Produced by Pedro Saborano
JAYME DE MAGALHÃES LIMA
CIDADES E PAIZAGENS
_PORTO_
TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
Cancella Velha, 70
1880
CIDADES E PAIZAGENS
JAYME DE MAGALHÃES LIMA
CIDADES E PAIZAGENS
_PORTO_
TYP. DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
Cancella Velha, 70
1880
_A MEU PAE_
_Sebastião de Carvalho Lima_
_Creio ter chegado a um periodo da vida em que a formação mental do
individuo estaciona, tendo-se completado nos limites da sua capacidade.
O pensamento trabalha talvez com maior actividade e n'um campo d'acção
mais vasto do que no passado; mas a fórma e força dos seus orgãos já não
progridem nem crescem nem diminuem nem mudam, mantêm-se. É porventura a
época de estudo mais fecundo, não é decerto a de maiores prazeres; pois
as emoções intensas do crescimento consciente de vigor foram
substituidas pela repetição serena e methodica de esforços e resultados
semelhantes._
_Breve ou longo, luminoso ou obscuro, tal qual foi com todos os seus
tedios e todas as suas alegrias, percorri esse caminho apoiado na
generosa amizade de meu pae. Por isso lhe dedico estas cartas, primicias
de uma nova idade devidas á gratidão._
Jayme de Magalhães Lima.
_ADVERTENCIA_
_Para repouso do espirito e procurando uma representação exacta de
coisas que conhecia só pela leitura e me interessavam, fiz no outono
passado uma rapida viagem pelo norte da Europa e da Africa. Nos breves
momentos de descanso do meu jornadear impaciente dei conta do que ia
vendo e pensando nas cartas que ora enfeixo n'este livro._ _Accusam-me
os amigos e criticos intelligentes de ter sido abstruso, poupando-me a
descripções e á narração dos factos e só cuidando de apontar as
impressões de natureza moral que ficavam no meu espirito. A accusação é
procedente, reconheço-o; mas não tentarei corrigir-me pelo respeito que
devo á sinceridade._
_Estas cartas são reflexões sobre um limitadissimo numero de factos
porque na verdade o meu espirito é d'este molde; prende-se meramente ao
que se lhe afigura saliente e caracteristico, e despreza e esquece tudo
o mais. Se é boa, se é má, não sei dizel-o; sei apenas que é esta a sua
fórma._
_Não desprezo o trabalho descriptivo, incomparavel delicia quando é bem
feito, unica base dos conhecimentos geraes; mas, além de requerer
aptidões litterarias especiaes que não tenho, demanda ao mesmo tempo
dotes d'um outro genero de que igualmente careço. A descripção,
associada á narrativa e ao dialogo, póde bem aventurar-se no romance sem
outro qualquer auxilio: a descripção simples, por mais brilhante que
seja, é um anachronismo enfadonho se lhe falta a interpretação do lapis
e do carvão que elucida, completa, abrevia e deleita, dando rapidamente
uma impressão extensa._
_Depois, ha muitos modos de viajar. Ha em primeiro logar o estudo--o
conhecimento interno e externo dos povos nas suas instituições e nas
suas paizagens, na sua vida moral e na sua vida economica, nas suas
qualidades physiologicas e nas suas aptidões artisticas, no seu modo de
ser intimo e nas suas relações com o mundo externo. Esses estudos
carecem de longo tempo e saber paciente e a descripção é um dos seus
elementos; estão feitos para quasi todo o mundo tantas vezes e tão bem
que seria vaidade pueril tentar acrescentar-lhes o que quer que fosse._
_Um segundo modo é a viagem por curiosidade--vêr muita coisa e coisas
differentes das que habitualmente vemos. É o regalo das sensibilidades
cansadas ou demasiado cubiçosas e um genero de «sport» hoje muito em
voga; o seu valor educativo, porém, é mediocre pela multiplicidade das
impressões e falta de connexão entre si._
_Entre estes dois modos parece-me haver um terceiro, munido de estudos
prévios para dispensar observação demorada e curioso só quanto baste
para a elucidação do estudo. Procura a representação directa d'aquillo
que já conhece, vendo em movimento os corpos vivos cuja anatomia e
physiologia estudou primeiro; vai envolver-se na corrente das cidades
para sentir o calor e o palpitar do seu sangue e uma vez alcançada esta
impressão abandona-as como um parasita irrequieto._
_Isto pelo que diz respeito ao modo de apreciar as viagens. Pelo que se
refere propriamente ás minhas impressões nada quero acrescentar e muito
pouco tenho que esclarecer._
_O que escrevi de Berlim fará crêr que não senti lá outra coisa senão um
militarismo brutal absolutamente antipathico ao meu espirito, quando é
verdade que ao seu lado vi com intima admiração a força moral d'um
regimen de ferro em que tudo é pautado pela lei severa e obedecida. Não
sei que haja paiz que possua mais profundamente o fetichismo do dever.
Um acto pratica-se porque é obrigação pratical-o e no cumprimento das
obrigações não ha hesitar--tal é o primeiro e mais assombroso resultado
educativo que a severidade allemã alcançou para aquelle povo._
_Nem mesmo direi antipathico o caracter do actual imperador da
Allemanha, apesar do seu muito contestavel amor filial e d'uma paixão
militar que não deve ficar longe da loucura. Aspirar a constituir uma
patria e uma nação «allemãs» é talvez uma especie de egoismo mas largo e
generoso; póde ser abominavel mas não perde por isso a admiração devida
a todas as coisas grandes. E este é, a meu vêr, o caso do imperador da
Allemanha._
_Igualmente receio ter ficado obscura a minha discussão com o conde
Tolstoï._
_D'accordo quanto á medida do progresso, conformes ambos em que devemos
aferil-o pelo alargamento e mais profunda penetração da fraternidade ou
do amor nas relações sociaes, differiamos no modo pratico da sua
realisação. Tolstoï conclue pelo nihilismo, pela abolição da
propriedade, do estado, de todos os vinculos e de todas as dependencias,
entregando os homens sómente á sua lei divina ou moral; pede uma
dissolução onde eu pediria uma organisação, uma ordem, d'onde derivam a
familia, a communa, a propriedade, o estado, uma subordinação. Historica
e scientificamente está demonstrado, que, abolidos esses laços, a
sociedade cae na anarchia, na guerra, na livre soberania da lucta pela
vida, negação da fraternidade._
_E não se diga que esta maneira de vêr contradiz a igualdade, tendencia
evolutiva das sociedades aryanas, historicamente demonstrada. A
igualdade entre os homens, que o christianismo e a philosophia
reconhecem, traduz-se nas instituições politicas n'uma accessibilidade
de estado e de classe e não na abolição de todos os estados sociaes e
das classes, orgãos da humanidade. D'esses orgãos deriva a sua fórma e é
esta que nos cumpre aperfeiçoar sem a destruirmos._
_De resto, quanto ao modo de viver de Tolstoï, só repetirei que me
merece a mais illimitada admiração. Comprehende-se e admira-se o homem
entregue sem reservas a uma paixão sublime, despindo-se heroicamente de
todo o «snobism» com que a fraqueza de todos nós condescende e
curvando-se sobre o arado; absorvido n'esse mysterio insondavel e
fascinante da terra, aureolado da maior de todas as bençãos divinas--a
humildade._
_Sobre os demais pontos das minhas cartas creio não haver obscuridade
que mereça ser apontada._
CIDADES E PAIZAGENS
_Salamanca, 1 de Setembro._
Novamente em terras estranhas, com as velhas malas tisnadas ao sol de
mil combates, isto é, cobertas dos rotulos dos caminhos de ferro e dos
hoteis, que lhes abrem no coiro espesso grandes chagas multicôres; com
essas fieis companheiras que por mim pisaram todo o calvario dos omnibus
e dos wagons e soffreram ás mãos brutaes dos moços de gare, encontro
velhas idéas, velhos programmas de viagem. Não mudei: a bagagem é ainda
a mesma, exterior e interiormente.
A boa ordem e o methodo exigem um programma, exigem que antecipadamente
determinemos um fim e um systema. D'outra forma, a viagem não passa de
uma dissipação, de elegancia ou de vaidade, um regabofe, grandes
empresas, grandes aventuras, para escancarar de pasmo a boca dos
papalvos. _Abrenuntio!_
Tenho lido e creio que o inglez e o russo viajam de maneira
absolutamente diversa; o inglez vendo tudo, seguindo linha a linha o seu
_guia_, minuciosa e escrupulosamente, e o russo passeando livremente,
sem guia e sem tutela, correndo cidades e campos, envolvendo n'uma
especie particular de indifferença museus e bibliothecas, cathedraes e
universidades, monumentos e palacios, toda essa interminavel corda com
que é costume enforcar a bolsa e a paciencia do viajante. Emquanto o
inglez procura factos e impressões desconnexos, mas em grande numero, o
russo procuraria poucas ideas geraes; um attenderia ao numero e á
quantidade, outro á grandeza e á qualidade.
Não sei até que ponto será exacta a distincção como attributo
caracteristico de raça; é certo porém que em geral a podemos considerar
verdadeira. A não ser que viajemos com um fim especial, o estudo de uma
cultura, de uma arte, de um novo processo industrial, ou qualquer outro,
ha apenas dois systemas de viajar, extremos de um dos quaes todo o caso
particular sempre se aproxima: ou procuramos a abundancia e a riqueza de
impressões ou um limitado numero de aspectos e idéas geraes, pondo de
parte os factos inuteis á sua constituição.
Sobre o valor intellectual dos dois systemas não me parece poder
levantar-se duvida; ha toda a distancia que vai da simples curiosidade
ao pensamento. Um estampa, grava e guarda, no seu estado primitivo, as
percepções recebidas; o outro funde, relaciona, e tira um novo producto
unico residuo duradouro e util.
Ora, devo advertir aos que tiveram a paciencia de me acompanhar até aqui
que desde longos annos me inscrevi na segunda das categorias que esbocei
e não abjurei nem espero abjurar a primeira confissão. Temperamentos! Já
vê, pois, o leitor o que póde esperar d'estas breves palestras,
escriptas de relogio em punho e sob a respeitavel auctoridade dos
horarios do caminho de ferro; nem poderei despertar-lhe transportes de
enthusiasmo, em segunda mão, pelos quadros e monumentos notaveis, nem
lhe contarei quantos viajantes me acompanhavam, nem como vestiam e
dormiam, nem mesmo poderei dizer-lhe, e isso com verdadeira magua, se,
realmente, n'esta parte da Europa que vou percorrer, é lei universal de
todas as hospedarias deixar á noite os sapatos á porta do quarto de
dormir e encontral-os de manhã bem lustrosos de graxa. Nada d'isto terei
tempo de dizer-lhe; apenas alguns factos e idéas muito geraes.
Já temos quanto baste de declarações prévias para que possamos
entender-nos; passemos pois á viagem.
Do Porto a Salamanca o caminho é bem conhecido. Atravessando o Minho,
nas proximidades de Penafiel, póde observar-se o aspecto bem differente
do Minho suburbano e littoral, como a Maia e Rio Tinto, e o Minho
interior, aproximando-se das montanhas. N'este, a vegetação nos valles é
mais abundante e viçosa, talvez resultado do maior abrigo; os montes
circumvisinhos são mais elevados e muito despidos, differentemente do
que acontece no littoral onde as eminencias são bem povoadas de pinhal
que desce até á margem dos campos. A casa caiada e branca, construida de
argamassa e coberta de telha, deu logar á cabana de pedra solta e de
colmo, defumada e baixa. São de uma grande belleza as pequenas aldeias
do interior do Minho; sombrias pela luz frouxa, pelo verde carregado da
vegetação, pela côr terrea dos montes escassamente povoados de urze, e
pelo colmo e o granito das habitações; mas ha no quadro uma grande
harmonia de tons, deliciosas linhas pittorescas, e, na falta de arte,
uma grande expressão, a que resulta da completa communhão do homem e da
terra. A aldeia e o homem são pouco, quasi nada, a confundirem-se com os
milharaes e com os pampanos.
Do Minho passamos á margem do Douro e ás suas encostas devastadas pela
phylloxera.
A meu vêr, a paizagem carece de belleza; a natureza menos consistente
dos terrenos schistosos produz a molleza de contornos; e a cultura,
fazendo dos montes escadarias, destruiu toda a harmonia natural e
substituiu a paizagem, não por outra paizagem mas por cachos d'uvas em
prateleiras. Alem d'isto, os valles são demasiado estreitos e falta por
isso a distancia necessaria para vêr bem as montanhas.
São de uso e de bom gosto as lamentações sobre a sorte infeliz do Douro;
e, de facto, os olhos menos penetrantes vêem alli a miseria e a
destruição de uma opulenta riqueza que, nos seus melhores tempos, deu ao
lavrador uma vida sumptuosa.
Mas está o Douro perdido para sempre? E as florestas, e a acclimatação
de plantas novas e de novos animaes? Assim como a giesta cresce por
aquelles montes, não haverá plantas exoticas de maior utilidade que
supportem igualmente os rigores d'aquella região? Não têm os lavradores
um vasto campo a explorar na criação dos pequenos animaes como as aves e
os coelhos? Não seria possivel fazer grandes reservas das aguas que no
inverno correm em torrentes pelas montanhas? Se me não illudo, os
grandes males da regeneração agricola do Douro não vem da sua natureza
physica de que com arte necessariamente poderiamos tirar proveito; o
grande embaraço é a falta de instrução e de capitaes. Para restituir á
cultura as suas terras agrestes e hoje em completo abandono, é
necessario que o lavrador saiba e possa; e, dado que viesse a saber em
pouco tempo, quantos mil contos de reis não custaria a empresa?
Subindo sempre, entramos em Hespanha, e pouco depois, vinhas e olivaes e
amendoeiras, tudo nos desapparece para nos internarmos em plena região
montanhosa. Nenhuma cultura, mas a paizagem é granitica, cheia de
grandeza, os contornos nitidos e arrojados. Seguem-se planaltos
arenosos, cultivados na maior parte; rarissimas videiras, os cereaes
dominam e, parece, formam o tronco, a parte essencial da lavoura, como,
de resto, succede nas grandes elevações do nosso clima. As aldeias não
são frequentes, mas os campos murados e extremamente subdivididos.
Sobreveio a noite. Pelos campos do Tormes, imagino que a paizagem não
muda até Salamanca, pois o que vim encontrar aqui é em tudo semelhante
ao que deixei, com a simples differença de que as hortas abundam,
consequencia manifesta das proximidades de um mercado urbano.
Resta-me fallar de Salamanca, falta-me o tempo. De Paris conversaremos.
* * * * *
_Paris, 5 de Setembro._
Salamanca é uma cidade antiga.
As cidades antigas são como as grandes obras classicas que ora se
encontram empoeiradas e amarellecidas na edição original, em que o texto
e a fórma conservam a harmonia e a exactidão primitivas, ora se
encontram nas edições modernas, annotadas, corrigidas, sob uma nova
fórma material, corrompidas e alteradas o mais das vezes até se tornarem
uma obra nova. São raras as velhas edições authenticas, e mais raras
ainda essas outras especies de livros escriptos em pedra a que se chama
cidades; porque, n'estas, as alterações são constantes, dia a dia,
lentas e immediatamente imperceptiveis. Quando assim não é, a cidade
morreu.
Salamanca, sem ter morrido, estacionou. É como estes velhos enrugados,
magros, tomando com exactidão rigorosa as suas refeições, o seu jornal e
o seu passeio, agasalhados n'um casaco que nenhuma tesoura hoje sabe
talhar, o pescoço envolvido em gravatas cuja vastidão nos assombra:
vivem ainda e são todavia um documento do passado. Entre elles e as
cidades ha uma differença apenas: as cidades podem rejuvenescer, os
homens nunca.
As bilhas da agua d'uma fórma tradicional, archaica; o trajar dos homens
do campo, de calção e polaina de coiro, jaqueta e larga faixa, o collete
curto com duas ordens de grandes botões de prata, a camisa sem collar,
apertada com um só botão de filigrana, o peito todo de rendas; os
palacios d'outro tempo, com janellas de todo o genero, largos portaes em
arco e as mais bellas ferragens, agora tão infelizmente substituidas por
informes pastas de ferro fundido; tudo nos transporta aos seculos
passados e faz de Salamanca uma cidade interessante pelo valor
instructivo, agradavel pelo desconhecido da impressão e finalmente bella
por uma certa harmonia de quadro antigo que a vida moderna não logrou
apagar.
Não quero especialisar. Era preciso ser artista e historiador e eu não
passo de simples lavrador, viajando intellectual e materialmente com a
mesquinha bagagem de estudante.
Duas observações apenas sobre a cathedral que, dizem os _guias_, é obra
maravilhosa de gothico moderno. Confesso que não me arrebatou. Os
rosarios de bispos e santos ornando as arcadas, estes paineis de reis
magos com sandalias bordadas, elephantes e camêlos, anjos e oliveiras,
christos e judeus, tudo acamado em muitas folhas de plantas
desconhecidas, a Paixão e a Palestina inteiras e completas na fachada
d'uma cathedral, são d'uma belleza que os meus olhos não percebem, por
demasiado complicada, talvez. Quer-me parecer que a harmonia na obra
d'arte se estende ás relações da substancia e da fórma e que os
bordados, que convém ao linho e á sêda, são absolutamente deslocados na
pedra. Poderão valer de muito como testemunho de perfeição e habilidade
do artifice, mas da sua belleza desconfio.
Uma ultima observação, antes de deixar Salamanca. Aqui, como em toda a
Hespanha, abundam as côres vivas no trajar; e os escriptores tem por
norma basear n'este facto os instinctos artisticos do povo, comparando-o
com o norte sombrio e melancolico. Não será antes uma prova de barbarie?
Não demonstra uma inferioridade de sensibilidade physica e tendencia a
só perceber as côres que ferem a vista com maior intensidade? Junte-se a
isto um excessivo cuidado no penteado das mulheres, tendo sempre em
vista que a ethnographia mostra que a necessidade do adorno precedeu a
necessidade do agasalho, e teremos sobre que reflectir. Sobre que
reflectir, note-se; ponho uma interrogação, não faço uma affirmação
categorica.
Os primeiros campos que vi depois de Salamanca foram os de Miranda do
Ebro; campos de calcareo, poeirentos, com uma vegetação frouxa, aldeias
raras, distantes, escalavradas, denunciando uma vida estacionaria, a
provincia bem sarjada de estradas e de ribeiros, ladeados de grandes
choupos. Amiudam-se as aldeias, o campo e a habitação tem certo aspecto
de cultura, de ordem, de riqueza, de bem-estar, e entramos em Vitoria,
uma cidade já muito á moderna, com boas ruas, casas altas e bem
alumiadas, relvas, jardins, arvores e verdura em torno.
Alteram-se os dois quadros anteriores durante algum tempo, passa-se uma
série de tunneis. Estamos nos Pyrenéos.
Os Pyrenéos! A Suissa sem neve e sem grandeza, a vida abundante,
tranquilla, cerrada como aquelles horisontes! Os casaes dispersos, uma
grande paz, a aldeia não é precisa, vive-se só, os campos em volta da
cabana, e em baixo, no curral, o ubere farto, generoso e inesgotavel das
vaccas pacientes com grandes manchas brancas; ao lado o pomar, a
macieira doirada de pômos, em baixo o campo de milho, senhor feudal
d'aquelles campos, latejando de opulencia e de vigor, pelas encostas os
prados, e lá até ao cimo da montanha a floresta espessa e baixa. A
imagem da vida modesta, estreita, serena, sem miseria e sem paixões.
Depois, até ao cerrar da noite, os pinhaes sem fim da região bordalenga
e vamos acordar em Paris, Roma de uma nova Igreja a que preside um
papa--a Devassidão.
* * * * *
_Berlim, 5 de Setembro._
Dizem os economistas que a cidade substituiu a feira; ao mercado
periodico e transitorio succedeu o mercado permanente. Se ha capital
europeia que justifique este modo de vêr é por certo Paris.
Nenhuma tem mais accentuado caracter de mercado, com barracas de todo o
genero:--de espectaculos, de alimentos, de vestuario, de prostituição e de
politica. Porque--por exagerada que pareça a expressão, é todavia
verdadeira--a politica nos governos democraticos e representativos é um
mercado, a sua lei a concorrencia; todos são livres, todos são iguaes, e
para entrar, para vencer, para lançar mão do poder tudo é licito e bom, a
honestidade, o civismo e a intelligencia, e a lisonja, a intriga, a
corrupção e a sem-vergonha. Triumphos ephemeros! Apenas alguem trepou ao
ultimo degrau tem atraz de si um exercito, uma multidão, acotovelando-se,
rasgando-se, batendo-se furiosamente, e o vencedor de hoje vai rolar amanhã
na poeira ignorada e infecunda dos vencidos.
O governo politico da França contribuiu manifestamente para dar a Paris
o seu caracter actual.
Dois elementos principaes formam uma cidade: o elemento governativo, o
funccionario, o militar e a côrte, e o elemento mercantil, o commercio e
a industria. Theatros, museus, bibliothecas, palacios, escólas, jardins,
passeios e grandes ruas são a consequencia natural da existencia
d'aquelles dois elementos; ou representam satisfações de prazer para uma
população ociosa, ou são condições de trabalho e instrumentos de estudo
para a população laboriosa: e, em qualquer caso, a sua vastidão e
grandeza derivam da necessaria proporção que existe entre a intensidade
da vida social d'um povo e os seus orgãos. Acontece, porém, que nos
governos monarchicos, mais ou menos absolutos, ao lado do elemento
mercantil, cuja norma é a concorrencia e o lucro, está um outro,
igualmente poderoso e influente, que tem por norma a ordem, a sujeição e
a obediencia e sempre uma apparencia séria e grave, embora muitas vezes
occulte sentimentos e caracteres intimos que o não são; e este ultimo
elemento, temperando o que o primeiro tem de excessivamente grosseiro e
palrador, dava á cidade uns traços ligeiramente sombrios que, sem a
tornarem triste, corrigiam o que porventura houvesse de demasiado
estrepitoso e garrido. Ora a França, com a dissolução do segundo
imperio, escreveu por toda a parte Liberdade, Igualdade, Fraternidade,
varreu os ultimos restos de dependencia hierarchica, nivelou todas as
profissões, o sabio, o politico e o mercador; e as instituições sociaes
e politicas, juntando-se ao caracter inquieto e vivo d'aquelle povo,
abriram de par em par as portas de uma grande feira franca--Paris.
Desde a madrugada até alta noite, compra-se e vende-se. Ao romper da
manhã, os pesados _percherons_ arrastam ao mercado toda a riqueza que os
campos enviam; depois, vem o politico em busca do poder, comprando por
todo o preço o voto popular, lisonjeando-lhe no parlamento e na imprensa
os caprichos e instinctos, cedendo sem pudor á traficancia e á
corrupção; depois, vem o sportman e o titular, os cavallos e os vestidos
caros, as carruagens, as rendas e os brilhantes, vem o livro escandaloso
e o livro desvairado, vem a feira das vaidades, como lhe chamaria o
romancista inglez; depois, os mercados do amor, a miseria que ri, a
miseria embriagada da propria miseria; e sempre o marulhar d'esta onda
constantemente inquieta que geme e apregôa, ameaça e implora.
Á concorrencia desenfreada não ha superioridade de especie alguma que
resista; os mais bellos caracteres de raça, a lucidez, a alegria, os
instinctos artisticos, a elegancia, a percepção viva e prompta da fórma
e da côr, aniquilam-se, pervertem-se. Vencer é o fim ultimo e unico, e
para lá chegar, a primeira coisa a pôr de parte é a qualidade
fundamental de todo o espirito são,--a sinceridade. Importa pouco ao
estadista o seu proprio pensamento sobre as coisas politicas, não
precisa tel-o, nem muitas vezes o tem; o essencial é saber o que pensam
aquelles por cujos hombros tem de trepar. Importa pouco ao artista e ao
homem de letras ouvir a sua consciencia sobre o que ella lhe diz da
belleza na obra d'arte; o essencial é saber o que pasma e arrebata
aquelles que hão de pagar-lhe em incenso e ouro.
A vida consome-se febril e ardentemente, quasi heroicamente, n'um
esforço ingente--chamar gente á sua barraca.
Se houvesse de consultar os meus sentimentos sobre a vida de Paris
cobriria estas folhas de lamentos; mas o critico escuta as vozes
estranhas sem dar ouvidos á sua voz intima, observa, descreve e
classifica os phenomenos e as ligações das coisas, esquecendo as suas
aspirações e desejos. Se porém me é permittida uma pequena desobediencia
a lei, confessarei quanto me repugna esta inanidade de vida moral, e o
desprendimento da natureza e de todas as forças intimas e divinas que
regem o homem e o mundo. Paris afigura-se-me uma fornalha de gelo, rubra
como a chamma e fria como a neve; consome e não dá calor, como se um dia
no pólo todas as neves se incendiassem n'uma labareda ingente e em torno
um frio agudo a prostrar na morte a humanidade.
Sempre a tyrannia do horario dos caminhos de ferro! Tinha ainda duas
palavras a dizer de Paris, de Berlim, e da viagem até aqui, mas só em
Moscow poderei fazel-o. Já me resignei a nunca trazer estas notas em
dia.
* * * * *
_Moscow, 13 de Setembro._
Ao vêr os arredores de Paris, coalhados de jardins e de pequeninas casas
tratadas com esmero, dir-se-hia que aquella gente conserva sempre vivo
um grande amor pelo silencio e pela paz da natureza. Do pequeno burguez
ao grande banqueiro, todos ambicionam a arvore e a flôr, ou sejam em
dois palmos de terra, comprados a peso de ouro, ou seja em vastos
parques, traçados com arte e sabedoria; e ao domingo, o operario, o
caixeiro, a legião innumera dos humildes vai a Saint Cloud, a Saint
Germain, a Enghien, ou a qualquer outro arrabalde, onde tenha um retalho
de relva e um farrapo de sombra para deitar-se um momento.
São porém levados pelo amor da terra? Não são. Todas as grandes cidades
têm ao lado estes ninhos de verdura onde nas horas de ocio se acoita a
população extenuada e anemica; são uma necessidade hygienica,
dependencias obrigadas, como os theatros, os museus e as escólas. Mas o
que ahi se procura não é a satisfação d'um sentimento ha muito perdido
no tumulto das ruas e na anciedade de enriquecer e gozar; procura-se
saude, recuperar forças, um tonico, um alimento substancial, especie de
ferro e de extracto de carne.
Transportam-se para o campo os habitos da cidade, não se vai para o
campo a fugir da cidade; e na arvore mysteriosa e sagrada não se adora
um deus que o cerebro exangue já não percebe nem sente, vê-se uma
pomada, um balsamo que dá frescura e vigor á pelle, abrazada por um ar
empestado e por uma actividade excessiva. A cidade é uma fornalha, o
campo um hospital.
Duas coisas admiro todavia n'uma cidade como Paris--a organisação e a
intensidade do movimento, e o poder instructivo.
Ha qualquer coisa de assombroso n'este rio immenso em que
simultaneamente se agitam e movem tantissimas correntes sem se
aniquilarem; toda a grandeza da antiguidade é mesquinhez ao seu lado. De
longe em longe, um desastre, uma pequenina mola que se partiu, um abalo
ligeiro, quasi imperceptivel. Que foi? Um incendio, um naufragio, uma
guerra, quinhentas, mil ou trezentas mil pessoas que desappareceram. Um
movimento de espanto: a grande corrente não pára, segue no seu leito
tenebroso e revolto, e nas nevoas espessas da sua vastidão sumiu-se
ephemera a hecatombe que por longos annos faria estremecer de horror a
velha Roma.
A vida patriarchal e simples póde gerar todos os sentimentos bons e
abrir ao espirito horisontes sufficientemente largos para lhe despertar
o desinteresse de descobrir a ordem e as leis das coisas; mas, por isso
mesmo que é simples, equilibrada e serena, nunca poderá suggerir-lhe
noções dos typos excentricos. Para attingir estes pontos extremos é
necessario levar o espirito a um estado de vibração nervosa que não é
outra coisa senão a loucura em differentes graus; e os casos d'essa
ordem, esporadicos nas civilisações passadas, são frequentes e quasi
normaes na vida febril contemporanea. É n'este sentido que reputo muito
alto o valor instructivo das cidades, que nos vicios, na miseria e nas
paixões mostram uma complexidade e largueza da alma humana que em outras
condições se não vêem, por isso que não existem. Por este lado, a cidade
moderna tornou-se um estudo essencial ao philosopho, ao poeta e a todos
os que por qualquer motivo tem de lidar com os phenomenos psychologicos;
as obras d'aquelles que porventura carecerem d'este elemento serão
necessariamente incompletas e imperfeitas.
De Paris fui a Berlim. Parti á noite, amanheceu-me nas proximidades de
Liège e logo alli encontrei duas coisas que não temos e que deveriamos
ter,--a lavoura feita por cavallos,--n'uma terra polvilhada de branco.
Nem lavramos com cavallos, nem usamos esses pós brancos que são adubos
mineraes.
A utilidade d'estes não padece duvida e, se os applicamos em tão
limitada escala, não é por que geralmente se ponha em duvida o seu
proveito; mas as condições legaes e economicas do fabrico acarretam
falsificações e preços que fazem recuar o nosso lavrador, e com razão.
Que o estado dê garantias de genuinidade e estabeleça um regimen que
abaixe os preços até os tornar accessiveis á nossa lavoura, e tenho por
seguro que os adubos mineraes terão entre nós tão larga e proveitosa
applicação como nos paizes estrangeiros. Fora d'essas condições é inutil
prégar melhoramentos agricolas; a lavoura, mesmo sem contabilidade,
arruina ou enriquece e, sendo uma industria e não um capricho, só no
ultimo caso poderá viver.
Sobre o segundo ponto, a introducção do cavallo como principal motor
agricola, divergem os lavradores, e são-lhe contrarios na sua grande
maioria, exceptuando o Alemtejo, em que o clima obriga ao serviço por
muares. Todo o norte porém classificará de utopia o meu pensamento.
Porque? Nenhuma razão economica bem fundamentada se allega; o unico
motivo é de natureza historica, a tradição e o habito. Reconheço-lhe a
grandeza, sei o que vale como factor da educação do operario: póde muito
em todo o mundo, vale muitissimo n'uma terra em que a educação agricola
é exclusivamente caseira. Mas se a aptidão e os conhecimentos do
operario nos incitam a proseguir na rotina, a concorrencia impõe-nos
tentativas de reforma. Todos os paizes estrangeiros praticamente
adoptaram esta fórma de divisão de trabalho agricola, o gado cavallar
como motor, o gado vaccum para a carne e para o leite. É um caso de
divisão de trabalho e nada mais; essencial, a meu vêr, porque para
supportarmos a concorrencia e voltarmos aos tempos aureos da exportação
de gado, é manifestamente necessaria a melhoria das raças; e uma das
suas condições é um bom regimen hygienico de que faz parte a
singularidade do destino do animal. Trabalho, engorda e leite serão
sempre mediocres emquanto forem individualmente simultaneos.
O terreno accidentado d'esta região de Liège, os prados nas encostas, as
mattas nas elevações e a estreiteza dos valles recordam-me o que vi nos
Pyrenéos; todavia é grande a differença. É possivel que o não seja
physicamente, quanto á natureza da terra e do clima, mas faltam lá os
symptomas de riqueza que existem aqui--cultura esmerada, pujança de
vegetação nos prados, abundancia de gados, frequencia e boa construcção
dos casaes, e finalmente jardins, _villas_ e pequenos palacios de gente
rica.
Pouco e pouco vai decahindo de intensidade a paizagem agricola, perdendo
ao mesmo tempo em belleza; atravessam-se regiões sem caracter em que a
granja aceiada e o campo verdejante ladeiam a cabana na terra descuidada
e inculta; só adiante, internando-nos na Allemanha, encontramos um novo
typo. Estamos perto do Hanover, se me não illudo; o campo é vasto,
ligeiramente ondulado, quasi plano, mediocre, sem fartura nem
esterilidade; as casas de lavoura espaçosas e sombrias com os seus altos
telhados de ardosia destacando frouxamente no céo nublado; com os prados
alterna a floresta de lamigueiro escura, fechada, a folhagem tingida de
negro, os ramos erectos. A vastidão, sem luz, sem brilho, pesada,
asphyxiante! Preoccupação scientifica ou evidencia de relações,
prendemos o caracter d'este povo ao aspecto da sua terra. Resta saber se
ha sabedoria capaz de fazer partilha entre a natureza e a historia.
Sempre attento ás coisas agricolas, para que me levam velhos e
enraizados affectos, ao vêr como aqui se alternam o prado e o arvoredo,
lembrei-me do mediocre resultado que temos tirado das poucas tentativas
de creação de prados e do nosso despovoamento florestal. Ha entre a
floresta e o prado uma relação intima e manifesta; e não será talvez
ousadia affirmar que este ultimo só poderá viver inteiramente são sob o
bafejo da arvore, tépido e humido. As condições climatericas favoraveis
aos pastos só poderão alcançar-se pelo repovoamento florestal,
principalmente nas regiões do interior, ao abrigo das brisas e orvalhos
maritimos.
Foi em caminho de Berlim que tive o prazer de me encontrar com o snr.
George Saunders correspondente do _Morning Post_ n'aquella cidade e um
dos principaes collaboradores da _Pall Mall Gazette_. É um rapaz muito
intelligente, instruido, possuindo em alto grau (creio ser o seu
caracter intellectual dominante) esse espirito de critica serena e
desapaixonada, que chamarei sympathico, e que faz vêr os homens e as
coisas na sua verdadeira luz. As observações sobre Berlim e a Allemanha,
que tão generosamente me communicou, pareceram-me singularmente justas
e, por isso que d'ellas colhi proveito, manda a probidade e a gratidão
que faça menção d'este nome.
* * * * *
_Moscow, 14 de Setembro._*/
Em Paris deixamos uma feira; todas as cidades mais ou menos o são,
porque isso é da sua essencia, dentro de termos entre os quaes oscillam.
O ponto da escala em que se encontram determina o seu caracter. Ora,
suppondo que esses termos ultimos são o estado-maior da politica e a
feira, quem vier de Paris a Berlim cahiu de um no outro extremo.
Á vozeria da rua, á confusão dos pregões e ao labutar dos mercadores
succede o aprumo dos continuos e um caminhar pausado e surdo sobre
tapetes, cortado de breves notas estridentes, ao sacudir das esporas.
Berlim é a antecamara d'um imperador; muita farda e um grande silencio,
sempre armada e sempre calada, perpetuamente preoccupada da força e da
auctoridade. Sobre a cidade pesa um braço de ferro, a multidão abdicou
nas mãos de uma vontade; só ella a move.
A graça e a elegancia, a vivacidade e o riso foram banidos; o povo vai
taciturno e lento.
Ás vezes pára, observa, contempla; luziu-lhe no coração um momento de
aurora e sorriu. Olhava o retrato do imperador diante de tres crianças,
seus filhos, em continencia militar; e tirou uma vibração de jubilo,
ingenuo, intimo, d'onde nós tirariamos uma gargalhada a tombar o maior
dos cesares. O seu primeiro museu é o de artilheria; levam-se alli as
crianças, collegios inteiros, a vêr os canhões francezes rasgados como
um farrapo pela metralha do Krupp. Um criado de hospedaria que diante da
qualquer se curva até ao chão, perante um capitão ou um coronel dobra-se
attonito, fulminado.
A piedade e a doçura, revelada no affecto da mulher, para que? A mulher
é um animal, a sua lei a escravidão. Se não fosse... poderia
supprimir-se, não representa nada.
A Allemanha, que Berlim nos mostra, afigura-se-me um elephante, a
intelligencia e a força em um corpo informe. Toda a sua alma
crystallisou n'esta aspiração--ser forte, invencivel.
Conta-se que Cellini, para fundir não sei qual das suas estatuas,
lançára no fogo toda a baixella; a Allemanha de hoje fundiu n'um só
sentimento todas as joias do coração do seu povo. Adora o exercito e o
imperador, a expressão concreta da sua alma, entregou-se-lhes manietada
e n'uma obediencia absoluta.
Conseguiu ser forte. As doutrinas dos philosophos de mãos dadas com o
genio militar alcançaram emfim dar-lhe uma rara força politica.
Póde viver-se assim? É esta a ultima palavra da civilisação ou
simplesmente uma gloria ephemera, sahida da coincidencia das aptidões
d'um povo com as necessidades do momento historico? A revolução
franceza, iniciando-nos no conhecimento dos direitos individuaes,
simultaneamente deu aos estados constituições que conduzem á fraqueza e
impotencia politicas; a Allemanha mostrou-nos novas vias conduzindo ao
pólo opposto. Assim como só nós pudemos vêr os povos educados nas
instituições derivadas da revolução, só os nossos filhos poderão saber o
que é um paiz educado na admiração da força. Todas as prophecias serão
prematuras, embora vagamente presintamos que a civilisação é mais alguma
coisa do que a força.
Dizia-me o snr. Saunders, fallando de musica, que as pequenas côrtes dos
ducados e monarchias allemães eram favoraveis ás letras e ás artes.
Alargando o seu pensamento direi tambem que a Allemanha actual, com todo
o seu saber e profundeza, sahiu d'essas côrtes minusculas; os que vierem
depois de nós saberão o que deu a Allemanha imperial.
E visto que o leitor já deve estar habituado a vêr as minhas sympathias
de permeio com a exposição dos factos, impenitente, recahindo na velha
falta, acrescentarei que a Allemanha, que vi em Berlim, produziu
inesperada antipathia no meu espirito, educado n'outras idéas, n'outros
costumes sobretudo. Dizem-me que Berlim não é a Allemanha e que n'esse
vasto imperio encontrarei costumes e idéas absolutamente oppostos; se
assim não fôr garanto aos allemães a antipathia dos povos peninsulares.
Não existiriam talvez na Europa caracteres mais accentuadamente
antagonicos.
* * * * *
_S. Petersburgo, 18 de Setembro._
Em caminho de Berlim para Varsovia, a alfandega russa, com uma
severidade desusada, obriga-me a parar seis horas em Alexandrowo. A
visita das bagagens é minuciosa, os passaportes são apresentados e
registados; o comboio vinha com atrazo, partiu quando muito bem quiz, e
os viajantes que não tinham ainda as suas coisas em ordem alli ficaram
até novo comboio. Eram quarenta ou cincoenta, pelo menos; e este facto,
que em qualquer parte da Europa levantaria uma tremenda algazarra, não
provocou um protesto. Aqui comecei a vêr a paciencia e a indifferença
russas.
Para mim não foi desagradavel, antes me deu prazer, pois tive occasião
de passear nos campos d'essa desventurada Polonia, que desde as margens
do Vistula vinha observando.
São grandes lavouras arenosas e planas, n'esta época cobertas de
beterrabas e de pastos, cortadas de mattas de pinheiro de Riga, terrenos
baixos, soltos como as dunas. A gente do campo anda geralmente descalça,
e os cavallos desferrados, o que o commum dos viajantes attribue á
miseria, mas que a meu vêr provém unicamente da natureza da terra; tal
qual acontece no littoral norte do nosso paiz. Repete-se ahi o mesmo
facto, sem que por isso as povoações sejam mais ou menos ricas do que as
do interior com habitos differentes.
Uma arvore dá caracter a esta paizagem, o salgueiro, que com invariavel
insistencia circumda os casaes cobertos de colmo, soltos e isolados, com
largos intervallos, pelo meio das terras. N'estas planicies em que não
se avista uma montanha, sem uma unica nódoa intensa e viva na verdura
desmaiada a prender-se ao céo nublado, o salgueiro, sem destruir a
harmonia, dá á paizagem o brilho que comporta com a sua folhagem alva,
replandecente e leve como a nuvem. A paizagem do occidente é tecida de
ouro candente; esta é de prata polida e fria.
Ao contrario do salgueiro, o pinhal, máte, sem brilho algum,
assemelha-se na côr ás estatuas de bronze expostas ao tempo, o que
reunido á brevidade das folhas e dos ramos, nivelando a superficie, o
torna absolutamente differente do nosso pinhal, carregado na côr e
cavado de manchas largas e profundas; resultado da ramagem longa e
distante. Um é unido e plano, um lago coberto de cinza, o outro ondeado
como as encostas do Vesuvio, feitas da tortura gigante da sua lava.
Já acclimado n'uma inteira passividade e resignação, segui de
Alexandrowo a Varsovia com todos os atrazos e delongas proprios dos
caminhos de ferro russos.
Era um domingo e cêrca da meia noite quando cheguei. Por isso não pasmei
do extraordinario movimento das ruas, julgando que seria o terminar de
um dia de festa e de repouso. Mas logo mudei de pensar na manhã
seguinte: o que eu vira, era habitual e ordinario.
Que contraste com a enfadonha e sombria Berlim! Mulheres bonitas,
elegantes, trajando bem, animadas, vivas, um fuzilar de carruagens em
correrias doidas, e as ruas atulhadas de gente, fallando, gesticulando,
movendo-se emfim;--tem tudo isto Varsovia. E tem ainda mais: desordem,
immundicie, igrejas a cada passo com grande abundancia de devotos,
ajoelhados á porta ou benzendo-se na passagem. A um carro coberto de
lama atrella-se um cavallo estropiado, com uns arreios inqualificaveis,
mas onde falta coiro e graxa sobejam adornos e ferragens; e por aqui
imagino o resto, imagino o que vai por casa d'estas mulheres que na rua
vejo tão airosas. Para nós, do sul da Europa, a vida intima das cidades
como Varsovia ou Napoles, comprehende-se immediatamente.
São os instinctos artisticos, o amor do luxo, das festas e da elegancia,
alliados á desordem e á devassidão dos povos excessivamente nervosos;
são a ociosidade e a imprevidencia revelados na devoção que entrega ás
mãos de Deus o que não sabe conquistar pelo seu esforço. Folia emquanto
ha dinheiro e saude, e valha-nos Deus, Nosso Senhor nos acuda para os
tempos de miseria... Vivem n'um sensualismo irreprimido, no desgoverno
de todos os impulsos e de todos os instinctos; o luxo para elles não é,
como por vezes succede na Inglaterra, o florir proporcionado de uma
planta que tem no sólo boas e solidas raizes e nos ramos uma seiva
abundante; não é a coroação da riqueza, é uma flôr precoce n'uma planta
exhausta, consumindo todo o alimento e todo o vigor que devia nutrir o
tronco, os ramos e a folhagem. Essas plantas florescem e como ellas
morrem tambem as sociedades que não souberam equilibrar a distribuição
da sua seiva.
Grande lição a da Polonia para quem souber e quizer aproveital-a!
* * * * *
_A bordo do Finland, 19 de Setembro._
O vapor vai sereno e o tempo calmo; aproveitemos este serão passado
sobre o Baltico e conversemos.
Deixando Varsovia, em poucas horas temos a paizagem do norte da Russia,
que durante longas horas e longos dias nos ha de acompanhar com uma
inquebrantavel monotonia. O que particularmente a distingue é a
frequencia do vidoeiro, absorvendo e dominando completamente as
restantes arvores, o abeto, a tilia, o carvalho, o pinheiro e outras
poucas especies que apparecem raras e por isso não têm valor apreciavel.
A ramagem pendente e o desbotado das folhas do vidoeiro, ao mesmo tempo
que dão á floresta um aspecto compacto, roubam-lhe toda a rutilancia das
ramagens horisontaes e os angulos e nitidez de linhas proprios das
arvores resistentes e firmes como o carvalho, por exemplo. A floresta é
ligada e unida, as curvas suaves, nem sombras profundas nem resplendor;
entre o claro e escuro, como entre os differentes tons, as transições
são imperceptiveis.
Disse que a paizagem da Russia se distinguia pela predominancia do
vidoeiro e não disse talvez a inteira verdade. Superior e porventura
influindo muito intimamente na feição esthetica do arvoredo, está a
configuração do terreno, um immenso Alemtejo, em planicies infindas, que
assim se podem chamar umas depressões tão pequenas que não prejudicam a
linha do horisonte.
Sobre essa vastidão assentam aldeias, agglomerações de casebres baixos e
abafados, construidos de madeira e cobertos de colmo, sem divisões
interiores; em cada um ha, em regra, um pequeno ponto branco, a chaminé
do forno sobre que no inverno dorme toda a familia. Ao lado, n'um
pequeno pateo, intransitavel de esterco e de lama, estão as córtes dos
gados, não mais vastas do que a habitação do dono. Tambem ás vezes falta
o forno e então o lavrador e os gados vivem promiscuamente sob o mesmo
tecto.
Mas, sob esta apparencia miseravel, existe frequentes vezes o aceio e a
ordem e não raro tambem a abundancia. As necessidades são poucas, toda a
industria é caseira; se o anno foi abundante de trigo e de batatas, com
isso e com o leite das vaccas tem a familia boa escudela.
Todo o paiz é assim até Moscow; aldeias, mattas e lavouras em terras
sempre ouduladas mas quasi planas. Posso até dizer que em toda a região
da Russia que atravessei não conheci outra paizagem.
Por taes caminhos chegei a Moscow, cidade tão gabada, sobre que o
oriente tem dispendido tanto ouro como o occidente rhetorica
enthusiastica.
Olhei-a de longe com ancidade, passeei-a, subi ao monte a que Napoleão
subiu para a vêr antes de a conquistar, mirei-a muito emfim. Pois de
quanto por lá pensei e observei conclui que para nós, latinos,
enamorados da harmonia, da simplicidade, da proporção e da graça, não
tem belleza. Interessa e enthusiasma pelas evocações historicas que
d'ella brotam aos cardumes e prende pela estranheza e pelo pittoresco
d'um mundo novo; mas que seja um prazer esthetico o que ella nós dá,
desconfio.
É uma cidade sem plano, sem principio nem fim, sem um centro de
convergencia, caprichosa e emmaranhada, como a imaginação oriental.
Chamo a tudo aquillo byzantino, n'este sentido, que, á força de
distinguir, confunde e enreda a mais não poder resolver. Cada rua
deseatranha-se em mil bêcos e ruas tão grandes ou maiores que a via-mãe;
de cada florão de architectura rebentam novos florões que se emendam,
sobrepõem, sobem, descem, voltam ao ponto de partida para recomeçarem a
mesma teia; taes quaes as discussões da nossa camara dos deputados. São
as imaginações insaciaveis de subtilezas no pensamento, nas artes e em
tudo, porque o espirito humano é um para cada povo e para cada época;
são a negação da lucidez e da precisão.
Com esta concepção da fórma esthetica coincide o brilho anteposto á côr.
Indifferente ás delicadezas de colorido, o moscovita adora o ouro e as
pedrarias: o bronze, a prata e o aço são pouco, é preciso doural-os. As
igrejas estão recamadas de ouro, nos bazares abundam os bronzes
trabalhados no paiz, mas sempre dourados; o thesouro do palacio imperial
não terá maravilhas de Cellini, mas tem ouro e pedras preciosas que
bastam a adornar todas as côrtes da Europa.
Pelos atalhos d'essa montanha de riquezas anda uma população mesclada,
cossacos e chinezes, circassianos e finios; porque Moscow, uma terra de
commercio, um bazar, um genuino e simples mercado, tem de notavel sobre
os seus congeneres do occidente e do centro da Europa, ser
intercontinental e trazer ás suas barracas uma população que dos mais
remotos cantos da Europa vai quasi a tocar na America. Quasi, agora;
quem sabe se um dia a tocará de facto, e que medonha convulsão reserva
ao mundo esse combate.
Dizem ter mil e seiscentas igrejas, e creio ter devoção para edificar
outras tantas. Não ha casa sem uma imagem do Christo; nem os
restaurantes com frequencia muito suspeita lhe escapam. As offrendas não
têm numero, tudo se faz por milagre. Direi todavia que esta é a maior
força d'aquelle povo.
Entre Paris, o epicurismo, Berlim, a força, e Moscow, a religião, eu
preferirei a ultima, porque n'este reconhecimento de uma vontade
superior, de quem tudo dimana e provém, está o germen e o fundamento da
paciencia, da resignação e da obediencia, forças invenciveis que os
factos externos deixam intactas e não quebram.
É difficil dizer onde termina a fraqueza e onde começa a doçura e a
piedade, que dimanam d'essa essencia, mas é certo que a maior de todas
as forças é a força de soffrer. Não ha obstaculo mortal para a
actividade de quem a possuir, e por isso o russo, apathico, soffredor,
todo confiado á vontade de Deus, tem sobre todos nós, racionalistas do
occidente, a maior das vantagens.
* * * * *
_Stockholmo, 22 de Setembro._
Vindo á Russia, não pude roubar-me o prazer de visitar o conde Tolstoï,
o famoso romancista que hoje todo o mundo conhece. Como tantos outros
estrangeiros, dirigi-me pois á cidade de Tula e d'ahi a Yasuya Polyand,
propriedade e habitação de Tolstoï.
Em torno d'este nome fez-se uma verdadeira lenda que representa o conde
como um louco, fazendo sapatos e lavrando as terras. E na verdade tem
não sei que de singular e de poetico a sua vida.