Um Deus descera, um grande Deus... Era o Mensageiro dos Deuses, o leve,
eloqùente Mercúrio. Calçado com aquelas sandálias que teem duas
asas brancas, os cabelos côr de vinho cobertos pelo casco onde batem
tambêm duas claras asas, erguendo na mão o Caduceu, êle fendera o Éter,
roçara a lisura do mar sossegado, pisara a areia da Ilha, onde as suas
pègadas ficavam rebrilhando como palmilhas de oiro novo. A-pesar de
percorrer toda a terra, com os recados inumeráveis dos Deuses, o
luminoso Mensageiro não conhecia aquela ilha de Ogigya--e admirou,
sorrindo, a beleza dos prados de violetas tam doces para o correr e
brincar de Ninfas, e o harmonioso faiscar dos regatos por entre os altos
e lânguidos lírios. Uma vinha, sôbre esteios de jaspe, carregada de
cachos maduros, conduzia, como fresco pórtico salpicado de sol, até à
entrada da gruta, toda de rochas polidas, de onde pendiam jasmineiros e
madre-silvas, envoltas no sussurrar das abelhas. E logo avistou Calipso,
a Deusa ditosa, sentada num Trono, fiando em roca de oiro, com fuso de
oiro, a lã formosa de púrpura marinha. Um aro de esmeraldas prendia os
seus cabelos muito anelados e ardentemente louros. Sob a túnica diáfana
a mocidade imortal do seu corpo rebrilhava, como a neve quando a aurora
a tinge de rosas nas colinas eternas povoadas de Deuses. E, emquanto
torcia o fuso, cantava um trinado e fino canto, como trémulo fio de
cristal vibrando da Terra ao Céu. Mercúrio pensou: «Linda ilha, e linda
Ninfa!»
Dum lume claro de cedro e tuia, subia, muito direito, um fumo delgado
que perfumava toda a Ilha. Em roda, sentadas em esteiras sôbre o chão de
ágata, as Ninfas, servas da Deusa, dobavam as lãs, bordavam na sêda as
flores ligeiras, teciam as puras teias em teares de prata. Todas
coraram, com o seio a arfar, sentindo a presença do Deus. E sem deter o
fuso faiscante, Calipso reconhecera logo o Mensageiro--pois que todos os
Imortais sabem, uns dos outros, os nomes, os feitos, e os rostos
soberanos, mesmo quando habitam retiros remotos que o Éter e o Mar separam.
Mercúrio parara, risonho, na sua nudez divina, exalando o perfume do
Olimpo. Então a Deusa ergueu para êle, com composta serenidade, o
esplendor largo dos seus olhos verdes:
--Oh Mercúrio! ¿porque desceste à minha Ilha humilde, tu, venerável e
querido, que eu nunca vi pisar a terra? Dize o que de mim esperas. Já o
meu aberto coração me ordena que te contente, se o teu desejo couber
dentro do meu poder e do Fado... Mas entra, repousa, e que eu te sirva,
como doce irmã, à mesa da hospitalidade.
Tirou da cintura a roca, arredou os aneis soltos do cabelo radiante--e
com as suas nacaradas mãos colocou sôbre a mesa, que as Ninfas
acercaram do lume aromático, o prato transbordando de Ambrosia, e as
infusas de cristal onde scintilava o Néctar.
Mercúrio murmurou:--«Doce é a tua hospitalidade, ó Deusa!» Pendurou o
Caduceu do fresco ramo dum plátano, estendeu os dedos reluzentes para a
travessa de oiro, risonhamente louvou a excelência daquele Néctar da
Ilha. E contentada a alma, encostando a cabeça ao tronco liso do plátano
que se cobriu de claridade, começou, com palavras perfeitas e aladas:
--Perguntaste porque descia um Deus à tua morada, oh Deusa! E certamente
nenhum Imortal percorreria sem motivo, desde o Olimpo até Ogigya, esta
deserta imensidade do mar salgado em que se não encontram cidades de
homens, nem templos cercados de bosques, nem sequer um pequenino
santuário de onde suba o aroma do incenso, ou o cheiro das carnes
votivas, ou o murmúrio gostoso das preces... Mas foi nosso Pai Júpiter,
o tempestuoso, que me mandou neste recado. Tu recolhestes, e retens pela
fôrça incomensurável da tua doçura, o mais subtil e desgraçado de todos
os Príncipes que combateram durante dez anos a alta Troia, e depois
embarcaram nas naves fundas para voltar à terra da Pátria. Muitos dêsses
conseguiram reentrar nos seus ricos lares, carregados de fama, de
despojos, e de histórias excelentes para contar. Ventos inimigos,
porêm, e um fado mais inexorável, arremessaram a esta tua ilha, enrolado
nas sujas espumas, o facundo e astuto Ulisses... Ora o destino dêste
herói não é ficar na ociosidade imortal do leito, longe daqueles que o
choram, e que carecem da sua fôrça e manhas divinas. Por isso Júpiter,
regulador da Ordem, te ordena, oh Deusa, que soltes o magnânimo Ulisses
dos teus braços claros, e o restituas, com os presentes docemente
devidos, à sua Ítaca amada, e à sua Penélope, que tece e desfaz a teia
ardilosa, cercada dos Pretendentes arrogantes, devoradores dos seus
gordos bois, sorvedores dos seus frescos vinhos!
A divina Calipso mordeu levemente o beiço; e sôbre a sua face luminosa
desceu a sombra das densas pestanas côr de jacinto. Depois, com um
harmonioso suspiro, em que ondulou todo o seu peito rebrilhante:
--Ah Deuses grandes, Deuses ditosos! como sois ásperamente ciumentos das
Deusas, que, sem se esconderem pela espessura dos bosques ou nas pregas
escuras dos montes, amam os homens eloqùentes e fortes!... Êste, que me
invejais, rolou às areias da minha Ilha, nu, pisado, faminto, prêso a
uma quilha partida, perseguido por todas as iras, e todas as rajadas, e
todos os raios dardejantes de que dispõe o Olimpo. Eu o recolhi, o
lavei, o nutri, o amei, o guardei, para que ficasse eternamente ao
abrigo das tormentas, da dor e da velhice. E agora Júpiter trovejador,
ao cabo de oito anos em que a minha doce vida se enroscou em tôrno desta
afeição como a vide ao olmo, determina que eu me separe do companheiro
que escolhera para a minha imortalidade! Realmente sois crueis, oh
Deuses, que constantemente aumentais a raça turbulenta dos Semideuses
dormindo com as mulheres mortais! ¿E como queres que eu mande Ulisses à
sua pátria, se não possuo naves, nem remadores, nem pilôto sabedor que o
guie através das Ilhas? ¿Mas quem pode resistir a Júpiter, que ajunta as
nuvens? Seja! e que Olimpo ria, obedecido. Eu ensinarei o intrépido
Ulisses a construir uma jangada segura, com que de novo fenda o dorso
verde do mar...
Imediatamente, o Mensageiro Mercúrio se levantou do escabelo pregado com
pregos de oiro, retomou o seu Caduceu, e bebendo uma derradeira taça do
Néctar excelente da Ilha, louvou a obediência da Deusa:
--Bem farás, oh Calipso! Assim evitas a cólera do Pai trovejante. ¿Quem
lhe resistirá? A sua Omnisciência dirige a sua Omnipotência. E êle
sustenta, como scetro, uma árvore que tem por flor a Ordem... As suas
decisões, clementes ou crueis, resultam sempre em harmonia. Por isso o
seu braço se torna terrífico aos peitos rebeldes. Pela tua pronta
submissão serás filha estimada, e gozarás uma imortalidade repassada de
sossêgo, sem intrigas e sem surpresas...
Já as asas impacientes das suas sandálias palpitavam, e o seu corpo, com
sublime graça, se balançava por sôbre as relvas e flores que alcatifavam
a entrada da gruta.
--De resto--acrescentou--a tua Ilha, oh Deusa, fica no caminho das naves
ousadas que cortam as ondas. Em breve talvez outro herói robusto, tendo
ofendido os Imortais, aportará à tua doce praia, abraçado a uma
quilha... Acende um facho claro, de noite, nas rocas altas!
E, rindo, o Mensageiro Divino serenamente se elevou, riscando no Éter um
sulco de elegante fulgor que as Ninfas, esquecida a tarefa, seguiam, com
os frescos lábios entreabertos e o seio levantado, no desejo daquele
imortal formoso.
Então Calipso, pensativa, lançando sôbre os seus cabelos anelados um véu
da côr do açafrão, caminhou para a orla do mar, através dos prados, numa
pressa que lhe enrodilhava a túnica, à maneira duma espuma leve, em
tôrno das pernas redondas e róseas. Tam levemente pisou a areia, que o
magnânimo Ulisses não a sentiu deslizar, perdido na contemplação das
águas lustrosas, com a negra barba entre as mãos, aliviando em
gemidos o pêso do seu coração. A Deusa sorriu, com fugitiva e soberana
amargura. Depois, pousando no vasto ombro do Herói os seus dedos tam
claros como os de Eos, mãe do dia:
--Não te lamentes mais, desgraçado, nem te consumas, olhando o Mar! Os
Deuses, que me são superiores pela inteligência e pela vontade,
determinam que tu partas, afrontes a inconstância dos ventos, e calques
de novo a terra da Pátria...
Bruscamente, como o condor fendendo sôbre a prêsa, o divino Ulisses, com
a face assombrada, saltou da rocha musgosa:
--Oh Deusa, tu dizes!...
Ela continuou sossegadamente, com os formosos braços pendidos,
enrodilhados no véu côr de açafrão, emquanto a vaga rolava, mais doce e
cantante, no amoroso respeito da sua presença divina:
--Bem sabes que não tenho naves de alta prôa, nem remadores de rijo
peito, nem pilôto amigo das estrêlas, que te conduzam... Mas certamente
te confiarei o machado de bronze que foi de meu pai, para tu abateres as
árvores que eu te marcar, e construires uma jangada em que embarques...
Depois eu a proverei de odres de vinho, de comidas perfeitas, e a
impelirei com um sôpro amigo para o mar indomado...
O cauteloso Ulisses recuara lentamente, cravando na Deusa um duro olhar
que a desconfiança ennegrecia. E erguendo a mão, que tremia toda, com a
ansiedade do seu coração:
--Oh Deusa, tu abrigas um pensamento terrível, pois que assim me
convidas a afrontar numa jangada as ondas difíceis, onde mal se mantêm
fundas naves! Não, Deusa perigosa, não! Eu combati na grande guerra onde
os Deuses tambêm combateram, e conheço a malícia infinita que contêm o
coração dos Imortais! Se resisti às sereias irresistíveis, e me safei
com sublimes manobras de entre Scylla e Charybdes, e venci Polifemo com
um ardil que eternamente me tornará ilustre entre os homens, não foi
de-certo, oh Deusa, para que agora, na Ilha de Ogigya, como passarinho
de pouca penugem, no seu primeiro vôo do ninho, cáia em armadilha
ligeira arranjada com dizeres de mel! Não, Deusa, não! Só embarcarei na
tua extraordinária jangada se tu jurares, pelo juramento terrífico dos
Deuses, que não preparas, com êsses quietos olhos, a minha perda
irreparável.
Assim bradava, à beira das ondas, com o peito a arfar, Ulisses, o Herói
prudente... Então a Deusa clemente riu, com um cantado e refulgente
riso. E caminhando para o Herói, correndo os dedos celestes pelos seus
espessos cabelos mais negros que o pez:
--Oh maravilhoso Ulisses--disse--tu és bem na verdade o mais refalsado e
manhoso dos homens, pois que nem concebes que exista espírito sem manha
e sem falsidade! Meu pai ilustre não me gerou com um coração de ferro!
A-pesar de imortal, compreendo as desventuras mortais. Só te aconselhei
o que eu, Deusa, empreenderia, se o Fado me obrigasse a saír de Ogigya
através do mar incerto!...
O divino Ulisses retirou lenta e sombriamente a cabeça da rosada carícia
dos dedos divinos:
--Mas jura... Oh Deusa, jura, para que ao meu peito desça, como onda de
leite, a saborosa confiança!
Ela ergueu o claro braço ao azul onde os Deuses moram:
--Por Gaia, e pelo Céu superior, e pelas águas subterrâneas do Stygio,
que é a maior invocação que podem lançar os Imortais, juro, oh homem,
Príncipe dos homens, que não preparo a tua perda, nem misérias maiores...
O valente Ulisses respirou largamente. E arregaçando logo as mangas da
túnica, esfregando as palmas das mãos robustas:
--¿Onde está o machado de teu pai magnífico? Mostra as árvores, oh
Deusa!... O dia baixa e o trabalho é longo!
--Sossega, oh homem sôfrego de males humanos! Os deuses superiores em
sapiência já determinaram o teu destino... Recolhe comigo à doce gruta,
a reforçar a tua fôrça... Quando Eos vermelha aparecer, àmanhã, eu te
conduzirei à floresta.