III

Segunda epoca litteraria; idade de ouro da poesia e da lingua desde os

principios do XVI até os do XVII sec.

Com a morte d’el-rei D. Manuel declinou visivelmente a fortuna

portugueza: certo é que as artes progrediram, que a lingua se

aperfeiçoou; porêm esse movimento era continuado ainda do impulso

anterior e já não promettia longa dura. Assim succedeu. D. João III

colheu os fructos do que D. Manuel havia semeado; mas de lavras suas,

nem elle, nem seus successores viram colheita.

Uma cousa todavia que muita influencia teve sobre a lingua e

litteratura portugueza e que a instituições de D. João III se

deve, foi o cultivo das linguas classicas, que na reformação da

universidade de Coimbra augmentou muito. Os modelos gregos e romanos

foram então versados de todas as mãos, estudados, traduzidos,

imitados. Aperfeiçoou-se a lingua, enriqueceu-se, adquiriu aquella

solemnidade classica que a distingue de todas as outras vivas, seus

periodos se arredondaram ao modo latino, suas vozes tomaram muito da

euphonia grega; d’um e d’outro d’esses idiomas lhe vieram as muitas,

e principalmente da grega, os muitos hyperbatos; com o que vai rica,

livre e magestosa por todas as provincias da litteratura, que tem

decorrido, não havendo ahi genero de composição, para o qual, ou por

doce de mais como o Toscano, não seja propria,--ou por mui aspera e

guindada como o Castelhano, se não adapte,--por curta como o Francez,

não chegue,--por inflexivel e rispida como o Alemão e Inglez, se não

amolde.

Claro é que a historia, a oratoria, todas as artes do discurso deviam

de florescer com tal augmento. Com ellas todas medrou e cresceu a

poesia na delicadeza, na harmonia, no gôsto; porêm desmereceu muito,

demasiado na originalidade, no caracter proprio, que perdeu quasi todo,

em a _nacionalidade_, que por mui pouco se lhe ia. Todos os deuses

gregos tomaram posse do maravilhoso poetico, todas as imagens, todas as

ideias; todas as allusões do tempo de Augusto occuparam as mais partes

da poesia; e mui pouco ficou para o que era nacional, para o que já

tinhamos, para o que podiamos adquirir ainda, para o que naturalmente

devia nascer de nossos usos, de nossas recordações, de nossa

archeologia, do aspecto de nosso paiz, de nossas crenças populares, e

emfim de nossa religião.

Sá de Miranda, verdadeiro pae da nossa poesia, um dos maiores homens

de seu seculo, foi o poeta da razão e da virtude, philosophou com as

musas, e poetisou com a philosophia. Seu muito saber, sua experiencia,

seu tracto affavel, e até a nobreza do seu nascimento, lhe deram

indisputada superioridade a todos os escriptores d’aquelle tempo, dos

quaes era ouvido, consultado e imitado. Sá de Miranda exerceu sobre

todos os poetas d’aquella epocha a mesma especie de imperio que veio

a ter Boileau em França, e mais modernamente Francisco Manuel entre

nós. Introduziu na poesia os metros italianos, e os modos, versos

e combinações de rhymas de Dante e Petrarca: e desd’ahi quasi se

abandonaram inteiramente (excepto nas voltas e glosas) os nossos

antigos versos de redondilha, e absolutamente os de arte maior e menor,

que ainda assim mui proprios são para certos assumptos, segundo com

feliz exemplo no-lo mostraram antigos e modernos poetas. Nem o mesmo

Sá de Miranda igualou nunca em composições hendecasyllabas a pureza, a

correcção, a naturalidade e sublime simplicidade de suas redondilhas

nas epistolas, que hoje são seu maior e quasi unico titulo de glória.

São de admirar suas comedias, e são notavel monumento para a historia

das artes pela feliz imitação dos antigos, e pelo que excedem quanto

até então se tinha escripto. Porem o theatro portuguez creado pela

musa negligente e travêssa de Gil-Vicente e João Prestes, carecia

de reforma, mas não podia supportar uma revolução. As comedias de

Sá de Miranda sem caracter nacional, mui classicas de mais não eram

para reformá-lo: o mesmo direi, e o mesmo succedeu ás de Ferreira, a

algumas poucas mais que depois vieram. O effeito d’estas composições,

aliás preciosas, foi funesto: os litteratos enjoaram-se (e com razão)

do theatro nacional, e não se deram a corrigi-lo e melhora-lo: o

publico preferia (e com razão tambem) o com que fôra creado, o que o

interessava, o que o divertia, e antes queria rir com as grosserias

dos autos populares, que bocejar e adormecer-se com as finuras d’arte

e correcções d’essas comedias, que tudo tinham, menos interesse, onde

todo o spirito havia, menos o nacional.

Se houveram Sá de Miranda e Ferreira escolhido assumptos portuguezes,

se houveram pintado os costumes nacionaes, e presentado ao publico, em

vez de quadros italianos, um espelho em que se elle visse a si e aos

seus usos, e se risse de seus proprios defeitos; fico em que houveram

reformado o theatro em vez de lhe empecer: e acaso gosariamos ainda

hoje em uma scena rica e abastada dos resultados d’esse impulso, quando

não temos senão que chorar, e vivemos, sobre o theatro, das migalhas

que mendigamos a estrangeiros pelo triste meio de traducções, que (as

dramaticas sôbre tudo) nunca podem ser boas.

Sá de Miranda escreveu além d’isto algumas eclogas bastante frias,

varios sonetos geralmente de pouca monta. Um d’elles á morte de

Leandro e Hero é excellente, mas castelhano, e por esse achaque o não

incluí na escolha.[37]

Não posso deixar de querer mal a tam illustre portuguez pelo muito que

escreveu n’essa lingua estranha; com que não só privou a natural do

fructo de suas tarefas, mas fez maior damno ainda com o exemplo que

abriu; exemplo funesto que nos cerceou a litteratura, que nos defraudou

d’uma Diana de Monte-maior, de tantas boas coisas mais, e ao cabo ia

perdendo a lingua.

Mas eis ahi Antonio Ferreira para combater esse mal em sua origem:

ei-lo ahi esse portuguez verdadeiro, ardente amador da lingua, clamando

a todos, pugnando contra todos os que não prezavam e aditavam o

patrio idioma com as producções do ingenho e das artes. O profundo

conhecimento dos classicos gregos e latinos, o finissimo gosto que em

seu estudo tinha adquirido, a felicidade com que sempre os imitou, a

pureza da phrase, as riquezas com que adornou a lingua deram aos versos

de Ferreira grande popularidade entre os litteratos e cortezãos (que,

ao aveço de hoje, as lettras viviam então quasi só na côrte) e fixaram

determinadamente o genero classico entre nós.

Cegou-se todavia o nosso bom Ferreira na imitação dos antigos;

copiou-os, não os imitou: e d’ahi, enriquecendo a lingua, empobreceu

a litteratura, porque a avezou a esse hábito de copista; cancro que

roe o espirito creador, alma e vida da poesia nacional. Tão cega foi

esta imitação, que seus mesmos versos, aos quaes hoje ninguem defende

da nota de asperos e duros (e muitos direi--errados) os fazia assim de

proposito por querer usar das ellipses gregas e latinas, a que repugna

a indole de nossa lingua, so toleraveis em certas vozes que na prosa

mesma se pronunciam e escrevem no final com _m_ ou sem elle. Este

desagradavel defeito dos versos de Ferreira é principalmente sensivel

nas dicções que teem final no que chamámos (mal ou bem) diphtongos

nasaes de _ão_, e muito mais quando n’elle é o accento predominante da

palavra.

Os sonetos são frios, desengraçados; nas eclogas ha bellezas muitas

e mui grandes, mas espalhadas: nenhuma d’estas composições tomada per

si póde merecer o nome de bella. Porem das odes, ha d’ellas que são

puramente horacianas, e se lhes fallece a elevação (que não era esse

o genio de Ferreira) sobeja-lhe a graça, a elegancia e a adornada

philosophia, que não agradam menos, nem de menos valor e merito são

que os extasis pindaricos, ou os requebros anacreonticos. O que é sem

duvida é que nas linguas vivas Ferreira foi o primeiro imitador feliz

de Horacio, e o primeiro dos modernos que pulsou a lyra classica. Das

epistolas, ha algumas que podem pleitear em concisão e fino dizer

com as boas do lyrico romano. Quanto á pureza da moral, ao nobre

patriotismo, áquelle generoso sentimento da honrada liberdade de

nossos avós, áquelle enthusiasmo da virtude; esse respira, mostra-se e

resplandece em todas as suas obras.

Mas a verdadeira glória de Ferreira é a Castro, producção admiravel

per si mesma, pelo tempo em que a escreveu, por todos os lados por que

se considere. Não é ainda liquido entre os philologos se era possivel

o ter visto Ferreira a Sophonisba de Trissino, que mui poucos annos

antes da Castro appareceu: mas é sem a minima questão reconhecida a

superioridade da tragedia portugueza á italiana: pasma como sem vêr um

theatro, sem mais exemplares que os gregos e latinos, podesse Ferreira

tratar tão delicadamente um tal assumpto em um genero desconhecido da

antiguidade. É notavel a primeira scena da Castro, a scena d’el-rei

e dos conselheiros no acto II., a do acto III. em que o côro traz a

Castro as novas de sua cruel sentença, onde aquella pergunta de Ignez:

«É morto o meu senhor, o meu infante?» rasgo de sublime, porém d’um

sublime todo sensibilidade, ao qual nem o _qu’il mourût_ de Corneille

póde comparar-se; e finalmente os coros, que sem paixão são superiores

a todos os exemplares da antiguidade, e não teem que invejar aos tão

gabados da Athalia. Não dou a Castro por uma tragedia perfeita: ainda

em relação ao seu tempo e aos conhecimentos da scena d’então tem ella

defeitos: não haver uma scena em que se encontrem Pedro e Ignez, não

haver algum esfôrço do infante para lhe valer, deixam a peça muito

nua de acção, e lhe entibiam o interesse. A versificação (que todavia

é de preferir aos versos sesquipedaes e himpados com que hoje está

pervertida a scena portugueza) pécca geralmente por dura; mas essa

mesma é por vezes bella; e para bons entendedores muito ha hi que

estudar; e oxalá que os nossos dramaticos lessem e relessem bem a

Castro, e apprendessem alli, pelo menos, naturalidade e verdade de

expressão, que tanto lhes fallecem.

Não estava ainda n’este auge a poesia portugueza quando um homem pouco

conhecido dos lettrados, mas já célebre per suas aventuras e valor,

foi para tão longe da ingratissima patria despicar-se de seu desamor

com a mais nobre vingança; a de levantar-lhe um padrão, com que não

entram as idades, e que conservará ainda o nome portuguez quando já

elle houver desapparecido da terra. Muita erudição (pois sabia quanto

se soube em seu tempo), ingenho dos que véem ao mundo de seculos a

seculos se reúniram em Camões. Esse homem levantou a cabeça la das

extremidades d’Asia, e viu tudo pequeno á roda de si, todos os poetas

pigmeus, todos acanhados com as linguas modernas ainda mal perfeitas,

escravos da imitação classica, incertos e entalados todos entre o cego

respeito da antiguidade e as novas precisões que as novas ideias, que

o novo estado do mundo requeria. Teve animo para conceber e força para

executar um rasgado e necessario atrevimento de se abrir caminho novo,

de crear emfim a poesia moderna, dar não só a Portugal, mas á Europa

toda um grande exemplo, e constituir-se o Homero das linguas vivas.

Não me dá espaço o acanho de meus limites para dizer de Camões o que

era indispensavel; antes a celebridade de seu nome me deixará parar

aqui para dar logar a tractar de menos conhecidos nomes. Só direi

que a influencia de Camões na nossa poesia, e em toda a litteratura

portugueza foi tal que desde então té hoje ainda se não deixou de

sentir, mesmo nas epochas em que mais desvairados teem andado nossos

poetas com as empolas do _gongorismo_, ou mais lunaticos com os

esfusiotes do _elmanismo_. Quasi que não houve genero de poesia que não

tractasse: tem sonetos admiraveis; eclogas (sôbre tudo as primeiras)

excellentes; mas principalmente de todas as poesias menores são o mais

sublime e perfeito as canções, genero a que deu uma nobreza e elevação

desconhecida mesmo em Petrarca: sirva de próva e exemplo aquella que

começa--«Junto d’um sêcco duro e esteril monte.» Dos Lusiadas, de suas

bellezas e defeitos, das controversias sobre umas e outros, está cheio

o mundo litterario.

Contemporaneo de Camões e ousado tambem como elle a encetar a carreira

epica foi Jeronimo Cortereal. O Cêrco de Diu, que é notavel monumento

litterario, e que de certo se teve algum exemplar foi a _Italia_ do

Trissino, é uma fria narração, em que ha bellas ideias áquem além,

muita riqueza de linguagem, pouca de poesia, e pelo geral maus versos.

E comtudo é talvez Cortereal o primeiro (em data) poeta descriptivo;

e creou elle acaso esse genero de que tanto blasonam hoje inglezes,

allemães, e até francezes, e que todavia nós tinhamos seculos antes

d’elles. Ja no Cêrco de Diu ha muitas boas descripções: mas no

naufragio de Sepulveda ha d’ellas sublimes.

Entre muito devaneio de imaginação e de mau gôsto, entre aquelles

insipidos requebros de Pan e de Protheu apparece todavia a morte de D.

Leonor que é um trecho da mais bella poesia, da mais fina sensibilidade

que se tem composto.

De todos esses poetas que então floreceram é na minha opinião o menos

poeta esse Pero d’Andrade Caminha, a quem da amisade e celebridade de

Ferreira e Bernardes vem talvez o maior renome. Ainda assim tem algumas

odes boas, simplicidade com elegancia por partes de suas composições:

epigrammas, são alguns excellentes.

Sôbreviveu a todos estes e á patria, que não tardou em perecer, o

suave cantor do Lima que levado per D. Sebastião para testimunhar

seus altos feitos, de que devia fazer um poema, perdeu-se com seu

rei, e jazeu captivo em Africa. Pondo de parte a questão das eclogas

(na qual de certo não andou de boa fé Faria e Sousa) a qual, ainda

que propria do logar, é mui longa para os meus limites; Bernardes foi

excellente poeta; e com quanto sua linguagem é pobre, e em geral pouco

variadas suas composições; a suavidade de seu stylo, certa melancholia

d’expressão que lh’o requebra e embrandece darão sempre a Bernardes um

logar mui distincto na poesia portugueza.

Mas ja a nação se perdêra nos areaes de Africa, já a glória portugueza

estava offuscada; com ella foram (como sempre vão) as boas artes. Ainda

brilham a espaços faíscas do grande luzeiro que se apagára; mas já não

eram senão faíscas.

Ainda Luis Pereira deplora na _Elegiada_ a ruina da patria, mas

esse canto funebre é quasi o canto de cysne da poesia nacional, que

parece querer fenecer com elle, e já n’elle moribunda se mostra. Ha

excellentes oitavas derramadas per esse poema, algumas descripções

felizes, grandissima riqueza de linguagem; mas pouco mais.

Ja Fernão Alves do Oriente diffuso, intrincado nos primeiros

labyrinthos dos _conceitos_ italianos mostra a visivel decadencia da

poesia: já as musas que tão louçans, e ingenuamente bellas tinham

folgado pelas varzeas do Tejo e do Mondego com Ferreira e Camões,

apparecem affeitadas com arrebiques e côres falsas, como essas damas

para quem se desbota a flor da idade e lhe querem ainda supprir o

viço com emprestados ornamentos, gentilezas compradas, e postiças.

E todavia ha na Lusitania transformada pedaços lyricos excellentes,

e alguns bucolicos soffriveis. Assim elle nos dissesse mais do seu

Oriente do que nos disse: assim houvesse enriquecido a litteratura com

mais imagens de tantas que sua Asia lhe offerecia, e com que houvera

additado a mãe patria. Onde o fez, n’aquella ecloga em que conta a

historia de Saladino, é elle verdadeiramente poeta; e se d’ahi tirarem

alguns trocadilhos que tinha apprendido em Italia, excellente e digno

de imitar-se é o resto.

O retrato de Venus e estudos de historia litterária · 第 118 / 133 题