SUMMARIO

Lua do mel--A primeira separação--Incursões na Galliza--Morte de Ruy

Mendes de Vasconcellos--Regresso a Coimbra--Doença do Rei--Partida

do Duque de Lancastre--Viuvez de Nun’Alvares--Projecto de ataque

a Melgaço--A côrte da Rainha é convidada a assistir--As duas

contendoras--Lucta de mulheres--Victoria de Ignez Negra.

Eram casados de pouco, quando foram obrigados a separar-se, porque as

exigencias da lide guerreira assim o impunham a El-Rei D. João I.

Em plenilunio de mel, a loura Filippa de Lancastre, affectuosa e

ternamente enlaçada no noivo, que a politica do pae lhe outorgára,

e a quem desde logo a sua alma se rendera, sentiu como que se lhe

arrancassem o coração, quando ficou assim, sósinha em terra extranha.

É certo que a rodeavam donas nobres, e cuvilheiras de qualidade,

mas todas eram portuguezas. É certo que a acompanhavam Prelados,

dignitarios, e doutores, gente de estirpe ou de consideração, mas pouco

de molde a saber consolar-lhe o animo saudoso.

Ainda houve, no momento da partida, uma voz que parecia interpretar o

seu sentimento. Era Gonçalo Mendes que exclamava:

--«Senhor! N’este Reino sohia de haver um costume de antigo tempo

que o homem no anno que casava, não havia de ir em guerra, nem ser

constrangido para ella. E vós que ha tão pouco que casastes o quereis

agora britar e vos ir fóra do reino?»

D. João I, porém, não era homem que a lua de mel edulcorasse

mollemente, nem que cedesse a exhortações de brandura emolliente.

Respondeu com sobrecenho: «que assim lhe cumpria por defensão da sua

terra, e fazer damno a seus inimigos.»

E arredou-se do Porto, penetrando em Castella, para ajudar o sogro na

sonhada conquista do throno d’aquelle reino.

Fruindo fortuna vária, mas sempre com arreganho, essa pequena hoste,

ainda rutilante da gloria alcançada em Aljubarrota, Atoleiros e

Valverde, atravessou o rio de Maçãs, entrando em terra inimiga.

Iam os dois condestaveis--Nun’Alvares, o de Portugal--e João de

Hollanda, (irmão do rei de Inglaterra), condestavel do duque de

Lancastre.

Na vanguarda caminhava o Prior do Hospital, D. Alvaro Gonçalves

Camello, emquanto que n’uma das alas montava soberbo Martim Vasques da

Cunha, que Mem Rodrigues na sua linguagem imaginadora dizia «ser tão

bom como D. Galaaz» o cavalleiro da Tavola Redonda. Acompanhava-o a

gente do mestrado de Christo, que levava em vez de bandeira, um grande

«prumão» ou pennacho de plumas, n’uma lança de armas.

Na outra ala luzia com garbo Ruy Mendes de Vasconcellos, sempre ardido

e desenvolto no commetter; Gonçalo Vasques Coutinho, «tão bom como D.

Tristão», e outros mais. Era na propria consciencia do bando heroico,

uma côrte d’esse novo--Rei Arthur, Flor de Lys--D. João I de Portugal.

Seguindo em imaginação a marcha da hoste na sua tarefa affanosa de

ataque, de conquista e de rapina, assistimos maravilhados á rude e

energica actividade d’este Rei de 30 annos, ao mesmo tempo severo e

lhano, audaz e cauteloso, prompto, e cruel até, em reprimir, mas

generoso no premiar, inexoravel com os delinquentes mas affavel,

familiar e bom camarada com os companheiros de armas.

Verdadeiro chefe, sabia mandar.

Perfeito Rei, na missão paternal, era o protector do seu povo.

E elle lá vae montado galhardamente, vestindo com elegancia, o loudel

de panno de sirgo branco com a cruz de S. Jorge, incitando uns,

gracejando com outros, e discutindo com Nun’Alvares a precedencia na

vanguarda, que este não queria ceder ao Duque de Lancastre...

Atacaram Benavente, tomaram Roales e Valdeiras, e cercaram Villa Lobos,

havendo aqui e além escaramuças, e correndo-se pontas, sempre com

brilho e lustre para a gente portugueza.

Desafiavam ás vezes os inimigos a combates singulares: agora um creado

do Condestavel, Alvaro Gomes, que «sem fraldão e bem desenvolto» deu em

terra com um castelhano seu contendor; logo Mamborni pelos portuguezes

e o francez Ruby pelos castelhanos; aquelle levando o bacinete sem

cara, este com dois calmaes e um gorjal, o que não lhe evitou ser posto

fóra da sella, tombando limpo no chão. Mais depois é a façanha de Ruy

Mendes que, sahindo da sua tenda sem armadura, e apenas com o escudo

no braço e lança na mão, dá caça aos castelhanos fazendo-os mergulhar

nas aguas turvas da cava. Essa imprudencia valeu-lhe uma reprehensão do

Rei, ao qual bem humorado e em tom de graça, o valente responde:

--«A la fé! Eu sou Rodrigo, tão bem las faço, como las digo.»

E logo adeante dá-se a escaramuça, junto a Castro Verde, d’este mesmo

Ruy Mendes de Vasconcellos, que foi attingido perto do hombro por um

virotão, que o feriu.

A scena é descripta tão pittorescamente pelo velho Fernão Lopes, que,

para não lhe tirar o sabor, a copiamos tal como ella apparece na

chronica:

«E como veiu á tenda e foi desarmado disse a aquelles que eram

presentes:

--«Por certo eu sou ferido d’herva.»

E os outros dizendo que não, elle aprofiando que sim, foram-n’o dizer a

El-Rei, ao qual pezou muito d’esto, e veiu logo alli por lhe tirar tal

imaginação esforçando-o que não era nada, respondeu elle e disse:

--«Senhor, eu ouvi sempre dizer que aquelle que ferem com herva, que

lhe formeguejam os beiços, e a mim parece que quantas formigas no mundo

ha, que todas as tenho em elles.»

--«Pois assim é, disse El-Rei, bebei logo da ourina, que é mui

proveitosa para esto.»

Elle disse que não beberia por cousa que fosse; El-Rei afincando-o

todavia, e elle dizendo que não, como mavioso senhor, com desejo de sua

saude, por lhe mostrar que não houvesse nojo, gostou da ourina e disse

contra elle:

--«E como não bebereis vós do que eu bebo?»

Elle não o quiz fazer por quanto lhe dizer poderam.

El-Rei vinha-o vêr cada dia duas e tres vezes, e ao terceiro dia

estando com elle fallando, dizendo-lhe muitas razões de esforço, elle

disse contra El-Rei:

--«Senhor, eu vos tenho em grande mercê vossas palavras e visitação,

mas entendo que em mim não ha senão morte...»

«El-Rei como ouviu isto, voltou as costas e sahiu da tenda com os olhos

nadando em lagrimas... e logo esse dia fez seu acabamento, de cuja

morte El-Rei e o Duque e todos os do arraial tomaram grande nojo e

tristeza...»

Poderá a nota naturalista da anecdota, no que se refere á pharmacopêa

medieval, provocar um sorriso de leve enjôo a alguma leitora menos

affeita á pratica das rudes tisanas emborcadas por nossos avós.

Mas ninguem se furtará a uma enternecida admiração, sentindo a grandeza

da scena.

Na barraca de campanha armada em terra inimiga jazia o bravo

batalhador moribundo, padecendo horrores, com os tormentos causados

pela lança que os toxicos violentos do _strophantus_ ou da

_digitallis_, haviam envenenado, e conhecendo estoicamente os symptomas

precursores da morte.

Junto ao catre improvisado, e de entre os companheiros de armas,

destacava-se D. João I, camarada nas pelejas e nos triumphos, com as

lagrimas bailando-lhe nos olhos, inquieto, ancioso, commovido a ponto

de não hesitar na prova do repugnante medicamento, que preconizava como

infallivel.

Elle ás vezes tão duro, que fazia lembrar seu justiceiro pae, n’aquelle

lance deixava humanamente revelarem-se requintes de sensibilidade.

Era esse punhado de heroes, cujos animos abrigavam não só as qualidades

brutaes e violentas, que levam á victoria, mas as delicadas dedicações

e devotadas amizades promptas para o sacrificio, que fazia exclamar o

Duque de Lancastre quando presenceava as suas façanhas:

--«Oh! que bom Portugal!

--«Oh! que bons Portuguezes!»

* * * * *

Quando, terminada aquella campanha, no fim do mez de Julho, El-Rei

vinha com a sua hoste de Guimarães pelo Porto em direitura a Coimbra,

onde então estava a Rainha, ao chegar ao Curval, pequeno povoado a meio

caminho das duas cidades, sentiu-se acommettido de doença.

_Dôr de quentura_, diagnosticaram os physicos, consultados sobre o caso.

«Que a doença parecia grave--acrescentavam;--que já tinham cahido

enfermos muitos dos homens de armas, com a mesma molestia, causada

talvez pelos excessivos calores da estação; e que era conveniente

avisar a Rainha.»

Partiu logo, a galope, uma estafeta sem parar até Coimbra, onde,

de visita a sua filha, se achava tambem o Duque de Lancastre. O

mensageiro subiu á Alcaçova, penetrou nas abobadas que levavam á sala

dos archeiros, e, offegante, descarregou-se do penoso recado.

Logo foi grande, e tão ruidoso, o borborinho nos Paços de Coimbra, que

chegou aos aposentos de D. Filippa, surprehendendo-a dolorosamente.

Longe de ser, como a alguns se tem affigurado, uma mulher fria,

fleugmatica, pedaço de gelo importado de Inglaterra, que o sol da

nossa terra não logrou derreter: longe de ser apenas uma creatura de

dever, forja geradora _de altos Infantes_, e rigida disciplinadora de

côrte, a loura ingleza, que tão grande missão veiu cumprir no mundo,

era amoravel, e ternamente devotada ao marido, que ella sentia «tão

concordavel ao seu desejo.»

Demonstram-n’o, além das palavras dos chronistas (talvez sujeitas a

reservas) o que é mais e o que é melhor, alguns factos que revelam a

sua indole carinhosa e meiga, a sua alma toda entregue ao homem a quem,

além de tudo, a ligava um sentimento de gratidão, pela preferencia que

lhe dera sobre sua irmã D. Catharina, mais nova, talvez mais formosa, e

com direitos, por sua mãe, a um throno--o throno de Castella.

Bem sabia ella que o Rei não a escolhera por amor, pois D. João I,

entendendo que pretender esse throno para si, seria um perigo para

Portugal, optara pela solução mais convinhavel á sua politica.

Entretanto era certo ter sido ella a eleita. E as mulheres nunca são

indifferentes a uma preferencia. Além d’isso, o coração não carece de

razões para se decidir.

Gosta-se, porque se gosta!

E porque a loura Rainha recem-casada adorava o marido, apenas o soube

doente determinou partir.

Não attendeu a pedidos, exhortações, e supplicas para que desistisse de

commetter tamanha imprudencia.

O verão corria abrazador e doentio (diziam-lhe) os caminhos eram

asperos, e as mulas facilmente tropeçariam nos corregos pedregosos

dos montes até ao Curval. Uma queda desastrosa podia ameaçar, e

até destruir a esperança de um herdeiro, que se ia annunciando

propiciamente. A nada cedeu.

Conselhos do pae que com a sua voz arrastada, mas persuasiva insistia,

sensatamente, rogos das damas, representações dos physicos e dos homens

sisudos, tudo foi inutil para a demover.

Organisou-se prestes a caravana.

Donas, aias e camareiras, besteiros portuguezes e alguns archeiros

inglezes, prepararam-se sem demora para a abalada.

Com infinitas cautelas accommodaram as andas que haviam de transportar

a Rainha, e não tardou que a cavalgada se puzesse em marcha, caminhando

todos em silencio, e ruminando cada qual pensamentos inquietadores.

A Rainha, por um phenomeno frequente nas almas alvoroçadas com

a approximação da desgraça, recordava os tempos da sua ephemera

felicidade. Rememorava as bodas ainda recentes, com os festejos,

justas, danças e trebelhos. Revia o cortejo sahindo do Paço Episcopal

do Porto, através das ruas atapetadas de «verduras e cheiros». Olhava,

com os olhos d’alma, a figura do seu noivo, que se lhe affigurava um

archanjo, montado n’um cavallo branco em pannos de ouro, junto ao

d’ella, que era levado de redea pelo Arcebispo. Escutava o echo das

trombetas, das pipias e das musicas, que se casavam com as acclamações

da multidão em delirio.

Relembrava a sala do banquete com as mesas _mui guarnidas_ em volta das

quaes se sentavam os bispos, os fidalgos, os burguezes do logar, donas

e donzellas do Paço e da cidade. E repassava, commovida na memoria a

scena dos prelados á luz das tochas, benzendo o leito nupcial.

Depois, era a primeira separação tão custosa ao seu affecto, mas em que

o via partir são, forte, todo entregue á ancia de batalhar...

E agora?...

Agora era uma onda de amargura levantada no coração pelas más novas;

era o receio do que iria encontrar; era a ameaça do destino que lhe

afogava a garganta; era o prognostico de um sortilegio sinistro que

lhe opprimia as entranhas, em que se estava gerando o futuro Rei de

Portugal.

O Duque de Lancastre, aparentando mocidade, apezar dos seus sessenta e

tantos annos, ia tambem apprehensivo, embora desfarçasse a perturbação

que lhe trazia ao animo tantas interrogações inquietadoras.

Até que ponto a morte provavel do genro alteraria a situação, e

perjudicaria o exito das suas ambições?

Aos espiritos de todos os outros que acompanhavam a Rainha affluiam

semelhantemente incertezas afflictivas.

Em alguns, (almas generosas, incondicionalmente devotadas ao Rei,)

dominava a angustia e o receio de o perderem, sem a mistura de outro

sentimento.

Outros pesavam dentro em si, n’aquella balança de egoismo, inseparavel

da natureza humana, os prós e os contras que um desenlace funesto

traria ás conveniencias proprias. E o interesse, a principal força

determinante das acções dos homens, segredava-lhes perfidamente

soluções diversas para o seu proceder ulterior.

Se a creança nascesse viavel, quem seria o Regente na menoridade?

Se, porém, a Rainha não désse á luz um herdeiro a quem iria de vez o

governo do Reino?

Do lado de Castella redobrariam as pretenções!...

O rancho conturbado caminhava silenciosamente, sob a oppressão de

agourentos presagios.

Chegaram ao Paço do Curval. Alli, o estado do Rei não era de molde a

tranquillizar, ou desfazer cuidados.

Quando a Rainha e o Duque seu pae viram o enfermo, vencido pela febre

«tão fraco e sem esforço que adur lhe podem fallar, ficaram nojosos e

tristes».

Os cirurgiões interrogados temiam que a prostração em que a _quentura_

deixára o Rei o levasse em pouco. Ouvindo isto, a desditosa Rainha,

atormentada, e exhausta com a violencia da jornada e das commoções,

sentiu que alguma coisa se despedaçava dentro em si... e moveu uma

creança.

Com este parto prematuro e desastrado, iam-se todas as alegres

esperanças, desmoronava-se o edificio da sua felicidade sonhada, e...

(cousa rara na vida) da sua felicidade realizada.

Via-se sósinha, casada de pouco em terra extranha, fallecer-lhe logo

assim tudo o que a fortuna lhe trouxera «e bem se tinha por mal

aventurada entre as mulheres do mundo». Chorava, pedindo á morte que a

levasse primeiro.

Na Camara proxima, onde os lamentos da Rainha, por serem energicamente

suffocados, não chegavam, o Rei, conscio do seu estado, tomava

providencias.

Mandava chamar o Condestavel, agora ausente no Alemtejo. Fazia

testamento. E dispunha-se a morrer perdoando a alguns fidalgos que

mandára, tempos antes, encarcerar.

Era solemne o momento. A Rainha, receiosa de que a morte lhe roubasse

o marido, como lhe roubára o filho, levantou-se e, embora gravemente

combalida, arrastou-se até ao quarto onde o Rei agonizava.

Não sabia reter as lagrimas. A voz embargava-se-lhe na garganta.

Olhava-o, sem articular uma palavra, tomada d’aquella ancia com que nas

occasiões decisivas tentamos arpoar um vislumbre de esperança.

Comtudo os olhos do Rei, semi-cerrados, e a sua respiração offegante

não permittiam illusão!...

Então aquella mulher, a quem o destino parecia ter talhado uma tão

radiante missão, sentiu-se miseravelmente infeliz, e cahiu junto á cama

do moribundo n’uma convulsão de choro, implorando a protecção de Deus e

da Virgem Maria.

Assim se conservou largo tempo...

Pelas janellas entreabertas ouvia-se de quando em vez o carpir do povo,

sempre exhuberante nas manifestações do seu sentir. Os lamentos da

multidão, impressionada com os presumiveis sinistros casavam-se com as

preces roufenhas dos sacerdotes, e com os soluços da Rainha.

Sentia-se o destino da Nação suspenso por um fio...

A autonomia de Portugal dependia de um alento d’aquelle homem,

estendido n’um catre estreito, junto do qual o vulto de D. Filippa

continuava rezando...

Passaram horas...

Como se a mysteriosa acção das préces, e o esforço superhumano

d’aquelle coração de mulher posto n’um só affecto, operassem mais

efficazmente que as drogas ministradas pelos physicos, o arquejar

do robusto arcabouço foi-se tranquillisando, os olhos começaram a

descerrar-se, e o enfermo entrou a renascer para a vida...

Estava salvo D. João I!

* * * * *

Foi do Curval convalescer a Coimbra, onde a Rainha tambem se libertou

do pezadelo que lhe opprimira o animo. Recomeçou para os dois o idyllio

interrompido.

De breve dura, porém, havia de ser o repouso, que nem D. João I era

homem que se deixasse ficar em lazer descuidado, quando tantos negocios

lhe sollicitavam a attenção.

Cumpria despachar o sogro que começava a ser um estorvo sério, e cuja

empreza ia perdendo probabilidades de exito. Cumpria reunir Côrtes

para a resolução de alguns negocios de Estado. Cumpria caminhar sobre

Melgaço, unica praça que no Minho ainda conservava voz por Castella.

Foi resolvido partir logo, de Coimbra para o Porto, onde El-Rei e a

Rainha, que o acompanhava, despediram o Duque de Lancastre e a sua

reduzida hoste, que, em seis galés, n’uma clara manhã de fins de

Setembro largou de foz em fóra, para Bayonna, então ingleza.

Desembaraçado assim do hospede, e aviados outros assumptos, que se

antolhavam urgentes, dirigiu-se D. João I para Braga a reunir as Côrtes.

Foi durante ellas que D. Nuno Alvares Pereira, o Condestavel, teve

noticia da morte de sua mulher. Correu ao Porto onde ella fallecera,

fez-lhe exequias solemnes, mandou a filhinha para Lisboa á guarda da

Avó--Iria Gonçalves--e, arrumadas assim as cousas domesticas, voltou

para Braga onde o reclamava o interesse do Estado, verdadeiro fulcro do

seu espirito.

Negocio de Estado era tambem por certo e de alta importancia para D.

João I, essa viuvez de Nun’Alvares.

Grande conchavador de casamentos, até mesmo sem audiencia prévia dos

interessados, El-Rei resolveu logo, de accôrdo com a Rainha, casar o

seu Condestavel com D. Beatriz de Castro, filha do Conde D. Alvaro

Pires, «uma donzella assaz formosa e bem filha d’algo». Proxima parenta

da linda Ignez, _collo de garça_ possuia porventura o mesmo poder de

encanto que seduzira o Rei D. Pedro. Este viuvo, porém, era pouco

susceptivel de se deixar captivar com graças femininas.

Avesso por indole ao tracto conjugal, não lhe soffria tambem o animo

independente aquella imposição de um consorcio, assim improvisado.

Resistiu bisonhamente,--ao Rei com uma simples negativa; á Rainha, pela

qual professava um respeitoso affecto, respondeu esquivamente:--«Para

offerecer a D. Brites os braços, era preciso que estivessem desarmados

e não convém ainda lançar a espada.»

Excusa de guerreiro! Sentir de monge!

Desobrigado assim, e livre da teia em que podia ser enleiado, levantou

vôo para entre Tejo e Guadiana, onde a fronteira estava ameaçada.

D. João I conhecia o seu irmão d’armas. Era inutil insistir, podendo

até qualquer teima provocar alguma d’aquellas desavenças, que entre os

dois ás vezes surgiam.

D. Beatriz, se acaso edificára n’aquelle terreno o castello da sua

felicidade, viu-o desfeito em nevoa, antes mesmo de o habitar. E

continuou, (até que ao deante levou outro destino) a ser ornamento

na Côrte de D. Filippa, acompanhando-a como as outras na jornada que

logo El-Rei emprehendeu sobre Melgaço, e onde por certo foi das que

mais applaudiram a aventura da aguerrida _Ignez Negra_, que logo vamos

presencear.

Compunha-se a casa da soberana de nobres senhoras que El-Rei puzera ao

seu serviço. A ella pertenciam: como aia e camareira-mór D. Beatriz

Gonçalves de Moura viuva de Vasco Fernandez Coutinho, senhor de Liumil,

e como damas a filha d’esta, Tareja Vasques Coutinho, viuva do filho

do Conde D. Gonçalo, e, portanto, cunhada de Leonor Telles; a irmã

d’aquella, Leonor Vasques, que depois casou com D. Fernando, que

chamaram de Bragança, filho do Infante D. João; D. Biringueira Nunes

Pereira, prima do Condestavel e filha de Ruy Pereira, que morrera na

peleja das náos ante Lisboa; e ainda outras que formavam um luzido

batalhão volante, n’esse cortejo que ia assistir ao mais typico

episodio d’aquella épocha.

D. João I preparava-o adrede para mostrar á Rainha como se assediava

uma praça, e para exhibir perante a sua côrte, a valentia dos homens

d’armas, que vinham consolidando a independencia do Reino.

Era uma genuina galanteria de guerreiro medieval, esse desejo de

fazer assistir a fina flôr da Côrte feminina ao rude embate dos seus

besteiros contra a fortaleza rebelde. E era ao mesmo tempo um poderoso

incitamento para a hoste, esse torneio revelador da arte, da dextreza,

e do valor com que se pelejava.

Era tambem uma vistosa parada de forças combatentes perante os olhares

mulheris, o mais aguilhoante estimulo da cavallaria gloriosa.

Era, finalmente, uma _ala de namorados_ de nova especie, batalhando em

frente de suas damas.

Era, em resumo, uma phantasia de heroe!

Marchou a numerosa comitiva de Braga para Monsão, onde D. Filippa foi

acampar, indo logo a seguir ao mosteiro de Santa Maria de Fiães, perto

de Melgaço. Acompanhavam-n’a João das Regras--o Doutor, João Affonso de

Santarem, e ainda outros lettrados e jurisperitos, mais exercitados no

manejo das Pandectas e das Institutas, que no brandir das espadas e dos

arremeções.

* * * * *

Corria o mez de Janeiro de 1388. As chuvas tinham ensopado os campos.

A payzagem minhota, tão festiva de cambiantes durante o verão, com

os seus soutos de castanheiros florentes; com as suas videiras de

enforcado enroscando-se nos troncos e ensombrando os pateos das

habitações; com os fétos de franjas recortadas, adornando as sebes;

com as heras e musgos revestindo os penedos graniticos; com o velludo

esmeraldino das nogueiras, e as folhas bicolores das filias opulentas;

com a pradaria clara rindo alegremente na voluptuosidade das regas

abundantes; toda essa symphonia de verde, executada a grande orchestra,

sob a regencia de um sol brilhante, que vivifica o torrão; que se

reflete nas lantejoulas de feldspatho e de mica, que atapetam os

caminhos como pó de diamantes, e que dá a essa região o geito de um

sorriso da natureza; essa payzagem apresentava n’aquella quadra do anno

a physionomia rabujenta de uma creança amuada.

O inverno ia rigoroso. As chuvas tinham engrossado as levadas e

avolumado os regatos, difficultando a marcha da hoste guerreira, e os

movimentos da comitiva real. Por isso o sequito proseguia lentamente,

mas sem desfallecimento.

O tropear dos cavallos e dos machos sobre o lagedo da estreita

estrada romana, que segue de Monsão a Remoães, e d’ali á aldeiazinha

do Prado, galgando os rios com a ponte do Mouro e a ponte da Folia

(duas reliquias de eras já idas), que as urzes e as heras enfeitavam

com garridice; o vozear dos homens de armas; as exclamações e gritos

femininos; e as pragas rouquenhas dos moços bagageiros e conductores de

equipagens, alvoraçavam a gente do campo.

Aqui e além deparavam-se n’uma volta do caminho povoações ou casas

isoladas.

E do fundo escuro dos estreitos postigos, perfurados nos rusticos

tugurios de pedra cinzenta, debruçavam-se bustos de mulheres com olhar

curioso. De sobre os muros, cabeças hirsutas de camponezes olhavam

embasbacados os comboieiros de munições, e pasmavam para as hacaneas

em que cavalgavam as donas, as aias, as creadas e as crystaleiras.

Dos cancellos surdiam garotos a misturarem-se na comitiva, mendigando

sobejos dos farneis; emquanto bandos de gallinhas e de patos fugiam

espavoridos da perseguição da soldadesca, que dissimuladamente tentava

deitar-lhes a mão, na expectativa de uma ceia restauradora.

E a extensa comitiva colleando pelos caminhos do valle deixava á

esquerda os montes levemente ondulados de Galliza a padrasto do rio

Minho, e começando a subir a encosta, que vae ao Prado, avistava já a

senhoril Melgaço com a sua torre tão nobre a destacar-se sobre o verde

escuro dos pinheiros de Bouças.

A Rainha com a sua côrte, contornando Melgaço, foi aposentar-se no

opulento mosteiro de Fiães, onde os oitenta monges benedictinos, com

o Dom Abbade á frente, a vieram receber fidalgamente na avenida que

conduzia á portaria do convento.

El-Rei D. João I, ficou com as suas mil e quinhentas lanças, afóra a

gente de pé, no campo a nordeste de Melgaço, onde logo ordenou que se

assentasse o arraial.

Armaram-se as tendas em que pousaram, além do soberano, o Prior do

Hospital, D. Alvaro Gonçalves Camello; D. Pedro de Castro, que havia

pouco abraçára a causa de Portugal; João Fernandes Pacheco, (filho de

Diogo Lopes, assassino de Dona Ignez), de quem Mem Rodrigues dizia ter

as qualidades de Lancelote do Lago, e muitos outros capitães e senhores.

Tudo se preparou para a arremetida.

Melgaço, dentro das fortes muralhas em que D. Diniz envolvera a

quadrada torre affonsina guarnecida de dentes que mordem o céo, era

defendida por Alvaro Paes de Souto Maior, e Diogo Preto Eximeno, que

tinham trezentos homens de armas e muitos peões.

Além da gente de guerra era a pequena villa povoada por moradores

pacificos, cujas familias habitavam as casinholas de granito, com

pequenas escadas exteriores, de poucos degraus, e um varandim, que

formavam junto à parte interna das muralhas estreitos arruamentos.[1]

Entre as familias que n’esse fim do seculo XIV se acoitavam n’aquelles

habitaculos, havia a de uma portugueza a quem, por se ter bandeado com

os castelhanos, tinham dado a alcunha da _Arrenegada_.

Era esforçada. Era o que o povo chama uma _refilona_ e, como todos os

_renegados_, odiava figadalmente os seus antigos compatriotas.

Fervia-lhe o sangue em cachão com o presencear, do alto das muralhas,

os preparativos do campo portuguez. Ardia em furia e ancia de

arremetter ella propria. E não foi extranha aos primeiros lançamentos

de trons contra os nossos.

Assistiu tambem inquieta e fervilhante ás primeiras escaramuças,

rejubilando logo que viu que, com uma setta, fôra ferido Pero Lourenço

de Tavora, um portuguez do arraial. Era uma verdadeira virago, mais

aguerrida que muitos dos seus camaradas castelhanos.

Durante nove dias houve tiroteio sendo lançadas contra o arraial

sessenta pedras de trons, ao que do lado portuguez foi correspondido,

não havendo grande damno de parte a parte.

Resolveu-se então El-Rei a mandar armar em cima da ponte da villa,

um engenho, com que os sitiantes arremessavam muitos projecteis que

destruiram algumas casas e caramanchões de Melgaço.

Ao mesmo tempo mandou que nas immediações se cortasse madeira, e

se acarretassem materiaes para se construirem duas escadas e uma

_bastida_, formidavel machina de guerra sobre rodas, de temeroso

effeito contra as praças fortes.

Descreve Fernão Lopes minuciosamente essa _bastida_, muito larga de

roda a roda, e de _padral_ a _padral_; com os seus tres sobrados

madeirados de pontões, para serem guarnecidos de homens de armas; com

estrados de mui grossos caniços para se andar por cima; com escadas de

alçapão e nos pontões superiores, tres mil pedras de mão, que mandaram

apanhar pelas regateiras. Havia tambem _trebolhas_ cheias de vinagre

para evitar o fogo, e seis grandes caniços forrados de carqueja, assim

como vinte e quatro couros verdes de boi para guardar o fogo que viesse.

Era um rudimento do moderno _Tank_; era o precursor d’essa machina de

guerra, que nos campos da Belgica está actualmente exercendo a sua

terrivel acção devastadora.

Ésta de D. João I, que levou quinze dias a construir, era mais

modesta e de mais acanhados recursos. Mas o seu effeito, ainda antes

de manobrar, foi efficaz, pois os de dentro, que assistiam aterrados

á fabricação do apparatoso engenho, apressaram-se a pedir treguas,

propondo que João Fernandes Pacheco conferenciasse com Alvaro Paes.

Por mandado de El-Rei chegou-se o Pacheco á barbacã, e de dentro,

encostado ao muro, fallou-lhe o commissario castellão. Longo espaço

de tempo durou esta conversação entre os dous guerreiros arvorados em

plenipotenciarios. E emquanto elles fallavam, assediados e assediadores

suspenderam as investidas, acudindo ao animo de uns, (os mais

pacificos) esperanças de uma concordancia; refervendo no de outros (os

mais belicosos) desejos impacientes de recomeçar a pugna. D’estes o

mais irreprimivel era o da _Arrenegada_ que ardia em sanha. Sabendo

que os dous chefes não se tinham accordado resolveu então provocar um

combate singular, pois sabia que entre a gente do arraial se achava um

contendor digno d’ella.

Era uma mulher d’aquella região, a quem chamavam _Ignez Negra_.

Negra por appellido de familia? Talvez!

David _Negro_ se chamava o rabbi de Castella que urdiu o enredo contra

D. Leonor Telles. E Affonso Pires--o _Negro_--era o escudeiro de

Nun’Alvares na vespera de Valverde.

Familias com o nome de _Negrão_ e _Negreiros_ tem havido em Portugal,

pertencendo á primeira, no seculo XVIII, o poeta da Arcadia--_Almeno

Sincero_.

Ou, seria antes a nossa Ignez, negra, porque a sua pelle exageradamente

trigueira, como a da _Sulamite_ do _Cantico dos canticos_, (_nigra sum

sed formosa_) contrastasse com a das suas conterraneas, quasi todas

alvas, de olhos claros e cabellos aloirados, revelando a origem celta

das nobres raças?

A iconographia portugueza é assás pobre. E, se nos faltam retratos de

tanta figura predominante, não é maravilha que a galeria das mulheres

illustres careça de qualquer documentação ácerca das feições da

modesta, mas valente portugueza dos arredores de Melgaço.

Figuramol-a, porém, por artificio de imaginação, com encrespado cabello

da côr do seu appellido; olhos igneos como o seu nome de Ignez; a pelle

acastanhada, adusta e curtida pelo mordente sol dos campos, na ceifa.

Magra, musculosa e com farto buço a atapetar-lhe o labio superior.

Peito chato como o das amazonas. Typo levemente aciganado e plebeu, mas

não destituido de encanto. E no seu todo o interesse que provoca sempre

uma personalidade fortemente accentuada.

Visitando a casa onde segundo a tradição ella habitou depois da

sua proeza,--a Venda da Angelina--(hoje um predio modernizado),

ou percorrendo as ruazinhas estreitas que descem até á porta de

D. Affonso, encontrámos algumas moradoras ao soalheiro, que, por

comparação retrospectiva, nos ajudaram a recompôr uma effigie da Ignez

Negra, porventura sua remota parenta. Devia ser assim como a evocámos!

Quando lhe chegou aos ouvidos o desafio da _Arrenegada_ acceitou

prazenteiramente o repto.

* * * * *

Entretanto El-Rei enviára á Rainha recado para que viesse. Os engenhos

estavam concluidos, e quasi aplanado o caminho pelo qual se devia fazer

rodar a bastida e encostal-a ás muralhas.

É possivel que o mensageiro annunciasse tambem no Mosteiro de Fiães,

onde D. Filippa se achava, o desafio entre as duas mulheres de Melgaço.

E isso seria certamente escutado com curiosa attenção pelo mundo

feminino que rodeava a Rainha. Ávidas deviam estar por certo as suas

damas e cuvilheiras, de distracções e recreios, tão escassos n’aquella

solidão.

E logo entre o mulherio quantos commentarios sobre o projectado duello!

Nas velhas, altos escarcéos, e motivo para ralharem de tão descomposta

escaramuça. Nas novas, grande jubilação com a espectativa de commoções.

Por isso quando n’aquella manhã do principio de Março a Rainha, com a

sua Côrte, se apromptou para descer de Fiães a Melgaço, eram agitadas

as discussões acerca do projectado combate.

A primavera annunciava-se promettedora. O ar gelado da manhã befejava a

pelle do rosto das senhoras, que, ao montarem se embuçavam friorentas

nos seus manteus e biocos.

Na descida, quasi a pique, da ingreme ladeira, que durante uma hora

percorreram, caminhando pelos carreiros do monte escalvado, algumas das

bôas donas iam só attentas ao perigo, que offerecia o marchar hesitante

dos cavallos sobre os pedregulhos das veredas agrestes.

E quando as facas em que iam montadas punham o pé com menos segurança,

o que trazia a imminencia de um tropeção, ouviam-se exclamações

afflictas das mais timoratas, provocando risadas escarninhas entre

as resolutas. Outras olhavam maravilhadas a paysagem deslumbrante, o

panorama das extensas ondulações que formam o berço delicioso em que se

espreguiça voluptuosamente o rio Minho.

Além á esquerda os montes de Pernidêllo, em cuja verdura se aninhava o

conventinho de Paderne. Mais ao largo Monsão, a patria de _Deu-la-Deu_.

E, como a manhã era clara, lá muito ao longe, quasi se distinguia a

nobre Valença. Para a direita inferiormente, e já em terra extranha,

as pequenas povoações gallegas tão maneirinhas... que appetecia dal-as

como brinquedo a uma creança!

A maior parte, porém, da comitiva só tinha olhos para a villa de

Melgaço, alli em baixo com a sua airosa torre quadrada, que uma corôa

de ameias enfeitava, e para a povoação em redor d’ella, mettida nas

faixas das muralhas defensoras, promettendo um espectaculo attrahente,

quando se rendesse á força, como femea dominada pelo seu legitimo

senhor.

Por de fóra d’essa muralha estendia-se em arruamentos de tendas de

campanha o arraial portuguez, sobresahindo a barraca elegante tomada

em Aljubarrota aos Castelhanos, que já servira em Ponte de Mouro para

firmar a alliança ingleza. E, informe, como um animal antediluviano,

destacava-se a medonha bastida, prompta a atacar.

A comitiva da Rainha continuava a sua marcha descente. O caminho agora

começava a estreitar-se entre muros e sebes avivadas de silvados

e plantas agrestes, e tão apertado que mal cabiam a dous de fundo

todos os do acampamento, sendo difficil a passagem quando de frente

encontravam um boisinho barrosão de hastes enormes, ou as récuas de

mulas que levavam provisões ao convento. Esse corredor serpenteante

(quasi escadaria) de mais de meia legua, desembocava abruptamente

em pleno acampamento. N’este, o Rei que logo veiu receber a Rainha,

começou explicando o modo de arremetter, e como se realizaria a

escaramuça entre as duas mulheres.

Na Côrte dos Valois, perto de trez seculos depois, em plena Renascença,

os combates singulares, antigo _julgamento de Deus_, tornaram-se

solemnidades quasi festivas, que chegariam ao apogeu de brilho no

celebre torneio em que Jarnac, o favorito da Duqueza d’Etampes,

jarretou o pomposo Châtaigneraie, defensor de Diana de Poitiérs, na

liça rutilante de St. Germain, sob os olhares do Rei, da nobreza, e de

todas as summidades da França.

Aqui, porém, n’esse final do seculo XIV, e n’este canto da Peninsula,

as escaramuças, perante uma côrte mais guerreira, que polida, mais

austera que licenciosa, se não tinham o esplendor das ceremonias

theatraes que deslumbram, não eram menos impressivas, ou menos

importantes os seus resultados.

Pelo contrario. Na Côrte de Henrique II digladeavam-se dois adversarios

para liquidarem uma intriga de alcôva.

No arraial de D. João I batiam-se duas mulheres, disputando a honra de

dous exercitos, empenhados em fixar a fronteira do Reino.

N’essa manhã do começo de Março em que a _Arrenegada_ sahiu pelo

postigo da fortaleza, para vir defrontar-se com a sua competidora

_Ignez Negra_, todos de um lado e outro se dispuzeram a presencear o

espectaculo d’esta pugna de nova especie, a que deram fóros de combate,

e que a chronica regista com a designação honrosa de _escaramuça entre

duas mulheres bravas_. Bravas no sentido de valorosas, e bravas na

acepção de ferinas.

Os de dentro subiam aos parapeitos das cortinas e bastiões,

debruçando-se curiosos. Os do arraial formavam circulo em volta das

luctadoras, saudando com vozearia carinhosa _Ignez Negra_ a portugueza,

e enchendo de vaias e apupos a desnaturada castelã.

As almas tambem têm sexo, como os corpos. Assim se aclaram, quando

a natureza as troca, tantos casos inexplicaveis, tantas anomalias

flagrantes--homens mulherengos, mulheres viragos.

Nos corpos d’estas duas moravam almas de luctadores valentes, herdadas

talvez de seus avoengos; dos que em eras remotas haviam ajudado a

expulsar da Peninsula as raças invasoras.

Foi logo impetuoso o primeiro embate das justadoras. Com furia, com

sanha, com rancor atiraram-se uma á outra sem mais armas do que as

unhas, com que reciprocamente rasgavam as carnes, e os dentes com que

se esfacellavam. Atropellando-se, arrancando os cabellos, afogando-se

nos fortes braços nervosos, derrubando-se alternadamente na lucta;

ensaguentadas, esfarrapadas, e rugindo como feras prolongaram durante

minutos a encarniçada peleja.

Davam mais a impressão de dois monstruosos animaes ennovellados em

trapos, cabellos e sangue, que de duas mulheres humanamente construidas.

O drama começava a abalar o animo ainda dos menos susceptiveis de

soffrer commoções, quando a _Arrenegada_, ou porque tivesse menos

elasticidade nos musculos que _Ignez Negra_, ou porque o espirito dos

que renegam crenças e opiniões é sempre menos resistente, entrou a

fraquejar, cahindo logo desfallecida.

Então Ignez, que a supplantára, foi gloriosamente levada em triumpho e

saudada com acclamações, ao som de trombetas e charamellas festivas.

* * * * *

Alguns escriptores, seduzidos pela idéa de attribuir a este episodio o

resultado da empreza, outros, copiando aquelles, (o que é pecha vulgar

em quem não se dá grande trabalho nas investigações) affirmam ter sido

decisiva para a entrega do castello a pugna entre as duas mulheres.

Phantazias!

A verdade é que, se este duello animou e excitou a coragem dos

Portuguezes, foi só d’ahi a horas, na manhã de segunda-feira, trez de

Março, que a praça se rendeu pela acção dos nossos guerreiros e poder

dos engenhos.

Conta-o Fernão Lopes fazendo-nos assistir ao movimento da bastida sobre

as suas rodas, avançando dezoito braças; depois á escalada dos que

«se chegavam tanto á Villa que punham um pé no muro outro na escala»,

atirando-se, primeiro que todos, o Prior do Hospital.

A peleja foi feroz. Dez homens no mais alto estrado levavam pedras de

mão que arremessavam aos de dentro, (como agora se arremessam granadas)

emquanto outros se atiravam ao muro com grossos páos.

De cima choviam pedras e fachos incendiados de mistura com imprecações

e insultos («desmesuradas palavras») que assanhavam o animo de D. João

I.

Por isso, o Rei assomado e iracundo, quando os de dentro, reconhecendo

a propria inferioridade, pediam novamente treguas, recusou qualquer

avença e resolveu continuar o assedio á viva força.

Então João Rodrigues de Sá, _o das Galés_--voz sensata--alvitrou que

era de bôa politica acceitar a capitulação. D. João I, brutalmente,

retorquiu:

«Quem medo houver não vá na escala.»

Subiu uma onda de sangue ás faces do guerreiro, que tinha ainda frescas

as quinze cicatrizes de feridas, que recebera quando foi do ataque das

Galés na Ribeira de Lisboa. E resentido respondeu:

--«Eu, Senhor, não sei se dizeis vós isso por mim, mas cuido que nunca

me vós a mim por tal conhecestes.»

E o Rei, cahindo em si, pois que n’elle estes assomos de colera eram

logo dominados pela força calmante da razão, emendou:

--«Nem eu não o digo por vós. Mas digo-o, porque os hei já por tomados.»

Dividiam-se ainda as opiniões. Uns queriam continuar o assalto,

na esperança de farta preza. Outros seguiam o alvitre razoavel do

ponderado Sá, com o qual o Rei concordou afinal, enviando o Prior do

Hospital a acceitar a preitezia e estipular as condições.

Foram todas acceites. Não só entregariam a villa e castello a El-Rei,

mas obrigavam-se a sahir da fortaleza _em gibões sem outra cousa_...

Assim foi. No dia seguinte, o rapazio foi apanhar feixes de varas

verdes, e cada um dos que pela porta do castello ia sahindo era, por

escarneo, obrigado a empunhar um d’esses ramos.

Alguns mordiam-se de raiva pela humilhação imposta.

Houve até um escudeiro fidalgo que, fincando os joelhos em terra, pediu

a El-Rei que lhe entregasse as suas armas e lhe poupasse a deshonra, ao

que D. João I galhardamente accedeu.

Outros, comtudo, com riso forçado, e levemente alvar, como gracejando,

tomavam o expediente «por sabor» de dizer aos garotos que lhes davam as

hastes verdes:--«Ai, rogo-te ora que me dês uma bem direita e bôa».

Não ficou nenhum! Quando na quinta-feira seguinte, depois de cincoenta

e trez dias de assalto, o castello e villa de Melgaço foram entregues

a João Rodrigues de Sá, para governar; e quando El-Rei e a Rainha

retiravam festivamente com a sua comitiva em direitura a Monsão, do

alto da muralha, que olha para noroeste, um vulto de mulher (segundo

reza a tradição local), empunhando a bandeira gloriosa das quinas,

agitava com ufania esse pendão redemptor.

Era _Ignez Negra_ a batalhadora, imagem symbolica das energias

femininas, proclamando assim a victoria que consolidava de vez a

fronteira no extremo norte de Portugal.

Se Aljubarrota tem a illustral-a pittorescamente Brites de Almeida,

a denodada padeira, e a sua lendaria proeza, não é menos digno

de registo, no livro de ouro da epopéa joannina das luctas pela

independencia, o feito mais authentico e mais significativo de _Ignez

Negra_ a heroina de Melgaço.

Neves de antanho · 第 11 / 44 题