--Por Deus! Que vos enforque, eu?...
O homem suspirou, abrindo os braços compridos:
--Senhor, por vontade de Deus é, e por vontade de Aquela que é mais cara
a Deus!
Então, resignado, submisso aos mandados do Alto, D. Rui apeou--e começou
a seguir o homem, que subia para o Cêrro pensativamente, vergando o
dorso, de onde saía, espetada e luzidia, a ponta da adaga. Pararam ambos
sob a trave vazia. Em tôrno das outras traves pendiam as outras
carcassas. O silêncio era mais triste e fundo que os outros silêncios da
terra. A água da lagôa ennegrecera. A lua descia e desfalecia.
D. Rui considerou a trave onde restava, curto no ar, o pedaço de corda
que êle cortara com a espada.
--¿Como quereis que vos pendure?--exclamou.--Àquele pedaço de corda não
posso chegar com a mão; nem eu só basto para lá vos içar.
--Senhor--respondeu o homem--aí a um canto deve haver um longo rôlo de
corda. Uma ponta dela ma atareis a este nó que trago no pescoço: a outra
ponta a arremessareis por cima da trave, e puxando depois, forte como
sois, bem me podereis reenforcar.
Ambos curvados, com passos lentos, procuraram o rôlo de corda. E foi o
enforcado que o encontrou, o desenrolou... Então D. Rui descalçou as
luvas. E ensinado por êle (que tam bem o aprendera do carrasco) atou uma
ponta da corda ao laço que o homem conservava no pescoço, e arremessou
fortemente a outra ponta, que ondeou no ar, passou sôbre a trave, ficou
pendurada rente ao chão. E o rijo cavaleiro, fincando os pés, retezando
os braços, puxou, içou o homem, até êle se quedar, suspenso, negro no
ar, como um enforcado natural entre os outros enforcados.
--Estais bem assim?
Lenta e sumida, veio a voz do morto:
--Senhor, estou como devo.
Então D. Rui, para o fixar, enrolou a corda em voltas grossas ao pilar
de pedra. E tirando o sombreiro, limpando com as costas da mão o suor
que o alagava, contemplou o seu sinistro e miraculoso companheiro.
Estava já rígido como antes, com a face pendida sob as melenas caídas,
os pés inteiriçados, todo poído e carcomido como uma vélha carcassa. No
peito conservava a adaga cravada. Por cima, dois corvos dormiam
quietos.
--¿E agora que mais quereis?--perguntou D. Rui, começando a calçar as
luvas.
Sumidamente, do alto, o enforcado murmurou:
--Senhor, muito vos rogo agora que, ao chegar a Segóvia, tudo conteis
fielmente a Nossa Senhora do Pilar, vossa madrinha, que dela espero
grande mercê para a minha alma, por êste serviço que, a seu mandado, vos
fez o meu corpo!
Então, D. Rui de Cardenas tudo compreendeu--e, ajoelhando devotamente
sôbre o chão de dor e morte, rezou uma longa oração por aquele bom
enforcado.
Depois galopou para Segóvia. A manhã clareava quando êle transpôs a
porta de S. Mauros. No ar fino os sinos claros tocavam a matinas. E
entrando na igreja de Nossa Senhora do Pilar, ainda no desalinho da sua
terrível jornada, D. Rui, de rôjo ante o altar, narrou à sua Divina
Madrinha a ruim tenção que o levara a Cabril, o socorro que do céu
recebera, e, com quentes lágrimas de arrependimento e gratidão, lhe
jurou que nunca mais poria desejo onde houvesse pecado, nem no seu
coração daria entrada a pensamento que viesse do Mundo e do Mal.