EPILOGO

1578! Junho arde. O ar escalda. No ambiente passam ondas de um fluido

subtil que agita as multidões.

Lisboa nervosa, Lisboa quasi festiva, Lisboa em alvoroço, vibra n’um

grande movimento de almas.

O Rei vae partir! Portugal quasi todo o acompanha, e todo o segue com

os corações anciosos.

Nas ruas passa a cavallo, bello, sobre-humano, fulvo como um archanjo,

entre os clamores, os gritos, as preces, e a ternura do povo que o

acclama, El-Rei D. Sebastião em caminho dos galeões que o hão de levar

á vizinha Africa.

Com o Rei vae a fina flôr da gente portugueza. Sedas, velludos, télas

de ouro e prata cobrem os corpos elegantes e esforçados. Nas cabeças,

levemente embriagadas pela ambição de gloria, as plumas das gorras

presas por firmaes de brilhantes, tremulam ao sabor da aragem. Os

cavallos mordendo freios de ouro, são sellados com os mais ricos

arnezes, e nos xaireis levam bordados os escudos da melhor nobreza. As

esporas que lhes tocam de leve o flanco são tambem de ouro, assim como

os estribos em que os cavalleiros apoiam os pés. É o caminhar de um

exercito em festa, sacudido pela febre da conquista.

Entre os que o compõem dois, e dos mais graduados, nos interessam agora.

Um já começa a branquear, mas tem vigor no aspecto; e no olhar decisão

e energia.

É D. João Lobo, Barão de Alvito que vae seguindo com a vista o moço

Duque de Aveiro, filho da formosa D. Juliana, aquella que, trinta annos

antes, tanto o enfeitiçara, e pela qual se ia perdendo.

Este, gentil de apparencia e seguido de numerosa companhia demonstra já

o ardor exhuberante com que vae bater-se.

Quando em 4 de Agosto nos areaes de Alcacer Kibir, se deu a grande

batalha, ambos foram heroicos no morrer.

O Barão com a experiencia da idade e a agudeza do engenho quando sentiu

inevitavel a catastrophe, pela allucinação de El-Rei D. Sebastião,

volta-se para Frei João da Silva gritando: «Por que não havemos nós de

prender este homem?»

--«É tarde!» respondeu o frade.

--«Pois se é tarde, redarguio o Barão de Alvito, rezemos pelo Rei, pelo

Reino, e pelos Vassallos.»

E morreu como um bravo!

O Duque, esse, fogoso, ardente, indomavel era a melhor ilharga do Rei.

Logo a 2 de Agosto, dois dias antes da batalha foi por D. Sebastião

enviado a reconhecer o inimigo levando o Guião real. Arriscada era a

missão e por isso tanto mais a apreciou. Foi o primeiro que encarou com

os mouros.

Horas depois mettia-se com o seu batalhão no mais acceso da refrega.

A sua acção pessoal, nas trez avançadas que praticou, e em que «obrou

milagres de valor» é das mais bellas estrophes d’esse poema de perdição.

Na investida tremenda e furiosa que Dom Sebastião deu com o melhor

da nobreza para livrar a artilharia, o Duque de Aveiro retalhado de

golpes, pereceu gloriosamente. Pouco depois D. João de Portugal que

assistira á mortandade dirigia-se a D. Sebastião exclamando:

«Só nos resta morrer!»

«Morrer, sim», murmurou com melancholica tenacidade o Rei, «morrer sim,

mas devagar!»

Era como um dobre funebre acompanhando o anniquilamento d’essa geração

que, se teve culpas, loucuras, leviandades e devaneios, resgatou tudo

com sublime heroicidade.

Neves de antanho · 第 22 / 44 题