EXPLICAÇÃO PRÉVIA

Entrando a entoar, com uma pontinha de melancholia, a celebre

balada--_Dames du temps jadis_, o poeta François Villon, em sua

linguagem docemente archaica e ao de leve desbotada, interroga, n’um

estribilho famoso:--_Où sont les neiges d’antan?_

La Royne Blanche comme un lys,

Qui chantait à voix de sireine,

Berthe au grand pied, Biettris, Allix,

Harembouges qui tint le Mayne,

Et Jehanne la bonne Lorraine

Que Angloys brulèrent à Rouen,

Où sont-ils, Vierge, souveraine?...

Mais où sont les neiges d’antan?

Já seculos antes d’este poeta aulico do quinhentismo francez, o Rei

Trovador D. Diniz, n’uma das suas cantigas de escarnho, empregára em

bom portuguez d’esse tempo o vocabulo _antano_.

E o nosso Jorge Ferreira de Vasconcellos, com menos graça, mas com

vernacula auctoridade, legitima, na sua _Aulegraphia_ dizendo:--_hûa

hora de um bom acerto como o de Antanho_--a expressiva locução, que

tão de geito me serve para designar, no livro que ides ler, as figuras

ou as cousas, que se vão diluindo no passado, como _neves_ derretidas

pelo tempo.

A belleza fugidia das mulheres que seduziram, que dominaram, ou que

a paixão venceu; os ciumes que consumiram corações, hoje mortos, de

heroes feitos captivos; as illusões de sabios attrahidos pela eterna

esphinge; os tragicos destinos de Reis, de Principes, e grandes do

mundo dominados pela fatalidade, ou arrastados pelas vozes de sereias

perfidas, tudo aquillo que, em tempos que já lá vão, teve na historia,

na chronica, ou na lenda um momento de fulgorosa existencia, e que se

vae apagando nos nevoeiros de _Antanho_, merece uma menção no rol das

reminiscencias, onde o cuidado piedoso do artista tenta crystallisar as

cousas vagas e tenues, que se vaporisavam na atmosphera...

Por isso fixar, por um instante que seja, nas paginas de um livro,

ephemero como este, as feições dos rostos que sorriram, ou das almas

que palpitaram, e que a acção dos annos vae corroendo, tem para mim uma

especie de voluptuosidade, como a que acaricía o animo das creanças

quando modelam estatuas feitas de neve que se derrete, ou edificam

castellos construidos com areias que o vento espalha!

_Neves_ e _areias_!--Embora movediças, inconsistentes, volateis e

transitorias como as velhas luas que os mezes devoram, como as nuvens

que se espreguiçam, como o fumo que se espalha no ar, e como as

sombras que fogem pelo chão, são comtudo elementos para recompor os

capitulos das _memorias de Antanho_.

* * * * *

Mas por que _Antanho_?

Se a alguem causar estranhesa este termo, ou o alcunhar de rebuscado,

julgando que por affectação dou preferencia a vocabulos desusados,

despresando a linguagem correntia e chan, breve corrigirá a accusação

fazendo-me justiça.

Nunca manegei um diccionario em cata de palavras antiquadas para

surprehender artificiosamente a estupefacção do leitor, nem recorri

de fito feito á licção dos classicos, no proposito de apparelhar uma

phrase com alfaias de molde a inculcar-me senhor dos arcanos da lingua.

Adoro a simplicidade no dizer e a naturalidade no discurso. Os melhores

auctores são sempre, para mim em qualquer lingua, os que escrevem com

mais clareza. Foi com esses que se formou a grammatica e se creou o

gosto. Castilho,--Garrett, Herculano--mestres de todos nós, depois

de rumiarem a herança dos avoengos litterarios atravez da confusa

syntaxe medieva, ou da labyrinthica construcção quinhentista, ou dos

pretenciosos gongorismos dos humanistas, ou dos prolixos arrazoados do

seculo XVIII, deram com a sua prosa castiça, ao nosso lindo idioma,

a crystalina transparencia, que tão bem se harmonisa com a sua

aristocratica origem.

Se, porém, no decorrer da oração, pinga, do bico da minha penna um

vocabulo de que se perdeu o uso, ou uma locução que, embora tocada da

ferrugem do tempo, expressa significativamente a ideia, não me tolhe o

receio de que me alcunhem de affectado, ou me accuzem de calamistrar

propositamente os periodos. Deixo-o ficar.

Assim eu pudesse, com engenho e arte, trazer á minha prosa os termos,

os vocabulos, as locuções, hoje perdidas, que tanta nobreza e lustre

davam á linguagem portugueza.

Assim eu soubesse usar com discreto artificio das riquezas, que nos

legaram os bons doutores da palavra escripta!

Quem lograsse hoje pôr ao serviço de ideias modernas a ferramenta com

que trabalharam os Barros, os Coutos, Manuel Bernardes ou Francisco

Manuel de Mello, quem conseguisse dar aos pomposos processos do

classicismo novas articulações, e a flexibilidade que torna a phrase

ductil e lhe dá graça, teria creado a forma mais elegante do verbo

humano.

Já um sabio conspicuo preconisava, como a melhor receita para nos

desfazermos do ranço dos extrangeirismos, que tanto tem contribuido

para a nossa desnacionalisação, o uso diario de--_caldos de Vieira_.

Estomagos ha, bem sei, que não acceitam de bom grado tão substancioso

alimento e se obstinam nutrindo-se com traducções atabalhoadas de

romances francezes. Se porém cada traductor ou cada operario de

lettras, todas as manhãs, antes de entrar na officina, se decidisse a

confortar o esophago com uns goles de humanidades, em breve a multidão

dos leitores se encontraria mais rica nas _boas artes_ e com um

glosario mais abundante.

Vem isto a pello para explicar a preferencia dada ao vocabulo _Antanho_

no titulo com que embucei este livro.

É antiquado? Cahiu n’um meio esquecimento? Não está admittido no

emprego diario, nem adoptado na giria das salas?

Mas que me diga quem quer que me leia se, para significar tudo aquillo

que é anterior ao momento actual, ao anno em que vivemos (_ante annum_)

não o julga mais proprio, mais perfilhavel e de mais agradavel euphonia

que o corriqueiro _Passado_.

No termo _Passado_, é certo cabe tudo o que existiu no tempo, e os

homens registaram nos seus papyros, canhenhos e tabuas enceradas, ou

seja Tacito nas paginas dos _Annaes_, ou Suetonio nos _Doze Cesares_,

ou Strabão na _Geographia_, ou os chronistas, narradores, memoristas e

bisbilhoteiros de Côrte, desde o indiscreto Saint Simon ao mexiriqueiro

Pepy nos _Gossips_ da gente ingleza; e entre os nossos o Bispo do

Grão Pará nas suas _Memorias_, ou a dôce Condessa de Atouguia nas

confidencias auto-biographicas.

Mas em _Antanho_ conchava-se melhor aquillo cujo desapparecimento

nos deixa a penosa sensação de que não volta mais, de tudo o que se

esvae na poeira da vida, de tudo o que a lenda envolve na nebulosa

recordação, de tudo quanto o bafejo das edades embaciou, de tudo quanto

a morte fez tombar.

Do _Passado_ tracta a Historia, illuminada pela Philosophia.

_Antanho_ é a evocação animada do que existiu, amorosamente acariciada

pela phantasia.

O _Passado_ é a realidade positiva testemunhada por documentos.

_Antanho_ é a reconstrucção conjectural das eras anteriores.

O _Passado_ é a biographia da humanidade.

_Antanho_ é o poema da Vida e da Morte.

Plutarcho escreve acerca dos varões illustres do _Passado_.

Camões canta as glorias do Portugal de _Antanho_.

Na toada d’este vocabulo escuta-se como que um echo da voz longinqua

das gerações extinctas. E sente-se n’elle não sei que perfume de

saudade, tão portuguez, que é lastima pensar que portuguezes o vão

esquecendo.

* * * * *

Ha na lingua ingleza duas palavras semelhaveis entre si que designam

com propriedade feliz o duplo sentido que pode ter o termo--Historia.

_History_ quando na apreciação dos factos o historiador os liga e

explica com leis, que a sciencia ensina. _Story_ quando o chronista ou

o narrador conta casos ou evoca figuras, deixando o leitor avaliar a

importancia do que á vista da sua alma apparece.

A primeira é como que orgão pomposo de cathedral tangido pelos

pontifices da Sciencia.

A segunda é o maneirinho harmonium chromatico, que papagueia sem

emphase tudo quanto o compositor organista fareja nos codices, ou

desentranha da tradição, ou desencanta nas lendas avitas, repetidas á

lareira.

Não imaginem, porém, que vão encontrar n’este livro _Historias da

Carochinha_ ou _Contos de Fadas_, taes como nol-as narravam as velhas

creadas de nossas Avós:

«Era uma vez uma Princeza, que se agradou de um pastor...» Não!

As velhas cuvilheiras morreram ha muito, e não deixaram successores.

As Fadas fugiram espavoridas com a balburdia que por ahi vae.

Os pastores só cuidam em reclamar com arreganho augmento de salario e

diminuição de horas no trabalho.

E as Princezas e Infantinhas (onde ainda as ha!) tremem receiosas,

escutando o rouquejar dos sociologos e politicos que teimam em nivellar

a humanidade... por baixo.

Este livro rasteirito e terra-a-terra não é pois tecido com fios de

imaginação, nem na sua trama se bordam anecdotas improvisadas, ou

conjecturas faltas de bôa fiança!

Homens e factos, paysagens e scenas, fallas e gestos, toda a acção

que se desenrolla em tragedia, em drama, ou em simples farça, foram

colhidos nas obras, que rezam com veracidade acerca das coisas dos bons

tempos d’outróra.

Desde a era dos Affonsinhos quando o bravo Ibn Enrik, temido pelos

mouros, mas muito donoso e bem camuz de entender damas, se comprazia

em donear com galanteios, e desde as auróras de Aviz, quando o Mestre

andava na empreza afanosa de consolidar a independencia, até ao surgir

e desapparecer das figuras de hontem, ainda fixadas nas nossas retinas,

Portugal é tão fertil em assumptos pittorescos que não ha mister

recorrer a ficções, ou engendrar romances fabulados para embalarmos

a imaginação com idyllios bucolicos, ou retemperarmos as almas com a

memoria de acções heroicas praticadas pela gente lusa.

É assim que os medalhões que tenho trazido entre dedos, e cuja serie

vou continuando para meu desfastio, reproduzem imagens reaes de

creaturas que viveram.

E parecendo escolhidos ao sabor do accaso ou do capricho, são comtudo

suspensos pelo mesmo nastro, como contas de uma gargantilha, que um

unico fio de retroz atravessa.

Não obedece a factura d’esses paineis, como não obedeceu a dos

anteriores, a tyrannia de escholas.

E por isso n’elles não se estabelecem theses, nem se proclamam

theorias, nem se tentam resolver questões sociaes.

São simples productos de uma olaria indigena todos nascidos do mesmo

sentir portuguez; d’aqui são terrantezes, e todos modelados com o barro

da mesma barreira amassado com agua dos nossos rios, e cosidos com o

calor do sol que nos aquece.

Tem talvez por isso um ar de familia que os irmana e em cada qual o

leitor encontrará uma feição caracteristica da nossa raça tão rica de

qualidades typicas.

Abrindo ao publico esta nova sala da minha galeria não quero comtudo

obrigal-o a uma visita enfadonha de museu, com _Baedecker_ em punho,

forçando-o á contemplação de quadros consagrados pelas indicações

banaes dos Guias dos viajantes.

Convido-o apenas, mais outra vez, a uma digressão livre, na companhia

de _cicerones_ caseiros cujas arengas são buscadas nos melhores

alfarrabios.

Com o auxilio do bom Fernão Lopes, e das tradições locaes,

conseguiremos obter um logar junto á estacada para assistirmos á lucta

de duas valentonas da edade-média, perante D. Filippa de Lancastre e a

sua côrte.

O palreiro conego Braz da Motta levar-nos-ha a Almeirim, ao Paço dos

nossos Reis, onde tomaremos parte nos festejos com que se celebraram as

bodas dos Duques de Aveiro.

Com Francisco de Andrade e D. Antonio Caetano de Sousa auscultaremos o

coração serodio do Senhor D. Jorge, perdido de amores, aos 70 annos,

pela tenrinha D. Maria Manoel.

E guiados pelas proprias confidencias escutaremos as pulsações do

amoroso Francisco de Moraes, o _Palmeirim_, rendido aos pés da bella

Torcy.

Com o nosso contemporaneo, o erudito Prestage, entraremos de passagem

no carcere onde D. Francisco Manoel de Mello encastellava periodos

sonoros, e amaldiçoava a sua paixão amorosa.

Depois, acompanhados por Duarte Nunes de Leão seguiremos attentos

as peripecias que provocaram a vingança da filha de Pedro Nunes, o

cosmographo, e as aventuras da heroica amazona aveirense, Antonia

Rodrigues, hoje homem, ámanhã mulher, que deixou brado em Mazagão.

Não hesitaremos tambem em penetrar indiscretamente, levados pelo

maldizente Costa e Silva ou pelo sisudo Barbosa Machado, nas cellas do

convento da Rosa, ou nas do convento da Esperança onde emmurcheceram

Violante do Céo, Magdalena da Gloria, Maria do Céo e outras freirinhas,

preciosas flôres do seiscentismo, exhalando sonetos, soliloquios, e

villancetes, de amortecido perfume.

Se algum dos meus leitores se enfadar, em meio da jornada, tem um

recurso facil.

Fecha o livro e recolhe-se nas proprias cogitações, certamente mais

interessantes que os meus arrazoados.

E eu não lhe quererei mal, porque isso não me tolherá que vá

continuando a regar com agua de _Neves de Antanho_ as plantas do horto

portugalense.

St.º Amaro--Junho 1918.

Neves de antanho · 第 8 / 44 题