glorias portuguezas disputadas por estrangeiros. O Palmeirim de
Inglaterra attribuido a hespanhoes. Controversias. Os trabalhos de
Purser--Alguns dos documentos mais interessantes. A desculpa de uns
amôres feita por Francisco o Moraes. A sua paixão pela bella Torcy na
Côrte de França. As mimosas de El-Rei. Identificações. Coração ferido.
A Infanta D. Maria acolhe benevolamente o poeta. Morte mysteriosa.
É sina das glorias portuguezas verem-se disputadas por extranhos!
Um punhado de aventureiros audazes e sonhadores embarca-se um dia em
rudes galeões, em airosas fustas, ou em resistentes carraças e, de
longada vae ao mundo revelando novos mundos...
Logo vêm Italianos, Hespanhoes, Francezes, e até Inglezes reivindicar a
prioridade dos seus descobrimentos. E comtudo, se da Europa amputassem
esta nesgasita occidental que as ondas beijam, e onde os monstros
marinhos cantam extravagantes balladas; se supprimissem da Historia
o povo que foi seduzido pela mysteriosa Atlantida, pelo mysterio do
Preste João, e que, por loucura aventureira se metteu aos mares, o
_homem_ não teria tão rapidamente caminhado, a humanidade não poderia
tanto a tempo ter-se alastrado pela terra, e muito mais tarde haveria
conquistado o globo.
Um cavalleiro portuguez, Vasco de Lobeira, que as ideias de cavallaria
andante embriagavam, escreve, na volta do seculo XIV, o seu _Amadis
de Gaula_. E logo a sorte mofina envolve n’uma nebulose o auctor e
o romance, de maneira que, conforme diz o Dr. João de Barros nas
_Antiguidades e cousas notaveis de antre Douro e Minho_, «como estas
cousas se seccam em nossas mãos os Castelhanos lhe mudaram a linguagem
e attribuiram a obra a si.» Deram-lhe como auctor um Montalvo ainda
mais indeciso na sua personalidade que o nosso Lobeira.
Um mathematico de genio, que lia nos astros e comprehendia a harmonia
das espheras, inventa o instrumento que melhor ajudaria os navegadores
a proseguirem na sua rota sem escolhos; e sem detença vem os Francezes
com o seu Vernier, pretender que o aparelho d’este precede, se não no
tempo, pelo menos nas vantagens, o _nonio_ do nosso immortal Pedro
Nunes.
Antonio Ferreira, o culto humanista, rendilha em correctissimos versos
soltos a sua _Castro_, obra prima do nosso cyclo classico.
Pois o plagiario Bermudez não ousou arrogar a si a paternidade da obra,
valendo-se da precedencia da edição da sua insipida _Nise lastimosa_?
Ainda mais. Um conego engenhoso e atrevido atira uma tarde, do alto
do Castello de Lisbôa, em Agosto de 1709, a celebre _Passarola_, sua
invenção, avó veneranda dos modernos Zeppelins. Soffregamente, os
Montgolfiers em França affirmam que se haviam antecipado ao nosso
Bartholomeu de Gusmão.
E não param aqui os latrocinios.
Recuando um pouco no tempo, topamos com o mais engenhoso romance de
Cavallaria que o seculo XVI produziu--_O Palmeirim de Inglaterra_,
lido e relido por cavalleiros e donas, amado por todos os que sentiam
ainda na imaginação esvoaçar a pluma ligeira da poesia medieva, e se
compraziam em admirar a valentia dos heróes que vencem gigantes e
resgatam donzellas prisioneiras. Pois essa novella, que Francisco de
Moraes offerece á erudita e talentosa Infanta D. Maria, que durante
dezenas de annos desperta em todos os animos masculinos valor e ancia
de combates, e em todos os corações de mulher sympathia e admiração
pelas proezas dos Palmeirins, Florianos e Dramusiandos, esse quasi
poema que ao proprio Camões inspira a _Tenção de Miraguarda_, tambem
tem sido regateado á gloria do seu auctor, attribuindo-o até a outros
Portuguezes. Assim, o proprio Cervantes, ao dar o golpe mortal na
Cavallaria Andante, quando figura na livraria de D. Quixote o barbeiro
e o cura condemnando á fogueira os livros culpados da exaltação do
engenhoso manchego, e exceptuando por serem excellentes o _Amadis_ e
o _Palmeirim_, refere-se a este ultimo dizendo: «este libro, señor
compadre, tiene autoridad por dos cosas: la una por que él por sí es
muy bueno; y la otra, porque es fama que lo compuso un discreto Rey de
Portugal.»
Um Rei de Portugal? D. Duarte diziam uns, D. João II diziam outros sem
grande attenção pela chronologia e sem grande senso critico. Como se ao
melancholico filho do Rei D. João I sobrasse tempo depois de escrever
o _Leal Cavalleiro_ ou o _Livro da Ensinança de bem cavalgar toda
sella_, para se embrenhar na narrativa das extraordinarias aventuras,
que se emmaranham nos 172 capitulos do famoso romance. Ou como se D.
João II, entre os festejos de Evora e o proseguimento de sua empreza
governativa, tivesse disposição e embocadura litteraria para se
comprazer na tarefa de explicar como o cavalleiro do Dragão desencantou
Leonarda, e como a mesma Leonarda foi tambem desencantada pelo sabio
Daliarte.
Mas não é essa competencia, que mais affronta a paternidade do nosso
Moraes. Cervantes, que não era um erudito ou um bibliophilo, attribuiu
ao _Palmeirim_ aquella origem, e ainda assim fallando pela bocca do
Licenciado.
Outros Hespanhoes, porém, viriam disputar em favor de compatriotas
seus, a proveniencia do notavel romance ao imaginoso Thesoureiro de
El-Rei D. João III.
* * * * *
Depois de mais de dois seculos de incontestada naturalidade portugueza,
apparece, em 1826, o livreiro-bibliophilo D. Vicente Salvá, que,
fugido de Valencia, foi estabelecer-se em Londres, a berrar aos quatro
ventos, no seu famoso catalogo, que descobrira uma edição hespanhola
do _Palmeirim_, anterior á portugueza de 1567, e que o seu auctor era
um tal Ferrer. Este Ferrer, diga-se de passagem, não foi mais que um
modesto mercador de livros, escriba de segunda ordem.
Mas logo depois o filho de Salvá, illudido por um acrostico da edição
de 1547, julga descobrir que não foi Ferrer o auctor da obra, mas
sim Luiz Hurtado, um poeta menor, incapaz de o escrever por falta de
engenho, e por falta de edade. Tinha apenas uns 15 annos.
Dividiram-se então os campos, envolvendo-se os contendores na celebre
controversia, e foram com erudição apresentados os mais rebuscados
argumentos (alguns fundados em ingenuas subtilezas) para comprovar as
asserções com que os de cada nação reivindicavam o _Palmeirim_.
Do lado dos Hespanhoes formaram na primeira fila Salvá e D. Pascoal
Gayangos, que foram seguidos por outros criticos e diccionaristas
bibliographicos.
Defendendo a origem portugueza, encontrâmos o sabio hespanhol Benjumea,
o brasileiro Odorico Mendes, D. Carolina Michaëlis de Vasconcellos,
Pinto de Mattos, o Sr. Theophilo Braga e mais recentemente o escriptor
inglez William Edward Purser, que em 1904 publicou um livro digno, a
todos os respeitos, de attento exame e de uma gratidão sem reservas por
parte de todos os Portuguezes que prezam as glorias da sua terra.
William Purser, em 464 paginas de prosa cerrada, encara no seu
_Palmeirin of England_ o assumpto em todos os seus aspectos, e,
occupando-se principalmente da controversia, demonstra com argumentos
irrespondiveis a origem portugueza da novella que Francisco de Moraes
compoz, quando foi a França como Secretario de D. Francisco de Noronha,
futuro Conde de Linhares, Embaixador de Portugal.
Não caberia aqui, ainda que me propuzesse extrahir e distilar a quinta
essencia do assumpto ou apontar as questões que têm levantado o
famigerado romance de cavallaria, bem como as polemicas litterarias a
que tem dado azo. O sabio inglez trata de todas. Quem quizer aprofundar
o caso terá, portanto, depois de ler os trez volumes do _Palmeirim_,
o que não é tarefa ligeira para o leitor de hoje (pois que o mesmo
Purser diz a respeito da novella: _a work no one reads_) de compulsar
vagarosamente a obra do critico.
São de natureza varia os argumentos por elle usados; uns colhidos no
estudo intrinseco do romance, outros fundados na chronologia, outros na
comparação do merecimento de Francisco de Moraes, da sua cultura, do
seu estylo, da situação social que occupou em Portugal e na Côrte de
Francisco I, com as individualidades inferiores dos dois Hespanhóes, o
Ferrer e o Hurtado.
Um dos mais engenhosos argumentos é o que devemos á paciencia do
critico inglez, e que faz parte do capitulo em que coteja as duas
versões, phrase por phrase. Prova com elle exuberantemente terem sido
os Hespanhóes que traduziram (em estylo, aliás incaracteristico e
insipido) o texto portuguez e não Francisco de Moraes que trasladou o
de Hurtado.
Purser comparando os dois textos, e fazendo notar que a nossa palavra
_saudade_ não tem equivalente em hespanhol, encontrou no _Palmeirim
de Inglaterra_, em portuguez, _cincoenta e sete_ vezes esta palavra
e sempre empregada com propriedade. No texto hespanhol é omittida
_trez_ vezes, e nas outras _cincoenta e quatro_ é substituida pelas
palavras--_alegria_--_cuidado_--_gozo_--_soledad_--_deseo_--
_deleite_--etc; evidentemente rodeios para evitar a difficuldade da
traducção de uma palavra intraduzivel.
Abençoada seja a benedictina perseverança com que o estudioso inglez
catou a prosa de Francisco de Moraes!
Mais uma vez a palavra--_saudade_--tão nossa, veiu dar uma certidão de
naturalidade a uma obra escripta na doce lingua portugueza.
Outro argumento que melhor ainda demonstra essa naturalidade e
constitue, por assim dizer, uma prova n’este processo de investigação
de paternidade, é o episodio que no _Palmeirim de Inglaterra_ toma
os capitulos 137 a 147, em que são descriptas as justas em honra de
_quatro senhoras francezas_, esclarecido pela comparação com o escripto
de Moraes, que nas suas obras se intitula: _Desculpa de uns amores,
que tinha em Pariz com uma dama franceza da Rainha D. Leonor, por nome
Torsi, sendo portuguez pela qual fez a historia das damas francezas no
seu Palmeirim._
* * * * *
Recordemos esse pequeno romance, seguindo o proprio Moraes, que n’elle
foi heroe e chronista, e percorramos não só aquelle escripto em que
nos deixou a sua confidencia, mas tambem a carta dirigida ao Conde de
Linhares, onde encontraremos uma scena flagrante das recreações algo
desregradas das damas da côrte franceza.
_Desculpa de uns amores..._ é o titulo com que foi divulgada a curiosa
declaração.
Desculpa? N’esta confissão, especie de auto-biographia amorosa, que
alguem já comparou ás de Rousseau, por se comprazer em mostrar-se
á posteridade n’uma postura de geito ingrato, o nosso Moraes é tão
ingenuamente sincero, que não extranhamos que quizesse como que
desculpar-se de, em edade já avançada, se deixar envenenar pela
_amorosa pestilencia_ distillada nos olhos maliciosos da escarnicadeira
Torcy.
Para um meridional facilmente inflammavel, como era o thesoureiro
particular de D. João III, que no seu proprio dizer tinha «a condição
namorada como em especial a tem os Portuguezes» e já anteriormente se
sentira muitas vezes tomado de amores, era perigosa aquella creatura
formosa, loureira, voluvel, e prezada do seu parecer, que estonteava
todos os cortezãos de Fontainebleau, Dijon, Pariz e Melun. Vejamos como
operou a feiticeira, e como se deixou captivar o indefenso portuguez.
Reinava em Portugal D. João III pelos annos de mil quinhentos e
quarenta e tantos, quando em França o voluptuoso e inconstante
Francisco I, aos pés da Duqueza d’Etampes, ou borboleteando entre as
mimosas da côrte, esquecia a Rainha Leonor com quem casara, em virtude
do contracto de Madrid de 1526, depois da batalha de Pavia.
_La Reine Alianor_, a irmã de Carlos V, fôra bella, quando na mocidade,
as feições do seu retrato, devido ao pincel de Clouet, haviam
perturbado de tal sorte a imaginação de El-Rei D. Manoel de Portugal,
duas vezes viuvo, e quinquagenario, que, levado de paixão serodia, a
roubou ao filho (depois D. João III) de quem estava noiva.
Agora, embora conservasse as linhas da sua belleza (belleza que,
diga-se de passagem, um retrato existente em Hampton-Court não deixa
suspeitar), começava a envelhecer e faltava-lhe o sufficiente prestigio
para segurar o coração e dominar os sentidos do seu inquieto marido, o
sybarita Valois, galanteador e artista.
Mas esse Rei, porque era cavalheiroso e magnanimo, rodeava a Rainha,
embora imposta por Carlos V, o rival odiado, de uma côrte brilhante. E
as damas que a serviam eram as mais illustres e mais formosas de França.
Á casa da Rainha Leonor pertenciam entre outras Madame de l’Estrange,
Mademoiselle de Macy, Madame de Telligny, e, a mais que todas
perturbante, Mademoiselle de Torcy.
Caçadas e justas, torneios e monterias succediam-se ora nos frescos
bosques de Sonia «que agora chamam Dijon», ora na floresta de
Fontainebleau, cujo palacio o Rei, seduzido pelas graças da Renascença
e influenciado pela Duqueza d’Etampes adornava com as maravilhas de
Jean Goujon.
Era deslumbrante a côrte que Francisco de Moraes ia encontrar em
França, para onde partiu em 1540 como Secretario do Embaixador D.
Francisco de Noronha. Tão grande era o poder de seducção de que este
dispunha que, sendo o posto que ia occupar sobremaneira ingrato, pouco
depois de alli estar tinha conquistado as boas graças do Rei, da
Rainha, dos cortezãos, e tornara-se o mimalho da sociedade franceza.
Não era isso empreza facil se pensarmos que Francisco I tinha sobejos
motivos de aggravo da nossa côrte, que bem penosos eram para o seu
orgulho, pois sentia a politica portugueza toda inclinada a Castella.
Carlos V o adversario feliz, casára com uma filha do El-Rei D. Manoel,
a doce Imperatriz Isabel; e D. João III depois de rejeitar Carlota, a
filha de Francisco I, casára com D. Catharina, irmã do Imperador...
Acertadamente procedia portanto o Rei de Portugal escolhendo, para o
representar em Paris, o insinuante e intelligente fidalgo. Teve este
durante a sua estada em França uma melindrosa missão. D. João III
destinara sua filha D. Maria ao filho de Carlos V, Filippe, o futuro
_Diabo do meio dia_.
Francisco I não podia olhar com boa avença este consorcio que mais ia
engrandecer o detestado competidor. O Rei de Portugal, querendo evitar
complicações, julgou preferivel não dar d’isto conhecimento ao monarcha
francez. Nem mesmo chegou a consultal-o.
A noticia, porém, voou até Pariz, e foi sabida na Côrte, antes que D.
Francisco de Noronha a farejasse. O Embaixador passou por isso um mau
bocado.
A scena que o chronista Francisco de Andrade nos deixa adivinhar é
caracteristica e pittoresca.
De uma vez que o representante portuguez foi ao Paço, onde tinha facil
accesso e onde era recebido com «muyta festa e bom gasalhado» notou
que a atmosphera aulica tinha arrefecido subitamente. «Viu no Paço tão
notavel differença que até nos lacaios se enxergava muito claramente.
Porque a gente franceza é a que mais se transforma ao gosto ou
desgosto de El-Rei.»
Penetrou no emtanto até junto do soberano, que encontrou com
sobrecenho, e de aspecto carregado. Pelas salas e antecamaras a
frieza dos cortezãos annunciava-lhe borrasca. Não conhecendo a causa
d’aquella novidade, o sobresalto não foi pequeno, sobretudo quando
Francisco I, não podendo conter a colera que lhe invadira o animo, o
levou para o vão de uma janella, onde, com palavras asperas, o increpou
desabridamente. Queixava-se do procedimento do Rei de Portugal que,
estando com elle em paz, fôra casar a filha com o herdeiro do seu maior
inimigo, sem ao menos lhe dar as razões porque o fizera.
O Embaixador que nada sabia, e que carecia de instrucções para
proceder, ficou engasgado. Mas não se desconcertou. Foi deixando
explodir a sanha do irritado monarcha, emquanto reflectia na attitude
que melhor convinha tomar.
Via no fundo da sala os cortezãos segredando, e adivinhava nas
physionomias ironicas e sorridentes a satisfação com que alguns
assistiam ao seu desfavor. Avaliando a gravidade da situação, logo
que as queixas de Francisco I iam esmorecendo, pediu licença para
responder. E com destreza se houve no seu arrazoado, jurando que
ignorava tudo, mas que era sua convicção que o silencio de El-Rei de
Portugal, longe de ser uma desconsideração, demonstrava o desejo de
manter boa amizade... Enfeitou com tal arte esta these aliás difficil
de defender, que Francisco I, ouvindo-o discretear «ficou n’isto
tão satisfeito que com muito riso e festa levantou o Embaixador nos
braços (porque era homem de muito grande corpo e de muitas forças),
dizendo-lhe: Ah monsiour (sic) dom Francisco, dera Paris por um homem
como vós.»
O gelo derreteu-se milagrosamente. E a fina flôr da gente palaciana,
que de longe observava o extranho espectaculo, logo fez correr a
noticia de bocca em bocca pelas camaras e recamaras, de modo que o
valimento de D. Francisco ficou outra vez consolidado.
* * * * *
Quem era este Embaixador? Filho segundo do Conde de Linhares, por
seu Pae descendia dos Villa Reaes e dos Braganças, sendo portanto
proximo parente da Casa Real. Seu irmão primogenito, D. Ignacio,
que na primeira mocidade fôra intelligente e valoroso, deixara-se
dessoradamente arrastar a uma vida crapulosa de prazeres faceis.
Attrahido pelos encantos equivocos de hetaïras de viella, sacrificava
á Venus plebeia em orgias de baixa esphera, o que fez determinar sua
mulher D. Isabel de Ataide, filha de Vasco da Gama, a recolher-se a
um convento, desgostosa por ver o marido dominado e amollecido pelas
comborças, que infestavam as betesgas da Alfama. Conscio da propria
degradação, D. Ignacio, afim de mais livremente se entregar ás suas
fugas para Cythera, pediu, ou foi pelo Rei induzido a pedir, a renuncia
do titulo e da casa, em que succedeu o secundo-genito D. Francisco de
Noronha que assim foi o 2.º Conde de Linhares.
Os Linhares, Noronhas, com excepção de D. Ignacio, eram gente dada
ás cousas do espirito, e na sua casa prestou-se fervoroso culto ás
lettras. Esse culto foi intensificado com o casamento de D. Francisco.
Sua mulher, Violante de Andrade, provinha de uma casa nobre tambem, e
toda rica de tradicções litterarias. A essa familia pertenceu Diogo
de Paiva de Andrade, o grande prégador; o heroico frade agostinho,
Frei Thomé, auctor vernaculo dos «_Trabalhos de Jesus_», Francisco de
Andrade, o chronista; sem contar que d’essa estirpe brotaram tambem os
Ericeiras, tão nobres no patriciado das lettras como no do sangue, e no
das armas. E de D. Violante e D. Francisco foi filho aquelle D. Antonio
de Noronha, o amigo dilecto de Camões que, ao saber da morte do pobre
moço, lhe dedicou o lindo soneto:
«Em flôr vos arrancou, de então crescida,
Ah! Senhor D. Antonio a dura sorte...
* * * * *
e que termina:
«Na memoria das gentes vivereis.»
Basta este verso para tornar immorredouro o nome de D. Antonio.
Entre aquelles que frequentavam a casa dos Linhares, todos notaveis
por varias fórmas,--Fernão da Silva; Francisco de Moura, estribeiro
mór do Senhor D. Duarte; João Lopes Leitão, o famoso pagem da lança,
Caminha, o mesurado poeta, e Luiz de Camões, o turbulento amigo do moço
D. Antonio,--encontrava-se frequentemente Francisco de Moraes, filho do
Thesoureiro-mór do Reino.
As suas faculdades eram muito apreciadas e aproveitadas pelos Senhores
d’aquella familia.
A elle por vezes recorriam, como se vê da petição dirigida a El-Rei por
D. Ignacio, para que a seu irmão D. Francisco passasse o titulo e a
casa.
Francisco de Moraes nascêra nos fins do século XV. Fôra na primeira
mocidade, moço fidalgo da casa do Infante D. Duarte.
O cargo de seu pae e o seu proprio obrigaram-n’o a manejar cifras e
algarismos.
Mas nem a tarefa da contabilidade lhe turvou a inspiração, nem o
ambiente severo da Côrte lhe abafou as ebulições e effervescencias do
coração.
Poeta, versejou em portuguez e castelhano. Cavalleiro e namorado,
o mesmo é dizer--ardente de animo, terno de coração--foram varias
as crises amorosas que atravessou, como elle proprio confessa. Não
deixaram, porém, esses passageiros enternecimentos outro vestigio que
não fosse a ingenua confidencia (ou auto-biographia amorosa) que nos
faz pela bocca do seu heroe _Florendo do Deserto_, ajoelhado aos pés da
Torcy.
Pelas suas occupações, que lhe davam facil accesso na intimidade
dos soberanos, e pela sua acceitação em casa dos Linhares, estava
naturalmente indicado para Secretario da Embaixada de D. Francisco, que
partiu para Pariz no anno de 1540.
Cumpre aqui n’um ligeiro parenthesis desfazer a impressão, que
porventura tenham deixado no animo de algum leitor desprevenido,
os periodos em que Odorico Mendes, o escriptor maranhense, que
denodadamente defendeu a origem portugueza da novella, dá a entender
que Francisco de Moraes foi na embaixada como mentor ou guia de Dom
Francisco de Noronha. O Embaixador ficaria assim com um papel de
simples representação, sem nada emprehender senão com a ajuda do
intelligente Secretario.
Odorico Mendes, o douto Brasileiro, deixou-se arrastar pelas suas
tendencias cegamente democraticas, quando escreve o seguinte: «Era
costume, o de nomear-se um figurão para o posto superior, e alguem de
boa cabeça para segundo.»
Deve notar-se que o _figurão_ era um espirito cultivado, que logo de
entrada conquistou as boas graças e resolveu negocios importantes, como
é sabido.
E Francisco de Moraes, quando chegou a Pariz, nem mesmo a lingua
franceza entendia, como elle proprio confessou na _Desculpa de uns
amores..._
Nada prova isso em seu desabono, mas desfaz a atoarda que alcunha de
inepto espaventoso o Embaixador, que tão habil se mostrou no desempenho
da sua missão.
Um e outro eram dotados de engenho. Um e outro possuiam qualidades para
se fazerem apreciar.
E o valimento do Embaixador facultou a Francisco de Moraes, o
Secretario, facil acolhimento nos circulos palacianos. Valendo-se
d’isto, e porque era conhecedor do coração humano, este soube
habilmente explorar o affecto maternal da Rainha Leonor fallando-lhe
na filha que ficára em Lisboa, e evocando com tacto e arte subtil
os tempos em que moça, adorada e feliz, quando casada com El-Rei D.
Manoel, ella era a soberana radiôsa na Côrte de maior explendor da
Europa.
A Rainha agora ia já entrando na edade mofina.
Desapparecêra a frescura da mocidade; o marido voluvel cultivava
descuidadamente os alfobres em que floresciam as suas damas de honor;
o irmão implacavel continuava a guerra; e, lá longe, sobre o Tejo, a
filha, a Infanta D. Maria, unico arpão que devéras a prendia á vida,
aboborava n’um quasi sequestro em que D. João III a conservava por não
lhe convir que a Irmã sahisse de Portugal.
Francisco de Moraes facilmente encontrou o caminho d’aquella alma
desterrada, d’aquelle coração maternal ulcerado, d’aquelle orgulho
de soberana dolorida. Fallava-lhe em castelhano. Perfumava-lhe a
imaginação de recordações, e o coração de consolos.
Descrevia-lhe a filha, a Infanta, então em todo o esplendor da sua
altiva belleza loura, requestada por Soberanos e por Principes;
narrava-lhe a existencia austera, mas de requintado lustre que ella
levava nos Paços da Alcaçova Velha e nos de Santa Clara, onde a esse
tempo já se reunia uma Academia douta e elegante.
A estes colloquios do Secretario portuguez assistiam ás vezes
as damas da _Reine Alianor_, que eram para elle um motivo de
constante curiosidade e lhe davam a impressão de fructos exoticos de
desconhecido, mas appetecivel sabor.
Com os seus cincoenta annos ainda florescentes olhava attento aquelle
feminino batalhão volante, que frequentemente tinha ensejo de observar.
É elle proprio quem o conta n’uma carta dirigida ao Conde de Linhares,
D. Antonio, pae do Embaixador, datada de Melun, em 10 de Dezembro de
1541.
São d’essa carta os seguintes periodos que transcrevemos,
conservando-lhes a redacção original para não tirar o sabor á
descripção do jogo da pella (partida de _lawn-tennis ou foot-ball_), a
que assistiu nos jardins de Fontainebleau:
«Antontem, que foram oito d’este mez, se partio el-rey de Fontenableo,
e foy dormir a hua vila d’aly tres leguas, que chama Valença, e nam
levou as damas comsigo que he maior milagre... No mesmo dia depois
del-rey partido, se sairam ao campo a Delfyna, madama Marguaryta filha
del-rey, madama de Etampes, a duqueza de Monpensé, que he nova e das
famosas d’esta terra, sobrinha del-rey, filha de hua sua irmãa, e
tambem dizem que avó, por sobeja amizade que tem com Monsior d’Orlyens.
Na verdade cousas d’esta calydade sam quaa tam desacostumadas que se
non deve de crer; sairam mais Mamsy, que é a mimosa del-rey, e madama
de Latranja e outras da mesma banda, e metidas em hum cerco de cordas
grandes que mandaram fazer repartidas em deus bandos, em vasquinhas de
tafetaa curtas e manguas de camisa, porque os dias n’este tempo sam
quaa quentes, jugaram a péla huas contra outras, e duas ou tres por
muito destras davam d’arras juguar sempre co pee; pode vossa senhoria
crer que aas vezes tomavam o voléo mais alto do que era necessario pera
lhe ficarem cubertos os artelhos, e ainda que se fiassem nas calças que
chegavam tee o gyolho, tambem afirmo a vossa senhoria que tinham ruim
fiador. Eu me achey presente a esta festa, que aquele dia por mandado
do senhor D. Francisco fuy a Fontenableo a negocio, crendo que el-rey e
a corte estavam ali e sey que quaa pareceo muy bem e tambem sei que em
nossa terra nam parecera asy. E pera que os brincos tivessem mais graça
acercando-se da banda de fóra do cerco hum padre theologo da ordem de
Sam Domingos que agora prega todo o avento á Raynha, e não sey se de
muyto servidor se de namorado começou servyr de fóra do cerco as pélas
que vinham perdidas de dentro. No principio ainda parecia que ho fazia
com menos despejo, mas como a cousa começou a andar, deu cõ abyto no
campo, e se o jogo durara muyto, parece-me que assy como se despejou do
abyto de cima, se despira de todo para ficar mays desenvolto. Afirmo a
vossa senhoria que foy um dos mays destros juguadores de péla que nunca
vy. Acabado de perder huma das partes aquelas princezas e senhoras se
foram daly tee o paço, que seria doze tiros de bésta juguando o aleo e
saltando huas por cima das outras; tambem aqui avya aas vezes saltar
mal e cayr cos focinhos pera baixo, mas ynda que as novas sejam pera
o senhor Marquez, como a carta é pera vossa senhoria, não posso dizer
tudo, senam que o padre pera nam ver desonestydades remetya as que
cahiam e cobertas cõ manto as ajudava a levantar; duas cousas lhe vy em
extremo mavyoso e ligeiro o que eu nam cuydey que avia n’eles, que de
conversaveis já he manqueira veelha que lhe ha-de durar tee morte.
Aa noute coatro ou cinquo d’estas senhoras em que entrou Tampes,
Latranja, Mansy, madama de Monpensé, e despidas em calças e camisa com
frauta e tamboril vyeram em mascara a casa da raynha onde contrafizeram
volteadores e sempre muito mal; soo o pino acertou de ter graça n’ele
madama de Mansy. A raynha parece que nam lhe pareceu tam bem a festa e
porque nam ousou dizel-o mandou despejal a casa porque não podesse ser
vista de muytos...»
* * * * *
Esta narrativa tão cheia de vida é feita com uma segurança de
processos, que revela a penna habil de um romancista, o lapis de um
humorista, e a ironia de um observador de costumes.
O observador, porém (pobre d’elle!) era homem, era um meridional
impressionavel, era um portuguez de coração sensivel.
A atmosphera da côrte embriagava-o. A desenvoltura das ageis jogadoras
de pella espicaçava-lhe os sentidos. As serenadas com frauta e tamboril
boliam-lhe como cocegas na epiderme. E as vasquinhas curtas de tafetá,
que não encobriam tudo, davam-lhe volta ao juizo.
Com o seu antiquado pelote de brocado á _usança portugueza_, tão
querido de D. João III, e que tanto destoava das modas francezas, que
os amaneirados e dengosos Valois iam introduzindo, sentia-se quasi um
anachronismo, desageitado e levemente rustico, entre os requintes das
provocantes bellezas das mimosas d’El-Rei.
Essas que elle encontrava na camara da Rainha Leonor, quando era
recebido pela virtuosa senhora, interessavam-n’o por motivos varios.
Alli via por vezes a Princeza Margarida filha do Rei e futura Duqueza
de Saboya--_a mãe do povo_--casta e séria no meio da côrte frivola e
licenciosa. É esta que Francisco de Moraes, no seu romance, faz figurar
com o nome de _Gratiamar_ (filha do rei Arnedos) dôce anagrama de
_Margarita_, da qual Brantôme dizia: «elle eut le coeur grand et haut».
Alli encontrava tambem aquella a que chama a _Delfyna_, nem mais nem
menos que Catharina de Medicis, a esse tempo já casada com o futuro
Henrique II.
Conheceu tambem a Duqueza de Montpensier, «que é nova e das famosas
d’esta terra».
N’esta palavra _famosa_ ha reticencias, e intenções de interpretação
que ficam á responsabilidade de Moraes, bem como no parentesco que
lhe attribue, e com o qual deixa transparecer alguns dos maliciosos
ruge-ruges, que apodavam como _sobeja_ a amizade d’esta Princeza com o
Duque d’Orléans.
Outras muitas attrahiam os olhares do cortezão portuguez, avido de
sensações novas, e attrahido pelo espectaculo deslumbrante d’essa
sociedade, onde brilhavam como lantejoulas todos os vicios, todas as
graças e todas as qualidades da Renascença.
Quatro d’ellas, porém, lhe prenderam os sentidos. E uma os sentidos e o
coração.
As trez primeiras apparecem-nos recentemente identificadas com mais ou
menos felicidade e segurança pelo escriptor inglez a que já alludimos.
_Mansi_--_Telensi_--e _Latranja_, que figuram no romance, parece
serem a representação phonetica de nomes de senhoras francezas, que a
pronuncia de um portuguez fazia soar assim.
Mansi, portanto, seria Mademoiselle Macy, depois Madame de Pont de la
Haute de Magdelaine, que n’um banquete d’esse anno (1541) figurou á
esquerda de Francisco I. com Diana de Poitiers, a Duquesa d’Etampes e
a Condessa de Vertus. Era «amada e servida por El-Rei, com o que se
ennobrecia muito».
_Telensi_ devia ser aquella «_gracieuse Damoyselle de Teligny_», de
que falla Billon, referindo-se á elegancia agradavel da sua distincta
personalidade.
E Latranja é, sem duvida, Mademoiselle de l’Estrange, que fôra amante
do Delphim Francisco, (fallecido havia poucos annos) e a quem um poeta
aulico chamou n’um epigramma lisongeiro «_face d’ange_».
Uma, porém, enfeitiçou completamente o nosso Moraes: Claudia
Blosset, _dame_ de Torcy; a coquette Torsi «de grão valor»; Torsy
a dama da Rainha, a quem Brantôme nas _Dames galantes_ se refere
significativamente, dizendo «J’ay ouy conter à Madame Fontaine
Chalandry dite la belle Torcy...» Foi a ella tambem que Clement Marot,
o poeta da côrte, n’uma das suas saborosas, picantes e espirituosas
_estrennes_, disse:
«Damoyselle de Torcy,
Cest an cy
Telle estrenne vous desire,
Qu’un bon coup vous puissiez dire
Grand mercy.»
De nobre estirpe, pois que descendia da grande familia normanda dos
Estouville, figura na _Historia genealogica da Casa Real de França_,
_do P.ᵉ Anselme_, como filha de Jean de Blosset, Senhor de Torcy.
A nobreza de sangue dava-lhe um ar altivo, arrogante, encaprichado e
desdenhoso, que quadrava bem com a sua elevada estatura. Tão alta e tão
acima das outras que, quando Francisco I distribuira em 1538 velludo e
setim, para que cada uma das damas da Rainha e da Princeza Margarida,
fizesse dous vestidos, emquanto vinte e uma d’ellas recebiam apenas
dez váras dos preciosos estofos, a Mademoiselle de Torcy foram dadas
nada menos de onze.
«Gram soberba (diz Moraes), acompanhava aquellas senhoras e a da
Senhora Torsi maior que todas. De mais confiada ou mais cruel todo
seu fundamento era na confiança do seu parecer e fermosura: e como de
nenhuma outra cousa se quizesse ajudar, suas mostras eram acompanhadas
de desdem isenção, e altiveza; e sobre isto esquecida de todos os
serviços e vontade, com que lh’os faziam.»
Por estas palavras e por todas que accodem á penna de Moraes, sempre
que falla, ficticiamente no romance, de Torsi a dama da Rainha Melicia,
ou que se refere, na realidade, a Torsi «_gram pessoa_», na _Desculpa
de uns amores..._ sente-se quanto a soberba creatura o deslumbrava, e
que tormentos lhe causou.
A perigosa rapariga manejava com artificio subtil a arma cruel da
indifferença affectada, o que, por um phenomeno vulgar em casos de
paixão morbida, excitava o temperamento naturalmente arrebatado do
fogoso lusitano. «O repouso de Torsi, juntamente com o pouco caso que
fez de ver que a olhavam, fizeram n’elles maior massa que nenhum dos
outros.» São d’elle (no romance) estas palavras indicadoras do gráo
elevado a que ascendera o seu thermometro amoroso.
Ao encanto que o avassallava juntava-se, ainda para o vencer, o
cicate inquietador do ciume, farpão de amor, que ella, com a natural
perversidade dos animaes felinos, explorava para seu divertimento,
dispensando a outros, favores que a elle negava.
De uma vez que a Côrte se dirigia, para assistir ás Vesperas, atravez
da galeria de Diana, para a sumptuosa Capella da Trinité, o Embaixador
de Inglaterra que, como tantos outros, andava preso das graças da
formosa Torcy, e lhe prodigalizava as suas assiduidades, offereceu-lhe
o braço. E, conduzindo-a, poz n’isso tanta significação de galanteio
que o pobre Moraes sentia estalar o coração vendo-os passar sorridentes
e felizes.
De outra vez, entrando n’um aposento, surprehendeu o Duque de Chatillon
(Monsieur de Xatillon, diz elle), «gentil homem de edade juvenil,
lançado no regaço» da leviana Torcy.
Quando estes casos se davam o romanesco Francisco de Moraes,
dilacerado, com o cerebro em ebulição e os nervos vibrantes, corria a
encerrar-se no quarto e fazia versos. Atirava ao papel, sempre docil e
fiel confidente de poetas, a expressão do seu tormento.
* * * * *
As novellas de cavallaria tinham grande acceitação na Europa inteira.
Liam-n’as com interesse não só as mulheres frivolas ou sentimentaes mas
tambem espiritos sérios, almas voltadas para os horizontes da graça
celestial ou da politica dos homens, que tiravam prazer de tal leitura.
Santo Ignacio, Santa Thereza, Diogo Furtado de Mendonça, o proprio
Imperador Carlos V, eram leitores apaixonados d’essas maravilhosas
bugigangas.
Francisco I fôra educado quasi exclusivamente com a leitura de romances
de cavallaria andante. Sire de Boissy dera-lhe a beber desde creança
um leite capitoso, com a licção dos _Amadis_ e quejandos, que geravam
muita acção heroica e muita exaltação amorosa. A alma do complicado
Valois, assim formada, encaminhou-o na vida, que para elle foi um
verdadeiro romance de aventuras.
O Secretario da Embaixada portugueza, cuja phantasia era povoada tambem
pelos heroes das fabulas cavalleirosas, e pelas aventuras romanescas,
encontrou-se assim n’um ambiente propicio á expansão da sua actividade
sentimental. Imaginou então fabricar elle proprio façanhas, descrever
acções heroicas, exaltar rasgos amorosos... Emprehendeu escrever o
_Palmeirim de Inglaterra_.
Levava-o já adeantado quando o fulminou a paixão pela formosa dama da
Rainha Leonor. N’essa altura introduziu na traça do romance o episodio
das _quatro Senhoras_. Como vingança? Como desabafo? Como homenagem? É
difficil sondar á distancia de mais de trez seculos a alma do namorado
poeta, e procurar nos escaninhos mais fundos do seu ser os sentimentos
que dictavam os periodos em que faz figurar a bella desdenhosa.
Entretanto esses dez capitulos cotejados com o escripto intitulado
_Desculpa de uns amores..._ são um valioso auxilio para o conhecimento
da psychologia do auctor, e uma prova de ter sido por elle escripta
primitivamente essa obra, cuja paternidade os Hespanhoes reclamaram.
Mas não é nosso intento agora entrar na controversia.
Voltemos aos quartos da Rainha Leonor, onde Francisco de Moraes
encontrava a linda Torcy, seu enlevo e seu tormento.
Surprehendeu-o esse furacão quando já se julgava ao abrigo de paixões.
Elle proprio o diz: «Não sei que isto foi que em idade já desviada de
pensamentos ociosos cobrei um cuidado novo... Não cuidava que em tal
idade amor tivesse poder, agora sei que a nenhuma não perdôa.»
Não lhe soffreu o animo callar-se. Declarou-se, ora com os olhos, á
portugueza, naquella linguagem que toda a mulher entende; ora com
palavras que ella não percebia, manifestando a sua paixão e esperando
que fosse acceita benevolamente, ou pelo menos que lhe désse _um doce
engano_.
«Não quiz mais enfadal-a (confessa elle) com razões, pois eram ditas
em vão. Affirmei os olhos nella guiados do coração e d’alma, porque já
desesperado de outro remedio aquelle me dava a vida, e chegado a casa
fiz um vilancete ao mesmo proposito, e em castelhano, porque me pareceo
que aquella linguagem lhe seria mais leve de entender:
«Ya que yo no se hablaros
Pongo los ojos em vos...»
* * * * *
Mas, depois arrependendo-se, compoz outro vilancete em portuguez, «que
hei que faço injuria á minha natureza querer bem como portuguez e
escrevel-o em castelhano». E dizia-lhe:
«Para se poder passar
O grande mal, quando vem
Ha-se de fiar de alguem...»
Elle confiava-o ao papel, e fazia versos. Torcy não os entendia. E
que entendesse?! A maliciosa e frivola pariziense, toda entregue ás
futilidades da sua vida de prazer, de festas e de dissipação mundana,
era forçosamente avessa áquella furia amorosa, e toda se arripiava com
as impulsivas demonstrações sentimentaes do impetuoso Portuguez.
Deixou perceber o enfado que lhe causavam.
Elle então lançou mão de um expediente que poderá surprehender o
leitor de hoje. Mas se recordarmos os livros de cavallaria andante, e
até mesmo o D. Quixote, tão ingenuamente desastrado em muitos lances
amorosos, não estranharemos ver Francisco de Moraes cahir de joelhos
aos pés da bella Torcy em plena sala da Rainha de França...
* * * * *
A mais genuina expressão da Cavallaria é o culto da Mulher.
_Pela sua Dama_ combatiam os cavalleiros. Usavam d’ella as côres e
as emprezas, punham nos escudos as iniciaes dos seus nomes, morriam
contentes na liça sob o seu olhar, ou corriam mundos em cata de
occasiões para a defender. O culto enternecido que a Cavallaria
medieval prestou á Virgem Maria tinha por motivo ser Ella a Mulher
entre as Mulheres.
Á ideia de Cavallaria ligavam-se todos os sentimentos nobres,
levantados, intransigentes em pontos de honra, incondicionalmente
submissos ao predominio da Mulher.
E Francisco de Moraes, que _viveu_ o seu Palmeirim e na sua vida é
retintamente cavalleiro, e impenitentemente namorado, não hesita nem
recúa perante o que hoje achariamos ridiculo. Ajoelha-se deante da
mulher que o captivou, e desabafa enternecidamente.
«Na camara da Rainha, á vista d’ella e de suas damas, ajoelhado em
terra, comecei com palavras mui compostas trovadas do acatamento de sua
pessoa e presença antes de confessar a culpa a pedir perdão d’ella.
Não sei se de ufana de si mesma, se do lugar onde estava, se enfadada
de me não entender me disse que não era contente que a amasse tanto,
mandando-me que o não fizesse d’alli por diante.»
A romanesca alma de Francisco de Moraes defrontava-se assim com a
gelida ironia de uma _coquette_ de raça, apenas occupada na adoração da
sua pessoa.
N’uma tal ou qual ingenuidade nativa, no seu idealismo poetico e
apaixonado, o enternecido portuguez é um verdadeiro precursor de D.
Quixote.
E, guardadas as devidas proporções, a bella Torcy, insensivel ao
calor das inflammadas palavras de Moraes, lembra, não sei por que, a
Dulcinéa, assediada com as declarações do heróe manchego.
Uma na Côrte requintada de Francisco I impertinente e zombeteira, a
outra boçal, rustica, asselvajada na sua aldêa de Toboso, são ambas o
typo do eterno feminino divinizando-se e esquivando-se ás adorações dos
seus devotos, e são um exemplo do fundamental contraste entre a poetica
phantasia dos apaixonados e a prosaica indifferença das naturezas
imperturbaveis e frias.
Para a Torcy zombeteira e artificiosamente esquiva, o poeta portuguez
alli ajoelhado era apenas um joguete, um motivo de galhofa, era mais
uma pella do torneio com as companheiras que assistiam á scena entre
frouxos de riso. Obrigou-o a repetir as queixas e desculpas amorosas
em portuguez e castelhano, e, triumphante conquistadora, orgulhosa
voltava-se para as outras escarninhas, commentando com malicia com as
contorsões da sua victima. Elle, então, escreve no seu caderno:
«Estas palavras me entendeo mal, mas parece que lhe soaram bem (ingenua
illusão!) que me mandou duas ou tres vezes que lh’as tornasse a dizer,
e porque no portuguez mas entendia peior, quis que as dissesse em
castelhano, e virando o rosto para uma dama que estava da outra parte,
me deixou, e praticou com ella, parece-me a mim que á minha custa...»
Esta confissão tão sincera não acarreta sobre o pobre apaixonado
nem uma leve sombra de ridiculo, como podia suppor-se, imaginando o
amorudo quinquagenario, de joelhos, na roda das raparigas, maliciosas,
desfructadoras, trocando umas com as outras sorrisos zombeteiros,
emquanto escutavam a aravia, para ellas inintelligivel, do romantico
declamador.
Pensando que a victima é uma das mais lidimas glorias da litteratura
quinhentista, um escriptor de grande engenho, que a paixão trazia
tresloucado, perdido, caminhando n’um sonho, aquillo que a leitura
do episodio nos inspira é uma irresistivel sympathia pelo auctor do
_Palmeirim de Inglaterra_, e uma inevitavel malquerença contra as
levianas encarnicadeiras que assim manteavam o poeta, com a mesma
desenvoltura com que os moços da venda hespanhola, se divertiam fazendo
saltar Sancho Pança sobre o cobertor.
Não deixou Francisco de Moraes de se sentir, e attribuindo grande
parte do seu desfavor a enredos fomentados pela inveja de alguns dos
cortezãos francezes, dá largas na sua narrativa ao rancor que lhes
dedica, pintando-os constantemente vencidos.
Uma vez é Brecião de Rocafort (Rochefort) que soffre um revez e «fica
corrido de fazer tão pouco»; outra vez é Rober Roselim (Ruper) que cahe
no chão, abrindo-se-lhe as feridas e soltando-se-lhe as veias; ainda
outra vez é o Conde de Brialto (Brialte) levando um braço quebrado, ou
o Conde Gisar tirado do campo quasi sem vida.
E sempre os Francezes são apresentados com inferioridade.
Este desforço havia de trazer ao romancista amoroso, e despeitado,
consequencias nefastas, como vamos ver.
Entretanto, ia elle terminando o seu admiravel romance.
Leria alguns dos capitulos do seu livro á Rainha Leonor?
É possivel. E não custa a crêr que ella transmitisse a expressão do
seu agrado á filha, a Infanta D. Maria, que em Lisboa era o fulcro
brilhante da culta Academia.
A esta Princeza deu certamente Francisco de Moraes conhecimento directo
dos seus trabalhos. E não só isso, mas até lhe dedicou a novella,
quando ella era noiva do Duque de Orléans.
Na douta biographia d’esta Princeza, traça D. Carolina Michaëlis um
formoso quadro phantaziando a impressão que a leitura do Palmeirim
causaria no cenaculo feminino, composto pelas damas e donzellas da
intelligente filha de El-Rei D. Manoel.
«Durante semanas (escreve a erudita academica), as aventuras tanto do
fidalgo e poeta namorado, que havia sustentado lá fóra a fama do typo
nacional, como os feitos de D. Duardos e D. Florendos, e a esquivez de
Miraguarda alimentavam decerto a imaginação do cenaculo. Reunidas na
bibliotheca ou na sala de lavor, emquanto a Infanta e as suas damas
bordavam custosos paramentos, dando côr e vida ás linhas traçadas por
Francisco de Hollanda, as latinas Luiza e Joanna e as musicas Angela
e Paula revezavam-se na leitura do Palmeirim. Acabado um capitulo,
começava a discussão das bellezas litterarias».
Este romance acabara-o em Pariz, o imaginario poeta e ao passo que ia
remoendo a paixão pela endiabrada franceza.
Os ultimos mezes passados em França foi-os arrastando, ora no
palacio do Embaixador, ajudando D. Francisco de Noronha no seu labor
diplomatico, ora na Camara da Rainha, cujo coração, magoado pelas
infidelidades do Rei, se condoía com os tormentos do infortunado
Secretario, ora nas galerias de Fontainebleau, onde via passar ás vezes
Francisco I, já a esse tempo comballido pelos effeitos da mysteriosa
vingança do marido da bella Ferronière.
Junto da Rainha, que delicadamente sabia lastimal-o, sentia
Francisco de Moraes o conforto nascido na piedade tão feminilmente
consoladora. Do Rei recebia provas de consideração, pois o intelligente
monarcha sabia quanto o _Palmeirim_ era notavel. Nos cortezãos, que
frequentavam o Palacio, advinhava, sob a contrafeita deferencia, um
sentimento mesclado de emulação e de imperceptivel motejo, que as suas
infelicidades sentimentaes porventura provocavam.
* * * * *
Quando terminou a Embaixada e o Secretario encofrou nas arcas das
bagagens os gibões de velludo, as gargantilhas de renda, que ostentava
na côrte, os papeis do Estado, os manuscriptos da sua novella, e, de
mistura, as illusões que lhe haviam enfeitado o espirito, experimentou
certamente um allivio.
Recordando amarguras e displicencias passadas, e o desprazer de ter
vegetado com tão ingrata sorte na atmosphera artificial d’aquella
estufa parisiense, bem diversa da distante e saudosa Lísboa, appellava
no seu animo para a recepção que lhe estaria reservada na patria.
E não o trahiu essa esperança.
Quando chegou a Portugal já o seu romance tinha corrido de mão em
mão, inflamando todas as imaginações femininas e exaltando os animos
cavalleirosos.
O proprio Rei D. João III, embora n’essa quadra andasse dorido ainda
com a morte de seu filho natural D. Duarte, pelo qual em signal de
lucto, tomou um capuz (tão ostensiva foi a sua mágua!...), pelote e
carapuça de arbim cardado, não deixou de attender á belleza da obra e
aos meritos litterarios do seu engenhoso auctor. Concedeu-lhe logo,
bem como a seus descendentes a graça de usarem o appellido de _Moraes
Palmeirim_.
É sem duvida o mais lindo titulo a que um homem de lettras póde
aspirar:--usar o nome da sua obra-prima!
Sentiu então a gloria bafejal-o com meiguice, compensando-o de antigos
dissabores. E o acolhimento que recebeu da Infanta D. Maria, a quem
dedicou a obra, foi dos melhores balsamos para cicatrizar antigas
feridas no seu orgulho.
Escutava-o quando elle lhe fallava da mãe, e lhe referia os casos da
Côrte franceza. Animou-o, louvou-lhe a novella... Que efficaz unguento
é o applauso para alguns espiritos!
O lisonjeiro ambiente, que lhe acariciou o _amor-proprio_, foi sarando
as chagas do _amor-paixão_.
Esqueceu a Torcy, e nem talvez tomasse cuidado quando em França pelos
annos de 1553 ella casou com Luiz de Montberon, Senhor de Fontaines
Chalendray.
Entretanto os annos iam correndo e as phantasias do coração
assentavam pouco a pouco, como poeira no fundo de frasco tranquillo.
Então Francisco de Moraes pensou em casar tambem, como aposentação
sentimental.
Não mencionam as biographias os dotes physicos ou as qualidades
d’aquella que o acompanhou no outomno da vida.
Formosa? Intelligente? Bondosa?
Ignoramol-o.
Mas Barbara Madeira, sua mulher, (não sei porque este nome indica
uma matrona virtuosa e fecunda) deu-lhe effectivamente numerosa
descendencia, d’onde proveiu gente illustre, entre a qual o talentoso
Padre Balthazar Telles, da Companhia de Jesus.
As honras tambem o aureolaram. Foi commendador da Ordem de Christo.
Teve um cargo no Paço. Era universalmente considerado.
* * * * *
Quando já passava bastante dos 70, indo uma vez, a entrar, já de noite,
no rocio de Evora, cahiu varado pelo golpe de um punhal, que mysterioso
embuçado lhe vibrou.
Quem seria? Que motivo haveria para assassinar o velho e glorioso
novellista?
Alguns escriptores attribuem esta morte a manejos da Inquisição. Mas o
terrivel tribunal, se quizesse castigal-o, tinha outros meios ao seu
dispôr:--os carceres--os tormentos--os autos de fé.
Attribuiram tambem alguns o crime á sanha dos Jesuitas. Foi moda
durante certo tempo, entre historiadores e homens de lettras, imputar
todos os attentados praticados na sombra, ás forças occultas da famosa
Companhia.
A verdade, porém, é que não se acham motivos para que os Jesuitas
lucrassem em supprimir o escriptor.
Outros, porém, e talvez com o faro mais apurado, querem imputar a morte
do auctor do _Palmeirim de Inglaterra_ a algum d’aquelles cavalleiros
francezes, que tinham sido maltratados no romance.
Levara muitos annos a vingança em fermentação.
Mas n’aquella epocha os livros circulavam morosamente, e os despeitos
e os odios conservavam durante muito tempo a força do rancor. Se a
suspeita é certa, como parece, Francisco de Moraes teria morrido
victima do seu coração que muito tinha amado a formosa Torcy, e victima
do proprio talento, com que tão certeiramente alvejou os rivaes, que o
tinham supplantado!