SUMMARIO

Prisão do Barão da Alvito--O heroe da aventura romantica--A

filha de Brites de Lara--O romance--Entrevista nocturna--Evasão

por uma janella--Quem era a verdadeira heroina?--D. Juliana

defende-se--Condemnação de D. João Lobo--O Duque de Aveiro--O

casamento--Epilogo.

Estava a Côrte em Santarem, nos fins do anno de 1546, quando occorreu

um acontecimento extranho, que excitou vivamente as curiosidades

mundanaes.

Fôra preso o Barão d’Alvito, D. Rodrigo, e mandado para o Castello de

Soure.

Por que usaria El-Rei de tanto rigor para com o seu Védor da Fazenda?

Fallava-se n’um caso de amores. Mas o Barão tinha 52 annos, e o seu

officio imprimira-lhe um caracter de seriedade, incompativel com

aventuras galantes.

Então os mais bem informados mexeriqueiros das rodas paçãs esclareciam:

Que não era elle o heroe do novellesco successo, mas sim seu filho, D.

João Lobo, o qual aspirando á mão de D. Juliana, a filha da Marqueza de

Villa Real, puzera em pratica um expediente, que esperava ser decisivo

para o bom exito da sua empreza...

Mas acode aqui de certo, borbulhando na curiosidade do leitor, o desejo

de saber quem sejam tão eminentes personagens.

Para lhe evitar o enfado de percorrer calhamaços de linhagistas,

chronicas, ou codices de nobiliarchia, apresentar-lh’os-hei de seguida,

conforme as boas fontes m’os indicam.

Vejamos primeiro quem seja o encarcerado.

Estes Lobos, de Alvito, enchem a Historia, desde os fins do seculo

XV, sendo mencionados ora no desempenho de altos cargos, como os de

embaixadores e Escrivães de Puridade; ora nas emprezas guerreiras,

batalhando em Castella ou em Africa; ora nos saraus do Paço, compondo

rifões, apodos, e _cantigas do mal dizer_; ora envolvidos em aventuras

amorosas; ora luzindo em justas e torneios; ora elles proprios apodados

e chasqueados por outros poetas palacianos.

Este D. Rodrigo era filho de D. Diogo, 2.º Barão d’Alvito, que estivera

na batalha de Toro, que fôra estimado de D. João II, e que tivera

habilidade de escapar á perseguição de que foi victima seu irmão,

Fernão da Silveira. Entrou como aventureiro nas justas de Evora,

trazendo um leão rompente com esta divisa:

«_Con sus forças y my fee

todos mys males dobré._»

Effectivamente, soube navegar nas revoltas aguas da Côrte do Rei

terrivel, e nas mais amenas, mas tambem perigosas da de El-Rei D.

Manoel. Poeta e namorado, fez versos a varias senhoras, entre as quaes

D. Filippa de Abreu.

Na farça do _Velho da Horta_, representada por Gil Vicente em 1512, vem

elle assim citado na ladainha:

«_Oh Santo Barão d’Alvito

Seraphim do deus Cupido

Consolai o velho afflicto._»

A qualidade da pessoa, a importancia dos que se lhe dirigiam, e

o cuidado com que Garcia de Resende compilou as producções dos

versejadores palacianos, fez com que elle ficasse perante a

posteridade notado por um incidente burlesco, aliás vulgar na misera

humanidade, mas que nem sempre tem como actor um Védor da Fazenda, como

chronista um Conde de Vimioso, e como _reporter_ um Garcia de Resende.

Fôra o caso que n’uma jornada de Almeirim para Lisbôa... Deixemos,

porém, fallar o Cancioneiro, que diz:

«Trouas que fez o Conde (de Vimioso) ao Barão (d’Alvito) porque vindo

com el rrey d’Almeyrim para Lixbôa em hum batel, se lhe destemperou o

estamago, e sahyo em uma cirvilha, a fazer seus feytos em huma lezira:

«Abaixo de Escaropym

através de Saluaterra

O Barão sahyo em terra

Quanto trouxe d’Almeyrim.»

* * * * *

e continúa relatando carnavalescamente o comico incidente, em versos

que não eram destinados a mais, que a uma innocente brincadeira entre

parentes. Não são porém, só as _cantigas de escarnho_ do cancioneiro

que o tornam memorado. A maneira como se houve no modo de apaziguar

Lisbôa, quando El-Rei D. Manoel aqui o mandou para pacificar a

populaça, excitada a matar judeus na celebre sangueira de 1506, dá

mostra do grande valor d’aquelle que João Rodrigues de Sá mencionou

assim:

«O dyno de ser escrito

por quem lhe dê seu louvor,

Barão, d’Alvito senhor

e Villa nova d’Alvito».

Um dia quando estava fazendo a barba para ir beijar a mão a El-Rei, que

o fizera Conde, morreu de uma apoplexia.

Seu filho foi D. Rodrigo, o 3.º Barão, aquelle que foi preso por ordem

de D. João III como dissemos no começo d’esta narrativa.

Era Vedor de Fazenda, como quem diz, Ministro das Finanças.

Este logar, de grande importancia, pelas dependencias que tinha,

grangeou-lhe numerosos amigos, mas, como sempre acontece, ainda mais

adversarios e malquerentes. Uns gabavam o seu engenho, revelado em

versos de bôa factura, como aquelles dirigidos a D. Beatriz de Vilhena,

ou a satyra ás Damas do Paço, «que tinham feito um rol dos homens que

havia para casar e entre elles alguns mais que sexagenarios.»

Exaltavam tambem a fórma como se desempenhára da missão de que o

incumbira El-Rei D. João III, quando o enviou á Côrte de Carlos V, por

occasião da morte da Imperatriz.

Os seus inimigos, porém, não lhe poupavam remoques, chegando até

a accusal-o de não ser indifferente ás offertas com que as partes

tentavam corrompel-o. D’esta maledicencia faziam-se écho varias boccas,

mesmo entre as dos seus mais chegados. Assim o revela Suppico, que em

um dos seus _Apophthegmas_ nos conta o seguinte:

«Praticavam certos fidalgos, presente El-Rei D. João III, em fidalguias

antigas, e avoengos passados. Entrou n’este tempo D. João de Menezes,

e disse Dom Rodrigo Lobo, Barão de Alvito: Aqui vem D. João, que sabe

muito dos passados. Respondeu-lhe: Dos passados não sei nada: agora dos

presentes da vossa casa sei muito. Era notado o Barão de aceitar».

Se é verdadeira a anecdota de Suppico aquelle trocadilho com a palavra

_presente_ devia soar menos bem aos ouvidos de Dom Rodrigo, tanto mais

que o caso se passava na presença do Rei, cujo valimento podia ser

abalado.

Sel-o-hia effectivamente? E a ordem de prisão com pretexto ou motivo na

aventura de seu filho, proviria da quebra do agrado régio, e diminuição

de confiança? É o que vamos ver.

* * * * *

Mas o que fizera o rapaz?

Apaixonára-se pela formosa D. Juliana, filha dos Marquezes de Villa

Real.

Era por todos os motivos uma noiva appetecivel.

O bisavô, D. Pedro de Menezes, primo do Rei, fora 3.º Conde de Villa

Real, 7.º Conde de Ourem, e casára em 1462 com D. Beatriz, filha do

Duque de Bragança, D. Fernando. Nada menos!

Quando D. Pedro foi nomeado Governador de Ceuta, tendo apenas vinte

annos, alguns arguiram esta eleição pela sua pouca edade: mas o Rei

atalhára:

«_Os filhos da casa de Villa Real já nascem emplumados._»

D. Juliana, portanto, nascera emplumada. E se considerarmos que, além

da alta hierarchia, tinha dotes de belleza notavel, comprehende-se

que o moço D. João Lobo, filho do Barão, levantasse os olhos para a

orgulhosa patricia.

Esquiva? Talvez! Mas o apaixonado rapaz, além de confiar em si,

presumia ser attendido, visto que ia recebendo cartas de inilludivel e

terna acquiescencia aos seus emprehendimentos.

N’esse tempo não era muito facil estabelecer um commercio amoroso entre

gente da Côrte, como fôra pouco antes, quando a mocidade alegre se

reunia em festas e serões. Não quer isto dizer que os não houvesse já

n’essa occasião, e até com esplendor. Umas vezes no Paço, outras no

palacio de D. Duarte, e dos outros Infantes, algumas vezes tambem nas

residencias dos Condes de Linhares, dos Condes de Vimioso, dos Condes

de Redondo, reunia-se ainda por este tempo a nata da aristocracia

portugueza em _tertulias_ de requintada intellectualidade. Nos Paços

da Ribeira, de Almeirim e Coimbra representaram-se então muitos dos

autos do irreverente Gil, e foi perante D. João III que o frade

ribaldo Ribeiro Chiado poz em scena o seu--_Auto da natural invençam_.

Foi no pateo de Estacio da Fonseca, com assistencia escolhida, que

se representou o memoravel--_Auto de El-Rei Seleuco_--do moço Luiz

de Camões, que tanto deu que fallar. Mas em todas estas diversões

respirava-se um ambiente sisudo e grave. Na Côrte dançava-se, sim, mas

somente a arrastada _pavana_ e a ceremoniosa _galharda_. E a Rainha

D. Catharina, assim como desterrára dos serões os bailes pulados,

era tambem inexoravel no que dizia respeito a galanteios, aventuras

amorosas, e casos de paixão ardente.

Por isso nas assembléas do Paço, de onde a alegria ia fugindo, e cada

vez mais a rigorosa etiqueta imperava, não era facil a D. João Lobo

encontrar a linda Juliana de Lara, a quem de certo, se fosse como

dantes, não deixaria de dirigir _trovas de louvor_, do mesmo modo que

a outras haviam feito seu pae, seu avô e todos os Silveiras, seus

proximos parentes e afamados poetas palacianos.

Mas os apparecimentos de D. Juliana eram raros. O pae morrera em 1543

e o lucto conserval-a-hia largo tempo alongada de festejos. Além

d’isso os Menezes, Villa Reaes, orgulhosos e exclusivos, não entrariam

frequentemente no convivio de outras familias nobres.

O apaixonado Alvito recorreu então ao classico expediente das cartas,

servindo-se como intermediario de uma creada da casa dos Marquezes.

O chefe da familia, Dom Miguel de Menezes, era uma creança que pouca

attenção dava aos casos domesticos. A Marqueza viuva, bastante

recolhida, não podia tambem fiscalizar as manobras da creada.

Ora, como as respostas das cartas que escrevia eram animadoras, D. João

Lobo, julgando-se acceito, aventurou-se, com o escudo das seguranças

recebidas, a pedir D. Juliana em casamento.

A Marqueza de Villa Real D. Brites de Lara e seus cunhados D.

Nuno Alvares e D. Leonor, surprezos e arranhados no seu orgulho,

esbravejaram.

Como se atrevia o pimpolho a levantar tão alto as suas vistas? Os Lobos

eram de boa linhagem. Sim! Eram poderosos, influentes e astutos no

manejar o valimento régio. Mas não era o bastante para aspirarem a uma

neta de Reis, a uma parenta proxima dos Braganças, a uma filha dos

Menezes, Villa Reaes que nasciam _já emplumados_. Vedor da Fazenda!

Tinha isso, é certo, algum valor. Mas o que era em presença dos titulos

e senhorios do Marquez D. Pedro, pae de Juliana? Fôra elle 5.º Conde

e 3.º Marquez de Villa Real, 2.º Conde de Alcoutim e Valença, 5.º

Capitão General de Ceuta, Senhor das Villas de Valença do Minho, de

Caminha e Terra de Valadares, das Villas de Almeida, Alcoentre, Chão

de Couce, Pousa Flôres e Maçãs de D. Maria, Alcaide Mór de Leiria,

etc.. Praticára façanhas em Ceuta durante cinco annos, e a sua gloriosa

memoria não podia agora ser amesquinhada, alliando sua filha com quem

lhe era inferior em nobreza.

Por outro lado, os Alvitos, beliscados na sua prosapia com a recusa

insolita, assanharam-se e respingaram com aprumo: que a sua nobreza e

fidalguia, attestada no escudo--cinco lobos passantes de negro, armados

e linguados de vermelho, bordadura azul carregada de oito aspas de

ouro--nada desmerecia da dos Menezes.

Então, em vez de discutir gráos de nobreza, o impaciente D. João

resolveu assediar a fortaleza, sempre na ideia de que encontraria

n’ella recebimento. Era o golpe de audacia dos que tentam a fortuna.

Uma noite, altas horas, já Santarem dormia, a Marqueza viuva e os

filhos, recolhidos havia muito, sentiram um estampido estranho do lado

da rua, e não muito longe dos aposentos de D. Juliana. Sobresaltados

chamaram os creados, que verificaram ter sido arrombada uma adufa e ter

«alguem lançado as portas da dita janella para fóra do coiçe.»

Foi, então visto um vulto saltar precipitadamente, levando «certas

peças e vestidos.»

Alguns affirmavam ter reconhecido D. João Lobo, filho do Barão de

Alvito, que assim indicava ter acolhimento intimo nos quartos de D.

Juliana.

O caso era grave. Tanto mais que D. João Lobo, interrogado, affirmou

ser já casado com ella.

Ora, (e aqui complica-se o enredo,) á nobre heroina d’este romance

havia El-Rei já destinado outro casamento, sem contudo ainda ter dado

d’isso conhecimento ao interessado.

Tratava-se de a unir ao Duque de Aveiro, D. João de Lancastre, filho do

Senhor D. Jorge e, portanto, neto de El-Rei D. João II.

Dava-se pois uma circumstancia curiosa. Este Duque de Aveiro fôra

aquelle que, sendo ainda Marquez de Torres Novas, declarára ter

clandestinamente casado com a filha do Conde de Marialva promettida ao

Infante D. Fernando, irmão de D. João III.

O Destino tem ás vezes caprichos curiosos! O Acaso, nas phantasiosas

curvas da sua acção mysteriosa, levava agora D. João Lobo a representar

para com o Duque de Aveiro o mesmo papel, que este havia desempenhado

com relação ao Infante D. Fernando.

Teria D. João III aproveitado as circumstancias para applicar a pena de

Talião ao Duque, que em tempo se oppuzera ao casamento de seu irmão,

impondo-lhe agora uma noiva que outro reclamava?

Não é provavel. Os factos têm uma explicação natural e simples.

Da parte de D. João Lobo havia uma paixão amorosa e isso, se não torna

legitimas, faz no entanto perdoar as maiores loucuras.

Sem que tenhamos procuração d’esse romanesco fidalgo para lhe

desaggravar a memoria adduziremos no entretanto, algumas attenuantes

á leviandade de architectar a comedia da janella arrombada, e de se

declarar casado com a innocente filha da Marqueza de Villa Real.

Recebera cartas d’ella, allegava o rapaz, em sua defesa, e essas cartas

autorisavam-n’o a entrar em casa da sua noiva, ou, para melhor dizer,

de sua mulher.

A declaração do casamento clandestino era expediente muito usado

n’aquelles tempos para o conseguimento do fim desejado, sem que o

caso tivesse caracter de gravidade, que hoje teria para qualquer das

partes. D. Pedro I affiançou ter casado clandestinamente com D. Ignez

de Castro. O Rei D. Fernando assim quiz casar com D. Leonor Telles. O

Marquez de Torres Novas agora Duque de Aveiro (este que D. João III

destinava a D. Juliana) oppuzera-se ao casamento de D. Guiomar Coutinho

allegando que com ella era casado.

Então?

Além d’estes exemplos, e superior a todos, o desvairamento sentimental

do moço Alvito merecia talvez uma absolvição.

Mas El-Rei D. João III não o entendeu assim. As intenções do rapazelho

contrariavam-n’o.

Os desposorios clandestinos não lhe agradavam. Estes «casamentos

a furtos» tão vulgares no seculo XVI, eram validos, segundo as

constituições do Arcebispado de Lisboa de 1537 sendo o homem de 14

annos e a mulher de 12.

Mas ia-se d’elles abusando, com manifesto prejuizo da boa ordem. E

quantas vezes se simulavam, ou se inventavam! Este era menos que

provavel ter-se realisado. E além d’isso vinha prejudicar planos

assentes, pelos quaes se resolvêra dar um premio de consolação ao Duque

de Aveiro, que se retirara amuado para Setubal, porque pretendendo

casar com uma filha do Duque de Bragança, D. Jayme, e casar tambem

sua irmã, D. Helena, com o Duque de Barcellos, fôra-lhe isso negado.

Causara-lhe essa recusa manifesto descontentamento pois andava sempre

emprehendendo «em que a grandeza da sua casa não fosse assombrada da de

Bragança de que sempre viveu com emulação, trabalhando por estabelecer

entre ellas equilibrio.» Ora, não era muito facil achar compensação

para o casamento a que aspirava. Só se se fosse buscar á casa de Villa

Real, parente de El-Rei e dos Braganças. Estava por isso indicada

D. Juliana, e assim o havia decidido D. João III, quando rebentou o

episodio de D. João Lobo e se espalhou a fama da sua aventura nocturna,

com arrombamento da janella, e a descida subrepticia com as vestes na

mão...

Cumpria tomar providencias rapidas. A primeira a que se procedeu foi

á prisão do velho Barão de Alvito, e ao seu encerramento no Castello

de Soure. Parece a repetição da fabula do Lobo e do Cordeiro; com a

variante de que aqui o Cordeiro era _Lobo_, e em vez de ser Filho era

Pae de quem assim perturbava as aguas limpidas da Côrte...

Mas porque mandava o soberano prender assim o pae do delinquente?

* * * * *

O Sr. Teophilo Braga, fallando de passagem n’este poeta palaciano,

aproveita logo a occasião para dar uma roda de inepto ao Rei dizendo:

«D. João III, como estupido, mandou o Barão D. Rodrigo Lobo preso para

o Castello de Soure».

Existe, porem, uma carta, do Barão dirigida a El-Rei, muito comprida

(transcripta, bem como alguns outros documentos relativos a este caso,

pelo Sr. Anselmo Braamcamp Freire no livro terceiro dos Brazões da

Salla de Cintra.) que nos indica os motivos que imperariam no animo do

monarcha para assim proceder. Por este documento se vê que se dizia que

o Barão, pae, auxiliava o filho na sua empreza; e que tendo-lhe El-Rei

recomendado que o vigiasse não o fizera devidamente.

Parece que se dizia tambem que por ter alliados na casa da Marqueza,

dera um officio rendoso a um creado de D. Leonor de Noronha tia de D.

Juliana: e que dava de comer a moços de casa da Marqueza com o intuito

evidente de os subornar.

A tudo isto responde o Barão D. Rodrigo, com allegações confusamente

expostas mas que constituem uma defeza clara. Falla na sua idade de

52 annos, nos 21 durante os quaes foi Vedor da Fazenda o que lhe

acarretara inimigos, seus accusadores agora.

Brada que a primeira mercê a cabo de tantos serviços prestados, não

deveria ser pagar assim muitos annos _innocencios_. Insinúa que o

casamento com D. Juliana não era desegual, visto que «fidalguia eu

sou contente da que meus filhos e eu temos»; e accrescenta, com mais

basofia que sinceridade, a affirmação de «que se me D. Nuno Alvares

(tio de D. Juliana) pedisse meu filho para a sua sobrinha que lh’o não

dera.»

A carta onde, a par d’esta fanfarronada, o Barão atira algumas _biscas_

a D. Nuno Alvares, foi recebida por El-Rei ainda sob a impressão dos

acontecimentos.

Metteu-a na boceta, e, longe de mandar soltar o pae, deu ordem para que

o filho fosse tambem preso e se procedesse á devaça e julgamento.

Andava o Rei mal humorado porque n’essa occasião foi-lhe entregue um

papel, sem subscripto, que se dizia ser assignado por D. Juliana, e

todo com lettra d’ella, declarando ser casada!

Agora o caso tornava-se mais serio, visto ser a propria interessada

quem fazia esta affirmação.

Ella, porém, informada do enredo que se urdia em volta da sua pessoa, e

sentindo-se alvejada pela maledicencia de uns, pelas settas de escarneo

dos outros, e pelas reticencias no sentir de muitos, mandou pedir a

El-Rei que fizesse justiça, ordenando uma rigorosa investigação para

aclarar tão melindroso caso.

O Monarcha promptamente accedeu.

O borborinho malevolo levantado pela bisbilhotice acerca d’estes casos

indiscretos ia alastrando, quando El-Rei nomeou dois Desembargadores

do Paço e do Conselho para juntamente com o Corregedor da Côrte fazer

«todas as diligencias, exames e inquirições per que se a verdade do

dito caso podesse bem saber».

N’uma manhã d’esse inverno de 1546, á porta do palacio dos Marquezes de

Villa Real, em Santarem, apeavam-se das pacificas mulas, em que vinham

montados, os magistrados encarregados por El-Rei de interrogar a nobre

donzella D. Juliana.

A Justiça em todos os tempos se tem revestido com trajes de grande

solemnidade, e com espectaculosa ostentação para impôr o seu austero

prestigio e inspirar respeito no desempenho das suas funcções.

Se ainda hoje, nos nossos democraticos pretorios, o juiz, o delegado,

e o proprio official de diligencias, envergam com certa gravidade

a béca e a volta tradicionaes, para se proceder ao julgamento de

qualquer rufião da Alfama; se a _robe rouge_ ainda veste pomposamente o

magistrado do _Palais de Justice_ que manda para os carceres de Paris

qualquer _apache_ de Montmartre; se _na Royal Court of Justice_ o

Presidente encaixa com sisudez a peruca do seculo XVIII para applicar

alguns dias de _hard-labour_ aos malandrins do _Whitechapel_, com que

cerimoniosa pompa se apresentariam as Justiças do muito alto e muito

poderoso Rei o Senhor D. João III para procederem ao interrogatorio da

nobre filha dos Marquezes de Villa Real, reclamada como sua mulher pelo

filho do Védor da Fazenda!

Com caras graves, vestes severas e empunhando com circumspecção as

varas symbolicas, attributo do officio, os magistrados subiram as

escadas, conduzidos pelo mordomo da casa, que os introduziu no salão.

Alli a velha Marqueza, seu filho o moço D. Miguel, e talvez tambem o

tio D. Nuno Alvares aguardavam os Desembargadores, que iam inquirir

sobre a veracidade do escripto, que fôra apresentado a El-Rei como

sendo assignado por D. Juliana.

Esta, de pé, junto a uma credencia, sobre a qual jaziam, n’uma

encadernação sobria e rica, os Santos Evangelhos, esperava, levemente

arrogante, o Corregedor da Côrte e os seus companheiros, que se

curvaram reverentes ao entrarem. Vestida de negro, com simplicidade,

apresentava como unico adorno uma cruz de ouro, que lhe pendia do

pescoço, presa por um grilhão.

A cabeça emergia airosa da alta golinha. Uma ligeira nuvem de tristeza

attenuava a altivez e desdem da physionomia, denunciadora de nobre raça.

Sem emphase, mas com firmeza, dirigiu-se ao Corregedor da Côrte,

apresentando-lhe um papel em que escrevera a sua defesa. E para que não

se puzesse em duvida tel-o escripto por sua mão, repetiu por palavras o

que n’elle exarara.

Os dedos corriam-lhe nervosos na cadeia de oiro, mas a voz era serena,

segura a dicção, e cada phrase soava sonoramente na vasta quadra em que

a scena se ia passando.

«Peço digam a El-Rei nosso Senhor, que os mandou cá, que lhe beijarei

as mãos por se lembrar de minha orfandade e desamparo. Se meu pae,

que morreu em seu serviço, vivera agora, não se houvera este rapaz (e

sublinhava com ligeiro desprezo as palavras _este rapaz_) de atrever-se

a fallar em mim, levantando este falso testemunho. Sua Alteza (era o

tratamento que ao Rei se dava ainda) ha de lembrar-se que sou bisneta

do Duque D. Diogo, seu tio, e filha e neta dos mais leaes vassallos

que Sua Alteza tem tido. Cumpre-lhe, portanto, dar o castigo que tão

grave caso merece, para que em toda a parte se saiba a justiça que

Sua Alteza mandou fazer. E para que n’isto sejaes mais certos, a vós,

senhores, como a justiças de Sua Alteza, juro n’esta Vera Cruz que

tenho ao pescoço, que lhes amostro (e com a mão alva e esguia elevava

a cruz á altura dos olhos dos homens de lei, e n’ella punha os beiços

respeitosamente) e a estes Santos Evangelhos em que ponho as mãos, que

isto foi o mór falso testemunho que se nunca levantou.»

Depois, já menos solemnemente, mas com a mesma firmeza, accrescentou:

--«Nunca me passou pelo pensamento que este homem isto cuidara, nem

nunca por nenhuma pessoa, mulher nem homem, nem moço, nem menino me foi

dado recado seu, nem carta sua, nem nunca vi lettra sua, nem nunca pelo

pensamento me passou que com outro homem podia casar senão com o Duque

de Aveiro.»

Como podia restar ainda alguma duvida, pois se havia fallado em cartas

d’ella, promptificava-se a, presente El-Rei, escrever e fazer a sua

assignatura.

Concluindo, dizia:

--«E peço a Sua Alteza, por quanto assim ha cartas falsas feitas em meu

nome, queira que perante elle escreva. E porque eu fazia outro signal

(ou assignatura), antes de agora, e por fazer má lettra, me ensinava a

escrever o Dr. Manoel Vaz, mestre do Marquez meu irmão, e porque dantes

eu fazia um Y grego no signal (Julyana ou Yuliana?) e agora faço um

grande, porei aqui ambos os signaes.»

E escrevendo no papel que era destinado a El-Rei as duas assignaturas

em presença dos Desembargadores, prestou de novo juramento e

entregou-lhes o escripto.

O tom, a segurança de si propria, a fé com que jurara, o grande ar

com que representára esta scena, davam um cunho de sinceridade ás

suas affirmações. Não podia mentir quem fallava d’esta maneira. Assim

o entenderam os magistrados que se retiraram recuando, e, d’isso

convencidos, desceram a escada. Depois, bifurcando-se nas sellas,

esporearam as anafadas azemulas em direcção ao Paço.

* * * * *

Não se fez esperar largo tempo a sentença que reza pouco mais ou menos

assim:

«Manda El-Rei nosso Senhor, vistos estes autos e o libello que por

parte da justiça foi dado contra D. João Lobo, filho do Barão d’Alvito,

e vistas as diligencias e inquirições que se fizeram sobre o caso... e

havendo respeito á sua menor idade, que vá degredado por dez annos para

o Brasil, e que depois de cumprir o dito degredo não entre na Côrte,

nem a quinze leguas nem na villa de Santarem emquanto viver.»

A sentença condemnatoria causou grande impressão nas rodas mundanas em

que parentes, amigos e simples curiosos, tinham seguido com attenção

e avida curiosidade este enredo, que não sabiam esclarecer. Era então

verdade a culpa de D. João, com a aggravante de se provar ser falsario

e calumniador? Se o não era, como se explicava que o rapaz, embora

leviano, mas que nunca faltara aos preceitos da honra, forjasse cartas,

e viesse assegurar a existencia de um casamento nunca realisado?

Chegou afinal a apurar-se que elle não fôra culpado. Ao que parece, a

alma damnada, a inspiradora e, porventura, figurante ou representadora

da comedia, era uma creada da casa dos Villas Reaes que illudia o moço

D. João, fazendo-lhe crer que era bem acceito de sua ama. Fabricava

ella propria as cartas de D. Juliana, puzera talvez em scena o

pretendido casamento, e, (quem sabe?) talvez o consummasse no mysterio

d’aquella noite em que o apaixonado se encontrou dentro da praça, e

intentou, ou se viu obrigado a arrombar a janella do aposento de D.

Juliana.

Não ficaram documentos explicativos da interferencia da creada, que

nos elucidem sobre os intuitos que a levaram a compor este auto

_vicentino_, nem sabemos o destino que a moça teve.

Começaria talvez por uma simples complacencia para com as solicitações

do namorado pretendente, seduzindo-a tambem a mira nas esportulas

chorudas, dadas pelo generoso D. João. Fingia bôa avença da parte de D.

Juliana.

Iria depois complicando-se por tal fórma a trama urdida que difficil

seria recuar.

Teria tambem, (não é isso impossivel) o coração interessado; e não

podendo comer á mesa do banquete, diligenciaria, com dissimulações e

embustes, saborear algumas migalhas que lhe não eram destinadas?

Sendo assim, o desvairado D. João teria cahido n’um logro levado pela

conhecida sentença que diz: _Quod volumus facile credimus_. E elle, que

tanto queria aquelle casamento, acreditaria facilmente nas apparencias

mentirosas.

As cartas asseguravam-lhe amor correspondido, as entrevistas, nocturnas

e rapidas, confirmavam-lhe essa convicção, e a comedia do _casamento a

furto_ (se a houve) mais lhe consolidaria essa crença. Quando entrou de

noite em casa de D. Juliana, supporia talvez de bôa fé encontrar-se com

sua mulher.

Muito penoso lhe havia de ter sido o accordar do sonho, sentindo-se

roubado nas suas aspirações, afastado do valimento régio, e alvo das

zombarias de todos os que estão sempre dispostos a folgar com os males

alheios.

Mas nem calumniador, nem falsario era o pobre moço. Isso não!

Se não ha provas indiscutiveis da sua innocencia, nem documentos, que

revelem os artificios occultos empregados pela ladina cuvilheira dos

Villa Reaes para attrahir o incauto áquella ratoeira, ha testemunhos

que, embora indirectos, são a cabal demonstração de que o procedimento

de D. João Lobo e de seu pae, era menos condemnavel do que se suppunha.

Quanto ao pae, é eloquente a sentença dada em Julho de 1548, isto é

pouco mais de um anno depois da prisão.

No seu accordão, os Desembargadores de El-Rei, ordenam que, em _vista

dos autos e da devaça_, ao Barão D. Rodrigo seja levantada a menagem

sob que estava preso no Castello de Soure, e permittem-lhe _ir para sua

casa_.

Logo em seguida D. João III determina que venha para a Côrte _servir

o seu officio_. Isto é reintegra-o no lugar de Védor da Fazenda, que

exerceu até á morte, que succedeu em 1559. E não só lhe dá o cargo como

lhe restitue a privança.

Estão cheios de anecdotas comprovativas da intimidade entre o soberano

e o vassallo as paginas das chronicas e os _Apophthegmas_ de Suppico.

Querem ouvir dois?

«Ordenando El-Rei D. João III que se fizesse um livro, em que se

escrevessem todas as mercês que até então tinha feito, e se sommassem;

como soube que estava acabado, mandou que lh’o levassem, e juntamente

outro em que estavam registadas todas as mercês que El-Rei D. Manoel

seu pae fizera; e achando que até alli as suas valiam dobrado lhe disse

o Barão, que era um dos Ministros com quem El-Rei communicava aquelle

particular.

--«Não achará Vossa Alteza n’esse livro ter-me feito outra mercê mais

que só de um açôr.»

Respondeu-lhe El-Rei:

--«E o potro que vos trouxe o Almoxarife de Beja, sahiu bom?»

Entendeu o Barão o remoque e disse promptamente:

--«Senhor sahiu um sendeiro.»

De outra vez, refere o bom do Suppico, estando El-Rei em despacho com

o Barão d’Alvito e o Secretario Damião Dias se leu a petição de um

rendeiro que estava preso por 500 cruzados que devia á Fazenda. El-Rei

perdoou-lhe 300. O Barão mandou logo passar a Provisão d’essas partes

mas o Secretario entrou em duvida sobre a quantia, o que originou

disputa entre os dois magistrados. Atalhou então o Rei dizendo:

--«Pois que, cada um de vós me entendeu em differente fórma razão é que

me incline para a melhor parte». E perdoou tudo a esse homem.

Este pequeno episodio, se demonstra a generosidade de El-Rei, dá tambem

a medida da boa harmonia entre o monarcha e o seu Secretario das

Finanças.

Isto pelo que respeita á plena rehabilitação do pae.

Com referencia ao filho, D. João Lobo, accusado dos crimes de

diffamação, arrombamento, e outras acções feias praticadas em

detrimento da reputação da filha da Marqueza de Villa Real, sabemos que

nem sequer foi obrigado a partir para o degredo. E, se chegou a sahir

do Reino, voltou logo. Mas ainda melhor demonstra não só o perdão, o

apreço em que vieram a ser tidas as suas qualidades, o alvará de Abril

de 1560, que o nomeia por morte do seu pae, Védor da Fazenda com o

ordenado de cento e oito mil e trezentos e trinta e trez reaes, fóra os

emolumentos que deviam ser importantes.

Assentou, assim, como em chão de relva humida, a poeirada que o

episodio do estouvado D. João levantara.

Não é conhecido, já o dissemos, o destino que teve a ardilosa camareira

que, por espirito de intriga, ou de ganancia (_auri sacra fames_, que

ataca ainda os mais humildes) ou talvez por erotica paixão, teceu a

teia em que se iam enredando os Alvitos e a nobre Juliana.

D’esta é que sabemos como epilogou o romance.

Vamos a vêl-o.

* * * * *

Já contámos como o Duque de Aveiro se retirara rabugento para Setubal,

quando El-Rei lhe embaraçou a pretensão de casar com a filha do Duque

de Bragança e de casar sua irmã D. Helena com o Duque de Barcellos.

Foi tal o seu desprazer (diz D. Antonio Caetano de Sousa), deu-se por

tão sentido, que não cuidou mais durante a vida de seu pae em tomar

estado.

Os casamentos e os casos de amor fizeram por um capricho do destino

segregar muita bilis a este D. João de Lancastre, filho da gentil

«Perigosa», e do Senhor D. Jorge, aquelle que nascera num episodio

romantico de D. João II.

Na mocidade tivera a louca pretensão de se declarar casado com D.

Guiomar Coutinho, filha do Conde de Marialva, o que tantos dissabores

lhe dera. Depois fôra o desvairo de seu pae (e d’esse achaque não

estava então ainda curado) intentando, perto dos setenta, casar com D.

Maria Manoel mocinha de dezeseis annos, ao que elle Duque de Aveiro

tivera de se oppôr com uma energia que deu brado. Em seguida viera

a contrariedade de lhe impedirem a alliança com os Braganças. Agora

chegavam-lhe aos ouvidos rumores que misturavam o seu nome entre os

dos personagens do caso de Santarem.

--Que significaria esta atoarda? Perguntava a si proprio o Duque quando

no inverno de 1547 se achava em Evora convalescendo, (talvez do figado

combalido) e que El-Rei o mandou chamar a Almeirim onde estava a Côrte.

--Que lhe quereria El-Rei?

Até então nunca fôra Sua Alteza prodigo para com elle em graças,

intimidades ou bons dias.

E embora alguns biographos affirmem que El-Rei era inclinado ao Duque,

os factos tinham demonstrado o contrario.

Cumpria, porém, acatar as ordens do soberano.

Promptamente mandou selar o seu melhor troteiro, e ordenou que o

acompanhassem alguns officiaes e creados, seguindo logo os azemeis e

mulas bagageiras.

Pela estrada que corre da capital do Alentejo atravez a leziria até á

pittoresca Almeirim, D. João de Lancastre ia ruminando a natureza das

determinações de El-Rei.

Empreza militar?--Embaixada?

--Governo em Além-mar?

Porventura passava-lhe na mente a verdadeira causa da chamada.

Ter-lhe-hiam chegado aos ouvidos os echos das declarações de sua prima

D. Juliana perante os magistrados.

Zum-zuns indiscretos, talvez lhe tivessem trazido algumas palavras de

El-Rei...

Á medida que se approximava de Almeirim, atravessando a paizagem plana

dos campos de Muge, e quando lá ao longe via já recortarem-se na linha

do horizonte as torres de Santarem, ia elle cogitando no destino que o

esperava.

--Casamento? As ordens de El-Rei não se discutem. E d’ahi, talvez não

lhe desagradasse a ideia (quem sabe?) de transformar a appetitosa Villa

Real n’uma Duqueza de Aveiro.

Ia já nos 46 annos e a sua grande casa ameaçava não ter por elle

successão. Não lhe repugnava pois a espectativa de que El-Rei lhe

fallasse no assumpto.

O Palacio Real de Almeirim, fundado por D. João I, e que El-Rei

D. Manoel engrandecêra e alindára, já apparecia agora, n’aquelle

approximar de noite fria de inverno, como uma grande mole escura,

picada de luzes.

O Duque de Aveiro apeou-se á porta das casas que habitava o Arcebispo

do Funchal, e ahi ficou alojado.

Logo na manhã seguinte se avistou com os soberanos, e El-Rei, sem mais

preambulos, propoz-lhe para esposa D. Juliana.

D. João de Lancastre, Duque de Aveiro, não era um sonhador, um amoroso,

um poeta, nem tampouco um artista. Intelligente, sim. Escriptor mesmo.

Mas as suas obras denotam mais tendencias de erudição religiosa, que

sensibilidade perante o encanto feminino.

Entretanto (considerava de si para si) D. Juliana era formosa, e as

suas qualidades seduziam-no.

Não foi, portanto, constrangido que beijou a mão a El-Rei, agradecendo

o interesse na conservação da sua Casa; e referindo-se «á que elegera

para sua mulher, affirmou que nenhuma podia ser-lhe mais conveniente

que aquella que lhe insinuava.»

Este rasgo do cavalheiroso Duque abafou por completo as ultimas

murmurações dos soalheiros da Côrte.

Todos agora approvavam a determinação dos soberanos e a boa aceitação

do Duque, que logo se ficou em Almeirim, preparando as bodas.

Na presença d’El-Rei se fez o ajuste do dote, assignando-se o contrato

a 29 de Janeiro.

Não nos interessam os dizeres d’esse extenso documento, que contém

numerosos artigos e demonstra a grandeza dos personagens que se uniam.

Olhemos apenas para as cerimonias e festejos a que este consorcio deu

ensejo.

Quem nos vae guiar para assistirmos a essa festança é Braz Luiz da

Motta, um conego da Sé de Lisbôa, que foi testemunha de vista, e que

por isso escrevendo ao Cabido, a narrar-lhe as peripecias, se alonga em

pormenores que necessariamente temos que rezumir, embora com pena, por

serem interessantes.

Foi a 1 de Fevereiro de 1547, que Dom Nuno Alvares, tio da noiva,

a trouxe de Santarem em umas andas, especie de leito portatil ou

palanquim, conduzido por azemolas possantes. Hospedou-a em sua casa.

Logo no dia seguinte, o Infante D. Luiz, o Cardeal, muitos bispos e

toda a nobreza, montavam a cavallo, indo buscar o Duque de Aveiro á sua

pousada.

Vestia, segundo diz o conego, de panno preto tozado, pelote e capa

aberta, gorro de velludo com uma estampa, e um collar honesto. Montava

um cavallo branco, sendo conduzido entre os Principes ao Paço, em cujo

terreiro entraram, passando o arco. N’esse terreiro estava D. João III,

tambem a cavallo. Recebeu-o affavelmente, debruçando-se sobre o arção

da sella para lhe fallar.

A multidão era enorme e apinhava-se de tal fórma nos terraços, escadas,

galerias, e varandas, que se deram alguns episodios, entre comicos e

dramaticos.

Conta-nos o bom do Braz Luiz, que n’uma certa varanda e escada que

a ella dava accésso, a gente era tanta, e carregavam uns sobre os

outros com tal força, que o mainel d’essa escadaria rebentou, cahindo

a gente, uma sobre outra, de cabeça para baixo «e os que traziam más

calças descobriram as suas pobrezas, e os que as não traziam boas nem

más mostravam aquillo que Deus lhes deu». Entre os gemidos de uns que

sentiam as _cabeças esmechadas_, e a risota dos outros que tinham

presenciado o espectaculo da natureza, a que o conego se refere,

recolheram o Rei, o noivo e a Côrte á sala onde estava armado um

estrado sob o docel.

Quando alli chegou a Rainha, a futura Duqueza, e as damas, veiu o

Nuncio, que recebeu os nubentes.

Depois d’esta cerimonia começou o serão.

É difficil imaginar o que seria uma d’estas funcções na Côrte mais rica

e faustosa da Europa, para celebrar as bodas dos Duques de Aveiro,

ambos parentes de El-Rei. Nas paredes os Razes e as tapeçarias de

Flandres figuram scenas da antiguidade ou da mythologia. A luz macia

dos brandões, que os pagens, vestidos de côres garridas, empunham,

illumina as salas, povoadas da melhor nobreza. Brocados e sedas, e

pannos de ouro adornam as lindas portuguezas.

Fios de perolas entrançam-se nos seus cabellos, e nos afogadores

rutilam pedrarias custosas. Os purpoens e justilhos dos cortezãos

entrecruzam-se com as vestes prelaticias dos Bispos e do Nuncio.

A musica da camara, em que se fazem ouvir João de Badajoz e os Baenas,

Nicoláo de Estovar, tangedor de harpa, e os ministris mais habeis,

entôa uma marcha mesurada, ao som da qual começa o baile.

Dansam: El-Rei com a Rainha D. Catharina, grave e severa nos seus

velludos escuros; o Infante D. Luiz com a Infanta D. Maria, cuja

belleza loira, porte altivo e deslumbrante donaire attrahem todas as

attenções.

Não menos chamam a curiosidade os dois esposados, dansando juntos; ella

graciosa no curvar das reverencias, elle inclinando-se com cortezia nos

compassados movimentos.

E depois d’estes pares, os dos mais senhores da Côrte: as duas

Bocanegras--D. Maria, a camareira-mór, e D. Cecilia, a mais nova, D.

Maria de Menezes, D. Violante de Lemos, já edosa, que fôra dama da

Rainha D. Leonor, e, muito novinha, a seductora Catharina de Ataide,

pensativa, um pouco alheada, cuidando no seu poeta, e escondendo talvez

no seio aquelle retrato de que elle disse:

«Retrato vós não sois meu

Retrataram-nos mui mal,

Que a sereis meu natural

Foreis mofino como eu.»

Ella sentindo o contacto d’este retrato e suspeitando as perseguições

que ameaçavam o original, o moço Luiz de Camões, é possivel que errasse

os passos da _pavana_. Errava-os decerto, porém, com tanta graça, que

era um regalo dos olhos. Assim o sentiam todos, desde os Condes de

Portalegre, da Castanheira, da Vidigueira, e D. Affonso de Portugal,

filho do Vimioso, e D. Francisco de Mello, filho do Marquez de Ferreira

e muitos mais, até aos bobos e graciosos de El-Rei, que entre guinchos,

dichotes e chufas que atiravam a granel sobre as cabeças mais gradas,

não deixavam de celebrar a seu modo as bellezas femininas.

Eram esses bufões D. Fernando Roxas--_marmanjo-mór_, o Panasco, preto

creoulo, cujos ditos eram famosos, e eram D. Felix e D. Briando.

«Os truhões chocarreiros com guitarras

Que aplazen aos reis, aos principes, aos infantes.»

Ao dar das nove horas terminou o serão.

Acabavam cedo estas seroadas da Côrte. É que além de ser esse o

costume, cumpria n’essa noite ir accommodar o noivo na sua pousada,

bem como todos os assistentes, alguns dos quaes tinham vindo de longe

e para longe iam, afim de na manhã seguinte, logo ás 8 horas, estarem

prestes para se celebrar a missa pontifical, em que o bispo do Funchal

devia lançar as bençãos aos Duques de Aveiro. Eram complicadas as

fórmulas do Cerimonial Romano.

Foi longo o jantar, e só pela tarde se organizou a cavalgada que havia

de levar a nova recem-casada a casa do Duque seu senhor.

* * * * *

Occorre agora perguntar se os echos d’esta rija festa, levados pela

indiscreção de algum alviçareiro desastrado, chegariam ao retiro onde a

esse tempo se amofinava D. João Lobo, filho do Senhor de Alvito.

Vozes de orgão na capella real, charamellas, sacabuxas, trombetas e

atabales da fanfarra de El-Rei, o repicar festivo dos sinos das torres

de Almeirim, annunciando as bodas, talvez fossem n’esse Fevereiro

luminoso inquietar as vigilias do infeliz namorado.

Elle, no emtanto, tinha em si recursos para reagir contra as perrices

do destino.

Não se deixou succumbir.

Tempos depois, já desvanecido o sonho amoroso, casava com D. Leonor

Mascarenhas, filha do Capitão de Ginetes de El-Rei, e decorridos trinta

annos veiu a rematar heroicamente a sua existencia ao som clangoroso

das trombetas de guerra.

Entre estas duas datas a vida correu serena, e talvez feliz nos dois

casaes.

Neves de antanho · 第 20 / 44 题